Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 7 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 6

Começa a Experiência Matrimonial de Sua Graça

Maio de 1812

De volta ao seu gabinete, após o repasto da noite, Quin mal se apercebera de que a festa da mãe já começara. Depois da refeição houvera grande movimento junto à entrada, o que sugeria que, pelo menos, uma esposa em perspectiva e a respetiva acompanhante acabavam de chegar.

Sentia uma razoável curiosidade em relação às jovens que a mãe considerava candidatas adequadas ao casamento. Mas, nesse momento, uma cascata de risinhos subiu a escada e entrou pelo seu gabinete.

A autora das gargalhadas certamente reprovaria nos testes da mãe em relação ao divertimento, por isso seria uma perda de tempo ir cumprimentá-la. Despiu o casaco, tirou a gravata e instalou-se à secretária.

Tinha posto de lado as equações com polinómios e regressara ao problema da luz. Interrogava-se acerca da luz desde que, ainda rapaz, conhecera um cego e se apercebera de que, para ele, o mundo era escuro. Perguntara ao seu preceptor se isso significava que a luz existia apenas porque tínhamos olhos; ele soltara uma gargalhada. Não compreendera a abrangência da pergunta.

Por momentos, Quin olhou através da janela do seu gabinete para a escuridão que aumentava. O gabinete estava voltado a oeste e as janelas tinham os vidros mais antigos da casa, grossos como os das garrafas, turvos e de um tom levemente azulado. Quin gostava deles pois estava convencido que, de certa maneira, o vidro tinha a resposta para o mistério da luz.

Em Oxford haviam-lhe ensinado que a luz era constituída por partículas que se dirigiam na mesma direção. Porém, a luz atravessava o vidro antigo em fitas que não agiam como um rio a correr. Era mais como se fossem ondas a chegar à costa, inclinando-se levemente, adaptando-se às imperfeições do vidro...

Estava convencido de que a luz entrava numa onda, não num dilúvio de partículas.

O problema era prová-lo. Sentou-se de novo à secretária, puxando mais folhas de papel. No arco-íris a luz separa-se em tiras de cor. Mas é pouco prático e difícil prender um arco-íris. Precisava...

Quando ergueu de novo a cabeça, a casa estava em silêncio e a janela à altura do seu ombro escurecera. Ficou por momentos a olhá-la e depois abanou a cabeça. Bastava a luz para se preocupar naquele momento. A falta de luz era outra questão. Além do mais, a chuva batia nas janelas... uma tempestade de primavera. Água... a água era formada por partículas...

Levantou-se com as pernas rígidas para logo se imobilizar enquanto se espreguiçava. Que diabo causaria aquele barulho?

Ouviu-o de novo, um ruído constante que parecia a aldraba da porta da rua. Era demasiado tarde para alguém em casa ir abrir. Cleese estaria já na cama e o último criado teria há muito retirado para os aposentos dos serviçais no terceiro andar.

Quin pegou no candeeiro a petróleo da sua secretária e desceu a correr a enorme escadaria de mármore que levava ao átrio. Posou o candeeiro, destrancou a pesada porta e abriu-a de par em par. A luz despenhou-se – em tiras – vinda de trás do seu ombro até à escuridão, mas não se via ninguém, apenas o movimento de uma mancha branca à meia distância.

– Está aí alguém? – gritou, mantendo-se bem afastado da água que escorria do frontão por cima da porta.

A mancha que vira à porta voltara-se e correra até ele.

– Oh, graças a Deus que ainda está acordado – disse uma mulher sufocada. – Pensei que ninguém me ouvisse.

Passou para o círculo de luz que tombava sobre o ombro dele, continuando falando embora ele tivesse deixado de ouvir. Tratava-se sem dúvida de uma dama – mas não de uma dama qualquer. Não parecia pertencer a este mundo, muito menos ao mundo de Littlebourne Manor. Só a sua visão era um golpe aos sentidos de um homem, como se uma das sereias de Homero tivesse atravessado o tempo e os continentes para chegar à sua porta e o enfeitiçar.

O cabelo escuro caía-lhe pelos ombros, tornando-lhe a pele translúcida, como se tivesse uma fonte de luz própria. Não conseguia ver-lhe a cor dos olhos, mas as pestanas eram compridas e estavam molhadas.

Depois percebeu de repente que a chuva lhe escorria dos ombros, sem uma capa que a agasalhasse. Não havia dúvida de que estava molhada como uma sereia.

Quin estendeu a mão e puxou-a para o vestíbulo para a retirar da rua. Ela aclarou a garganta e começou falando, mas ele nem a ouviu e disse mais alto:

– Mas que raio faz a senhora aí fora?

– A carruagem voltou-se, não consegui encontrar o cocheiro que não me respondeu quando o chamei – disse ela a tremer.

Quin teve alguma dificuldade em se concentrar naquilo que a jovem dizia. O cabelo parecia uma meada de seda molhada, escura e lisa sobre os ombros dela. O vestido encharcado colava-se à pele revelando-lhe as curvas do corpo... e que corpo!

Demasiado tarde percebeu de que ela semicerrara os olhos, indicando que não estava preocupada com aquele exame.

– Posso garantir-lhe que o seu patrão não desejaria que ficasse aqui a parlamentar comigo – disse ela severamente.

Ele pestanejou. Pensaria que ele era um criado? Claro. Não usava casaco ou gravata, mas, mesmo assim, nunca ninguém o tomara senão por um duque (ou, nos tempos anteriores à morte do pai, um futuro duque). Era estranhamente libertador.

– Parlamentar? – perguntou ele num tom bastante idiota. A mulher encharcada parecia maliciosa e inteligente, muito mais do que as debutantes deslavadas que conhecera em Londres durante a temporada.

– Eu não... – ela interrompeu a frase. – Vou repetir o meu pedido: importa-se de chamar o mordomo? – ela parecia falar por entre os dentes cerrados.

Quin teve a sensação de estar a ter uma experiência alucinante. Ouvira dizer que aquelas coisas aconteciam quando os homens perdiam a cabeça e de repente beijavam a mulher do vigário.

Sempre pensara que a imprudência daquela natureza indicava uma profunda falta de inteligência, mas como não se sentia inclinado a questionar a sua própria aptidão teria de mudar de ideias. De fato, era bom que a sereia não fosse a mulher do vigário, porque gostaria de a beijar sem se importar com o seu santificado marido.

– Parece-me gelada – disse ele apercebendo-se que os dentes da jovem batiam.

Não admirava que parecesse estar falando de dentes cerrados. Precisava de uma bela lareira. Inclinou-se e ergueu-a nos braços sem pensar duas vezes.

Ela estava ensopada e a água imediatamente molhou as calças dele... o que o fez aperceber-se bruscamente de que o seu corpo concordava com o seu espírito. Se só de a ver ficara excitado, agora, com ela nos seus braços, a situação piorara. Ela era muito bela, suave, perfumada, molhada...

– Ponha-me já no chão!

Como que para acentuar a ordem, soou um latido agudo junto ao seu tornozelo. Quin olhou e viu um cão muito molhado e muito pequeno com um focinho extraordinariamente longo. O cão ladrou de novo numa ordem muito clara.

– Este animal pertence-lhe?

– Sim – disse a visitante. – A Lucy é minha. Faça o favor de me pôr no chão!

– Anda – disse Quin ao cão e – só um momento – à dama que começara a debater-se. Dirigiu-se para a sala, mas percebeu de que a lareira desse aposento fora apagada para a noite. Porém, havia um fogão a carvão na sala das pratas de Cleese que facilmente se acendia.

– Onde vai? – perguntou ela indignada ao perceber que ele mudava de direção. – O cocheiro está lá fora à chuva e...

– Cleese chegará dentro em pouco – disse-lhe ele. Os lábios dela eram fascinantes: cheios e carnudos e de uma cor mais rosada do que era habitual nas outras mulheres. – Ele ocupar-se-á do seu cocheiro.

– Quem é Cleese? – perguntou ela. – E… espere! Vai levar-me para os aposentos dos criados?

– Não me diga que é daquelas damas que nunca passou por uma porta de vaivém – disse ele, voltando-se de maneira a que passassem ambos de costas pela porta e depois mantendo-a aberta para que o cão entrasse. – O seu cão parece uma ratazana das margens do Tamisa – acrescentou ele. A sala prateada ficava à esquerda, de modo que ele a abriu com um pontapé.

– A Lucy não parece uma ratazana! E que tem isso a ver? Sou Miss Olivia Lytton e exijo…

Olivia. Gostou do nome. Olhou para as pestanas dela e para os lábios. Os olhos eram de uma cor maravilhosa, uma espécie de verde-claro, cor do mar… ou seriam da cor das folhas novas na primavera?

– Ponha-me no chão, seu bruto! – disse ela ferozmente e mais do que uma vez.

Ele não queria fazê-lo. De fato, queria até evitá-lo o que não parecia próprio da sua pessoa. Geralmente, não se importava com outras coisas que não as equações de polinómios. Ou com a luz. Mas Ms. Lytton era arredondada... maravilhosamente arredondada nos sítios certos. Cabia bem nos seus braços. Quin apreciava em particular a curva do traseiro. Já para não falar do fato de ela cheirar maravilhosamente, como a chuva e, ao de leve, de um tipo de flor.

– Vou informar o seu patrão! – falava num tom decididamente ameaçador. Como uma rainha. Colocou-a suavemente no sofá de Cleese e depois lançou uma pá de carvão para o fogão e agitou-o.

As chamas amarelas ergueram-se assim que ele fechou a porta do fogão e lançaram luz suficiente para ele poder observar o rosto da jovem. Esta estava furiosa, com os olhos semicerrados e os braços apertados em redor do corpo como se ele a fosse assediar.

Coisa que ele gostaria de tentar.

O cão saltara também para o sofá e estava empoleirado ao lado de Ms. Lytton. O animal era pouco maior do que uma bíblia, mas tinha os olhos ferozes de um cão de ataque.

De fato, Lucy e Ms. Lytton tinham certas parecenças, mas não no nariz.

Enquanto acendia o candeeiro Argand no aparador de Cleese, percebeu de que uma pessoa saberia sempre o que Ms. Lytton pensava. E, nesse momento, os olhos dela estavam cheios de raiva.

– Se não vai imediatamente chamar o seu patrão, farei com que ele o despeça sem quaisquer referências!

O cão ladrou como que para acentuar rispidamente aquela ameaça.

Uma estranha sensação borbulhou no peito de Quin. Só um segundo mais tarde se apercebeu de que era uma gargalhada.

– Vai fazer com que me despeçam?

Ela pôs-se de pé de um salto.

– Deixe de me olhar dessa maneira! Se tivesse um cérebro maior do que a pilinha de um rato já teria percebido que lhe estou dizendo uma coisa importante!

Ao ouvir aquilo, Quin surpreendeu-se a si próprio com uma gargalhada. A mãe não apreciaria o uso colorido que Ms. Lytton fazia da língua.

– Não posso perder a minha posição. Já nasci com ela.

– Nem se pode mesmo tolerar que o servidor de uma família ultrapasse os limites do que é devido. Aquilo pareceu-lhe vagamente familiar, porque era o tipo de coisas que a mãe costumava dizer.

Criava um estranho contraste com a pilinha de um rato. Nunca encontrara uma dama que admitisse conhecer termos daquela espécie.

Seguindo o instinto, Quin aproximou-se dela o suficiente para lhe sentir de novo o seu aroma cativante. Esperava que a jovem gritasse, mas enganou-se.

– Não sou um criado – declarou. Os olhos de ambos encontraram-se. O mundo da lógica e da razão, mundo que Quin habitualmente habitava, desapareceu. – E a senhora é muito bela – acrescentou.

Olivia pestanejou. E depois, como se fosse a mulher do vigário e ele o homem que enlouquecera de repente, Quin baixou a cabeça e tocou com os seus lábios nos dela.

Eram macios e cor de frutos silvestres como uma tarte de amora. Foi um beijo suave, pelo menos até ele a puxar de encontro ao peito. O seu corpo incendiou-se e o beijo mudou, passando a ser violento e profundo. Quin soltou um gemido silencioso e posou a mão na face, inclinando-lhe a cabeça para a poder beijar de novo...

Sentiu que a face dela estava gelada. Endireitou-se com alguma relutância.

– Será melhor ir buscar um cobertor.

Aquilo fez soltar o fio invisível que os mantivera a olhar um para o outro. Nesse momento, todo o ultraje inundou de novo os olhos dela. Uma sensação de integridade invadiu Quin. Conseguia ler nela como num livro.

– Suponho então que o senhor seja o duque – disse ela, rígida. – Apercebo-me agora que fala como um duque, embora deva dizer-lhe que não se comporta como tal.

– Não fui eu que fiz referências a pilinhas, quer pertençam a pequenos roedores ou a outros mamíferos. A última vez que ouvi essa palavra tinha cinco anos de idade.

Quin estava fascinado por ver que, embora as faces dela estivessem a ficar rosadas, ela erguia firmemente o narizinho.

– Lady Cecily está lá fora à chuva, tal como a minha irmã. Porque não manda alguém para lhes acudir, já para não falar do cocheiro? Está frio e a chover.

Olivia tinha o porte e o tom de uma duquesa, pensou ele. Mas… Lady Cecily?

– Lady Cecily Bumtrinket? A minha tia? Lady Cecily está lá fora à chuva?

Quando ela começou uma explicação que tinha a ver com a sua carruagem e o cocheiro desaparecido, Quin saiu do transe. Puxou os cordões ligados aos aposentos de Cleese, da cozinha e do terceiro andar. E, para que não restassem dúvidas, abriu a porta e gritou:

– Cleese!

Depois, voltou-se para Ms. Lytton que tremia ainda com os braços em redor do seu magnífico busto. Procurou o casaco e percebeu de que não o tinha vestido, nem sequer o colete. Não admirava que ela o considerara um criado. Um cavalheiro nunca andava em desalinho.

Havia uma libré pendurada na parede, Quin apanhou o casaco.

Os olhos dela pareciam desconfiados e escuros. Como ela não foi suficientemente rápida, lançou-lhe ele próprio o casaco em volta dos ombros e apertou-o bem, embora não gostasse de ver o seu busto sensual desaparecer debaixo das dobras de pano negro.

– Que aconteceu? – perguntou.

– Estou tentando dizer-lhe. Batemos num poste no fim do caminho. Creio que Lady Cecily está bem, mas tem o tornozelo magoado e dói-lhe uma orelha porque bateu com ela na janela. Felizmente eu e a minha irmã saímos ilesas, mas não encontro o cocheiro em parte alguma. Os cavalos parecem estar bem embora estivesse tão escuro que eu não consegui ter a certeza.

Quin tinha consciência de que o que mais queria era agarrar a sua encharcada visitante e sentar-se com ela no colo. Pelo menos não queria deixá-la só.

Só a ideia era um choque para ele. Só uma vez se sentira assim.

Quando conhecera Evangeline sentira-se embriagado. Vira-a dançando, delicada e alegre como se flutuasse ao vento e sucumbira ali mesmo. Mesmo agora, depois de anos de desilusão e desgosto lembrava-se da admiração que sentira.

Mas sentia também a cabeça a picar. Estava em risco de sucumbir uma vez mais. Como se fosse uma lebre na primavera... exatamente o que a mãe lhe dissera que não deveria fazer.

E mais, dado o vocabulário criativo de Ms. Lytton – já para não mencionar o fato de ela permitir que um homem que ela acreditava ser um criado a beijasse – era uma candidata pouco provável para o papel de duquesa de Sconce como Evangeline o fora.

Por isso sentira bem lá no fundo que nunca mais se deixaria enfeitiçar por uma mulher. Nem desejava humilhar-se casando pela segunda vez com uma mulher que não respeitasse os votos matrimoniais. Respirou fundo e desejou que o mundo retomasse a sua forma primitiva.

Ele era o duque de Sconce. Aquela jovem tinha sido convidada para sua casa como possível futura duquesa e era evidente e definitivamente inelegível. Ponto final.

Na verdade, aquele seu beijo impulsivo sugeria-lhe que deveria fazer um maior esforço para arranjar uma amante. Não era próprio da sua pessoa abordar mulheres desconhecidas que lhe apareciam à porta, por mais revelador que pudesse ser o seu vestuário.

Endireitou-se.

– Miss Lytton, certamente me perdoará se a deixar só por um momento.

– Certamente – murmurou ela. Olhava-o com um ar curioso e divertido.

Quin fez uma reverência.

– Vossa Graça – disse ela, apertando o casaco no pescoço. Deveria ser a sua imaginação que o fizera ouvir uma nota trocista na sua saudação.

Ele dirigiu-se para a porta sem pronunciar palavra.