A Vida Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos

III. O início e o fim do dia

Daí a extrema importância, para o trabalhador tanto quanto para o homem religioso, do início e do fim do dia. Não se pode preparar, vigiar, concluir com uma alma atenta as horas de repouso, se se entregar ao acaso àquelas que as circundam.

A manhã é sagrada; pela manhã, a alma refrescada olha para a vida como se estivesse numa curva de onde ela lhe aparece por inteiro. O destino aí está; nossa tarefa é retomada; é o momento certo para avaliá-la uma vez mais e confirmar, por um ato expresso, nossa tripla vocação de homens, de cristãos e de intelectuais.

“Filipe, lembra-te que tu és um homem”: estas palavras do escravo macedônio a seu senhor nos são ditas em pleno dia quando ele evoca, causando forte impressão a nossos olhos, as luzes da alma; “um homem” digo eu, não de um modo geral, mas qualificado para um caso preciso, um homem que aí está, frente a Deus, como um fato singular, sem igual e, por pequeno que seja, o único apto a ocupar seu próprio lugar.

Esse homem não vai então, ao sair das horas de inconsciência, renovado e por assim dizer renascido, considerar o conjunto de sua vida num só golpe de vista penetrante, assinalar o ponto a que chegou, traçar a jornada que se inicia e se pôr a caminho a passo firme, e com o espírito lúcido, para mais uma etapa?

Nisso resultará o esforço conjunto dos primeiros momentos do despertar, da oração matutina, da meditação, e sobretudo da missa, se houver a possibilidade de assistir a ela ou a felicidade de rezá-la.

O primeiro momento após o despertar deve ser um Sursum corda! Elevemos nossos corações! Enunciar uma fórmula cristã nessa ocasião é uma prática excelente; enunciá-la em voz alta é melhor; pois, e os psicólogos o sabem perfeitamente, nossa voz nos sugestiona e desempenha para conosco o papel de um outro eu. Eis aí um “escravo” que não podemos menosprezar; ele tem autoridade por nossa ordem, ele é nós, e sua voz ressoa com o estranho poder de domínio de quem é a um só tempo o mesmo e um outro.

Ensina-se as crianças a “darem seu coração a Deus”. O intelectual, que nesse aspecto é uma criança, deve adicionalmente dar seu coração à verdade, lembrar-se de que é seu servidor, repudiar seus inimigos dentro de si, amar, para que eles a ela retornem, seus inimigos de fora, e acatar os esforços que a verdade, para aquele dia que desponta, lhe pede.

Segue-se então a oração. O padre Gratry aconselha o intelectual a dizer Prime, a Prima, que teria por equivalente, à noite, Complies, as Completas: nada há, de fato, de mais belo, nada é mais eficaz, mais estimulante. A maioria das orações litúrgicas são obras-primas; têm a vastidão e a quietude do nascer e do pôr de um astro. Experimentem: não poderão dizer outra coisa a respeito. Toda a verdadeira vida aí está, toda a natureza, e o trabalho será preparado como se fosse uma viagem pela abertura de um janelão inundado de sol.

Qualquer que seja a escolha, a prece do intelectual deve enfatizar de passagem o que se refere especificamente a sua situação, tirar daí proveito tanto quanto possível e elaborar com isso o grande propósito que o trabalho cristão realiza. Ato de fé nas elevadas verdades que sustentam a ciência; ato de esperança no auxílio divino para a luz como para a virtude; ato de amor para com Aquele que é infinitamente amável e para com aqueles que nosso estudo quer d’Ele aproximar; Pater, o Pai Nosso, para pedir, com o pão, o alimento da inteligência; Ave, a Ave-Maria, dirigida à Mulher revestida pelo sol, vitoriosa tanto contra o erro como contra o mal. Nessas fórmulas e em outras mais, o intelectual se reencontra, mentaliza sua tarefa e, sem separar sua especialidade da vida cristã em seu todo, pode beneficiar-se do que está previsto para ele e providencialmente depositado no tesouro comum.

A meditação é tão essencial para o pensador que não se faz necessário retomar sua defesa. Pregamos já o espírito de oração: onde ele se alimentaria melhor que nessas contemplações matinais, onde o espírito descontraído, ainda não reabsorvido pelos afazeres do dia, levado, erguido sobre a asa da prece, eleva-se facilmente para as fontes do vero que o estudo capta penosamente?

Se a santa missa puder ser assistida, se ela for rezada, as amplidões nela contidas não os arrebatarão? Então não verão, do alto do Calvário novamente erguido, do Cenáculo onde se renova a Ceia da despedida, a humanidade vir postar-se a seu redor, essa humanidade com a qual não devem perder contato, essa vida que as palavras do Salvador iluminam, essa indigência que sua riqueza socorre e que devem junto com ele socorrer, guiar, salvar por sua vez ao salvarem-se a si mesmos?

A missa os coloca verdadeiramente em estado de eternidade, em espírito de Igreja universal, e no Ite missa est – Ide, a missa acabou – estão prontos a ver uma missão, seu zelo sendo enviado para junto do despojamento da terra ignorante e desvairada.

A manhã impregnada de todo esse orvalho, refrescada e fortalecida por essas brisas espirituais, não pode deixar de ser fecunda; atirem-se a ela com fé; prossigam nela com coragem; o dia gastará as reservas de luz da aurora; o anoitecer virá antes do esgotamento das luminosidades, como o ano se encerra deixando nos celeiros a semeadura do ano seguinte.

O início da noite! Como em geral pouco se sabe santificá-lo, apaziguá-lo, prepará-lo para o sono efetivamente reparador! Como é desperdiçado e poluído, como se consegue desnorteá-lo!

O que dele fazem os homens do prazer, não vamos nem insistir nisso: o caso deles é totalmente diverso do nosso. Mas vejam essas pessoas sérias que chamamos de trabalhadores: homens de negócios, industriais, oficiais de justiça, atacadistas – falo deles globalmente. Quando é chegada a noite, ei-los que “se soltam” e não querem mais saber de nada, liberando seu espírito para a dissipação que teoricamente distrai, jantando, fumando, jogando, conversando na maior gritaria, circulando pelos teatros e casas noturnas, bocejando no cinema e deitando-se “relaxados”.

Com efeito, relaxado, é assim que se fica, mas da mesma forma que o violino que estivesse com todas as cordas totalmente frouxas. Que trabalho, no dia seguinte, para afinar tudo de novo!

Conheço industriais que se descontraem lendo Pascal, Montaigne, Ronsard, Racine. Enfiados numa confortável poltrona, com uma boa iluminação projetada por trás, num ambiente aquecido, estando a família bem quieta ou produzindo sons muito brandamente a sua volta, eles se põem a viver, depois de se terem fatigado. Esse momento é só deles; esse momento é o momento do homem, depois que o especialista se bateu, com a cabeça e o coração, contra dezenas de dificuldades.

Um intelectual, se não precisa dessa compensação, precisa muito mais ainda dessa calma. Seu serão deve ser um recolhimento, sua ceia uma restauração equilibrada, seu jogo a fácil ordenação do trabalho do dia e a preparação daquele do dia seguinte. São-lhe necessárias suas Complies – que tomo desta feita em sentido figurado – que completam e que inauguram, pois todo complemento de um trabalho contínuo, como nós o requeremos, é um começo tanto quanto um término. Fecha-se unicamente para reabrir. O fim do dia é o órgão de ligação entre os fragmentos de cada jornada cuja somatória constitui uma vida. Pela manhã, será preciso viver de imediato: deve-se predispor a isso desde a véspera, nas horas que se seguem ao anoitecer, e também preparar a noite que a seu modo vem soldar, sem nossa participação, umas nas outras, as lides conscientes.

O que quer que pense a ilusão cheia de paixão e de interesse daqueles que no homem se propõem a cultivar o lado boêmio, a vida de dissipação não é um repouso, é um esgotamento. O repouso não pode consistir na dispersão das forças. O repouso é uma retrogradação para longe do esforço, em sentido a suas fontes; é, pois, uma restauração, não um gasto tresloucado.

Bem sei que gastar significa às vezes adquirir: se está então falando de esporte, recreação, e saberemos certamente exigir, e não tolerar tão somente, essa descontração ativa. Mas não é essa a função normal do começo da noite. Nesse período noturno inicial, há um duplo repouso: um espiritual, o outro físico: o repouso em Deus e o repouso na mãe natureza. Ora, o primeiro é a prece que o propicia; quanto ao outro, o descanso do corpo, já que ele antecede o descanso mais completo da noite, cabe-lhe conduzir a este último.

Deve-se pôr em prática, nesse período anterior ao sono, os ritmos lentos cujo modelo é a respiração noturna. Deixar que em nós se exerçam os determinismos fáceis, que os hábitos tomem o lugar das iniciativas, que a rotina do dia a dia substitua o esforço da atividade intensa, em uma palavra, deixar de querer, de certa forma, para que a renúncia da noite se instaure: eis a sabedoria. E a sabedoria se reconhecerá na estrutura dessa vida atenuada, dessa semiatividade que se aquieta. A família terá um papel a cumprir nesse processo; uma conversa tranquila selará a união das almas; se trocarão as impressões do dia, os projetos arquitetados; se confirmarão modos de ver, objetivos; se encontrará reconforto para o declínio do dia; reinará a harmonia e se terá celebrado uma digna vigília para a festa que cada novo dia deve ser para o cristão.

A pessoa adormecida fica com frequência, sem o saber, na postura que ela teve outrora no ventre materno. É um símbolo. O repouso retorna às origens: origens da vida, origens da força, origens da inspiração; ele se revitaliza; o recolher-se em si mesmo geral do cair da noite tem essa significação. Ora, revitalizar-se não pode ser agitar-se; é como refugiar-se, fornecer à seiva humana, por sua concentração pacífica, um revigoramento; é restaurar em nós a vida orgânica e a vida sagrada por uma feliz descontração, pela oração, o silêncio e o sono.