Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 316 de 362

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Caderno H

O gato

Quando estávamos certa vez a uma das mesas da “Bela Gaúcha”, chegou, em busca do velho grupo de amigos, o nosso sempre bem-vindo P.C.L. Chegou, acenou, sorriu meio torto, sentou: tudo como sempre. Só o que tinha de grave o último verbo é que ele sentou em cima do chapéu de um freguês vizinho, deixado sobre a cadeira vaga à nossa mesa. Paulo apressou-se a esclarecer-lhe:

— Desculpe, pensei que fosse um gato.

Claro que o dono do chapéu amarrotado até hoje não voltou a si do espanto.

Mas tenho para mim que Paulo apenas nos deu, sem querer, mais um exemplo vivo de poesia ou de arte poética, desprezando as explicações didáticas (para ele desnecessárias) e só conservando o essencial, o dramático.

Com efeito, explicar que um gato teria logo escapado do seu leito de emergência ante o simples movimento de uma criatura humana a querer sentar-lhe no lombo... isto seria longo e enfadonho.

Ora, se a poesia tem feito algum progresso foi esse de evitar as explanações lógicas, o estilo expositivo, características da prosa. Nada de frases e palavras de ligação. O “assim como”, o “destarte” e quejandos parece que repousam para sempre, precisamente no Museu dos Quejandos.