Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 355 de 362

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Caderno H

O outro mundo

Por favor, deixa o Outro Mundo em paz! O mistério está aqui.

Frase ouvida por descuido

O Onofre está tão bem de vida que passa a pão e laranja!

Bem que eu gostaria

Bem que eu gostaria de escrever contos. Mas isso de enredo me parece uma coisa para comadres... o que não deixa de ser uma contradição da minha parte, porque ainda penso que o conto deve ser para contar alguma coisa.

— Ora — dirás — e o conto de atmosfera?

— Sim, sim... Mas por que não ficarmos então na poesia?

Para mim, o que há de mais perfeito no gênero narrativo é obviamente o conto policial no estilo enxuto e sem imagens das imortais histórias de Sherlock Holmes. A imagem atrapalha, distrai, desvia... Me lembro de quando estava uma vez lendo uma história de Remy de Gourmont e lá pelas tantas falava ele de certa moça que tinha uma voz tão suave e tão do outro mundo que, se ela dizia “está chovendo”, parecia que estava chovendo anjos... Não continuei, não pude, nada mais poderia encantar-me tanto. Viva, pois, Somerset ou Merimée, que têm a coragem do despojamento e da pobreza voluntária.

Eu não. Remexendo nuns papéis velhos, encontrei uma história que começava assim:

“Era um dia de verão, um desses dias em que dá na gente uma vontade infinita de se pendurar num cabide e ali deixar-se ficar para sempre, como um velho casaco de ombros caídos, de braços pendidos, sem ninguém por dentro!”

Tudo isso porque não tive coragem de dizer simplesmente, para início de conversa:

“Era um insuportável dia de verão.”

Outra coisa que me impediu em tempo o cultivo do gênero é que meus personagens nã o sabiam revelar indiretamente seus pensamentos e sensações, como acontece na vida. Um deles certa vez saiu-me com esta:

“O toque do despertador é um acidente de tráfego do sono. Por isso passamos o dia inteiro confusos como acidentados... até que chega a hora do aperitivo.” Diferença

Claro que uma conversa toda assim, durante páginas, deixaria o leitor em estado de choque.

Em compensação, encontrei também um feliz início, que o leitor bem poderá aproveitar um dia, se quiser escrever uma história maravilhosa:

“Era num desses países tão venturosos que todo o mundo só o conhecia por intermédio das Palavras Cruzadas...”

Mas por que será que as histórias maravilhosas sempre se passam num país distante?