Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 132 de 362

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Caderno H

Coisas perdidas na cama

Ora, direis, como se podem perder coisas num universo tã o estreito? E eu vos direi, no entanto, que nenhum universo pode ser estreito. Perguntai aos microscópios. É que me lembrei agora de Dona Vituca, no seu leito de morte, onde ela viveu tão longo tempo, e de onde fazia, às vezes, um escarcéu medonho com a criadinha atarantada:

— Balbina, onde é que está meu Santo Antônio?!!

Balbina afinal descobria o santinho caído entre o colchão e a guarda da cama.

— Não, este não. É aquele Santo Antônio rendadinho...

O qual era enfim descoberto no chão, de encontro à parede, com o rendilhado retangular sujo ou — supremo horror — rasgado!

Inútil guardar os santinhos (não se podia dizer mais apropriadamente “figurinhas” nem a ninguém ocorria fazê-lo), inútil guardá-los na gaveta da mesa de cabeceira: os santinhos, martirizados com a cambulhada de carretéis, latas de pastilhas, ovos de costura, acabavam sempre sumindo pelos fundos.

Certa vez arranjei, para eles, uma caixa vazia de charutos. Tinha um belo perfume de havana. Mas parece que esse não era um odor de santidade. Jamais me esquecerei do olhar que me lanç ou Dona Vituca. Seus lábios moveram-se para falar, mas imobilizaram-se de súbito. Comigo não valia a pena, comigo não adiantava, com certeza eu já era um caso perdido.

Nunca o saberei, pois acredito que n ós dois estaremos (ela já está) em faixas ou canais diferentes das tevês do outro mundo. Isto me é tão penoso que resolvo mudar de assunto, citando de passagem a ú nica coisa que não se perdia no leito de Dona Vituca: o grande álbum de cartões-postais, cada qual mais lindo como eu os achava então, cada qual mais horrível como os achei depois. E na verdade não sei como os acharia agora, mas creio que novamente lindíssimos.