Caderno H
O poeta e os exegetas
H á anos venho procurando esta raridade bibliográfica: uma edição da Divina Comédia sem comentários. Raridade? Creio que nem existe maravilha assim.
Os sonetos e o Doutor Quejando
Lili, ao revelar-me um dia umas composi ções suas — onde os lugares-comuns esvoaçavam com toda a novidade da inocência — muito se espantou do meu espanto pelo fato de que os títulos nada tinham a ver com o texto. Explicou-me que um dos sonetos se chamava João porque era o nome de um seu amiguinho de escola e o mesmo se dava com o soneto chamado Sofia.
Ora, ora, me quedei pensando, não estaria ela com a razão?
Já teve a poesia o seu período temático, como a pintura. Daí, hoje, a desnecessidade de títulos, nas telas como nos poemas. O que, cronologicamente, não é bem assim, tanto que Camões e Petrarca se limitavam a numerar os seus sonetos, nem é de crer que assim fizessem simplesmente por falta de imaginação. Deixemos, pois, de generalizações, que levam sempre a becos sem saída.
E, em troca, este “soneto” que improvisei naqueles tempos para Lili, quando a sua mania, além de chamar tudo de soneto, era meter, em tudo, a palavra “pois”:
O Doutor Quejando, pois,
vinha andando
andando
quando encontrou o carneirinho Mé em companhia da vaquinha Bu.
— Olé!
Como vais tu? — disseram-lhe os dois. O Doutor Quejando continuou andando,
mudo.
Mas na cerca havia um urubu.
Mudo.
E o Doutor Quejando e o urubu trocaram um horrível
[olhar de simpatia.
E o pior de tudo
é que se acabou a história.
Se acabou a história
e a vida continua.