Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 24 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 23

A Razão Por Que os Heróis não São Tão Divertidos como os Duques

O jantar que se seguiu à chegada do duque de Canterwick nunca foi esquecido por nenhum dos deliciados e – após o alegre saltar das rolhas do champanhe – inebriados convidados. Embora houvesse um deles que, mesmo anos depois, se lembraria de sentir o mais completo desespero no meio de toda aquela celebração.

Quin vagueava por entre os convidados sentindo-se um fantasma: uma concha humana com uma aparência de rosto, mas sem outras distinções que não uma incrível falta de sorte no que dizia respeito a mulheres.

Depois do jantar dançou com Georgiana. Pelo canto do olho localizou Olivia e viu como passava de homem para homem, como eles a olhavam, riam com ela, se apaixonavam por ela e invejavam o marquês.

Claro que nenhum deles dava voz a uma emoção tão baixa: nem nessa noite nem depois de os franceses terem entregado o forte tão disputado e com a perda de tantas vidas inglesas.

Andava de sala em sala, porque se continuasse em movimento, ninguém o deteria para falar do marquês. Inveja era uma fraca palavra para descrever a emoção que sentia: era mais raiva, puro ódio, ciúme lívido e profundo. A mãe pôs a mão na manga, para o sossegar, mas deixou-o ir.

Não sabia o que ela lhe lera no olhar, mas não importava.

O pior é que saía do aposento em que Olivia estava... e dava por si a entrar nele pouco tempo depois. Não se enganava, sabia que não caminhava ao acaso. Tentou afastar-se...

Deu por si a procurá-la de novo. Uma e outra vez.

Pareceu uma eternidade até que a maioria dos convidados se retirou para os seus respetivos quartos e o ainda excitado e volúvel duque foi escoltado para a Câmara da Rainha, assim chamada porque a rainha Isabel lá dormira em três ocasiões.

Quin foi para os seus aposentos e tomou banho. Vestiu o roupão, mandou Waller embora e vestiu-se de novo. Esgueirou-se do quarto, seguiu pelo corredor, abriu a porta do quarto de Olivia e entrou.

Esta estava sentada de costas para ele, com os dedos dos pés esticados na direção do lume, lendo um livro, como no sonho dele. O corpo do duque transformou-se num archote latejante e dorido.

Aproximou-se silenciosamente, afastou-lhe o cabelo sedoso para o lado e inclinou-se para lhe beijar o pescoço.

O seu coração batia acelerado. Reconheceu a emoção que lhe inundava as veias. Poderia não ser a pessoa mais indicada para identificar a emoção, mas qualquer tolo poderia perceber do que se tratava. Era medo.

Rupert conseguira. Era agora um herói de guerra. Um herói de guerra.

Olivia teria de escolher entre casar com um homem que ficara em casa, como um chapeleiro, e outro que trepara pelas muralhas e tomara um forte, enchendo-se de glória. Que raio, Rupert podia mesmo ter influenciado o desfecho da guerra. Ele e a sua insignificante centena de homens.

Tocou com os lábios no pescoço dela e respirou aquela delicada combinação de flores e mistério que era a sua Olivia... enquanto esperava com uma sensação de terror que lhe ia das pontas dos dedos à sua alma, onde quer que esse misterioso órgão estivesse situado.

Já uma vez se sentira naquele estado: na primeira noite em que Evangeline não voltara para casa. Quando chegara com a luz da madrugada, dissera-lhe que ele era enfadonho e que a aborrecia tanto com as suas conversas sobre matemática que só lhe apetecia gritar. Passara a noite com um elemento da nobreza rural.

– Não podia recusar – dissera Evangeline com ar sonhador. – Ele foi à caça e surpreendeu um bando de contrabandistas. Capturou-os a todos. É um herói.

Mesmo meses depois, quando os contrabandistas foram a julgamento e se descobriu que não passavam de aldeãos esfomeados que tentavam apanhar coelhos nos bosques que o nobre gostava de considerar seus..., mesmo nessa altura, ela continuara a considerar o homem um herói.

Agora, aqui, os braços de Olivia ergueram-se e envolveram o pescoço. Os lábios de cereja, o brilho nos olhos que era só para ele...

– Desculpa – conseguiu dizer, mas só minutos ou talvez uma hora depois.

– Porquê? – Quin conseguira levá-la da cadeira para o tapete, as chamas cintilando aqui e ali sobre a pela leitosa de Olivia que, afinal, nada mais vestira de que um roupão e, embora tentasse mantê-lo fechado, ele conseguira abrir com alguma dificuldade.

O sangue corria-lhe célere no corpo, mas tinha de lhe dizer:

– Poderia casar-te com um herói de guerra se eu não te tivesse tirado a virgindade. Todas as mulheres gostam de heróis.

– Não é maravilhoso para Rupert? – disse ela a sorrir.

– Com certeza – respondeu ele em voz cava, mas dominando-se.

– Agora não teremos qualquer dificuldade em lhe arranjar esposa – continuou ela. – Passa-se alguma coisa, Quin? Não está com ciúmes do pobre Rupert, pois não?

Havia apenas uma resposta a dar.

– Sim.

Ela apoiou-se no cotovelo e acariciou o rosto com uma mão macia.

– Por favor, não me diga que quer ir para a guerra.

– Não posso. Tenho demasiadas responsabilidades. Mas sim, gostaria de ir. Li Maquiavel e Júlio César e Saxe. Gostaria de fazer alguma coisa de importante neste mundo.

– Percebo – disse ela, deitando-se para trás e cruzando os braços atrás da cabeça. – Está dizendo-me que tem de ficar em casa para tomar conta dos hectares de terra e assegurar-se de que as centenas de pessoas que tem a seu cuidado e que trabalham para si são alimentadas e vestidas e conseguem sobreviver... Espere! Isso é importante? – bateu-lhe no queixo. – Não. Tem razão. A menos que possa ir para França matar gente, a sua vida não tem sentido.

Quin fez um esforço, obrigando as palavras a sair da sua boca.

– Nestas circunstâncias, ainda quer casar comigo?

Ela franziu a testa.

– Que circunstâncias? Os triunfos de Rupert ou o episódio do ariete de ontem à noite?

– O ariete! – O pouco delicado sorriso dela fê-lo perder o fio à meada, mas recuperou-o. – Por causa dos triunfos de Rupert. Porque te poderia casar com um duque que parece ser um dos maiores heróis que o Império Britânico já conheceu.

Olivia esboçou um breve sorriso.

– Pois, isso é verdade, não é?

– Sim.

– Podia passar o resto da minha vida a discutir com o grande herói nacional o que a Lucy comera recentemente... ou deitar-me num tapete consigo.

O coração de Quin latejava nos ouvidos.

– Nua – acrescentou e os olhos dela tudo diziam. – Vulnerável ao ataque de um arie...

– Não repitas isso – o aperto no coração desaparecia. Ergueu-se e tirou as botas. Ela olhava-o com os olhos semicerrados.

Despiu a camisa e depois as calças.

– Olivia.

– Mmmm.

– Um ariete?

Retirou as cuecas e os olhos dela dirigiram-se para lá.

– É uma descrição rigorosa – declarou ela. – Olhe para si.

Quin olhou. Estava rampante, por assim dizer. E, sim, formidável.

– Realmente só deveríamos fazer amor depois de Montsurrey voltar para Inglaterra e ser informado da alteração das circunstâncias.

Com um arrepio de puro prazer, Quin viu-fazendo beicinho e os olhos dela mudarem de expressão. Afinal, o ariete não era assim tão assustador.

Deixou-se cair de joelhos e passou-lhe sensualmente os dedos pela encosta da sua face, pelo pescoço, depois mais abaixo...

– Isso não quer dizer que tenhamos de ser desconhecidos.

– Não? – murmurou ela, passando-lhe os braços pelo pescoço.

Ele baixou a cabeça, num gemido rouco que lhe escapara do peito.

– Não.