Duas Irmãs, Um Duque
Capítulo 5
Acontecimentos Que Dispensam Apresentação
Habitualmente, Rupert entrava em qualquer aposento com uma alegre algaraviada de saudações; tendo sido ensinado a cumprimentar adequadamente, adorava observar as devidas regras. Mas, naquele momento, entrou na biblioteca sem pronunciar palavra, fixando Olivia com os olhos para logo os afastar.
Olivia deixou correr uma sincera enfiada de silenciosas injúrias dirigidas aos pais. Esquecera-se – mais uma vez – de ter em conta o que pensaria Rupert de tudo aquilo. Pela expressão dele, ela e Georgiana haviam acertado ao concluírem que Rupert não tinha sido aconselhado acerca de como deveria resolver a situação que agora enfrentava.
Nem ela, afinal.
Mas também havia muito tempo que as pessoas passavam por aquilo. Felizmente, o pai dela guardava uma garrafa de brande na biblioteca, de modo que Olivia entregou a Rupert um copo cheio e serviu-se de outro para si, mandando ao diabo o fato de a mãe considerar o álcool impróprio de uma senhora. Ainda sem uma palavra, sentaram-se no sofá diante da lareira.
– Deixei a Lucy na sala – disse ele de repente. – Não me pareceu certo. Olivia acenou afirmativamente.
– Lá fica mais cómoda.
– Não fica muito confortável – declarou ele. – O meu pai não gosta dela. Diz que só serve para caçar ratos e mais nada. Mas ela não quer caçar ratos. Nem sabe como isso se faz. E os seus pais também não gostam dela.
– Os meus pais nunca permitiram que tivéssemos qualquer animal de estimação – respondeu Olivia.
– Mas a menina gosta de cães – afirmou Rupert.
– Gosto.
– Eu disse que fazia por causa disso.
Olivia pestanejou.
– O quê?
– Casar.
Pelo visto, Olivia subestimara a força de vontade de Rupert; não se apercebera de que ele tivera uma palavra dizendo na escolha da sua duquesa. Nem fazia a mínima ideia de que as empadas de carne que guardara para Lucy tinham ajudado na sua audição para o papel.
Deveria tê-las comido ela.
– Não é que não goste de si – disse Rupert com toda a franqueza. – Gosto. Mas a menina também gosta da Lucy, não é verdade?
– É uma cadela amorosa. – Agora entendiam-se. Ela e Rupert haviam passado muitas noites falando de Lucy.
Mas Rupert parecia ter esgotado esse assunto e com o seu silêncio o ambiente tornou-se de novo tenso e nervoso.
– Não precisamos de o fazer, sabe – disse ela algum tempo depois.
– Eu sim – disse ele, engolindo um grande gole de brande e estremecendo. – Disse ao meu pai que o faria. Ser como um homem. Fazer… ser como um homem – parecia confuso.
Olivia bebeu um pouco e pensou no quanto gostaria de lançar os pais e o duque da ponte de Battersea.
– E se não o fizéssemos e disséssemos que tínhamos feito? – sugeriu.
Ele voltou-se para a olhar pela primeira vez, com os olhos muito redondos.
– Mentir?
– Seria mais uma brincadeira. Ele abanou a cabeça.
– Eu não minto. Mentir não é coisa que um cavalheiro faça. É melhor cumprir as minhas responsabilidades – tomou um novo gole e estremeceu.
Rupert era admirável à sua maneira, pensou Olivia, apercebendo-se pela primeira vez que ele teria dado um duque excepcional se estivesse na posse de todas as suas faculdades. Tinha a força de vontade do pai, com mais uma camada de honra que evidentemente faltava ao pai.
– Compreendo – disse ela.
– Não há ocasião como o presente – sugeriu Rupert.
– Quer que apague os candeeiros?
– E como veria eu o que estava fazendo?
Boa pergunta.
– Claro – disse Olivia apressadamente.
Rupert levantou-se e pousou o copo em cima da mesa.
– Sei como cair para a frente. Caio para a frente, a menina cai para trás. – Parecia querer descansá-la a ela e a ele ao mesmo tempo. – É fácil, dizem todos.
– Que maravilha – disse Olivia. Depois de um segundo de hesitação, pôs-se de pé e depois retirou-se para trás do sofá para retirar as suas ceroulas. Depois deu a volta e chegou-se à lareira, perguntando a si própria se deveria tirar os sapatos.
Um rápido olhar a Rupert mostrou que ele não pensava fazê-lo. Tinha as calças nos tornozelos. Olivia bebeu, desta vez, um gole maior de brande.
– Talvez seja melhor terminar o seu copo – sugeriu Rupert.
Ela engoliu os restos de brande e olhou de novo para o noivo. Este tinha o rosto vermelho e os olhos um pouco vítreos. Pelo visto, tinha enchido de novo o copo enquanto ela estivera de costas.
– Ora pronto! – disse ele em voz fraca e bebeu tudo também.
Olivia respirou fundo e posou o copo. Depois deitou-se no sofá, puxou as saias até à cintura e preparou-se.
– Pronto – disse Rupert. – Acha que ponha um joelho aqui, junto à sua anca? Está aqui uma almofada. Durante algum tempo debateram-se com a colocação das pernas até que ficaram mais ou menos em posição.
– Quer mais um pouco de brande? – perguntou Rupert. – O meu pai diz que é doloroso para uma mulher.
– Não, obrigada – disse Olivia. – Infelizmente, o brande que tomara subira-lhe diretamente à cabeça e ela sentiu um enorme desejo de soltar uma risadinha. Imaginava o que diria a mãe a tudo aquilo.
– Se lhe apetecer chorar, trouxe três lenços a mais. – Rupert não mostrava uma pressa especial em tratar do assunto.
– Obrigada – agradeceu de novo Olivia, abafando mais risadinhas. – Nunca choro.
– A sério? Eu choro sempre – disse Rupert, pestanejando.
– Lembro-me de como chorou naquela festa no jardim quando o pardal morreu e caiu da árvore. Rupert franziu o rosto ao recordar-se.
– Era apenas um pássaro – acrescentou ela rapidamente.
– Esperto, luminoso… selvagem.
– O pardal?
Rupert parecia ter esquecido completamente o que deveriam estar fazendo, embora se encontrasse de joelhos segurando o pénis com uma mão. Já não tinha os olhos vítreos, mas concentrados.
– Escrevi um poema – contou.
Olivia não estava completamente certa, mas quase de certeza que o pénis dele não seria eficaz no seu estado atual.
– Que espécie de poema? – perguntou ela, encostando de novo a cabeça à almofada. A vida com Rupert teria o seu próprio ritmo. Não valeria a pena apressá-lo.
– Esperto, luminoso – repetiu ele. – Um pássaro cai junto a nós, a escuridão amontoa-se nas árvores.
Olivia ergueu a cabeça.
– É esse o poema completo?
Ele acenou afirmativamente com os olhos nos dela.
– É adorável, Rupert – elogiou ela com sinceridade. Pela primeira vez na sua vida era verdade o que dizia ao noivo. – A escuridão amontoa-se. Adoro.
– Nas árvores – disse ele acenando vigorosamente com a cabeça. – Chorei pelo pássaro. Porque é que a menina nunca chora?
Desde que conhecera Rupert, Olivia nunca mais chorara. Nem uma única vez. Tinha dez anos; ele tinha cinco. Fora na manhã em que tinham vindo por terra os seus sonhos de um príncipe de contos de fadas.
Embora ele tivesse apenas cinco anos (e ela apenas dez), percebeu que alguma coisa de grave se passava no cérebro dele.
Mas a mãe de Olivia zangara-se quando ela dissera tal coisa.
– O marquês pode não ser tão rápido como a menina – afirmara Mrs. Lytton. – Mas isso é como esperar que um duque saiba fazer arranjos de flores. A menina é demasiado esperta para o que lhe convém.
– Mas… – argumentara Olivia, sentindo-se desesperada.
– A menina é a jovem com mais sorte neste mundo – declarara a mãe. E a perfeita convicção que Olivia lhe lera no rosto calara as palavras que desejara dizer.
Mesmo depois de todos aqueles anos, depois de ser evidente que fora uma felicidade Rupert ter conseguido falar bem e ainda mais ter aprendido a ler e escrevendo, a mãe nunca alterara a sua opinião.
– Talvez devesse começar – sugeriu Olivia a Rupert e fez um gesto na direção da zona interessada.
– Certo – respondeu Rupert, concordando. – Vamos a isso. – Olivia viu-o balançar um pouco para trás e para a frente. – Parece que bebi um pouco de brande a mais – resmungou, mas esforçou-se por chegar ao local apropriado.
Dobrou-se a meio. Rupert pestanejou.
– Não está a dar resultado. Esta parte deveria ser fácil.
Olivia ergueu-se apoiada nos cotovelos. Ele parecia segurar um talo de aipo já murcho. Inclinado e, embora não se devesse dizer em voz alta, flácido.
– Vamos experimentar outra vez? – sugeriu ela.
– Suponho que seja este o lugar exato?
– Sim – disse ela com firmeza.
Rupert experimentou mais uma vez, resmungando para consigo. Olivia deixou-o prosseguir, só se apercebendo aos poucos de que ele murmurava Dentro, dentro, dentro. Mais uma vez sentiu vontade de soltar umas risadinhas, por isso mordeu o lábio com força.
– Ouvi dizer que isto nunca funciona à primeira tentativa – disse ela, algum tempo depois. Rupert nem olhou para ela. Agarrou desesperado nas suas partes íntimas com pouco à vontade.
– Isto é fácil – repetiu.
– Creio que precisa de ficar rígido para que possa funcionar – aventurou-se Olivia a sugerir. Ele pestanejou.
– A menina percebe do assunto? – Não parecia estar a censurá-la, apenas curioso.
– É só um tiro no escuro – replicou Olivia. De novo tentava controlar as risadas, pois lembrara-se dos patos.
– Pensei que o mais importante fosse o tamanho – disse Rupert.
– Pois. Creio que já ouvi dizer isso – admitiu Olivia, cautelosa.
Rupert abanou-se.
– Isto é grande. Sei que é.
– Ótimo!
– Mas não funciona. – Deixou cair aquilo e olhou para ela com olhos tristes. – Mais uma coisa que não funciona.
Olivia soltou uma gargalhada e conseguiu sentar-se.
– Sabe que nunca mente, não é verdade, Rupert?
Ele acenou afirmativamente.
– Vamos nos deitar os dois aqui no sofá – bateu na almofada a seu lado. – Depois, dizemos-lhes isso mesmo.
– Quer dizer... não dizemos?
– Não será uma falsidade.
– Não.
– Vamos dizer-lhes que nos deitámos juntos no sofá.
– Nos deitamos juntos – repetiu. – Preferia... eu... Não diz ao meu pai? Nem aos outros? Por favor? Olivia pegou-lhe na mão – na outra mão.
– Nunca o direi, Rupert. Nunca.
Esboçou um sorriso rápido e luminoso.
Muito mais tarde, nessa mesma noite, Olivia, zangada, falou com a irmã.
– Os nossos pais exigiram que eu e Rupert nos ligássemos sem os votos matrimoniais e nós acedemos como se fôssemos um casal de cães para manter a raça.
– Não há necessidade de colocares as coisas nesses termos. Contudo – acrescentou Georgiana com um dos seus raros sorrisos –, a partir desta noite, as perspectivas de Rupert como cão de criação ficam até certo ponto em causa.
– Se sorrisses assim para os homens, Georgie, terias mais propostas de casamento do que já alguma vez imaginaste.
– Mas eu sorrio – protestou Georgiana.
– Só que o teu sorriso muitas vezes parece que esta pensar que eles estão abaixo do nível de um duque – declarou Olivia. – Podia experimentar sorrir-lhes como se eles fossem duques.
A irmã acenou afirmativamente.
– Estou percebendo. De qualquer forma, ninguém deveria comparar o futuro marico com um cão de criação.
– Foi assim que Sua Graça o caracterizou. Depois disso, informou-me que me recompensaria pelo trabalho desta noite com uma doação de bens e propriedades. Uma propriedade pequena, creio que foi o que ele disse. Não faço ideia de até que ponto uma prostituta pode enriquecer depois de apenas uma ou duas horas de deboche.
– Olivia! – mas o protesto da irmã não teve qualquer força.
– Vai beneficiar da minha ação como prostituta, minha querida. Ele disse a Madame Claricilla que nos vestisse a ambas de acordo com a minha nova posição.
Georgiana ergueu imediatamente as sobrancelhas.
– Os frutos do pecado. Garanto-te que começo a ter uma visão inteiramente nova das mulheres de vida fácil. Você e eu vamos conseguir um guarda-roupa completamente novo e eu recuso-me a ter um vestido branco que seja ou uma fita pelas costas abaixo.
– Não é uma prostituta – protestou Georgiana. – Obedecias aos desejos dos nossos pais.
– Em relação a isso, dás-me licença que diga que me ofende o fato de a nossa mãe ter passado anos a insistir que a vida de uma dama girava à volta da proteção da sua castidade, para imediatamente esquecer esses princípio no momento em que pensou que eu poderia ter um filho de Rupert?
Georgiana mordeu o lábio por um momento.
– Claro que tem razão – disse logo a seguir. – Os nossos pais mostram um excesso de entusiasmo por este casamento e sempre o fizeram.
– Ainda por cima sendo o pobre Rupert tão pouco esperto, sim. – Olivia deitou-se de novo de costas. Sentia-se exausta e profundamente triste; os efeitos do brande tinham-na desgastado. Apercebera-se com dez anos que a sua vida de casada seria completamente diferente da das outras mulheres. Mas nunca imaginara como seria aterradora.
Sentia-se desesperada só com a ideia de tomar o pequeno-almoço com Rupert, quanto mais passar anos e anos a fazê-lo.
– Mesmo que o marquês tivesse um cérebro distinto, os nossos pais nunca deveriam ter colaborado num encontro tão desagradável como o que descreveste – afirmou Georgiana.
– Não há dúvida de que o cérebro dele é distinto – resmungou Olivia. – Há poucos assim. Mas, de uma certa maneira fragmentada, a sua poesia é adorável.
– Hesito em perguntar – disse Georgiana –, mas porque ficou a mãe tão irritada quando o duque e o foram embora? Ouvi mesmo a voz dela no meu quarto, por isso hesitei algum tempo em descer. Contudo, parece-me que tudo se passou segundo os desejos dela; os papéis do noivado foram assinados e, tanto quanto ela possa saber, provavelmente tem dentro de você um futuro duque. Já para não falar na sua fervorosa reação à possibilidade de eu me tornar duquesa.
– Oh! – exclamou Olivia. – Foi a Lucy. – Sorriu só de pensar.
– Lucy?
– A cadela de Rupert, Lucy. Certamente sabe quem seja.
– Quem não sabe? Não que seja o único cão da alta... o caniche de Lorde Filibert ganhou fama pelos seus laços verdes... mas a Lucy é a única que tem as orelhas mordidas pelas pulgas.
– É muito má – disse Olivia a rir. – Creio que a dentada que levou na cauda foi mais prejudicial à sua beleza.
– Quem feio ama bonito lhe parece, mas só um cego poderia elogiar a beleza de Lucy.
– Tem uns olhinhos doces – protestou Olivia. – E é amoroso o modo como as orelhas dela ficam ao contrário sempre que corre.
– Eis uma característica que nunca considerei essencial para a beleza de um cão.
– A mãe também não a admira. Ficou até irritada com a ideia de que alguém importante me veja acompanhada pela cadela.
Georgiana ergueu uma sobrancelha.
– A Lucy não vai para Portugal? Pensei que Rupert nunca se separava dela.
– Rupert pensa que a viagem pode ser perigosa, por isso pediu-me que tomasse conta dela durante a sua ausência.
– A maior parte das pessoas diz isso mesmo dos campos de batalha. Então onde está Lucy? Tenho a certeza de que não estava na sala quando lá fui ter contigo. Estará nos estábulos?
– Na cozinha, a tomar banho – referiu Olivia. – Rupert exigiu que ela ficasse sempre comigo. Claro que a nossa mãe foi amorosa com ele, mas explodiu assim que a porta se fechou. Considera Lucy uma companhia pouco apropriada para uma futura duquesa. O que faz dela uma companhia perfeita para a minha pessoa, tem de admitir.
Lucy não tem um ar aristocrático. É a cauda de rato, penso eu.
– Ou o corpo comprido. Parece uma salsicha com pernas. Mas há de cheirar como uma aristocrata. A mãe mandou-a para a cozinha para tomar banho em soro de leite.
Georgiana revirou os olhos.
– Lucy pode gostar do soro de leite, mas a ideia é ridícula.
– A mãe também sugeriu que uns laços ou qualquer espécie de embelezamento podem torná-la mais adequada a ser companheira de uma dama. – Durante todo aquele dia, tão longo e horrível, a única nota alegre fora a expressão do rosto da mãe quando Rupert, com uma lágrima a rolar pelo rosto, entregara a Olívia a trela de Lucy.
– Laços nas orelhas de Lucy? Ou na cauda?... não ficam nada bem – declarou Georgiana com firmeza.
– Sabe o que preocupa mais a nossa mãe? Creio que receia que considerem Lucy uma rafeira e que digam o mesmo de mim. Laços para Lucy e fitas para mim, esta perceber?
– Pode deixar-te de pretensões. A mãe pode sentir-se desesperada contigo, Olivia, mas você e eu sabemos perfeitamente que se te apetecer mostrar-te como uma duquesa toda emproada, consegue fazê-lo melhor que ninguém.
– Nem sempre é possível disfarçar a verdade – respondeu Olivia. – Olha para o pobre Rupert e para o seu talo de aipo, por exemplo.
– Julgo que a sua experiência na biblioteca foi invulgar. Todas as conversas que tive com mulheres casadas me deram a ideia de que os homens nada mais precisavam senão de uma mulher e um pouquinho de privacidade.
– Foi evidente que Rupert precisava mais do que de uma mulher cativa e um sofá. Mas não tenho a certeza de que a sua experiência diga muito acerca do resto da humanidade.
– Que disseste depois de saíres da sala?
– Nada. Prometi a Rupert que nunca diria a ninguém... mas você não contas. O pai dele deveria saber que o pato não estaria à altura da ocasião... por assim dizer.
– Rupert obedeceu-te?
– Em todos os pormenores – confirmou Olivia com uma centelha de triunfo. – Tinha as pernas pouco firmes... Creio que, de futuro, deveria contentar-se com cidra. Mas conseguiu fazer uma reverência sem cair e depois partiu sem sequer revelar o fato de os seus dois órgãos mais importantes não funcionarem. Georgiana suspirou.
– Não deveria dizer tais coisas.
– Desculpa, saiu-me sem querer.
– Gracinhas como essas nunca deveriam sair da boca de uma dama.
– Se duvidas da minha correção, não fazes nada que a mãe não tenha já feito há muito – disse Olivia.
– Mas basta de falar dos defeitos do meu caráter. Em toda aquela entusiasmada conversa acerca das tuas aptidões para o posto de duquesa de Sconce, a mãe mencionou Lady Cecily Bumtrinket?
– Que nome extraordinário. Não.
– Bom, conforme a mãe te disse, a duquesa de Sconce, autora do Espelho dos Palonços, parece ter concordado com a sugestão de que seria um partido adequado para o filho. E Lady Cecily, que calculo que seja a irmã da duquesa viúva, foi recrutada para te apresentar a Sua Graça. O único senão desta grande felicidade é termos de nos encontrar com o grande árbitro da correção, a duquesa do decoro, a...
– Basta!
– Desculpa – disse Olivia franzindo o nariz. – Falo de mais quando me sinto infeliz. Sei que é um defeito, mas não suporto chorar, Georgie. Prefiro rir.
– Eu choraria – retorquiu Georgiana recuando e puxando delicadamente uma madeixa do cabelo da irmã. – Só a ideia de ver Rupert baixar as calças dá-me vontade de chorar.
– Foi pior do que eu imaginava. Mas, ao mesmo tempo, Rupert é uma boa alma, pobrezinho. Ele... há nele qualquer coisa de muito doce.
– Realmente é maravilhoso que seja capaz de respeitar os méritos dele! – admitiu Georgiana, com mais entusiasmo do que seria necessário.
Olivia lançou-lhe um olhar sardónico.
– De qualquer forma – acrescentou Georgiana apressadamente –, suspeito que tais intimidades sejam sempre embaraçosas. A maioria das duquesas viúvas fala da experiência nos termos mais desdenhosos.
– Mas pensa em Juliet Fallesbury e no seu Longfellow – comentou Olivia.
– Obviamente não fugiu com um jardineiro devido às suas capacidades hortícolas. Seja como for, como Rupert parte para a guerra ao romper da aurora, você, a Lucy e eu seremos levadas para o campo para sermos apresentadas ao duque de Sconce e à senhora sua mãe.
– Ótima perspectiva – ironizou Georgiana com expressão triste. – Estou desejando ver o duque a revirar os olhos de aborrecimento de estar sentado ao meu lado.
Olivia deu-lhe uma leve pancada no nariz.
– Limita-te a sorrir-lhe, Georgie. Esquece todas essas regras e olha para o duque como se pudesses gostar dele. Quem sabe se não será de jeito? Sorri só, como se fosses um porco e ele a masseira, prometes?
Georgiana sorriu.