Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 8 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 7

Inelegível! Cada Vez Mais

Olivia respirou fundo quando o duque desapareceu no corredor. Sentia o seu espírito correr em quinze direções diferentes ao mesmo tempo. Quem diria que a mera ausência de um casaco acentuaria tanto os ombros de um homem? A princípio pensara que os olhos do duque eram negros, mas depois apercebera-se de que eram cinzento-esverdeados com pestanas surpreendentemente longas.

E beijara-a. Ela tocara realmente os lábios dele. Fora o seu primeiro beijo. Olivia sentou-se e Lucy saltou-lhe para o colo. Uma trouxa de pelo molhado não lhe molharia mais o vestido e a cadelinha de Rupert tremia terrivelmente, por isso meteu-a debaixo do casaco e fechou-o.

Imaginara que Rupert a beijasse quando consumassem o seu noivado. Embora não desejasse aquela saudação, a imaginação enganara-a pois ele não fizera a mínima tentativa. Aparentemente, o pai não incluíra o beijo nas suas instruções para as relações matrimoniais.

Mas este duque beijara-a como se tivesse direito de o fazer. Como se fosse seu noivo. E... dissera que ela era bela. Olivia apertou um pouco mais o casaco e pensou no assunto. Claro que já antes recebera elogios. Um dia seria duquesa e de vez em quando os homens haviam-na elogiado de um modo pouco convencido.

Mesmo assim, o duque de Sconce não fazia a mínima ideia da sua posição quando dissera que ela era bela. O pensamento era como um pequeno carvão incandescente no coração dela, uma centelha feliz.

A imaginação de Olivia saltou para um assunto diferente. Nunca vira cabelo como o dele. Negro como a noite, exceto uma madeixa branca à frente e caindo-lhe solto nos ombros. Calculava que se tivesse levantado da cama, pois sem dúvida o usaria preso na nuca durante o dia.

Lucy soltou um pequeno suspiro por isso Olivia olhou para baixo e viu a perna rosada através das saias. Talvez fosse por isso que o duque a olhara tão intensamente. Não suportava usar espartilho quando fazia longas viagens de carruagem, só que geralmente apenas a irmã a via.

Quando espreitava para dentro do casaco para ver se, por acaso, os seus seios estavam tão visíveis como os seus joelhos, um homem de meia-idade entrou, metendo o braço direito na libré.

– Que se passa? – perguntou ofegante ao vê-la. – Meu Deus, como foi que não se afogou. A ponte para a aldeia ficou de novo debaixo de água?

– Para a aldeia? – repetiu ela.

No momento em que ele lhe ouviu a voz toda a sua postura se alterou. Endireitou-se e qualquer coisa indefinida lhe alterou as feições. O que a princípio era um homem aborrecido e cheio de sono transformou-se no mordomo de uma grande casa.

– Por favor, aceite as minhas mais humildes desculpas – disse, curvando-se. – Sou Cleese, o mordomo. Ao vê-la na minha sala prateada, pensei... houve um acidente?

Um criado meteu a cabeça pela porta, logo seguido de outro, com as librés vestidas às três pancadas.

– A nossa carruagem bateu no poste do portão – explicou ela. – Lady Bumtrinket machucou um tornozelo. Não está ferida com gravidade, mas o cocheiro deve ter sido projetado. Não consegui encontrá-lo. Chamei, mas como ninguém respondeu a minha irmã e eu decidimos que eu viria até aqui à casa enquanto ela ficava com Lady Cecily. – De repente, sentiu-se exausta. – Sou Miss Olivia Lytton – continuou – e, embora não queira incomodar Sua Graça, somos esperadas.

– Os quartos das senhoras estão preparados – garantiu o mordomo. – Se fizer o favor de me acompanhar, Miss Lytton, dentro de um minuto estará lá em cima seca e confortável. Calculo que a sua criada não a acompanhasse na viagem.

– Vinham duas carruagens com as criadas e as malas, mas creio que não nos seguiam de muito perto

– Como está muito escuro, é provável que as outras carruagens não tenham dado pela bifurcação. É vulgar quando o cocheiro nunca veio aqui ao solar.

Apareceram mais criados à porta e o mordomo enviou-os a toda a pressa em várias direções. Depois voltou-se de novo para ela.

– Mistress Snapps, a governanta, enviar-lhe-á uma criada ao quarto, Miss Lytton. E eu vou mandar subir água quente para um banho, bebidas e uma refeição leve se desejar.

– Mas e Lady Cecily e a minha irmã? – perguntou Olivia. – Não posso retirar-me assim sem saber se estão cá em casa e em segurança. Já para não falar no cocheiro, que pode estar morto numa vala. E os cavalos.

– Vou enviar…

Mas qualquer que fosse a sugestão do mordomo, esta foi interrompida pelo ruído na entrada. Olivia pôs-se de pé num salto. Lucy saltou para o chão e o casaco deslizou dos ombros de Olivia. A jovem viu então que Cleese a olhava do pescoço para baixo para logo afastar os olhos como que mortificado.

Bastou um olhar para revelar que o seu vestuário nada fazia para lhe cobrir os seios. Estes estavam perfeitamente delineados, mamilos e tudo, pela roupa molhada. Sentiu as faces afogueadas, mas conseguiu apertar de novo o casaco e depois passou por Cleese que voltava da sala dos criados.

Lady Cecily encontrava-se no meio do vestíbulo, apoiada pelo duque, que estava já completamente seco, e por Georgiana. A irmã era uma versão distintamente encharcada da sua duquesificada pessoa.

Olivia não pôde deixar de notar que o duque tinha notáveis maçãs do rosto, acentuadas pelo cabelo liso. E que uma camisa molhada era tão reveladora nele como em si. O linho fino agarrava-se aos ombros musculosos – afastou os olhos. Mas que diabo estaria fazendo, comendo com os olhos o homem com quem a irmã provavelmente casaria?

Nessa altura, a porta fechou-se atrás de Cleese, nas suas costas e os encharcados recém-chegados ergueram os olhos.

– Minha querida Olivia, é a heroína do momento! – exclamou instantaneamente Lady Cecily. – Atravessaste a tempestade; podia ter-te afogado. Embora o afogamento pareça ser uma morte agradável, em relação às outras mortes, quero eu dizer. Afinal, muito melhor do que ser enforcado – bateu no braço do duque. – Miss Lytton, este é o meu sobrinho.

O cabelo de Lady Cecily parecia o ninho comunitário de um bando de andorinhas, mas, à parte isso e o tornozelo torcido, não parecia ter ficado muito mal com o acidente.

Olivia fez uma reverência.

– É uma honra ver de novo Vossa Graça.

– Realmente – disse o duque voltando-se para a tia. – Por assim dizer, Miss Lytton e eu já nos conhecemos. O meu vestuário despretensioso levou-a à conclusão lógica de que eu seria um membro do pessoal.

Olivia deveria estar fora de si quando chegara a essa conclusão. Mesmo sem casaco ou gravata, o duque tinha uma espécie de pose férrea declaradamente aristocrática.

De fato, parecia espantosamente ducal. Olivia não conseguiu distinguir o mínimo traço do homem que se rira quando ela soltara aquela comparação tão pouco senhoril entre o cérebro dele e as partes íntimas de um rato. Pelo contrário, parecia o vivo retrato de um duque, olhando-a do alto de um modo superior.

Que fosse. Devia ter sofrido um lapso temporário de loucura para logo reverter ao seu título.

– Peço perdão a Vossa Graça pela minha falta de atenção – disse ela, curvando-se numa profunda reverência.

– Surpreende-me que não o tenha reconhecido imediatamente – comentou alegremente Lady Cecily. – Sempre pensei que havia no olhar dos Sconce um determinado estrabismo que os identificava. Mesmo os que nasceram bastardos têm um certo toque.

O duque podia não ser estrábico, mas Olivia lembrava-se de que os olhos dele eram de uma espantosa cor verde-acinzentada. E frios, com um toque de reprovação, como se tivesse sido ela a tentá-lo para que a beijasse, o que certamente não acontecera.

– De fato – declarou –, creio que percebo exatamente o que quer dizer, Lady Cecily.

Georgiana soltou um pequeno suspiro abafado, que disfarçou tossindo.

– O que a minha irmã quer dizer, é que Vossa Graça possui o inegável olhar dos Sconce.

– Foi exatamente o que eu disse – Olivia sorriu para as feições rígidas do duque. – A partir daqui, reconhecerei esse olhar em toda a parte.

– Tenho muito prazer em recebê-la na minha casa, Miss Lytton – disse ele, evitando o assunto do olhar. Olivia teve a sensação de que ele ignoraria muitas vezes tais trivialidades. – Espero que a senhora, Lady Cecily e a sua irmã nos façam uma longa visita. A minha mãe, a duquesa viúva, terá todo o prazer em vos saudar amanhã de manhã, tal como o meu primo Lorde Justin Fiebvre, que veio nos visitar antes de regressar à Universidade de Oxford.

O duque tinha uma voz muito profundo, mais profunda do que a do pai de Olivia. Parecia… era muito masculina, pensou ela, antes de afastar o espírito do assunto.

Georgiana afastou-se de Lady Cecily e dirigiu-se para o lado de Olivia para lhe dar um pequeno beliscão.

– Mas que diabo esta fazendo? A troçar de um duque – murmurou. – Ele não é estrábico!

– O nosso cocheiro foi encontrado na vala, mas sem ferimentos – referiu Lady Cecily. E tresandava a gim, minha querida. Tresandava! Que bela coisa deve ser, encharcado em bebida. Se fosse por ele, poderíamos ter morrido dentro da carruagem e ser comidas por abutres.

– Comidas ainda dentro da carruagem? – perguntou o duque. – Seria muito invulgar.

– Foi milagre não termos ido parar dentro do rio! Ou esbarrado com a carruagem do correio. Deveríamos ter-lhe examinado as unhas antes de entrar na carruagem. Sabia que um homem que tem uma unha ligeiramente mais comprida no dedo mínimo é invariavelmente um ébrio?

– O duque foi notavelmente espantoso – murmurou Olivia em resposta. – Ele… logo te conto.

– Não disseste já alguma coisa pouco própria de uma dama? – gemeu Georgiana.

– Não! Bom, sim, mas digo-te depois. Sentes-te bem, Georgie? Creio que Lady Cecily aterrou em cima de você.

– Mais cinco minutos naquela carruagem, sozinha com Lady C e seria uma possível candidata a um manicômio – sussurrou Georgiana tão baixo que a irmã mal a pôde ouvir.

Olivia apertou-lhe a mão. Olivia e Georgiana tinham sobrevivido os últimos cinco dias na carruagem recorrendo a jogos que praticavam em crianças. Apostando no número de vezes que Lady Cecily mencionava a sua querida amiga Lady Jersey, uma das patronas de Almacks, tal como costumavam apostar nas referências feitas pela mãe ao Espelho dos Elogios.

– Não tinha conhecimento de qualquer paralelo entre o caráter de um homem e as suas unhas – disse então o duque a Lady Cecily. Olivia poderia ter informado de que a tia era fiel depositária de estranhas teorias, a maioria das quais tinha a ver com a digestão. Em nenhuma delas Olivia acreditava.

– Oh, mas é verdade – garantiu Lady Cecily ao duque. – Espero que seja

a primeira coisa que os Bow Street Runners 2examinem quando prendem um criminoso.

– Sempre ouvi dizer que o sinal denunciador é o estrabismo – comentou Olivia. Não sabia bem porquê, mas a expressão implacável do duque fazia com que sentisse vontade de lhe apertar o nariz, embora nem se atrevesse a olhar para ver o resultado do seu comentário. Assim, acrescentou apressadamente: – As carruagens com as nossas criadas e os baús já terão chegado?

– Tenho um vestido novo dentro de um dos meus baús – disse imediatamente Lady Cecily. – E, embora a menina não tenha bebido o leite da sociedade, minha querida, e por isso não seja uma verdadeira aristocrata, qualquer um perceberia a necessidade que tenho de recuperar as minhas luvas de franjas. Usei-as no meu encontro com o embaixador espanhol, que me fez um rasgado elogio, embora eu não tivesse percebido o que ele disse, pois não o fez em inglês.

Cleese entrou no momento em que Lady Cecily fazia uma pausa para tomar fôlego.

– Até agora não há sinal das carruagens de serviço, Miss Lytton. Tomei a liberdade de destacar uma criada para cada uma das senhoras e elas terão todo o prazer em servi-las até à chegada das outras criadas.

– Mas eu preciso da minha criada – disse Lady Cecily, aproveitando imediatamente o assunto. – Só Harriet sabe tratar do meu rosto. Sabe o que dizem, minha querida – espreitou para Georgiana e Olivia por entre as madeixas de cabelo encharcado. – Uma mulher passa a sua plenitude aos vinte anos, decai aos vinte e quatro, fica velha e insuportável aos trinta. Minhas queridas, nenhuma de vós tem ainda vinte e quatro, não é verdade?

– Ainda temos um ano antes de ficarmos completamente decaídas – declarou Olivia.

– Folgo em ouvi-lo – declarou inesperadamente o duque. – O meu estrabismo pode muito bem indicar um notável estado de decadência.

Olivia ergueu uma sobrancelha. Uma centelha brilhou momentaneamente no olhar... o comentário dele quase sugeriu um sentido de humor. Que homem peculiar.

– Decadência – exclamou Lady Cecily. – Como se pudéssemos aceitar uma descrição dessas da sua pessoa, meu sobrinho! Os homens nunca decaem.

Olivia sentiu-se de novo irritada.

– Lady Cecily – perguntou –, por que razão os homens não haverão de decair se as senhoras decaem?

– Oh, os homens decaem – disse Lady Cecily que nunca se sentiria embaraçada por qualquer pergunta que pudesse ser possivelmente elaborada dentro da sua área de especialização. – Quero dizer, os homens apodrecem, o que é quase a mesma coisa, não é verdade? Mister Bumtrinket costumava dizer que um homem que não conseguisse ir para a brincadeira sempre que necessário estava podre até ao âmago.

Olivia sentiu-se sufocar, mas, de resto, o comentário de Lady Cecily foi recebido em silêncio. Olhou o duque de soslaio e reparou de novo no brilho subtil do seu olhar. Este mantinha um ar extremamente sóbrio, mas, quase de certeza ria lá por dentro.

Depois, olhou-o de novo e mudou de ideias. Ninguém com um rosto tão severo poderia ter o mínimo sentido de humor. E mais, teria provavelmente sido educado segundo os preceitos encontrados no Espelho para Pavões Emproados. Deveriam ter-lhe retirado toda e qualquer capacidade de rir.

– De qualquer forma – acrescentou Lady Cecily, retomando a conversa –, o meu sobrinho é famoso em todo o reino pelas coisas inteligentes que faz com os números. Mais do que poderia fazer um guarda-livros, suponho. Melhor do que contabilidade. Coisas muito inteligentes.

– É uma honra conhecer um matemático tão famoso – disse Georgiana.

Olivia olhou para o lado e notou, com uma pequena contração no estômago, que a irmã sorria para o duque. Claro, nunca ocorreria a este homem que o sorriso de Georgiana significava condescendência... porque não significava. Ele era um duque. Estavam perfeitamente adequados um para o outro. Era simplesmente desagradável pensar que tinha beijado – embora contra vontade – o seu futuro cunhado.

O duque foi tão suscetível ao sorriso de Georgiana como ela sabia que o eram todos os homens. Os olhos do duque tornaram-se mais doces quando disse:

– Lady Cecily exagera, Miss Georgiana. – Era espantoso como podia dizer uma coisa tão despretensiosa com um ar tão orgulhoso.

– Não deve ser tão modesto – disse Olivia incapaz de resistir. – A contabilidade é um conhecimento muito útil. E é muito corajoso da parte de Vossa Graça ter realizado o seu desejo de ser guarda-livros, dada a sua elevada posição.

A seu lado Georgiana soltou um leve e provavelmente involuntário gemido. Os olhos do duque afastaram-se do rosto da irmã.

– A maioria dos duques não tem inteligência para as simples frações – terminou ela lançando um sorriso que em nada se parecia com a adoração da irmã.

– Se me derem licença, sugiro que nos dirijamos aos aposentos que Cleese tão simpaticamente nos preparou – disse Georgiana, dando uma cotovelada nas costelas de Olivia.

– Sim, de fato – disse Olivia, sentindo-se um pouco envergonhada. Fizera-o de novo. No momento em que se sentia irritada por evidentes exibições daquilo que seria apropriado fazer, abandonava todos os traços de elegância de que a mãe a imbuíra. – Se não se importa, Cleese – disse, voltando-se para o mordomo.

– Não me vou retirar sem tomar leite morno com brande – declarou Lady Cecily. – Bebo-o todas as noites desde os meus treze anos e garanto-vos que melhora extraordinariamente a minha digestão. Há muitas doenças que poderia ter apanhado e não apanhei porque todas as noites purifico o meu estômago.

– Withers, leve leite quente com brande aos aposentos de Lady Cecily o mais depressa possível – ordenou Cleese avançando para a escada. – Se as senhoras fizerem o obséquio de me seguir, acompanhá-las-ei aos vossos aposentos.

– Terá de me ajudar a subir, meu sobrinho – pediu Lady Cecily. – Por favor, vamos esperar até as jovens chegarem em cima das escadas.

Olivia não resistiu a voltar-se quando ela e Georgiana chegaram em cima do primeiro lance de degraus de mármore. Sentia uma comichão nos ombros como se..., claro, ele observava-as.

Vieram-lhe à ideia os gracejos que ela e Georgiana haviam trocado acerca de sátiros. Havia algo de feroz e poderoso no rosto do duque que se adequaria a um sátiro. Tinha as maçãs do rosto angulosas, mas eram os olhos... ardiam com uma espécie de poder perfeitamente contido que se imaginaria num sátiro.

Odiava a barbicha, mas tinha de admitir que a moda se adequava ao seu aspeto levemente exótico. Tinha começado a perder o cabelo e uma madeixa branca pendia-lhe para a testa.

– Olivia – disse Georgiana com severidade.

Olivia pestanejou e deu meia volta.

Claro que Georgiana não fez uma coisa tão indelicada como olhar para o duque do alto das escadas. Preferiu fazer uma reverência, lançando ao duque e a Sua Senhoria um sorriso comedido e afável. Depois lançou um olhar severo a Olivia, como que dizendo-lhe segue-me, voltou-se e seguiu pelo corredor atrás de Cleese.

Pela primeira vez na vida, Olivia sentiu um profundo desejo de possuir a figura da irmã e não a sua. Georgiana parecia tão magra e elegante, mesmo com um vestido encharcado.

Entretanto, ela assemelhava-se sem dúvida a um pão enorme, embrulhado num pesado casaco, com as saias molhadas coladas às pernas, que não eram, nem de longe, tão bem torneadas como as da irmã.

– Apoio-me no seu braço, meu sobrinho – dizia Lady Cecily. – Com certeza que não quero que me levem para cima como uma trouxa de roupa.

Olivia começou a percorrer o corredor pensando em fugir antes que o duque chegasse em cima das escadas e pudesse observar de trás o seu vestido molhado.

– Espero que não se importe por lhe dizer isto – declarou Lady Cecily ao duque –, mas o seu cabelo parece-me um pouco em desalinho. O meu marido costumava usar uma touca de dormir para manter o cabelo arranjado. O seu criado poderia arranjar-lhe uma, meu sobrinho; dar-lhe-ei as devidas indicações.

Olivia soltou uma risadinha ao pensar no duque de rede no cabelo. Olhou par atrás e...

Os olhos de ambos encontraram-se.

O rosto dele poderia ser de granito pois nenhuma emoção se lia nele. Quanto aos olhos... os olhos eram diferentes. Prenderam-se nos dela e ela poderia jurar que tinha qualquer coisa aí.

Talvez desejo.

Olivia quase abanava a cabeça enquanto seguia a irmã pelo corredor. Claro que não era desejo. Ninguém poderia sentir isso por ela.

Era uma mulher gorda e já velha, sem mais nada que a recomendasse do que um compromisso de casamento com o herdeiro de um duque.

Desejo!

O que possuiria ela que ele pudesse desejar? O duque tinha o mundo a seus pés, era só pedir. Tal como aconteceria com ela, assim que fosse duquesa.

2Primeira força policial profissional de Londres fundada em 1749. (N. da T).