Caderno H
O sobrevivente
— Meu Deus — disse uma vez o meu velho e querido amigo, ao ler os convites de enterro no jornal —, eu não conheço mais nem os defuntos!
Vamos avoar?
Andávamos por um caminho ao longo de um capinzal, que o vento da manhã ondulava a perder de vista. Íamos a favor do vento que nos levava para a frente, sempre e sempre para a frente.
— Vamos avoar naquela água? — propôs Lili.
— Como?! Repete isso.
Não repetiu. Essas coisas não se repetem. A verdade é que fiquei atônito e agradecido. Era que, naquele tempo, Lili tinha cinco anos e, em matéria de cultura poé tica, apenas conhecia, ao que eu soubesse, certo hino que cantavam no Jardim da Infâ ncia e onde apareciam, creio que em estribilho, as harmoniosas mas inesperadas sílabas do nome do Dr. Celeste Gobato.
Ora, apenas com essa mostra da poesia antiga e desconhecendo completamente a moderna, Lili acabava de demonstrar, com a insuspeita inocência de seu exemplo, o quanto a nova poética é por si natural.
Como uma pequenina Mademoiselle Jourdam de saia florida e franjinha esvoaç ante, estava fazendo poesia sem querer. E poesia moderna, dessa que gente grande teimava em nã o aceitar, devido às limitações da lógica adulta.
Havia ali uma interpenetra ção de imagens — não sucessivas, não ligadas por “assim como” — e sem menção prévia do objeto que as fizera brotar. Puro Mallarmé, mas espontâneo, sem as suas custosas elaborações.
Um poeta lógico (!) começaria assim:
“Ondula o verde canavial ao vento”
(“capinzal” ele não diria, não, por mal agradecidos escrúpulos cavalares.)
“Ondula o verde canavial ao vento.
Tal como, ao vento, ondula, verde, o mar.”
E assim por diante. Tudo bem claro, ritmado, lógico.
Mas onde a magia daquele teu poeminho de um só verso, Lili? Vamos baixar?