Caderno H
Maria Fumaça
As lentas, poeirentas, deliciosas viagens nos trens antigos. As famílias (viajavam famílias inteiras) levavam galinhas com farofa em cestas de vime, que ofereciam, pois não, aos viajantes solitários.
E os viajantes solitários (e os meninos) ainda desciam nas estaçõezinhas pobres... para os pastéis, os sonhos, as laranjas...
E ver as moças da localidade, que iam passear nas gares para ver os viajantes, uns e outros de olhos compridos — eles num sonho repentino de ficar, elas num sonho passageiro de partir.
Um apito, a fumarada, resolvia tudo.
Mas hoje nem há o que resolver. E é quase proibido sonhar. O mal dos aviões é que não se pode descer a toda hora para comprar laranjas.
Nesses aviões, vamos todos imóveis e empacotados como encomendas. Às vezes encomendas para a Eternidade...
Cruzes, poeta! Deixa-te de ideias funéreas e pensa nas aeromoças, arejadas e amáveis como anjos.
E “anjos”, aplicado a elas, não é exagero nenhum. Pois não nos atendem em pleno céu?
Porém, como já nos trazem tudo de bandeja, eis que essa mesma comodidade de creche em que nos sentimos tira-nos o saudável incômodo das iniciativas e dos improvisos.
Entre a monotonia irrepar ável das nuvens, nada vemos da viagem. Isto é, não viajamos: chegamos.
Pobres turistas de aeroportos, damos a vista ao mundo sem nada ver do mundo.