Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 303 de 362

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Caderno H

Expressões

A expressão mais idiota que existe é “adeusinho”.

Diplomacia

Ter a idade da pessoa com quem se fala.

Herói

Camarada impulsivo que morre cedo.

Proletário

Sujeito explorado financeiramente pelos patrões e literariamente pelos poetas engajados.

Coisas & pessoas

Desde pequeno, tive tendê ncia para personificar as coisas. Tia Tula, que achava que mormaço fazia mal sempre gritava: “Vem pra dentro, menino, olha o mormaço!” Mas eu ouvia o mormaço com M maiúsculo. Mormaço, para mim, era um velho que pegava crianças! Ia pra dentro logo. E ainda hoje, quando leio que alguém se viu perseguido pelo clamor público, vejo com estes olhos o Sr. Clamor Pú blico, magro, arquejante, de preto, brandindo um guarda-chuva, com um gogó protuberante que se abaixa e levanta no excitamento da perseguição. E já estava devidamente grandezinho, pois devia contar uns trinta anos, quando me fui, com um grupo de colegas, a ver o lançamento da pedra fundamental da ponte Uruguaiana-Libres, ocasião de grandes solenidades, com os presidentes Justo e Getúlio, e gente muita, tanto assim que fomos alojados os do meu grupo num casarão que creio fosse a Prefeitura, com os demais jornalistas do Brasil e Argentina. Era como um alojamento de quartel, com breve espaç o entre as camas e todas as portas e janelas abertas, tudo com os alegres incô modos e duvidosos encantos de uma coletividade democrá tica. Pois lá pelas tantas da noite, como eu pressentisse, em meu entredormir, um vulto junto à minha cama, sentei-me estremunhado e olhei atônito para um tipo de chiru, ali parado, de bigodes caídos, pala pendente e chapéu descido sobre os olhos. Diante da minha muda interrogação, ele resolveu explicar-se, com a devida calma:

— Pois é! Não vê que eu sou o sereno...

E eis que, por um mil ésimo de segundo, ou talvez mais, julguei que se tratasse do sereno noturno em pessoa. Coisas do sono? Além disso, o vulto aquele, penumbroso e todo em linhas descendentes, ajudava a ilusão. Mas por que desculpar-me? Quase imediatamente compreendi que o “sereno” era um vigia noturno, uma espécie de anjo da guarda crioulo e municipal.

Por que desculpar-me, se os poetas criaram os deuses e semideuses para personificar as coisas, visíveis e invisíveis... E o sereno da Fronteira deve andar mesmo de chapéu desabado, bigode, pala e de pé no chão... sim, ele estava mesmo de pés descalços, decerto para não nos perturbar o sono mais ou menos inocente.