Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 274 de 362

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Caderno H

Desde muito

Desde muito que eu desejava escrever um soneto de mãos no bolso. O soneto é que iria de mãos no bolso, por aí... Sim, seria um soneto vagabundo (não me digam que em ambos os sentidos) e que ao partir não imaginasse aonde iria chegar, como tão bem o sabem os sonetos clássicos, os quais se encaminham silogisticamente das premissas para a conclusão. Que nem esses menininhos de óculos que vão direitinho pra escola, sem olhar para os lados.

Mas por que logo um soneto e nã o um outro poema? Por isso mesmo. Um poema qualquer não tem prazo determinado e às vezes o poeta não atina como há de fazê-lo parar. Como? Quando? Onde? Um soneto, porém, tem sempre um fim: é obrigado a se deter, por força, no décimo quarto verso — esse derradeiro verso que os parnasianos fechavam, luzentemente, com uma pesada chave de ouro.

At é desconfio que deve provir daí a palavra “chavão”.

O meu soneto, no entanto, não levaria chave de espécie nenhuma.

Apenas se acomodaria, ao fim, como quem se houvesse enrodilhado, à noite, contra um portal.

E, nesse portal, haveria uma rótula. E por essa rótula as musas descalças e de cabelos soltos viriam espiá-lo. E suspirariam.

E o suspirado, enquanto isto, a dormir descuidoso, pois um verdadeiro soneto se basta a si mesmo.

Nada mais do que isso pretendiam os sonetos andejos que asilei um dia na Rua dos Cataventos.

E como, da sua parte, o autor pretendia que fossem todos eles uns vagabundos de prol, eis que, nas sucessivas edições, dois deles que não me contentavam (o primeiro por demasiado sentimental, o segundo por demasiado mórbido) foram substituí dos por outros da mesma época e que eu não sabia por onde andavam quando fiz a recolha para a sua estreia em pú blico.

No mais, tudo como dantes.

Exceto que, para a segunda edi ção, troquei, no penúltimo verso do último soneto, a palavra “chorando” pela palavra “cantando”. Ficou muito mais triste.

E agora, se um ou outro saiu com armadura cl ássica, espero que isso não lhe tenha prejudicado a naturalidade do andar.

O que acabo de escrever não é uma explicação: é apenas um esclarecimento para o Amador de Poemas. Porque um poeta que se explica parece que está desculpando-se... Você s não acham?