Duas Irmãs, Um Duque
Capítulo 25
A Questão da Bênção Paternal
Quin estava na sala de armas, observando o extraordinário número de armas colecionadas pelos seus antepassados. Por fim, e depois de uma cuidadosa observação do que tinha diante de si, decidiu-se por um par de pequenas mas perigosas pistolas de bolso italianas.
– Acredito que tenham sido lubrificadas recentemente – disse a Creese.
– Pode ter a certeza, senhor duque.
Quin entregou as pistolas a Cleese e, distraído, viu o mordomo embrulhá-las cuidadosamente numa flanela e colocá-las numa caixa com o brasão dos Sconce.
Lá em cima, um duque morto para o mundo.
O herdeiro do duque numa praia de França, morto – ou quase.
Sentiu-se como se estivesse a viver dentro de um romance, dos que têm um enredo e personagens improváveis. A qualquer momento, uma armadura ou qualquer coisa igualmente disparatada cairia do céu.
– Apanharemos um barco em Dover – disse a Cleese, vendo-o guardar sacos de pólvora e balas na caixa. – Envia um criado à nossa frente para contratar o melhor comandante e o melhor barco possíveis. Lançaremos a âncora ao largo e usaremos um barco a remos, com os ramos camuflados sob a coberta da noite. Com sorte, o marquês estará em solo inglês amanhã à noite.
– Acredito que assim seja – declarou Cleeve, parecendo tão pouco convencido como Quin se sentia. A porta abriu-se.
– Ora aqui está!
Quin ergueu os olhos e sentiu uma onda de emoção tão forte que quase teve uma tontura. Olivia estava vestida para viajar. No meio de toda aquela crise tinha-se esquecido de como ela era bela: aqueles olhos verdes, da cor do mar, a boca feita para beijar.
– Está quase pronto? – perguntou.
Enervava-o a ideia de a deixar aproximar-se sequer do canal da Mancha. Contudo, sabia que não teria outra alternativa.
– Teremos de partir imediatamente – disse ela. – Quin leu-lhe a ansiedade no olhar, mas o seu sorriso era alegre e corajoso.
– Mas o que leva aí? – perguntou ele enquanto ela pousava um cesto no chão.
– A Lucy, claro – respondeu Olivia. – Parece-me que não gosta muito do cesto, mas não quero arriscar-me a que caia ao mar.
Quin avançou e tomou-lhe as mãos, olhando-lhe os belos olhos.
– Por favor, porque não fica aqui em segurança em Littlebourne enquanto eu vou buscar Rupert? Trago-lhe o marquês em menos de vinte e quatro horas, se for humanamente possível. Tenho a certeza de que o seu estado melhorou enquanto o correio veio nos avisar.
Olivia alargou o seu sorriso.
– Tinha de tentar – murmurou ele, tanto para si como para ela.
– A sua mãe espera-o no salão.
Quin retirou a caixa das pistolas das mãos de Cleese. Com ela estava preparado para proteger o melhor possível a sua dama. Tinha boa pontaria, mas sabia perfeitamente que apontar e uma pistola bem lubrificada não chegavam. Precisava de sorte.
Olivia estava junto ao seu ombro esquerdo.
– Quin ouviu? A sua mãe está à espera no...
Ele voltou-se e beijou-a nos lábios.
– Eu ouvi-a. Vou despedir-me rapidamente da senhora duquesa. Cleese mande já um criado a Dover e depois recolha a minha bagagem junto de Waller e assegure-se de que Miss Lytton está bem instalada na carruagem.
Olivia ficara rosada e sentia-se muito afogueada.
– Não devia beijar-me em frente de outras pessoas – murmurou.
– Beijá-la? – Depois pediu. – Cleese fecha os olhos. – Como sempre, o mordomo obedeceu imediatamente e Quin beijou mais uma vez a sua dama com força e apressadamente. – Está melhor assim? – perguntou num murmúrio, a voz rouca pela combinação de desejo e medo. – O nosso inestimável Cleese não viu esta intimidade. Mas poderei fazer-lhe notar, minha querida, que o nosso mordomo sabe tudo o que acontece nesta casa e tomou sem dúvida consciência da minha intenção de casar consigo ainda antes de mim?
– Cleese, terei de lhe pedir que não dê atenção ao seu amo – pediu Olivia revirando os olhos. – Não há dúvida que sucumbiu a toda esta tensão. – Dirigiu-se à porta, escapando-se à mão dele.
– É verdade, Quin, temos de nos apressar. Estou preocupada por podermos chegar demasiado tarde. Isto é, quero encontrar Rupert o mais depressa possível – acrescentou bastante aflita.
Quin pegou-lhe na mão, puxou-a para si e deu-lhe um beijo faminto. Como lhe apetecia desde que a deixara nessa madrugada.
Quando por fim ele ergueu a cabeça, ela encostava-se a ele com a respiração entrecortada.
– Beijo-a – afirmou Quin olhando-a nos olhos – diante de Quin ou do próprio Regente.
Olivia pestanejou um pouco comovida.
– Ou do papa – começou a provar a sua afirmação com pequenos beijos. – Ou do imperador do Sião. Ou do arcebispo de Cantuária.
Ouviu-se uma voz à porta.
– Tarquin.
O duque ergueu a cabeça e acenou para cumprimentar a mãe. Depois olhou de novo para a sua futura esposa e deu-lhe mais um beijo nos seus lábios rosados.
– Diante de todos e qualquer membro da minha família, incluindo a minha santa tia Velopia Sibble, que preferia que as pessoas comunicassem apenas com a divindade da sua escolha e também apenas por meio de preces.
Olivia abanou a cabeça.
– Espero por si no landau – fez uma pausa diante da duquesa e inclinou-se numa reverência. – Senhora duquesa. Pode considerar isto a fuga de uma criada, se o deseja.
– Como sem dúvida já se apercebeu, vou partir para França – disse Quin à mãe enquanto Olivia desaparecia pelo corredor. – Espero regressar amanhã, com um marquês ferido ou o corpo de um herói inglês. Não preciso de dizer que espero que se trate do primeiro caso.
– Afinal, Miss Lytton não pediu a sua ajuda para esta aventura temerária – declarou a duquesa. Tinha no rosto uma expressão ofendida e as mãos postas como as de uma santa de mármore. A comparação terminava aqui: a única santa de que se lembrava que pudesse ter uma voz tão autoritária como a da mãe seria Joana d’Arc.
– Miss Lytton não precisou de me pedir que a acompanhasse – confirmou ele. Porém, irei a França, com ou sem ela. Posso acompanhá-la ao salão? Não há tempo a perder e quero estar em Dover dentro de três horas.
– Dada a inclemência da presente situação política, preferiria que não viajasse até França.
– Bem sei. – Entretanto, verificava mentalmente as listas do que necessitava, tentando ao mesmo tempo acalmar a mãe e fazer tudo o que a aterrorizava. – Por favor, Cleese, mande pôr cordas e uma lanterna na carruagem. Oh, e pederneira.
A mãe ignorou a ordem e a presença do mordomo.
– Tenho de lhe pedir, não, exigir que reconsidere a sua partida para esta perigosa aventura. Montsurrey corre certamente perigo de vida, se é que não morreu já. Interroguei o sargento Grooper, o soldado que chegou aqui a meio da noite, e ele disse-me que o marquês mal podia erguer a cabeça do catre. E isto passou-se há mais de vinte e quatro horas. Certamente já estará morto.
– Se o marquês morreu, repatriarei o seu corpo para Inglaterra – afirmou Quin com firmeza, conduzindo a mãe pelo corredor até ao salão. – Trata-se de um herói de guerra. É o menos que qualquer cidadão inglês pode fazer por ele.
– E porque terá de ser o menino? – exclamou a duquesa viúva, pronunciando as palavras com uma aflição, para não dizer uma aflição nada habitual em si. – Poderemos fazer um apelo à Marinha! Sua Majestade enviaria uma força. Ou poderíamos contratar os Bow Street Runners. Pelo que ouvi, poderiam derrotar um batalhão francês sem qualquer problema.
– Sua Majestade não pode arriscar-se a dar a impressão de que uma força inglesa vai atacar as costas de França e a Marinha teria o mesmo problema. Mas trata-se de questões acadêmicas. Estou em dívida para com Montsurrey. Vou fazê-lo.
– Claro que não pode estar em dívida para com Montsurrey! Não me disse que nunca tinha estado com ele?
Tinham chegado à entrada e Quin deteve-se.
– Mãe, sabe que estou em dívida para com o marquês. E sabe perfeitamente por que razão nunca permitiria que Olivia...
– Miss Lytton.
Ele prosseguiu com firmeza.
– Compreende que eu nunca permitiria que Olivia atravessasse o canal da Mancha sem mim. Ela estava tão pálida que o ruge se destacava em manchas sobre as suas faces.
– Este esforço ousado e imprudente é uma perfeita loucura. Os franceses dispararão assim que o virem. E o menino não esteve na água desde que a sua mulher morreu!
Quin fechou um punho.
– É verdade que nunca atravessei a Mancha, mas apenas porque não precisei de ir ao Continente – o tom de voz de Quin escondia o fosso que se abrira no peito só de pensar que iria atravessar a mesma extensão de água que engolira o filho. Um duque nunca deveria ser presa de tal emoção, por isso tentou esquecê-la.
– A morte de Evangeline é irrelevante. Montsurrey precisa de mim; Olivia precisa de mim. E, francamente, minha mãe, não poderia encarar o duque de Canterwick quando ele recuperasse os sentidos, sabendo não ter feito os possíveis por resgatar o filho dele.
A mãe engoliu em seco.
– Canterwick não faria o mesmo por si.
– Tal como a morte de Evangeline, isso é irrelevante. Embarcaremos em Dover e a viagem demorará apenas quatro horas com vento de feição. Espero estar de volta amanhã. Os contrabandistas fazem isto todos os dias, sabe?
– Tenho medo da água – disse a duquesa com a voz tensa como a corda de um violino. – Quase o perdi nela.
Quin acenou afirmativamente; ambos sabiam que havia mais de uma maneira de perder alguém. Pegou na mão da mãe e levou-a aos lábios.
– A senhora educou-me para ser duque, minha mãe. Desgraçaria o meu título se permitisse que um homem do meu nível morresse numa terra estrangeira por causa da minha cobardia.
– Quem me dera tê-lo educado para ser um camponês – desejou a mãe em voz baixa.
– Senhora duquesa – disse ele, fazendo uma profunda reverência que mostrava o profundo respeito que sentia pela mãe.
Ela ergueu o queixo e depois curvou-se também numa reverência.
– Preferia não ter orgulho num filho que caminha para o perigo – declarou com os olhos brilhantes de lágrimas.
– Levo comigo a sua bênção – disse Quin ignorando as palavras dela e respondendo à expressão que lhe lia no olhar. Era uma coisa que estava a aprender com Olivia. Se se concentrasse, podia perceber o que as pessoas sentiam só de olhar atentamente para os olhos delas.
A mãe voltou-se e subiu a escada com os ombros rígidos e a cabeça erguida.