Caderno H

Mario Quintana · Capítulo 85 de 362

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Caderno H

Pontinha

P ôncio Pilatos apenas representou uma pontinha na História... Mas que pontinha!

História do futuro

A velha máquina do mundo arqueja, arqueja, não pode mais, não pode

mais...

A torcida

de um lado e outro grita:

Pode! Nã o Pode! Pode! Não pode! Pode! A velha máquina, obsoleta como essas comovedoras criaturas a quem apelidaram Ford de bigode,

a velha má quina, num derradeiro esforço, explode: — pifff...

Mal se ouviu.

Uns riem.

Outros, os últimos românticos, arrepelam-se: “Então isto é explosão

que se preze? Onde é que está

onde é que está aquele último dó de gavetão como só os pode soltar um verdadeiro leão no seu canto de cisne?!”

Ora, depois que se dissipou no ar a última fumacinha, os curiosos, isto é, os sádicos

foram-se aproximando na ponta dos pés: aquilo estava irreconhecível... pura, pura sucata! Mas o Canhoto apontou no seu canhenho:

“Avisar Abraão para avaliar.”

Só ele, na perplexidade universal,

só ele, o Canhoto, é que tinha razão. Porque a sucata,

na verdade

— seja o que for

que tenha sido —

é um mero estado transitório do material em disponibilidade. Não tem nada de trágico.

A sucata é o material em férias...

Alegremo-nos, irmãos.

Amigos e inimigos, demo-nos todos as mãos e dancemos de roda em redor dos destroços sobre o chão da miséria...

Dancemos e cantemos

— chocalhando os ossos —

a nossa

mais esperançosa canção.

Porque a sucata quanto mais sucata

mais pode vir a ser UMA OUTRA COISA!