Caderno H
Notas da cidade
Ah, os ângulos contundentes das atuais construções urbanas...
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O mais triste da arquitetura moderna é a resistência do seu material.
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Havia, n ão me lembro agora se no País das Maravilhas, da Alice, ou se na Cidade de Oz, uma velha que morava num sapato... E nós que moramos em caixas de sapatos!
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Esses tetos baixos me abafam... De modo que só resido em casas antigas. Acontece é que as casas velhas têm proprietários velhos, muito velhos aliás e por isso mesmo muito morredores. E seus herdeiros resolvem sempre vendê-las a construtores de edifícios. Resultado: há anos que venho me mudando: sou uma pobre vítima do surto do progresso e do clamor público.
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E como eu fui dizendo logo no início de um poema dedicado a meu amigo o arquiteto e escultor Fernando
Corona:
“Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas...”
Não riam, por favor, que o poema é triste.
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Em todo caso, como vocês já devem ter reparado, é nessas épocas de mudança arquitetônica que se dá a maior instabilidade social e individual.
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Havia antes, por exemplo, os cafés sentados fumados conversados, onde a gente arrasava o mundo, mas renovava o sonho, o ideário, a vida.
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Agora, s ó existem esses cafés de barranco por onde se passa às pressas e indignamente como numa fila de desaguadouro pú blico. Por isso é que a geração de hoje parece tão no ar. Não tem tempo de sentar. Para bem as sentar as ideias é preciso primeiro sentar-se.
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E quantas vezes nós, ao passar por uma velha rua quotidiana, sentimos uma vaga inquietação, uma falta de não sei quê. Vai-se ver, é um simples lanço de muro que demoliram e que, tijolo a tijolo, fazia parte da nossa construção interior, da nossa estabilidade, em suma.
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E quando p õem abaixo, então, a velha casa em que nascemos?!