Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 187 de 362

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Caderno H

Luz de vela

Os escritores castiços que nos impunham na escola como modelos tinham quase sempre um cheiro enjoativo de vela de sebo — e até hoje desconfio que se chamavam castiços exatamente por causa daqueles castiçais que eles usavam e com os quais percorrem ainda os corredores esconsos da nossa literatura.

Escusado dizer que eram lusitanos, todos eles. Naquele tempo a gente ficava sinceramente maravilhado com as camareiras portuguesas encontradas nos hotéis porque — boas e rudes mulheres que eram, analfabetas até — sabiam no entanto falar “gramaticalmente” e com os pronomes todos no lugar.

Mal suspeit ávamos que, sendo outro o ritmo de linguagem no Brasil, igualmente outra deveria ser a posição das tônicas na frase, outras as pausas de espera, outra a harmonia, em suma. Mas, como era ponto de honra saber português de Portugal, era aquela confusão, uma coisa nem outra, uma cacofonia. Escrevia-se, por exemplo, “não queixem-se”, “quem chamou-me?”, “Deus acompanhe-te!” — construções estas tão inexistentes e portanto tão erradas no português de Portugal como no português do Brasil. Se, em vez do pedantismo, procurássemos obedecer à naturalidade, não nos extraviaríamos tanto. Quando um cavaleiro acaso se perde no campo, afrouxa as rédeas... e vai daí o cavalo, isto é, o instinto, acha logo o caminho de casa. A qual, no assunto em trânsito, é a casa brasileira — a nossa casa!

Quando meninote, eu devorava livros com este título: “O que se não deve dizer”, patética e apatetadamente deslembrado que uma das coisas que não se deveria dizer, em bom brasileiro, era casualmente isso: “O que se não deve dizer!”

Isso, os pr óprios lusos compreendiam. Tanto assim que, nos bons tempos de Eça de Queiró s, cientes os escritores portugueses de que o melhor mercado de seus livros era o Brasil, procuravam tornar-se obviamente muito mais acessíveis, estabeleciam um compromisso tácito, evitando expressões idiomáticas só por eles usadas. Diziam, por exemplo: “ Pouco se me dá!” Agora, infelizmente, eles estão escrevendo assim, para dizer o mesmo: “Estou-me nas tintas!” É claro que o leitor brasileiro logo adivinha a coisa, mas que se irrita, lá isso irrita-se...

E deu-lhes agora para exportarem “sapatos de cabedal” e outras especialidades do mesmo gênero.

Desgraçadamente para eles, os tempos estão mudados. E até ouvi — quem diria? — de alguém que acabara de folhear (e deixar) a tradução lisboeta de novela policial:

— Puxa! como estão escrevendo mal, esses portugueses...

Mas não há de ser nada... Vamos ler, para esquecer tudo, não qualquer novela policial, mas algumas das encantadoras e tão legíveis histórias do padre Manuel Bernardes. “O frade e o passarinho” — que dizem? E podemos lê-lo sem quaisquer remanescentes escrúpulos de consciência — porque ele era um clássico, afinal! Mas não pingava sebo...