Caderno H
Me lembro
É assim que se diz: “me lembro”, quando uma lembrança vem vindo de muito longe; “lembro-me” é quando chega de repente. Me lembro que, ao vir matricular-me no ginásio em Porto Alegre, estava-se terminando de construir o Grande Hotel, que um gato de fogo comeu. Um senhor amigo da família e dado às letras levou-me, por uma daquelas tardes de sábado para as quais se abriam, como para o cé u, as portas do internato, a ver as obras do Grande Hotel. Fomos até o cimo do último andar, de onde me aproximei a olhar fascinado a rua e os míseros andantes, lá embaixo. “Cuidado!” — disse-me o cicerone, segurando-me pelo cotovelo e, num tom mais baixo, misterioso: “Cuidado! a atração do abismo...”
Pois aquela revelação amiga da atração do abismo... ah, deu em soneto. Foi publicado na revista do ginásio e terminava falando em certos olhos “que têm a má gica atração do abismo”. Era a imprescindível chave de ouro. Chave de ouro? Duvido muito... Puro latão, isto sim. A idade é que era de ouro!