Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 17 de 362

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Caderno H

O poeta e os exegetas

H á anos venho procurando esta raridade bibliográfica: uma edição da Divina Comédia sem comentários. Raridade? Creio que nem existe maravilha assim.

Os sonetos e o Doutor Quejando

Lili, ao revelar-me um dia umas composi ções suas — onde os lugares-comuns esvoaçavam com toda a novidade da inocência — muito se espantou do meu espanto pelo fato de que os títulos nada tinham a ver com o texto. Explicou-me que um dos sonetos se chamava João porque era o nome de um seu amiguinho de escola e o mesmo se dava com o soneto chamado Sofia.

Ora, ora, me quedei pensando, não estaria ela com a razão?

Já teve a poesia o seu período temático, como a pintura. Daí, hoje, a desnecessidade de títulos, nas telas como nos poemas. O que, cronologicamente, não é bem assim, tanto que Camões e Petrarca se limitavam a numerar os seus sonetos, nem é de crer que assim fizessem simplesmente por falta de imaginação. Deixemos, pois, de generalizações, que levam sempre a becos sem saída.

E, em troca, este “soneto” que improvisei naqueles tempos para Lili, quando a sua mania, além de chamar tudo de soneto, era meter, em tudo, a palavra “pois”:

O Doutor Quejando, pois,

vinha andando

andando

quando encontrou o carneirinho Mé em companhia da vaquinha Bu.

— Olé!

Como vais tu? — disseram-lhe os dois. O Doutor Quejando continuou andando,

mudo.

Mas na cerca havia um urubu.

Mudo.

E o Doutor Quejando e o urubu trocaram um horrível

[olhar de simpatia.

E o pior de tudo

é que se acabou a história.

Se acabou a história

e a vida continua.