Caderno H
Pausa
À s vezes, nos dias calmos, apenas se nota uma leve ondulação na relva: são os cavalos do vento que estão pastando.
Durante e depois
Quando eu lia O Tico-Tico, uma das coisas que mais me impressionavam era o que os personagens fariam depois de terminada a histó ria.
E ainda hoje acho que romance perfeito é aquele em que acabam morrendo todos os seus participantes, pois só aí poderia o romancista conscienciosamente escrever na última página a palavra FIM.
Em tal sentido, a hist ória de Hamlet quase atinge a perfeição. Lá pelas tantas, diz o príncipe a seu confidente que iria matar-se e este lhe responde que faria o mesmo. Fez coisa nenhuma! O príncipe convenceu-o de que, se todos eles morressem, jamais poderia o velho Shakespeare escrever aquela espantosa tragé dia: ninguém sobraria no mundo para contar nada a ninguém...
Só nisto eu discordo de Hamlet: não sei de coisa mais triste do que um herói remanescente. Remanescente e reminiscente.
Eu disse que era triste? Pois eles não acham. Em vez de morrerem “jovens e de rosas coroados”, como queria o poeta, ei-los aí, gordos, carecas, empoleirados e com uma memória de morte.
Se h á maior desgraça do que ser desmemoriado é ter memória demais. Vocês bem sabem como é, por experiência própria, quando a gente topa com um desses queridos avozinhos que se lembram de tudo: — Ah! os bons velhos tempos! — suspiram eles... e parapapapapá.
Os bons velhos tempos? Mas os tempos são sempre bons, a gente é que não presta mais.
Porém, em vista dos autos, melhor deveria dizer-se, com a mais legítima saudade:
— Ah, os bons maus tempos...