Caderno H
Boas maneiras
Os anjos não dão de ombros, não; quando querem mostrar indiferença, os anjos dão de asas.
O cisne afogado
Aquele cisne que havia em cima de todos os pianos quando havia um piano em todas as casas burguesas, onde, nos serões da Belle Époque, sempre um menino e uma menina atrozmente tocávamos uma valsa a quatro mãos aquele cisne, aquela valsa e aquele par tocante, um dia eu lhes fiz o necrológio num poema que terminava assim:
“É com as palmas das visitas,
Nem se ouvia o rumor das águas infinitas,
Que vinham subindo, subindo...”
Como tantos de nós, sou um sobrenadante daqueles tempos, embora não seja uma Belle Époque — nem tampouco pop. O fato é que passei dos cafés de mesa para os cafés de poleiro, fomos criados num aviário e soltos num potreiro. Para quando o equilíbrio, a calma, o terreno sólido?
Mas já se vai meio século que estamos em pleno maremoto.
E, até que as águas resserenem, continuaremos a bracejar neste entrechoque de extremos — nós, os desequilibrados filhos do Dr. Freud com a Rainha Vitória.