Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 176 de 362

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Caderno H

Talvez

Repara como o poeta humaniza as coisas: dá hesitações às folhas, anseios ao vento. Talvez seja assim que Deus dá alma aos homens.

Coisas numeradas de um a trinta e cinco

I

Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa é do vento.

II

Ah, essas esculturas de gaze do vento, sempre errantes entre o céu e a terra, como os sonhos do homem.

III

A Vit ória de Samotrácia: vento petrificado.

IV

A Gioconda é uma chata.

V

H á poetas cheios de detritos, que vão arrastando tudo na corrente. Às vezes, quando muito, uma cachorra morta. Às vezes o belo cadáver de Ofélia.

VI

Hamlet, meu condiscípulo de dúvidas.

VII

H á poetas que fazem música de câmera: Verlaine, Laforgue, para apenas citar gente minha... Victor Hugo era outra coisa. Victor Hugo era o General da Banda!

VIII

Mas para que interpretarem um poema? Um poema j á é uma interpretação.

IX

Os psiquiatras são incuráveis?

X

Vagas notas esparsas... Leitores há que gostam disso. E até desconfio que, para alguns desses leitores de que tanto gosto, os livros deveriam ser compostos apenas de entrelinhas.

XI

Os velhos, quanto mais velhos, mais vírgulas usam.

XII

O ruim dos filmes de Far West é que os tiroteios acordam a gente no melhor do sono.

XIII

O ruim das negras é que elas nunca parecem despidas.

XIV

Se cortassem as mesuras dos filmes japoneses, não sobraria um único de longa metragem.

XV

No mundo não há nada mais importante do que os políticos das cidades pequenas.

XVI

Nós não perdemos os mortos, os mortos é que nos perdem.

XVII

A rede das estrelas é uma incômoda teia de aranha sobre a face da Eternidade.

XVIII

A voz do vento... Ningu ém sabe o que o vento quer dizer... Quem me faz uma letra para a voz do vento?

XIX

Um dia de chuva é bom para a gente comprar livros de poemas... Quem perguntar por que, de nada lhe adianta comprar um livro de poemas.

XX

As viagens ilustram, como dizem? As viagens aproveitam alguma coisa? Não sei, mas desconfio que depois da sua visita aos Estados Unidos a Gioconda deve ter voltado com um sorriso muito mais enigmá tico.

XXI

O que há de terrível nos robôs não é como eles se parecem conosco, mas como nós nos parecemos com eles.

XXII

Buscas a perfeição? Não sejas vulgar. A autenticidade é muito mais difícil.

XXIII

Quanto à arte engajada, eu só te pergunto: — Que significação política tem o crepúsculo?

XXIV

A noite picotada de grilos.

XXV

Maltratar os poetas é indício de mau caráter.

XXVI

Coragem não é documento: os gângsteres também são heróis.

XXVII

A vida nutre-se da morte, e não a morte da vida, como julgam alguns pessimistas.

XXVIII

E, por falar em pessimismo, naquela ainda indecisa mas já histórica manhã de 2 de abril de 1964, ouvi, no largo dos Medeiros, um velho dizer a outro: “A coisa não pode estar boa! Anda muita gente de cara alegre...”

XXIX

Já repararam? Antes, em todas as vitrinas de bric, havia sempre um busto de Napoleão. Agora, sumiram-se! As vitrinas de bric são o último estágio da glória.

XXX

Esses que apreciam num escritor a opul ência de linguagem devem ser os mesmos que se babam de puro ê xtase diante das senhoras bem fornidas.

XXXI

... ser xifópago deve ser tão incômodo como ser casado...

XXXII

Me lembro de um colega de ginásio que tirou da sua própria cachola e escrevia em seus cadernos e livros, com letra caprichada, o seguinte: “Estudo, és tudo!” Teve o fim que merecia.

XXXIII

Se nã o fosse Van Gogh, o que seria do amarelo?

XXXIV

A Vênus de Milo tem cabeça e cérebro de ovelha.

XXXV

Por que ainda ninguém se lembrou de pintar uma mulher nua de óculos?