Duas Irmãs, Um Duque
Capítulo 1
Em Que Somos Apresentados a Uma Futura Duquesa
Clarges Street, 41, Mayfair
Londres
Residência de Mr. Lytton, Esq.
Amaioria dos noivados surge de uma de duas ferozes emoções: cobiça ou amor. Porém, Olivia Lytton não se sentia estimulada nem por uma troca de bens entre aristocratas semelhantes, nem por uma potente mistura de desejo, afinidade e setas de Cupido.
De fato, a futura noiva costumava, em momentos de desespero, atribuir o seu noivado a uma maldição.
– Talvez os nossos pais tenham se esquecido de convidar uma fada poderosa para o meu batizado – disse a sua irmã Georgiana quando voltavam para casa depois de um baile em casa do duque de Micklethwait, no qual Olivia passou tempos sem fim com o seu prometido. – Nem será preciso dizer que a maldição foi a mão de Rupert. Preferia dormir cem anos.
– Dormir tem os seus atrativos – concordou a irmã enquanto desciam da carruagem dos pais diante da casa.
Georgiana não terminou a frase positiva com a que se lhe opunha: o sono tem os seus atrativos mas Rupert tem poucos.
Olivia teve realmente de engolir em seco e ficar sentada mais um pouco na carruagem escura, antes de conseguir recompor-se e seguir a irmã. Sempre soubera que um dia seria duquesa de Canterwick, por isso não valia a pena sentir-se tão desgraçada. Mas pronto: uma noite passada com o seu futuro marido era um autêntico desespero.
Não ajudava nada que toda a cidade de Londres, a mãe incluída, a considerasse a jovem mais afortunada do mundo. A mãe ficaria horrorizada – porém, não surpreendida – ao ouvir Olivia considerar uma maldição a sua futura união com o ducado. Para os pais, era manifestamente evidente que a ascensão da filha na escala social era uma extraordinária felicidade. Resumindo: uma bênção.
– Graças a Deus – dissera Mr. Lytton, talvez cinco mil vezes depois de Olivia nascer. – Se eu não tivesse andado em Eton...
Era uma história que Olivia e a sua irmã gêmea Georgiana adoravam ouvir quando eram pequenas. Empoleiravam-se nos joelhos do pai e escutavam a emocionante história de como Mr. Lytton – feio, insignificante (embora aparentado com um duque por um lado e, por outro, com um bispo e uma marquesa) tinha andado em Eton e se tornara o melhor amigo do duque de Canterwick, que herdara aquele importante título com apenas cinco anos. Em determinada altura, os jovens fizeram um pacto de sangue, garantindo que a filha mais velha de Mr. Lytton se tornaria duquesa, casando com o filho mais velho do duque de Canterwick.
Mr. Lytton mostrara um louco entusiasmo em cumprir o seu papel para garantir esta eventualidade, pondo neste mundo não uma, mas duas filhas no final de um ano de casado. Porém, o duque de Canterwick pusera no mundo apenas um filho e só após alguns anos de casamento, mas era óbvio que um filho seria suficiente para a tarefa a cumprir.
Consequentemente, os orgulhosos pais da futura duquesa fizeram tudo o que lhe estava ao alcance para prepararem a sua primogênita (mais velha uns bons sete minutos) para o título que lhe caíra em sorte, não poupando despesas na formação da futura duquesa de Canterwick. Olivia foi orientada desde a hora em que saiu do berço. Aos dez anos era uma especialista nos pontos mais importantes da etiqueta, na gestão das propriedades (incluindo o método das partidas dobradas da contabilidade), sabia tocar cravo e espineta, cumprimentar em várias línguas Incluindo em latim (útil para visitar pelo menos os bispos) e cozinha francesa, embora estes últimos conhecimentos fossem mais intelectuais do que práticos. De fato, as duquesas nunca tocavam em comida senão para a comer.
Também conhecia perfeitamente como favorito da mãe. O Espelho dos Elogios: Uma Completa Academia para Obter a Arte de Ser Uma Senhora, cuja autora era nada mais, nada menos do que uma personalidade importante: Sua Graça a Duquesa Viúva de Sconce e fora oferecido às irmãs no dia em que fizeram doze anos.
A mãe de Olivia tinha de fato lido tantas vezes O Espelho dos Elogios que ele se enrolava na sua conversa como uma trepadeira sufocando uma árvore.
– A nobreza – dissera de manhã, diante das torradas e do doce de laranja, antes do baile Micklethwait – nos foi concedida pelos nossos antepassados, mas logo se desvanece se não for revitalizada pela virtude. – Olivia acenara com a cabeça. Ela própria acreditava piamente no desvanecimento da nobreza, mas a longa experiência ensinara-a que exprimir uma opinião provocaria uma dor de cabeça à mãe.
– A uma jovem – anunciara Mrs. Lytton a caminho do baile Micklethwait – nada é mais desagradável do que parlamentar com um admirador imodesto.
Olivia já sabia que não devia perguntar como se parlamentava com um admirador imodesto. A alta sociedade sabia-a prometida ao herdeiro do duque de Canterwick e por isso admiradores, imodestos ou modestos, raramente se incomodavam em aproximar-se.
Em geral, guardava aquele tipo de conselhos para o futuro, quando esperava conseguir várias parlamentações imodestas.
– Viste Lorde Webbe dançando com Mistress Shottery? – perguntou Olivia à irmã enquanto se dirigiam para o quarto. – É comovente ver como olham para os olhos um do outro. Devo dizer que a alta sociedade parece tomar os votos matrimoniais com a mesma seriedade que os franceses e todos dizem que a inclusão da fidelidade conjugal nos votos matrimoniais franceses transformou-os numa esplêndida obra de ficção.
– Olivia! – gemeu Georgiana. – Não pode! Não o faria, pois não?
– Esta perguntar-me se eu alguma vez seria infiel ao meu noivo depois de casar com ele... se por acaso esse dia chegar?
Georgiana acenou afirmativamente.
– Suponho que não – disse Olivia, embora por vezes perguntasse secretamente a si própria se um dia não quebraria todas as regras fugindo para Roma com um criado. – A única parte da noite em que de fato me diverti foi quando Lorde Pomtinius me recitou uns versos acerca de um abade adúltero.
– Não te atreva a repeti-los! – ordenou a irmã. Georgiana nunca mostrara qualquer desejo de contrariar as regras do decoro. Amava e vivia seguindo-as.
– Era uma vez um abade adúltero – troçou Olivia –, lúbrico...
Georgiana tapou os ouvidos.
– Não posso acreditar que ele te tenha dito tal coisa! O pai ficaria furioso se soubesse...
– Lorde Pomtinius estava com um grão na asa – disse Olivia. – Além do mais, tem noventa e seis anos e já não quer saber do decoro. Só se quer rir de vez em quando.
– Nem sequer faz sentido. Um abade adúltero? Como pode um abade ser adúltero? Os abades não se casam.
– Diz-me se quiser ouvir todo o poema – retorquiu Olivia. – Termina falando de freiras, por isso creio que a palavra foi usada com alguma liberdade.
Esse poema e o apreço que Olivia sentira por ele apontavam diretamente para o problema da transformação de Ms. Lytton em duquesa, ou, como diziam as jovens, duquesificação. Havia em Olivia algo déclassé, por muito elegante que fossem as suas maneiras, o seu porte, a sua voz. Podia certamente agir como uma duquesa, mas a verdadeira Olivia nunca nadava longe, o que era assustador.
– Falta-te aquele indefinível ar de responsabilidade que a sua irmã apresenta sem esforço algum – opinava frequentemente o pai com ar de desanimada resignação. – Resumindo, minha filha, o teu sentido de humor tende a ser vulgar.
– O seu comportamento deve aumentar sempre a sua honra – cantarolava a mãe, citando a duquesa de Sconce.
Mas Olivia encolhia os ombros.
– Se ao menos – dizia várias vezes a desesperada Mrs. Lytton ao marido – Georgiana tivesse nascido primeiro.
Porque Olivia não era a única participante no programa de treino dos Lytton. Olivia e Georgiana marcharam juntas pelas lições sobre o comportamento de uma duquesa, pois os pais, conscientes das infelicidades que poderiam ameaçar a filha mais velha – uma febre, uma carruagem desgovernada, uma queda de uma torre – duquesificaram também a filha mais nova.
Era tristemente perceptível a toda a gente que Georgiana atingira a qualidade de uma duquesa, enquanto Olivia... era Olivia. Sabia, sem dúvida, comportar-se com uma graça especial, mas entre os íntimos era sarcástica, demasiado espirituosa para um comportamento senhoril e muito pouco graciosa.
– Olha para mim de tal modo quando me atrevo a mencionar O Espelho dos Elogios – queixava-se Mrs. Lytton. – Certamente que apenas quero ajudar.
– Essa donzela vai um dia ser duquesa – dizia pesadamente Mr. Lytton. – Nessa altura ficará grata.
– Mas se ao menos… – dizia Mrs. Lytton melancólica. – A nossa querida Georgiana é exatamente... bem, ela seria uma perfeita duquesa, não acha?
De fato, a irmã de Olivia cedo começara a dominar a delicada arte de combinar um agradável ar de responsabilidade com um comportamento irrepreensivelmente modesto. Pelos anos fora, Georgiana criara um formidável conjunto de traços de duquesa: o modo de andar, de falar e o porte.
– Dignidade, virtude, afabilidade e comportamento – recitava constantemente Mrs. Lytton, transformando o que dizia numa canção de embalar.
Georgiana olhava para o espelho, verificando o seu porte digno e expressão afável. Olivia cantarolava para a mãe:
– Debilidade, vaidade, disparate e… insensatez!
Aos dezoito anos, Georgiana parecia, falava e até cheirava (graças ao perfume francês contrabandeado de Paris com grandes despesas) como uma duquesa. Olivia, em geral, não se preocupava.
Os Lytton eram, de certa maneira, felizes. Tinham, por todos os padrões sensatos, produzido uma duquesa, mesmo que essa filha não fosse a prometida do herdeiro do duque. Enquanto as filhas cresciam, diziam a si próprios que Georgiana seria uma esposa fantástica para qualquer homem de posição. Infelizmente, com o tempo, o casal deixou de dizer o que quer que fosse acerca do hipotético marido da segunda filha.
A triste verdade era que a duquesificada menina não era o que a maioria dos jovens desejava. Embora as virtudes de Georgiana fossem elogiadas por toda a alta sociedade – principalmente pelo grupo da duquesa viúva – a sua mão raramente era procurada para dançar e muito menos para casar.
Mr. e Mrs. Lytton interpretavam o problema de maneira diferente. Quanto a eles, a sua amada segunda filha manteria provavelmente na sombra da duquesa, sem sequer casar, visto não ter dote.
Os Lytton haviam gasto todo o rendimento de que podiam dispor em professores e, como resultado, a filha mais nova ficara praticamente impossibilitada de se colocar no mercado do casamento.
– Sacrificámos tudo pela Olivia – dizia muitas vezes Mrs. Lytton. – Não percebo porque não se mostra mais agradecida. É a donzela com mais sorte em toda a Inglaterra. Porém, não era assim que Olivia se considerava.
– A única razão que me leva a concordar casar com Rupert é poder dar-te um dote – descalçou as luvas, mordendo as pontas para as puxar dos dedos. – Para falar com franqueza, só a ideia do casamento me faz sentir levemente furiosa. Poderia suportar a posição social, embora não seja de fato o que mais me agrada, se ele não fosse aquela coisa estranha e barbuda com cara de peixe.
– Esta falar calão – censurou Georgiana. – E…
– De maneira nenhuma – respondeu Olivia, atirando as luvas para cima da cama. – É assim que eu lhe chamo e sabe tão bem quanto eu que o Espelho para Papalvos diz que o calão é... e passo a citar... maneira grosseira de falar utilizada pelos piores degenerados da nossa nação. E por muito que eu gostasse de atingir as habilitações para ser degenerada, não tenho a mínima esperança de conseguir esse título em toda a minha vida.
– Mas não devia – disse Georgiana, instalando-se no sofá diante da lareira de Olivia. Esta ficara com os aposentos mais imponentes da casa, ainda maiores do que os da mãe ou do pai, por isso as gémeas escondiam-se geralmente dos pais no quarto de Olivia.
Mas a reprimenda não teve a força habitual. Olivia franziu a testa ao olhar para a irmã.
– O que se passou esta noite, Georgie? Fui arrebatada pelo meu noivo semi-idiota e depois do jantar perdi-te o rasto.
– Teria sido fácil de encontrar – replicou Georgiana. – Estive sentada ao pé das viúvas durante quase toda a noite.
– Oh, minha querida – condoeu-se Olivia sentando-se ao lado da irmã para lhe dar um abraço apertado. – Espera só que eu chegue a duquesa. Vou oferecer-te um dote tão bom que todos os cavalheiros do país ficarão de joelhos só de pensar em você. Vão chamar-te Georgiana dourada.
Georgiana nem esboçou um sorriso, por isso Olivia prosseguiu.
– Gosto de me sentar com as viúvas. Sabem todas aquelas histórias que eu gosto de ouvir como aquela acerca de Lorde Mettersnatch que pagou sete guinéus para ser chicoteado.
A irmã franziu as sobrancelhas.
– Bem sei! Bem sei! – exclamou Olivia. – Vulgar, vulgar, vulgar. Mesmo assim, adorei a parte do disfarce de ama de leite. Na verdade, deveria sentir-te satisfeita por não estares na minha pele. Canterwick andou toda a noite para trás e para diante no salão de baile arrastando-me a mim e a Rupert atrás dele. Todos os lambe-botas riram nas minhas costas e foram informar o resto dos presentes no salão como o PP é extraordinariamente infeliz por se ir casar comigo.
Entre elas, Olivia e Georgiana referiam-se geralmente a Rupert Forrest G. Blakemore – marquês de Montsurrey e futuro duque de Canterwick – como PP, iniciais de Pretendente Parvo. Uma ocasião fora também AA (Apaixonado Alienado) e, como as jovens eram fluentes em francês e italiano, MM (marito ou mari maluco, consoante a língua que utilizavam no momento).
– A única coisa que faltou para tornar esta noite completa e irremediavelmente infernal – continuou Olivia – seria o mau funcionamento do guarda-roupa. Se alguém me tivesse pisado a bainha do vestido e o rasgasse, desnudando o meu traseiro para o mundo, talvez me tivesse sentido mais humilhada, mas certamente menos aborrecida.
Georgiana não respondeu; limitou-se a lançar a cabeça para trás e a olhar para o teto. Tinha um ar infeliz.
– Devemos ver as coisas pelo lado melhor – disse Olivia procurando falar num tom entusiasmado. – O PP dançou com as duas. Graças a Deus que por fim tem idade para frequentar bailes.
– Contou os passos em voz alta – afirmou Georgiana. – E disse que o meu vestido me fazia parecer uma nuvem gorda.
– Certamente não ficaria surpreendida ao descobrir que Rupert não foi fadado para a conversa elegante. Se alguém parecia uma nuvem gorda seria eu; você parecia uma virgem vestal. Muito mais digna do que uma nuvem.
– A dignidade não é desejável – retorquiu a irmã voltando a cabeça. Tinha os olhos cheios de lágrimas.
– Oh, Georgie! – Olivia abraçou-a mais uma vez. – Não chore, por favor. Dentro em breve serei duquesa e vou oferecer-te um dote tão bom e mandar-te fazer vestidos tão belos que será o espanto de Londres.
– É a minha quinta temporada, Olivia. Não poderá entender como é horrível nunca ter estado no mercado. Esta noite nenhum cavalheiro me prestou atenção e o mesmo se tem passado de há cinco anos para cá.
– Foi o vestido e o dote. Parecíamos fantasmas, mas não transparentes. Você, claro, era um fantasma esguio e eu um fantasma particularmente sólido.
Olivia e Georgiana envergavam vestidos semelhantes de fina seda branca, apanhados por baixo do peito com longas fitas enfeitadas com pequenas pérolas e borlas nas pontas. As mesmas fitas apareciam dos lados e nas costas dos vestidos, ondulando à mais leve brisa. Na página do figurino de Madame Wellbrook o desenho parecia extraordinário.
Mas havia uma lição a aprender... uma muito breve lição.
Lá porque as fitas ondulantes ficavam bem na jovem incrivelmente magra retratada no figurino, não queria dizer que também o ficassem quando pregadas nas nossas ancas....
– Vi-te dançando – continuou Olivia. – Parecia um daqueles mastros com tantas fitas a ondular à sua volta. E os teus caracóis também balançavam.
– Não importa – afirmou Georgiana com simplicidade. Limpou uma lágrima. – É a duquesificação, Olivia. Nenhum homem quer casar com uma puritana que age como uma viúva de noventa e seis anos. E – soltou um pequeno soluço – parece que não consigo comportar-me de outra maneira. Não acredito que alguém se ria nas tuas costas, a menos que seja de inveja. Mas eu sou um pãozinho sem sal. E eles ficam com os olhos vítreos quando têm de dançar comigo.
No fundo, Olivia acreditava que o programa de duquesificação tinha muito que se lhe dissesse. Mas apertou mais a irmã contra si e disse:
– Georgiana, tem uma figura fantástica, é doce como o mel e o fato de saberes pôr uma mesa para cem pessoas não tem nada a ver com isso. O casamento é um contrato e os contratos fazem-se por causa do dinheiro. Uma mulher tem de ter dote ou nenhum homem quererá desposá-la.
Georgiana fungou, o que serviu para demonstrar a sua perturbação, pois normalmente nunca fazia um gesto tão pouco refinado.
– A sua cintura põe-me doente de inveja – acrescentou Olivia. – Pareço um pote de manteiga, enquanto você é tão magra que poderia equilibrar-te como um anjo na cabeça de um alfinete.
A maior parte das damas casadoiras – incluindo Georgiana – era de fato etereamente magra. Flutuavam de aposento em aposento com sede diáfana envolvendo os seus corpos esguios.
Olivia não era assim. Era essa a triste verdade, a gangrena no coração da flor ducal, outra fonte de preocupações para Mrs. Lytton. A seu ver, os exageros de Olivia em relação aos ditos espirituosos vulgares e às torradas bem barradas com manteiga provinham dos mesmos defeitos de caráter. Olivia não discordava.
– Claro que não parece um pote de manteiga – afirmava a irmã, limpando mais algumas lágrimas.
– Ouvi uma coisa interessante esta noite – exclamou Olivia. – Parece que o duque de Sconce quer casar. Creio que precisa de um herdeiro. Imagina, Georgie. Poderia ser nora do mais emproado e engravatado de todos eles. Acha que a duquesa lê o Espelho das Larvas em voz alta à mesa do jantar? Decerto que haveria de te adorar. Julgo mesmo que seria a única mulher do reino que ela adoraria.
– As viúvas adoram-me sempre – disse Georgiana com nova fungadela. – Mas eu pensava que o Sconce era casado.
– Se a duquesa concordasse com a bigamia, certamente viria publicado no Espelho; assim, como tal não aconteceu, ele anda mesmo à procura de uma segunda mulher. A outra novidade, muito menos interessante, é que a mãe soube de uma dieta de alface e decidiu que eu tinha de a experimentar imediatamente.
– Alface?
– Só se pode comer alface entre as oito da manhã e as oito da noite.
– Que absurdo! Se quiser emagrecer, terá de deixar de comprar empadas de carne quando a mãe pensa que comprar fitas. Embora, para ser franca, Olivia, penso que deve comer o que quiser. Estou desesperada para me casar e, mesmo assim, a ideia de me casar com Rupert causa-me vontade de comer uma empada de carne.
– Quatro empadas – corrigiu Olivia. – Pelo menos.
– E mais, pouco importa que emagreça ou não – continuou Georgiana. – O PP não tem outro remédio se não casar contigo. Mesmo que te aparecessem agora umas orelhas de coelho, teria de casar contigo. Entretanto, ninguém suporta a ideia de casar comigo, por muito bela que seja a minha cintura. Preciso de dinheiro para… os subornar – falava de novo com voz entrecortada.
– Não passam de palhaços tontos – comentou Olivia, apertando de novo a irmã. – Não repararam em você, mas vão fazê-lo assim que o Rupert te dê um dote.
– Provavelmente, terei quarenta e oito anos quando vocês derem o sim.
– Quanto a isso, o Rupert vem cá amanhã ao fim da tarde com o pai para assinar os papéis do noivado. Depois, parece que vai diretamente para a guerra em França.
– Por amor de Deus – disse Georgiana, com os olhos muito abertos. – Vai mesmo ser duquesa. O PP está mesmo decidido!
– De vez em quando os pretendentes parvos morrem no campo de batalha – comentou Olivia. – Creio que o termo é carne para canhão.
A irmã soltou uma gargalhada.
– Pelo menos podia mostrar-te triste com essa perspectiva.
– Ficaria triste – protestou Olivia. – Penso eu.
– E terias razão para isso. Não só perderia a possibilidade de que te chamassem Sua Graça para o resto da sua vida, como veria os nossos pais darem as mãos para saltarem da ponte de Battersea para uma morte nas águas profundas.
– Nem imagino o que fariam a mãe e o pai se os franceses transformassem a galinha dos prometidos ovos de ouro em frango de fricassé.
– Que acontecerá se o PP morrer antes de se casar contigo? – perguntou Georgiana. – Legal ou não, um compromisso não é um casamento.
– Creio que esses papéis tornam a situação muito mais sólida. Tenho a certeza que grande parte da alta acredita que ele vai fugir a sete pés antes de chegarmos ao altar, devido à minha falta de beleza em geral, já para não falar do fato de eu não comer muita alface.
– Não seja ridícula. É muito bonita – assegurou Georgiana. – Tem os olhos mais bonitos que já vi. Não percebo porquê, mas eu tenho uns vulgares olhos castanhos e você tem olhos verdes, enormes – espreitou a irmã. – Verde-claros. Da cor do aipo, sabe?
– Se as minhas ancas fossem do tamanho do aipo, aí sim, teríamos razão para comemorar.
– É luxuriante – insistiu a irmã. – Como um pêssego doce e sumarento.
– Não me importo de ser um pêssego – disse Olivia. – Só é pena que o aipo esteja na moda.