Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 281 de 362

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Caderno H

Das viagens

Conhecer o mundo não adianta nada: as viagens apenas complicam a ignorância.

Do sonho

Sonhar é acordar-se para dentro.

Do caderno de um peripatético

Se eu fosse acreditar mesmo em tudo o que penso, ficaria louco.

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O melhor é pensar apenas imagens: uma sala sem ninguém, por exemplo, com gaiolas de passarinhos vazias...

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Melhor sair para a rua... Ou entrar para a rua? Mas se a rua n ão fosse uma espécie sui generis de lar, por que se diz então “a porta da rua” e não “a porta da casa”?

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Andando, ouve-se uma frase aqui, outra ali adiante. A questã o é ter paciência, uma paciê ncia meio atenta e meio distraída, como se fosse numa pescaria. E como a rua que vou descendo se chama casualmente Rua da Praia, aqui te dou de presente este lambari que acabo de fisgar de passagem:

Mamãe, motociclo corre mais do que bicicleta?

Não ouvi resposta nenhuma da bela dama que levava o menininho pela mão: as mã es nem sempre adivinham tudo.

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Adoro esses manequins de todas as cores. Aliás, são um plágio: muito antes de os fabricarem, eu já havia sonhado a maravilha de ver mulheres verdes, cor de laranja, azuis (como deveriam ser chatas as de tonalidade azul-celeste!), mulheres cor de vinho, de uva, de estrela... Toda essa variedade, meu pobre leitor, havia de acabar com a monotonia de teres de escolher apenas entre uma mulher branca, uma amarela e a Rainha de Sabá.

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E a bugra? J á estou ouvindo as reclamações do escrivão Pero Vaz e do José de Alencar. Paciência! A bugrinha vai aqui em separado porque não cabia no ritmo da frase anterior.

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O ritmo é mais persuasivo do que qualquer ideia. Se assim não fosse, para que serviriam os poetas?