Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 1 de 362

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Caderno H

Um bolso de pequenas surpresas

Braulio Tavares

 

Todo livro de poeta é um livro de poemas? Não exatamente. Este livro de Mario Quintana parece mais com uma festa. A poesia é uma convidada, no meio de muitos outros. Só é um livro de poesia porque é um livro de poeta, um livro que corre paralelo, e muito próximo, ao tipo de poesia que Quintana praticou a vida inteira.

A partir de 1946, Mario Quintana começou a publicar na Revista da Província de São Pedro e depois no Correio do Povo de Porto Alegre uma se ção intitulada “Do Caderno H”, cujo conteúdo gerou o presente livro. Aforismos, brincadeiras, pequenos jogos de palavras, pequenos diálogos imaginários, versinhos, fragmentos: esta era a substância do “Caderno H”. Seu perfil tinha tudo a ver com o temperamento de Quintana, um temperamento observador, juvenil, sempre pronto a detectar um paradoxo ou uma inconsistência, sempre pronto a interromper alguma tarefa prática, registrar um brevíssimo flash de lirismo do cotidiano e depois voltar ao que estava fazendo. Um dos seus livros de poemas se intitula Baú de espantos; este aqui poderia intitular-se Bolsinho de guardar pequenas surpresas.

Nascido em 1906, Quintana foi da geração de garotos criados em plena era dos almanaques, aquelas publicações de fim de ano cheias de previsões astrológicas e astronômicas, conselhos sobre agricultura e colheitas, tábuas das marés, crônicas, anedotas, versinhos, adivinhações, charadas, aforismos. Para essa geração de leitores, o fragmento é a mais divertida das formas literárias simples. E não eram só os almanaques. Os jornais e revistas sempre tiveram uso para o que se chama de “fillers”, ou enchimentos: textos curtos e adaptáveis que podem preencher qualquer espaço da página, evitando que este fique em branco. Num jornal impresso, acontece com frequência que, depois de diagramados as matérias e os anúncios, sobrem pequenos espaços vazios, com uma ou duas colunas de largura, alguns centímetros de altura. A imprensa, como a Natureza, tem horror ao vácuo. Os espaços precisam ser ocupados, ainda que seja por vinhetas gráficas mostrando florões ou anjinhos. Também é possível colocar ali quadrinhas, adivinhas, versos, frases de pensadores ilustres... E os jornalistas previdentes mantêm um estoque desse material numa gaveta qualquer (hoje seria: numa pasta virtual), juntando tudo o que pode preencher o vazio e dar um pequeno prazer adicional ao leitor.

Esta teoria explica em parte a natureza do Caderno H, um espa ço onde esses textos coadjuvantes se tornavam estrelas principais. E esse modelo de textos curtos em prosa, misturados ou não com versos, foi usado por Quintana em outros livros, como Sapato florido (1948), A vaca e o hipogrifo (1977), Da preguiça como método de trabalho (1987), Porta giratória (1988), e até mesmo em seus livros infantis. Essas obras poderiam até, sem grande prejuízo, ser editadas como livros de crônicas, e isso seria tão preciso quanto chamá-los de livros de poesia.

Pertence ao Caderno H um dos textos mais famosos de Quintana, o “Poeminho do contra”: “Todos esses que aí estão / Atravancando o meu caminho, / Eles passarão... / Eu passarinho!” A leveza, o bom humor e a sutileza verbal do poeta estão inteiros nesta quadrinha livre. O poeta se referia a esses fragmentos, com carinho, como “os meus agás”. Se vivesse e estivesse em atividade hoje, Quintana talvez fosse um tuiteiro atento e bem-humorado, divertindo-se em desbastar suas boutades at é encaixá-las nos 140 caracteres. Talvez também postasse frases no Facebook, e ao mesmo tempo alfinetasse seus amigos como já o fez neste livro, em “E por falar em citações”: “Havia na minha terra um orador popular que terminava assim os seus discursos: ‘Pois, como disse Rui Barbosa...’ – e lá vinha para cima da gente com uma frase que ele tirava do próprio bestunto. / É claro que todo o mundo aplaudia.” Lições de contenção e enxugamento estão presentes aqui em “As trinta linhas”, “Poesia & interjeição”, “Método de trabalho”, “Da relativa realização”, “Da difícil facilidade” e muitos outros. “Carta”, um dos textos mais longos deste volume, é como que a versão pessoal e sintética de Quintana para as Cartas a um jovem poeta de Rilke. Não se pense que o poeta, gaúcho defendia a austeridade verbal. Ele reafirma (em “Um pouco de geometria”) que “a curva é o caminho mais agradável entre dois pontos”. A simplicidade de Quintana não é a simplicidade da mera secura, mas a da percepção poética reduzida à sua faísca original.

Fazedor de frases, Quintana desconfia das frases alheias: “Desconfio que essas frases históricas foram inventadas pelos historiadores, pois como poderiam os grandes homens ter tido, todos eles, aquele mesmo estilo de dramalhão?” É uma desconfiança que rima com a desconfiança de Elias Canetti em relação aos aforismos: “Os grandes autores de aforismos soam como se conhecessem muito bem uns aos outros.”A poesia de Quintana vai desde os sonetos pouco convencionais de A rua dos cataventos (1940) até o verso livre e refinado de Baú de espantos (1986) ou Velório sem defunto (1990). Os seus livrinhos de frases (e o diminutivo aqui vai no mesmo tom acolhedor e amigo que o poeta tanto empregava) enriquecem a leitura de sua poesia, tanto quanto o alcance da poesia de João Cabral de Melo Neto é ampliado pela leitura dos seus ensaios em prosa, e a poesia de Jorge Luis Borges ganha, depois de lidos os seus contos, uma dimensão que não parecia ter.

Quintana se comparou certa vez ao Aprendiz de Feiticeiro da lenda antiga (e do filme de Walt Disney), só que, no seu caso, em vez de uma incontrolável multiplicação de vassouras, aconteceu uma multiplicação de poemas. Uma vez desencadeado o milagre poético, o mundo ficou cheio de grilos e de estrelas.