Duas Irmãs, Um Duque
Epílogo
Treze anos depois
A jovem tinha cabelo cor de ébano com uma madeixa branca caída para a testa. Lady Penelope Brook-Chatfield não sabia ainda – embora, com doze anos, começasse a aperceber-se – que era a mais bela dama da sua idade entre Kent e Londres e talvez até depois da capital. Lábios de cereja, maçãs do rosto salientes e o grito de uma amazona.
– Ainda por cima – resmungava Quin –, vai ser um horror. Vão fazer fila para a pedir em casamento e depois teremos de dar uma compensação ao seu pobre marido.
– Ora – disse Olivia em tom indolente, desfrutando do calor do verão à sombra do ulmeiro favorito de ambos, aquele que ficava no extremo de Ladybird Ridge e sob cujos ramos esvoaçavam pequenas borboletas.
Penelope corria por ali, atrás de um dos primos com um grito que fazia lembrar uma das novas locomotivas a vapor.
– O meu pai também é! – gritava. – O meu pai é valente!
– Não parece valente – comentou Olivia, metendo as mãos no cabelo de Quin, que, deitado na manta a seu lado, murmurava coisas para o ventre inchado que se erguia entre os dois.
– Estou tratando bem do bebê novo – disse ele depositando um beijo no lugar certo. – Vou guardar toda a minha valentia para os primeiros pretendentes da menina Penelope.
Na árvore, por cima deles, ouvia-se um restolhar.
– Cuidado – avisou Quin. – A sua mãe está aqui e temos de ser muito cuidadosos nestes dias, bem sabe.
– Eu sei.
Chovera muito naquele verão e a árvore estava carregada de folhas escuras. Um par de pernas finas surgiu da copa e balançaram um momento até Quin se pôr de pé, agarrá-las e colocar o filho no chão.
– Papá! – guinchou Penelope correndo para eles, com o cabelo ao vento. Devia ter perdido outra fita.
– A tia Georgie diz que o papai nunca matou piratas, por isso vá lá dizer-lhe que faz isso muitas vezes!
– Devia ensinar-lhe melhor o que pode e não pode fazer uma milícia local – murmurou Olivia
Quin pôs as mãos nas ancas e gritou:
– Diz à tia Georgiana que é o tio Justin que é bom a dar cabo dos piratas. Penelope chegou, toda ela pernas e cabelo sedoso. Agarrou-lhe na mão.
– Isso é absurdo, papai. Bem sabe que o tio Justin está sempre ocupado a cantar. Se quisesse matar um pirata, podia fazê-lo antes do pequeno-almoço. Venha dizer isso à tia Georgie – e arrastou-o atrás de si.
Master Leo Rupert, que detinha o título de Lorde Calderon (embora ainda não o soubesse), caiu de joelhos diante da mãe para lhe mostrar uma coleção de raminhos, todos precisamente do mesmo tamanho. Leo era imaginativo, sonhador e muito mais sossegado do que Penelope. Pensava o mais que podia, muito mais que as outras crianças de cinco anos.
– Pode construir-me qualquer coisa com os pauzinhos? – perguntou Olivia sentando-se com alguma dificuldade. – Talvez uma casa.
– Sou demasiado pequeno para construir uma casa – declarou Leo com uma sombra de enfado. – As pessoas da minha idade não constroem casas, sabe muito bem – guardou cuidadosamente os pauzinhos no bolso e levantou-se com os joelhos sujos.
– Que vai fazer com eles?
– Alfie e eu vamos construir uma estrada. Vou pedir ao tio Justin que nos ajude – depois lançou um sorriso à mãe, um sorriso ainda mais belo por ser grave e raramente usado.
– Onde está a Lucy?
– Está sentada na charrete – disse Olivia. – Sabe que agora a Lucy não gosta de sair do colo da vovó.
– Vou mostrar os pauzinhos à vovó – disse afastando-se
Olivia viu-o partir e ficou pensando. O marido voltou e sentou-se atrás dela, pousando as mãos abertas no ventre e puxando-a para o seu peito quente.
– Este bebê é maior do que os outros dois – observou.
– Quin, acha que é mesmo verdade que o Leo brinca sempre com um amigo chamado Alfie... que só ele consegue ver?
Quin puxou-a ainda mais para si e beijou-lhe a orelha.
– Julgas que ele o faz porque o seu papai fica contente?
Olivia encostou a cabeça ao ombro dele.
– Não. O Leo diria que o Alfie é seu amigo como tantas vezes o disse neste último ano. Quanto ao tamanho da minha barriga, começo pensando que possam ser gêmeos.
– Que possam ser gêmeos? – exclamou Quin. – Não poderá repensar essa ideia. Não sei bem se podemos nos arranjar com mais dois.
Olivia riu.
– Será este o mesmo homem que disse que queria a casa cheia de crianças?
– Foi antes de saber o barulho que fazem. Com os dois de Georgiana e o menino de Justin que chega amanhã... e sabe que essa criança é um perfeito terror, Olivia... os alicerces da casa tremem.
– Beija-me – pediu Olivia erguendo os olhos para o belo príncipe guerreiro que tinha por marido.
O primeiro beijo foi de adoração, mas gradualmente foi-se aprofundando até se transformar num beijo possessivo. As mãos de Quin percorreram o ventre e depois os seios numa curva mais suave e voluptuosa.
– Não pode – disse Olivia um pouco ofegante algum tempo depois. Tinham ambos uma respiração apressada.
– Vamos para casa – disse-lhe ele ao ouvido. – Quero-te. Quero a minha mulher numa tarde de um domingo do verão inglês. Quero-a nua, deitada na nossa cama, para que possa...
Penelope veio aos saltos para junto deles.
– Estão outra vez aos beijos? A vovó diz que é hora de irmos para casa e a ama disse que temos tarte de limão para o lanche. Venham! – E partiu a correr com as botas a brilhar por baixo das saias.
Quin ajudou a sua amada a levantar-se, tomou-lhe a mão e divertiu-a até à charrete murmurando tais sugestões que ela chegou rosada ao final de Ladybird Ridge.
– Ora – exclamou a duquesa ao ver o rosto de Olivia. – Não me espanta que esteja muito calor. A Lucy também já se sente mal.
Quin inclinou-se e puxou a orelha de Lucy.
– Então temos de ir para casa – disse, acenando ao criado que conduzia a segunda charrete com os filhos e os primos. Tomou as rédeas da sua. – Não podemos incomodar a Lucy. E creio que a minha mulher precisaria também de...
Olivia deu-lhe uma cotovelada.
– De uma sesta – disse ele, beijando-lhe o nariz.
A duquesa viúva olhou para os dois e depois para os belos campos que se espraiavam na propriedade dos Sconce. Nem todos os dias agradecia a Deus ter escolhido Georgiana para realizar os testes absurdos que havia imaginado e que Georgiana tivesse trazido Olivia.
Mas quase todos os dias.