Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 196 de 362

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Caderno H

Trecho de entrevista

— Mas por que falar em poesia concretista? Diga-se “concretismo”, apenas, e estará ressalvada a poesia.

Vé spera de tempestade

Contra o céu de chumbo, aquelas árvores desesperadamente verdes!

Conto azul

Agarrado à ponta da estrela, acabou me dando uma dormência, mas afinal consegui sacudir o pé e desprendeu-se um sapato. Foi cair na cabeça do vigário. Ainda bem que ele não se achava no exercício de suas funções. Estava praticando caridade. E a pobre vítima a quem socorria foi presa por agressão e roubo.

E, como nem o acusado acreditasse na proced ência etérea do sapato e o próprio vigário, que voltara a si, era infenso a testemunhar tais implausibilidades — que bem poderiam ser obra do demônio —, não houve outra saída, a bem da ordem natural do mundo, senão aquele homem de boa-fé confessar que aquilo pertencia à pessoa que ele assaltara na penúltima vez. E, como ninguém encontrasse a tal, concluiu-se por homicídio. Agora, só faltava o cadáver.

Meu Deus! esses humanos... Não podiam eles viver sem razões? Ri tanto que me despenquei da ponta da estrela. Com o que, ficou tudo resolvido. Eu era precisamente o cadáver que não tinha um sapato!

E quando voltar a mim (são muito longos os desmaios dos anjos) todos os personagens e assistentes dessa histó ria já terão desaparecido, e talvez a linda e pequena cidade onde ela aconteceu.