Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 27 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 26

Os Perigos da Poesia ao Luar

Eram quase três horas quando saíram do porto de Dover num barco chamado Day Dream, uma escuna com uma pequena cabina logo acima da superfície da água. Olivia estava junto à vigia, a olhar para a água negra que a proa rasgava e que parecia ter para onde ir.

Levamos o barco a remos até uma pequena enseada, se bem a entendo – disse Quin por detrás do ombro de Olivia. Observava um mapa pormenorizado da costa francesa com o sargento Grooper, o soldado que os viera buscar. Embora Grooper tivesse vindo buscar o pai de Rupert.

Pobre Canterwick. Estava como morto. Olivia fora vê-lo antes de partirem e dissera-lhe que ia a França procurar Rupert e trazê-lo para casa. Talvez ele a tivesse ouvido.

– Sim – disse Grooper. – A cabana é mesmo aqui – apontou para uma pequena enseada com o dedo gordo. – Decorei o nome da cidade: Wizard, moveu de novo o dedo.

– Wissant – corrigiu-o Quin. – Creio que significa areia branca.

Olivia apertou mais a capa. Quin interrogara Grooper durante mais de duas horas, extraindo dele o caminho exato pela costa francesa que os homens de Rupert haviam tomado. Estavam numa chalupa, desesperados para não serem capturados. Não houvera qualquer problema até o estado de Rupert se tornar tão precário que começaram a ter medo de prosseguir viagem.

– Ardia em febre – contou Grooper atrás dela. – Dizia coisas sem nexo acerca dos campos verdes e assim. E de uma senhora que deixara em Inglaterra.

Olivia voltou-se e sorriu ao soldado.

– Pode dizer-me se ele perguntou por alguém com o nome de Lucy?

– É isso! Enquanto descíamos a costa era Lucy e mais Lucy – olhou-a. – Estou pensando que talvez a senhora se chame Lucy.

– Não, Mister Grooper, esta é a Lucy. – Apontou para a cadelinha que dormia no cesto a seus pés.

As frondosas sobrancelhas de Grooper quase saltaram.

– É a primeira vez que vi um homem preocupar-se tanto com um cão. Não me importo de lhe dizer. Olivia não julgou necessário prestar qualquer esclarecimento acerca de Rupert e da sua devoção por Lucy, portanto, limitou-se a acenar com a cabeça. Quin inclinava-se sobre o mapa decorando todas as fendas da costa. O casaco justo acentuava a largura dos ombros. Os ossos da face destacavam-se mais do que o habitual. E a madeixa branca do cabelo caía-lhe para a testa.

– O que mais me preocupa é que haja aqui uma guarnição muito perto da cabana – disse Quin, passando o dedo pela enseada onde Rupert poderia ser encontrado. – Viu soldados fazendo exercícios aqui perto?

– Estive aí apenas meia hora – respondeu Grooper. – Não sou homem para me deixar ficar junto à cama de um doente. Parti para Inglaterra assim que o major ficou instalado num catre. Não tínhamos muito tempo – abanou a cabeça. – Ainda vejo o pai dele de cada vez que fecho os olhos, a inclinar-se para o lado e a cair no chão. Deveria ter contado as coisas com mais calma a Sua Senhoria. Mas disse-lhe tudo bruscamente.

– Não foi o senhor – disse Olivia. – Foram as notícias que o perturbaram e não o senhor. Por muito delicado que tivesse sido, o duque pensou poder perder o filho que muito ama.

– Percebi isso – respondeu Grooper. – E não me importo de lhe dizer que todos os homens da companhia sentem o mesmo pelo major. Esperança Perdida, era assim que nos chamavam, porque ninguém esperava que fizéssemos o que quer que fosse – ergueu o queixo. – Éramos os homens que mais ninguém queria, sabia?

Olivia abanou a cabeça.

– Os outros recrutadores do exército não nos aceitaram e fomos deixados para trás, nem sei bem porquê. Pensaram que eu era demasiado velho, embora conheça o campo de batalha tão bem, se não melhor, do que qualquer outro homem. Havia outros que tinham sido feridos em serviço e que foram simplesmente mandados para casa.

Olivia compadeceu-se.

– Para casa? Para casa fazer o quê? Fazer malha? Não se diz a um soldado que vá para casa só por ter perdido uns dedos dos pés ou ter uma perna aleijada.

– Mas o marquês não concordou? – perguntou Olivia.

– A princípio fiquei nervoso. Era certo que ele não pensava como nós. Mas depois percebi como ele era. E, assim que percebi, o teria seguido para toda a parte.

Olivia sorriu.

– Até na subida das muralhas, não é verdade?

– É verdade. Sabe, as outras companhias já o haviam tentado, iam sempre a meio da noite, pensando que surpreendiam os franciús. Mas claro que não os apanhavam desprevenidos. Pois bem, o major disse que as subiríamos ao meio-dia e foi o que fez. Não parecia estar preocupado e, de fato, nenhum de nós o estava.

– É a atitude de um chefe nato – afirmou Quin. Endireitara-se, pusera o mapa de lado e inclinara-se sobre a mesa a ouvir.

Grooper acenou afirmativamente.

– Nessa altura tínhamos já atravessado Portugal até Badajoz e sabíamos que ele era um tipo como devia ser. Nos escutava. Dizia o que pensava e não falava mal de nós – fez uma pausa. – Sabem, era um pensador estranho.

Era uma maneira de definir Rupert, pensou Olivia.

– Então tomaram o forte.

– Foi canja – disse Grooper inchado de orgulho. – Sabem, os franciús estavam todos a almoçar. E quando eles comem... comem. São três pratos, quatro, cinco. Todos, até ao soldado mais baixo. O major sabia. Teve um preceptor francês e sabia como eles eram. E nos explicou de uma maneira que todos compreendemos.

Olivia sorriu. Gostava de pensar que Rupert fora aqui recebido com respeito e não com velado desdém.

– Derrubámos logo umas quantas sentinelas e tomámos o forte. E também não matámos muitos soldados franceses; deixámo-los fugir diretamente da mesa do almoço para San Cristobal. O major não gosta de mortes, a menos que seja para salvar a própria vida.

Olivia sorriu.

– Rupert é assim mesmo.

– O marquês foi ferido na luta? – perguntou Quin.

Grooper abanou a cabeça.

– Foi uma coisa do diabo... com perdão da palavra, minha senhora. Estava tudo bem e segurámos o forte durante três dias, até as forças inglesas poderem vir ter conosco. Mas não pensaram que conseguíssemos, sabe, ainda por cima porque as primeiras tentativas tinham falhado – o desagrado ouvia-se na voz. – Segurámos o forte e fizemos muito bem. Tínhamos todos os franciús na prisão, mas demos-lhes cobertores e muita comida. Porque o major disse que um francês privado de comida luta como uma ratazana encurralada. Certamente que, se estivessem aconchegados e bem alimentados, não se preocupariam muito. Nem tentariam fugir.

– Então o que aconteceu? – perguntou Olivia.

– O major, bem, gostava de caminhar sobre as muralhas à noite – referiu Grooper. – O guarda lá em cima... – Aclarou a garganta. – Bom, disse que o major estava a recitar poesia – a última palavra saiu relutante, como se confessasse que Rupert começara a fumar ópio.

– Recitar poesia não é geralmente considerado uma atividade perigosa – observou Quin.

– Não sou muito dado a poesias – reconheceu Grooper, conseguindo tornar implícito que considerava a poesia como pertencendo à mesma categoria da traição. – O major estava lá em cima nas muralhas, passeando a olhar para a Lua e mergulhou de cabeça.

– Estava a olhar para a Lua?

– Encontrámos um bocado de papel com uns versos acerca da Lua. De qualquer forma, a queda afetou-lhe o cérebro. Não recuperou os sentidos por um dia e pensámos que tivesse ido desta para melhor. Mas depois começou falando dessa Lucy... pensámos que fosse a senhora dele... por isso decidimos que tínhamos de o levar para Inglaterra. O médico de Wellington disse que teríamos de esperar até o major morrer para trazer o corpo.

– Ainda bem que não esperaram – interrompeu Olivia.

– O major não era como os outros comandantes – preocupava-se de fato conosco. – Grooper falava em voz um pouco rouca. – Colocámo-lo numa carroça e levámo-lo para a praia, depois apanhámos uma chalupa e trouxemo-lo para a costa norte de França, o que foi canja. E teríamos seguido para Inglaterra, só que pensámos que poderia ficar pior com o balanço das ondas. Podia magoar mais a cabeça.

Olivia pousou a mão na manga de Grooper.

– Fez o que tinha fazendo. Talvez o senhor duque não lhe tenha dito isto antes de desfalecer, mas está-lhe tremendamente grato, tal como eu.

– Não sei se o teríamos feito, se soubéssemos que Lucy é um cão – disse o sargento olhando para as mãos.

– Nesse caso, ainda bem que teve a ideia.

– Devemos estar perto da costa – disse Quin, interrompendo a conversa. – Olivia, espere aqui com o sargento Grooper – parecia pensar ser ele a ter a última palavra neste caso. – O capitão vai lançar a âncora e eu descerei o barco a remos para ir buscar o marquês.

– Não – disse Olivia mantendo a voz calma. – Tenciono ir também no barco a remos.

– Peço-lhe que não o faça.

– Não vim até aqui para ficar sentada ao largo. Se Rupert estiver vivo, pode não estar capaz de se aventurar a uma viagem num barco a remos, tal como o calcularam Grooper e os seus colegas soldados.

– Quando discutimos pela primeira vez esta possibilidade, não nos apercebemos que havia uma guarnição de soldados franceses muito próximo da cabana. Tenho grandes dúvidas de que Rupert e os dois homens que se mantiveram a seu lado estejam ainda em liberdade.

Olivia apertou os lábios para que não tremessem.

– É verdade que Rupert não é uma pessoa com muita sorte.

– Tenho a certeza de que podemos recuperar o seu corpo se pagarmos o suficiente aos franceses – disse Quin sem rodeios. – Levamo-lo para Inglaterra para ser enterrado com honras como pertence à sua posição e aos seus feitos. Mas não terá necessidade de arriscar a sua vida nesta aventura, Olivia. Eu levarei Rupert para casa – na sua voz havia uma intensidade que transformava as suas palavras numa promessa.

Olivia sentia as lágrimas chegarem-lhe aos olhos. Excetuando o pai, Rupert nunca tivera quem o defendesse. E agora tinha aquele duque magnífico e descomprometido. Tinha a certeza de que Quin nunca permitiria o mais leve insulto ao seu antigo rival.

– Rupert se sentiria honrado em conhecê-lo – assegurou ela com a voz entrecortada, apesar dos esforços. – E eu irei consigo no barco a remos.

– Não!

– Se não permitir que o acompanhe, irei ter consigo poucos momentos após atacar o pobre Grooper e nadar até à praia.

– Não há necessidade disso – disse Grooper, que parecia divertido com a escaramuça. – Que nunca digam que eu me meti entre um casal.

– Não somos casados – explicou Quin, com os olhos fixos em Olivia.

Grooper abanou a cabeça.

– E eu que pensava que a nobreza não tinha os mesmos costumes livres que o resto das pessoas. Não há dúvida que discutem como se já tivessem passado pela igreja.

– Sou uma excelente nadadora – insistiu Olivia, ignorando os comentários pouco proveitosos do sargento. Tentava afirmar-se, mas no momento em que as palavras lhe saíram da boca e viu a centelha de dor nos olhos de Quin, percebeu de que cometera um erro terrível.

Imediatamente se colocou ao lado dele e lhe passou um braço pela cintura.

– Não saltarei para a água. Prometo que não – tocou com os lábios nos dele. – Se Rupert estiver vivo, tenho de estar com ele. Ele há de reconhecer-me; nunca o viu a si.

– Levo comigo a Lucy.

Olivia sabia que, lá no fundo, teria de fazer o que desejava.

– Não pode tomar esta decisão por mim.

– Não será seguro para si – Quin falava em voz entrecortada, aflita.

Sem ser notado, Grooper subiu os degraus do convés, fechando a porta atrás de si.

– Não pode garantir a minha segurança – disse Olivia aproximando-se para sentir o peito dele de encontro ao seu. – Nem eu posso garantir a sua.

– Que diabo, Olivia, esses idiotas meteram Rupert numa cabana nas barbas de toda uma guarnição de soldados franceses. Se eles a capturarem... não.

– Não me capturam – disse ela, sentindo a agonia cortante do olhar dele cortar o coração. – Não cheguei até aqui a França para ficar simplesmente à espera no Day Dream. – Depois teve uma inspiração. – Não me vão capturar porque estarei consigo.

– Comigo – resmungou Quin, apertando o maxilar.

– Quero ficar consigo. Não só estarei em segurança, como não poderia suportar a tensão de não saber o que se passava consigo – sentiu remorsos de o manipular. – E se esses soldados avistam o Day Dream?

– Não avistam – disse ele. – Vamos fundear ao largo e apagar a lanterna.

Mas os olhos dele procuravam-lhe o rosto. Estava a escutá-la.

– Não posso deixá-lo morrer só – colocava na voz toda a sua força de vontade.

– Minha querida – Quin passou-lhe suavemente o polegar pela linha do lábio inferior. – Rupert está morto. Estou tentando imaginar como trazer o seu corpo até à enseada sem alertar os soldados. E se por alguma possibilidade remota estiver vivo, terei a Lucy comigo. Decerto será suficiente para as apresentações.

– Não! – Olivia nunca pensara que alguém como Quin pudesse amá-la. Mesmo assim, sabia instintivamente que ele teria, mas teria mesmo, de a respeitar. Teria de confiar nela, mesmo que o seu instinto o recusasse. – O pai dele não está. Sou a única pessoa no mundo que se preocupa com ele, Quin. A única. Tenho de ir ter com ele – olhou-o nos olhos. – A minha segurança pessoal é secundária.

É uma questão de ética.

Houve um momento de tensão e silêncio.

– Tem razão – disse Quin por fim relutante.

Ela prendeu a respiração.

Quin abraçou-a.

– É mesmo seu.

– Que quer dizer com isso? – perguntou ela num murmúrio.

– Ama a sua irmã o suficiente para desistir de mim. Ama Rupert, aquele pobre tonto. Ama Lucy com a pálpebra mordida. Até ama os seus pais que tanta falta de bom senso demonstraram ter.

Ela aclarou a garganta.

– Omitiu uma pessoa nessa lista.

– É a pessoa mais leal que conheço, Olivia. Nunca trairia os segredos de Rupert; nunca roubaria um homem que a sua irmã quisesse. Por isso, percebo que não poderia viver consigo própria se não se esforçasse por ficar ao lado de Rupert.

Olivia abriu a boca para dizer qualquer coisa acerca do amor, qualquer coisa acerca de como amava o homem complicado, duro e ao mesmo tempo fascinante que tinha diante de si, mas ouviu-se o ruído de uma queda na água, seguida do som de uma âncora a ser lançada o mais cuidadosamente possível.

– Muito bem – disse Quin muito sério. – Não me agrada, mas compreendo.

Olivia pôs-se em bicos de pés para lhe dar mais um leve beijo nos lábios.

– Amo-te.

As mãos de Quin apertaram-lhe os braços e ele beijou-a. Nada disse, mas não tinha importância. Olivia compreendia o amor como qualquer outra mulher e quando um homem olhava para uma mulher com desejo, posse e carinho ao mesmo tempo... é porque a ama, quer o diga ou não.

Olivia sorriu.

– O barco a remos está à nossa espera. Vamos então.