Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 182 de 362

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Caderno H

Máquina de escrever

Maria, nunca mais me escrevas a máquina. Isso dá a impressão de falta de sinceridade. Porque, quanto a mim, não sei pensar a máquina. Só a lápis ou esferográfica.

Com a esferográfica, então, e ainda mais quando em papel gessado, o pensamento vai deslizando como esqui sobre a neve, como um trenzinho — tuc, tuc, tuc — atravessando, preto sobre branco, as solidões geladas do norte do Canadá .

Com a máquina é o contrário: os dois fura-bolos com que datilografo são uns magros galináceos bicando, rápidos, vorazes, qualquer sementinha, qualquer grãozinho de ideia que apareça. Nada vinga, nada brota, e a página que ficou não é propriamente em branco, porque se me afigura um chão de terreiro deserto, poeirento e cheio de cocôs.

E depois, como pode ser í ntima uma carta escrita a máquina? Traz ideia de distância, de pequena mas intransponível distância... como um beijo dado de má scara.