Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 5 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 4

O Que Está Gravado no Coração de Um Homem (ou de Uma Mulher)

Na noite seguinte, Olivia instalou-se no sofá da Sala Amarela duas horas antes da chegada do duque de Canterwick e de seu filho Rupert. Mrs. Lytton corria por todos os lados, gritando as mais variadas ordens aos criados. Mr. Lytton era mais dado a um passeio agitado do que a correrias. Mexia tanto na gravata que acabou por amarrotá-la e teve de a trocar.

A verdade é que os pais de Olivia tinham-se preparado para aquele momento durante toda a vida de casados e mesmo assim não acreditavam na sorte que tinham. A filha lia-lhes a incredulidade nos olhos.

O duque estaria disposto a concretizar aquele casamento, baseado numa promessa de rapaz feita havia muito anos? Lá no fundo, não estavam convencidos.

– Dignidade, virtude, afabilidade e porte – murmurou-lhe a mãe pela terceira vez naquela noite. O pai foi mais direto.

– Por amor de Deus, fecha a boca.

Olivia acenou afirmativamente. Outra vez.

– Não está nem um pouco nervosa? – sussurrou a mãe sentando-se ao lado dela.

– Não – declarou Olivia.

– É tão... tão pouco natural! Quase diria que a menina não quer ser duquesa. – Tal ideia era inconcebível para Mrs. Lytton.

– Como vou comprometer-me formalmente com um homem cujo cérebro faz parecer enorme um grão de areia, tenho de desejar ser duquesa – declarou Olivia.

– O cérebro do marquês é irrelevante – ripostou Mrs. Lytton franzindo a testa, mas alisando-a logo a seguir com a ponta dos dedos não fosse ter surgido nela uma ruga. – A menina será um dia duquesa. Nunca pensei em cérebros quando me casei com o seu pai. Só a ideia é imprópria de uma dama.

– Tenho a certeza que o pai mostrava uma inteligência normal – disse Olivia. Estava sentada, muito quieta, de modo a não desmanchar os seus caracóis ridiculamente artificiais.

– Mister Lytton fez-me uma visita. Dançámos. Nunca me preocupei com a sua inteligência. Pensa demasiado, Olivia!

– O que poderá não ser um inconveniente, dado que a mulher que casar com Rupert terá de pensar por dois.

– Estou com palpitações – queixou-se Mrs. Lytton com um pequeno suspiro sufocado. – Até os meus dedos dos pés estão inquietos. E se o duque muda de ideias? A menina... a menina não é tudo o que poderia ser. Se ao menos deixasse de tentar ser espirituosa, Olivia. Garanto-lhe que as suas brincadeiras não têm graça nenhuma.

– Eu não tento, senhora minha mãe – disse Olivia já a sentir-se um pouco zangada, embora tivesse prometido a si própria não discutir. – Simplesmente nem sempre concordo consigo. Vejo as coisas de maneira diferente.

– Diga o que disser, a menina gosta de graças muito rústicas.

– Então eu e Rupert faremos um belo par – acrescentou Olivia controlando-se para não se irritar. – Eu digo graças rústicas ele não tem graça nenhuma.

– Está vendo o que quero dizer? – acusou-a a mãe. – É pouco natural gracejar num momento como este, em que um marquês vem comprometer-se formalmente consigo.

Olivia estava calma. Sabia perfeitamente que o pai de Rupert chegaria à hora combinada, trazendo os papéis necessários para realizar o noivado. A presença do noivo parecia irrelevante.

O duque de Canterwick era um homem teimoso que não tinha qualquer interesse em arranjar para o filho uma esposa compatível, procurava, isso sim, uma ama. Uma ama fértil. Não precisava ter dinheiro e o dote que os pais tinham conseguido arranjar – e que era mais que respeitável para uma jovem do seu nível – não tinha a mínima importância.

As ancas e a inteligência de Olivia haviam convencido o duque a cumprir a tal promessa, conforme dissera à jovem no dia em que esta fizera quinze anos. Os pais tinham dado uma festa para as filhas e, para surpresa de todos, Sua Graça comparecera. Rupert não o acompanhara, pois tinha apenas onze anos na altura e ainda usava calções.

– O meu filho é um rematado idiota – dissera o duque a Olivia, olhando-a com tamanha insistência que os seus olhos pareciam um pouco saídos.

Como a sua opinião coincidia com a do duque, Olivia julgou que o melhor seria nada dizer.

– E a menina sabe-o – disse ele com clara satisfação. – A menina é ideal, minha querida. Tem inteligência e tem ancas.

Olivia deve ter estremecido porque ele disse imediatamente:

– Ancas significam filhos. A minha mulher era magra como um caniço e veja o que me aconteceu. Há duas coisas que quero na minha nora, uma é a inteligência. Não me importo de lhe dizer que, se a menina não tivesse essas duas qualidades, quebrava a promessa que fiz ao seu pai e procurava a mulher ideal noutro lado. Mas a menina é a pessoa certa.

Olivia acenara afirmativamente e a partir daí nunca duvidara de que um dia se casaria com Rupert. Sua Graça, o duque de Canterwick, não era homem dado a pormenores técnicos, como os sentimentos de Rupert ou os dela, que pudessem interpor-se numa decisão sua.

À medida que os anos passavam e o duque não levava o filho ao altar, mesmo com os pais dela cada vez mais nervosos, Olivia não se preocupava. Rupert era um rematado idiota e nunca iria mudar.

E as suas ancas também não.

Quando uma carruagem com o brasão ducal foi por fim avistada a entrar em Clarges Street, o pai tomou posição junto do ombro direito de Olivia, enquanto a mãe se sentou ao lado dela, com o perfil voltado para a porta e ajeitando as saias.

O duque entrou na sala sem permitir que o mordomo o anunciasse. Afinal, o duque de Canterwick não era homem que permitisse que outro – a não ser um membro da realeza – o precedesse. O seu aspeto mostrava aquilo que era, um homem dado a considerar arrivistas insolentes noventa e nove por cento dos elementos da população mundial.

Uma pessoa particularmente observadora, como Olivia, poderia ter reparado que o nariz do duque entrou na sala antes dele. Tinha uma probóscide magnífica no rosto, um nariz parecido com o puxador de uma porta. Mas disfarçava bem. Olivia calculava que fosse pelo modo como erguia a cabeça e espetava o queixo.

Parecia que a sua presença era a única coisa que tornava visíveis as outras pessoas, embora até ela tinha de admitir que esta ideia era muito invulgarmente rebuscada da sua parte. Uma senhora não se rebaixa a ter ideias extravagantes, diria a senhora sua mãe citando, naturalmente, O Espelho das Manias.

Mas as ideias extravagantes não pareciam faltar na cabeça de Olivia, mesmo quando fez a reverência com graciosidade consumada e lançou ao duque um sorriso bem calibrado entre a admiração e o respeito.

Por outro lado, Rupert foi presenteado com um sorriso entre a familiaridade e o respeito (este último totalmente fingido).

– Cá está você! – disse Rupert com o seu habitual entusiasmo.

Olivia curvou-se numa nova reverência e estendeu a mão. Como só lhe chegava ao ombro, Rupert não precisou de se curvar muito para lhe beijar a luva. Infelizmente, tinha herdado o nariz do pai, mas não a sua personalidade dominadora; e esse seu nariz obrigava a que se atentasse ainda mais na sua boca, que estava invariavelmente aberta, com os dentes de baixo visíveis num brilhante beicinho.

Olivia nunca se sentia tão feliz por usar luvas como quando recebia as saudações de Rupert. Invariavelmente, deixava-lhe uma mancha molhada nas costas da mãe.

– Cá está você – repetiu, endireitando-se com um enorme sorriso no rosto. – Cá está você! Cá está você! – Rupert era dado a afirmações que não significavam absolutamente nada.

De fato, enquanto Olivia concordava com aquela afirmação – de fato ali estava ela! – pensava nas diferenças entre Rupert e o pai.

O duque de Canterwick era muito inteligente. E mais, era implacável. Na opinião entendida de Olivia, a maioria das pessoas deixava que os sentimentos interferissem no seu pensamento lógico. Mas Canterwick não.

Dado esse nível de pensamento tão claro, era de espantar que o filho fosse não só manifestamente diminuído no que dizia respeito ao pensamento, mas também dado a excessos emocionais. Rupert fazia com que as pessoas se sentissem pouco à vontade, pensando que ele ia começar a cantar ou, pior ainda, a chorar. Quem se sentasse ao lado dele num jantar precisaria de pensar duas vezes antes de se mencionar um funeral recente, nem que fosse o de uma velha tia-vovó.

– E cá está a Lucy – disse num tom ainda mais entusiasmado. Lucy era uma cadela muito pequenina e com ar desleixado que Rupert encontrara abandonada num beco, mais ou menos um ano antes.

Lucy olhou para Olivia com uma expressão de adoração, abanando a fina cauda, semelhante à de um rato, como um metrónomo preparado para um molto allegro.

– Hoje não há empadas de carne – murmurou Olivia inclinando-se para puxar uma das orelhas compridas da cadela.

Era Lucy quem parecia ter as melhores maneiras. Lambeu a mão de Olivia, apesar desse desapontamento e depois correu atrás de Rupert.

Este fazia reverência aos pais de Olivia, oferecendo a esta uma visão excelente do seu nariz em forma de batata e do seu lábio pendular. Ocorreu a Olivia, e já não pela primeira vez, que estava destinada a casar com o tipo de homem que toda a gente desejava que fosse invisível. Ou pelo menos silencioso. Engoliu em seco.

– Pronto – anunciou Sua Graça. – Nunca ficaria de consciência tranquila se não tivesse a certeza absoluta de que Miss Lytton desejava tanto como nós esta união com o meu filho. Uma promessa entre colegas da escola não deve obrigar uma jovem ao matrimônio.

– Já lhe tinha dito – disse Rupert com palpável satisfação. – Ninguém me podia obrigar a casar. A decisão é minha.

– Ninguém quer cortar as asas – disse o pai irritado.

Mr. e Mrs. Lytton olharam para o seu genro em perspectiva com expressões idênticas de susto e confusão.

– O meu filho quer dizer que está profundamente entusiasmado com a ideia de se casar com Miss Lytton assim que regressar do serviço militar – esclareceu o duque.

As pestanas de Mrs. Lytton bateram violentamente.

– Primeiro vou fazer com que todos se orgulhem do nosso nome – declarou Rupert. – Glória e essas coisas.

O duque aclarou a garganta, olhando para o filho com os olhos muito abertos.

– A questão neste momento não é a sua intenção de provar as suas proezas militares, meu filho, mas sim saber se Miss Lytton estará disposta a esperar pelo seu regresso. A pobre menina é sua prometida já há algum tempo.

O rosto de Rupert contorceu-se numa expressão de ansiedade quase cômica.

– Tenho de cobrir de glória o nome da família – disse ele a Olivia. – O que quero dizer é, sou o último da nossa linhagem. Os outros morreram todos lá naquela batalha das lamas.

– No pântano de Culloden – esclareceu o pai. – O levantamento jacobita. Loucos, todos eles.

– Compreendo perfeitamente – disse Olivia a Rupert, resistindo ao impulso de retirar a sua mão da dele.

Ele agarrava-se a ela com força.

– Caso-me consigo assim que voltar. Preciso de trazer glória, compreende.

– Claro – conseguiu dizer Olivia. – Glória.

– Não há necessidade de se preocupar em relação à minha filha – disse Mrs. Lytton a Rupert. – Esperará por si sem sombra de dúvida. Durante meses, não, anos.

Olivia pensou que seria demasiado, mas claro que não era dona do tempo. Se os pais conseguissem o que queriam, ela teria de esperar talvez cinco anos até Rupert voltar descansadamente a Inglaterra coroado de glória ou, o mais certo, de ignomínia. A ideia de Rupert numa guerra era distintamente aterrorizadora: homens como ele nem deveriam tocar num canivete, quanto mais numa arma tão mortífera como a espada.

– Pronto, pronto, minha querida senhora – disse o duque a Mrs. Lytton. – Uma mãe não poderá sondar as profundezas do coração da filha.

Mrs. Lytton abriu a boca para discordar desta afirmação; não havia dúvidas de que julgava ter sondado as profundezas do coração de Olivia e apenas lá ter encontrado uma placa gravada com as palavras Futura Duquesa de Canterwick.

Mas o duque ergueu a mão, educado e firme. Depois voltou-se para Olivia que se curvou numa nova reverência bem calibrada.

– Falarei com Miss Lytton na vossa biblioteca – anunciou Sua Graça. – Entretanto, Rupert – só faltou estalar os dedos –, informe Mister Lytton acerca da situação em França. Meu caro, o senhor marquês tem estudado a situação com algum afinco e tenho a certeza de que poderá esclarecê-lo em relação aos graves problemas causados por uma derrota do outro lado do canal da Mancha.

Saíram do aposento na corrente de tagarelice de Rupert. Olivia permitiu-se a sentar-se quando chegaram à biblioteca: o duque manteve-se na sua postura habitual, pés afastados, mãos atrás das costas como se se encontrasse na proa de um navio. Pensando bem, refletiu Olivia, teria dado um ótimo capitão. O nariz seria útil para farejar os ventos de tempestade ou as provisões podres no porão.

– Para o caso de estar preocupada, minha querida, Rupert não se aproximará da costa francesa – anunciou Sua Graça.

Olivia acenou afirmativamente.

– Folgo muito em sabê-lo.

– Ficará em Portugal.

– Portugal? – repetiu Olivia, pensando que tivera razão. Rupert seria mantido à distância de um país da batalha.

– Os franceses combatem em Espanha, a pouca distância – disse o duque. – Mas Rupert atracará em Portugal e ficará aí. Quer estar ao lado de Wellington, mas simplesmente não o posso permitir.

Olivia inclinou de novo a cabeça.

O duque equilibrava-se ora num pé ora noutro, a primeira vez que Olivia o via mostrar a mais leve sugestão de incerteza. Depois prosseguiu.

– É um rapaz dócil, como virá a descobrir. Faz geralmente o que lhe dizem, sem grandes problemas. Aprendeu a... Até já sabe dançar. Não a quadrilha, claro, mas quase todas as outras danças. Só que quando enfia uma ideia na cabeça, não a tira de lá. E o problema é este: convenceu-se de que não casará sem obter a glória militar.

Olivia manteve-se perfeitamente impassível. Mas o duque leu-lhe no rosto algo de mais subtil.

– Espantoso, não é verdade? Culpo os seus preceptores por terem passado tanto tempo a martelar na cabeça a história da família. O primeiro duque comandou quinhentos homens numa batalha... e a melhor maneira de descrever esse envolvimento será como uma derrota gloriosa e épica. Mas claro que entre nós damos-lhe um brilho diferente. Ou, pelo menos, foi o que fizeram esses tutores idiotas. Rupert quer conduzir um bando de homens e voltar para casa coberto de glória.

Olivia percebeu subitamente de um sentimento de piedade pelo duque, coisa de que sem dúvida alguma se arrependeria.

– Talvez possa comandar uma pequena escaramuça – sugeriu ela

– Foi precisamente o que pensei – disse o duque com um suspiro. – Foram precisa algumas manobras, mas vai comandar uma companhia de cem homens.

– E o que fará com eles?

– Vai conduzi-los à batalha – disse o duque. – Em Portugal, a uma boa distância dos soldados que possam sentir-se inclinados a ripostar.

– Ah!

– Claro que fico preocupado sempre que ele sai de debaixo da minha vista.

Olivia também se preocuparia se sentisse o mais leve afeto por Rupert. O rapaz era o perfeito tipo do suicida. Oh, claro que não teria tal coisa na ideia. Mas seria capaz de se passear por Whitefriars com uma caixa de rapé coberta de pedras preciosas e um alfinete de gravata com um diamante. Suicida.

O duque bateu com a bengala nas lajes junto à lareira, como se quisesse extrair uma delas.

– A verdade é que estou preocupado com a possibilidade de Rupert não aceitar o casamento se eu o obrigar a subir ao altar.

Olivia acenou mais uma vez com a cabeça.

O duque lançou-lhe um olhar fugaz e deu mais uma boa pancada na laje por baixo dos seus pés.

– Poderia levá-lo à igreja, claro, mas não me surpreenderia se ele dissesse não no momento crucial, mesmo que eu enchesse a Catedral de São Paulo com testemunhas. Explicaria alegremente a razão pela qual se recusava a pronunciar os votos e ficaria certamente muito satisfeito por contar a toda a gente que tencionava casar-se consigo depois de ter obtido... – a voz do duque esmoreceu.

– A glória militar – Olivia terminou a frase por ele. Sentia muita pena do duque. Ninguém merecia ser humilhado daquela forma.

– Precisamente – soou outra pancada, juntamente com o inegável som da madeira lascada.

– Não tenho dúvidas de que o marquês voltará de Portugal satisfeito com as suas proezas – disse Olivia. E era verdade. Desde que alguém acompanhasse Rupert para poder descrever a sua marcha por uma estrada rural transformando-a numa valente subjugação de um inimigo (invisível), o rapaz regressaria contente a casa.

– Tenho a certeza de que a menina tem razão. – O duque encostou a bengala rachada à lareira e sentou-se diante de Olivia. – O que tenho a pedir-lhe é uma coisa que um cavalheiro nunca deveria solicitar a uma jovem dama.

– Alguma coisa que tenha a ver com o direito comum? – perguntou Olivia.

O duque franziu a testa.

– O direito comum? O que tem isso a ver?

– A lei antiga e a nova lei? Os meus pais disseram qualquer coisa acerca de leis mais antigas e mais modernas em relação aos noivados...

– A lei inglesa é a lei inglesa e, tanto quanto sei, o direito comum não tem nada a ver com um noivado – o duque lançou-lhe um olhar claro e penetrante. – As mulheres não se deveriam imiscuir nos assuntos da lei. Embora deva ter alguns conhecimentos, porque só Deus sabe se não terá de impedir que Rupert tome decisões sozinho. Mas eu ensinar-lhe-ei tudo isso. Assim que se casarem, a menina irá lá para casa e começarei a instruí-la.

Foi para Olivia um enorme triunfo não ter deixado escapar um sorriso, embora o seu coração batesse acelerado e uma voz em pânico lhe gritasse na cabeça: Instruí-la? Mais instrução?

Sua Graça não reparou no silêncio da jovem.

– Vou ter de lhe ensinar a si como ser um duque, já que Rupert não está

à altura do cargo. Mas a menina é suficientemente inteligente. Percebi isso quando fez quinze anos.

Olivia engoliu em seco e acenou afirmativamente.

– Compreendo – a voz soou muito fraca, mas de qualquer forma o duque nem a escutava.

– Talvez não saiba, mas o nosso título vem de um antigo ducado escocês – disse ainda sem a olhar nos olhos. Estendeu a mão e agarrou na bengala rachada para a colocar no colo, examinando-a como se pensasse se valeria ou não a pena arranjá-la.

– Estou ao fato disso – disse Olivia.

Era óbvio que o duque não tinha ideia da extensão dos seus conhecimentos em relação a Canterwick e à sua história. Seria mesmo capaz de lhe dizer o nome do primogénito do seu primo em quinto grau. E o nome do sétimo filho desse primo, o que ficara famoso por ter nascido na sala da Estalagem Cabeça de Javali depois de a mãe ter bebido cerveja a mais.

– Devido às nossas raízes ancestrais na Escócia, pode dar-se o caso de se aplicarem as leis escocesas.

– Ah!

O duque fez pressão com a bengala sobre os joelhos e esta partiu-se em duas. Não ergueu os olhos.

– Se a menina concebesse agora um filho, antes de Rupert partir para Portugal, essa criança seria legítima à luz da lei escocesa. Porém quero ser muito claro: a menina não se tornaria marquesa senão quando o meu filho regressasse e casasse consigo. Certamente diriam coisas pouco elogiosas a seu respeito, como diriam a respeito de qualquer mulher de esperanças sem o benéfico do matrimônio, embora, evidentemente, a menina ficasse imediatamente sob a minha proteção.

– Sim – murmurou Olivia.

– E eu não daria a Rupert qualquer possibilidade de se recusar a cumprir o seu dever. Se esse feliz acaso ocorresse, enviaria imediatamente os papéis de um casamento por procuração para serem assinados em Portugal. Desde que eles não se extraviassem... e não vejo razão para que tal acontecesse... a menina seria marquesa antes de a criança nascer – fez uma pausa. – Na eventualidade de acontecer alguma coisa a Rupert antes de os papéis do casamento por procuração estarem assinados, a menina teria a satisfação de ser mãe do futuro duque.

Olivia sentiu um terrível impulso de citar uma passagem do Livro dos Elogios: Nada é mais precioso do que a honra de uma virgem! Mas manteve-se em silêncio, sem se atrever a comentar que a criança poderia ser do sexo feminino, possibilidade que parecia não ter ocorrido ao duque.

– Quer daí resulte ou não uma criança, far-lhe-ei uma doação de bens vitalícios e uma pequena propriedade ficará em seu nome – prosseguiu Canterwick.

– Compreendo – respondeu Olivia. Se tinha compreendido bem, o duque acabara de lhe oferecer um terreno em troca da sua virgindade fora do casamento. Era uma ideia espantosa.

– Encarreguei Lady Cecily Bumtrinket de a acompanhar ao campo. Não poderá ficar em Canterwick Manor, claro, até que a procuração seja assinada ou o meu filho regresse para casar consigo. Não seria adequado.

– Lady Cecily Bumtrinket? – repetiu Olivia. – E eu não poderia ficar em casa até que um desses acontecimentos ocorresse?

– Não seria apropriado ficar aqui mais tempo – o duque olhou em redor do quarto com desdenhosa indiferença. – A menina e a sua irmã ficarão na propriedade do duque de Sconce até podermos resolver as pequenas formalidades. A duquesa viúva planeava convidar uma jovem para o campo de modo a certificar-se da sua adequação para a posição de duquesa. Convenci-a de que a sua irmã seria também uma candidata apropriada. O convite é um tributo aos seus pais, como informarei em breve a senhora sua mãe.

– Georgiana sentir-se-á grata pela confiança nela depositada. – murmurou Olivia.

– E assim deverá ser – declarou o duque. – Tomei a liberdade de informar Madame Claricilla de Bond Street que deverá vesti-la a si e à sua irmã para a nova temporada dentro de duas semanas. Deve aprender, minha querida, que nós os duques somos discretos. Podemos nos cruzar como os cães e os cavalos, mas preferimos acompanhar uns com os outros.

Olivia sentia a cabeça num turbilhão. Aparentemente fazia parte de uma experiência de cruzamento. E deveria ficar em casa da duquesa viúva de Sconce? A própria duquesa que escrevera aquele horrível volume chamado O Espelho dos Elogios?

O duque levantou-se e, por fim, olhou de frente para ela. Tinha sobrancelhas farfalhudas e intimidadoras combinadas com o enorme bico que era o nariz, mas, mesmo assim, Olivia leu-lhe bondade e desespero no olhar.

– Não se preocupe – disse ela impulsiva, pondo-se também de pé. – Rupert e eu daremos o nosso melhor.

– A culpa não é sua, sabe – referiu o duque. – Quando nasceu ele não respirava e os médicos julgam que isso lhe tenha afetado o cérebro. Os seus... os seus filhos não vão sair ao pobre rapaz.

Olivia avançou e tomou a mão do duque. Pela primeira vez nos seus muitos encontros sentiu por ele uma verdadeira afeição. De todas as pessoas e coisas ligadas ao ducado de Canterwick, o sogro seria uma das poucas de que não desconfiava.

– Daremos o nosso melhor – repetiu ela. – E nada acontecerá a Rupert em Portugal. É muita bondade sua deixá-lo seguir o sonho. Tenho a certeza de que se sentirá feliz por ter viajado para fora de Inglaterra.

O canto da boca do duque estremeceu.

– Sei que a mãe dele teria gostado. Teria dito que eu teria de permitir que ele crescesse para ser um homem por muito que eu desejasse tê-lo agarrado a mim.

Olivia pestanejou. Sabia muito pouco acerca da duquesa; os pais sempre lhe tinham dito que ela era doente e vivia retirada.

– Elizabeth quase morreu no parto – disse o duque pesaroso. – Sobreviveu, mas nunca mas foi a mesma. Não consegue comer sozinha, não me reconhece. Vive no campo.

A sua mulher e o seu filho ficaram afetados pelo mesmo acontecimento? – exclamou Olivia antes de se poder conter.

– Sim – disse o duque. – Foi terrível. Mas Rupert tem bom coração. É uma alma bondosa e alegre e, se eu não pensar em como ele poderia ser, nos damos os dois muito bem. E, minha querida, falei na sua inteligência e nas suas ancas, mas o mais importante é que a menina sempre foi boa para ele. Não é fácil. Ele tem uma certa tendência para falar atabalhoadamente, mas a menina nunca fez troça.

Olivia apertou mais a mão do duque.

– Prometo ser boa para ele – afirmou. E, naquele momento, foi como se pronunciasse os votos matrimoniais.

O duque esboçou mais uma vez o seu estranho sorriso.

– Vou mandá-lo ter consigo.

E desapareceu.