Duas Irmãs, Um Duque
Capítulo 30
A Princesa e a…
Bessette seguido por Petit encaminhou Olivia através de uma porta e por um corredor húmido e gelado com teto em abóbada. O corredor descrevia uma curva à esquerda e as suas paredes eram de vez em quando interrompidas por portas sólidas, com aberturas de grades à altura do ombro.
– Que lugar é este? – perguntou Olivia – As catacumbas – respondeu o jovem soldado. – Construíram o armeiro aqui por cima e decidiram usar as catacumbas como cozinha e celas. Estamos no extremo. Ela deu-lhe a melhor cela... tem um buraco num canto.
Bessette abriu a porta de par em par e mostrou-lhe um quarto de pedra, nu, apenas com uma cadeira pouco segura caída de lado. Claro que havia um buraco malcheiroso no extremo oposto. Uma janela alta e pequena, também com grades, revelava o céu e um pouco de erva; afinal ela estava para todos os efeitos numa cave.
– Não pode deixar-me aqui – disse Olivia pegando-lhe num braço. – O meu noivo é duque. E eu sou uma dama.
– Odeio os ducs – disse Bessette sorrindo-lhe mais uma vez. – E também não gosto de Napoleão, mas o que eu mais odeio são os aristocratas – atirou-a para dentro e fechou a porta. Puxou a chave e entregou-a a Petit que os seguira sempre pelo corredor.
– Não deixes que esta te seduza para que lhe dês a chave – aconselhou. – Madame Fantomas não é para brincadeiras quando se zanga. Pensa no rolo da massa.
– O que a madame pensa não terá qualquer importância quando o meu noivo vos apanhar. A única resposta foi o som dos passos a afastarem-se no corredor.
Olivia respirou fundo, o que foi um erro. Quase vomitou com o fedor que vinha do buraco. Provavelmente, se habituaria ao cheiro em poucos minutos. Ou talvez entrasse ar fresco pela janela. Talvez quando as galinhas tivessem dentes.
Precisava pensar que, àquela hora, Rupert já partira ou... não. O que significava que Quin já teria regressado à praia e andaria à sua procura. Deveria estar desvairado.
A sua situação não era tão terrível como Quin calculara. Afinal, não caíra nas mãos de uma guarnição de soldados sedentos de sangue inglês. Uma padeira louca e um capitão beberrão não lhe causavam grande susto; se morresse ali, seria do cheiro.
Endireitou a cadeira e limpou o assento com a bainha do vestido estragado, colocando-se de maneira a que pudesse ver para fora da janela. A erva inclinava-se em determinado sítio e ela subiu à cadeira para ver se passava alguém, mas era apenas um gato preto à caça de um rato.
Quando ouviu a chave mover-se na fechadura, a luz era mais forte e tinha um tom amarelado, o mesmo soldado jovem, Petit, meteu a cabeça na porta.
– Mademoiselle – murmurou –, preparámos uma coisinha melhor para si. Pelo menos até que mon capitaine acorde. Tenho a certeza que a vai deixar ir assim que perceber que a senhora está aqui. Mas ninguém, senão ele, pode ir contra Madame Fantomas.
– Gostaria de ir para um sítio onde não houvesse um buraco – disse-lhe Olivia.
Petit tinha provavelmente dezesseis anos, embora parecesse ainda mais novo. Tinha os olhos da cor dos ovos dos piscos.
– Decidimos que a honra francesa não nos permite deixar uma dama num quarto assim, mesmo que seja espiã.
Ela riu.
– Garanto-lhe que não sou.
– Como pôde ver, a madame é uma fúria – disse ele, mantendo a porta aberta. – Não a irritamos porque não vale a pena e além do mais pesa o dobro de qualquer um de nós. Uma vez, um homem chamado Oboe deu-lhe um beliscão e ela bateu-lhe do lado da cabeça com um rolo da massa. Nunca recuperou a audição desse ouvido.
Escoltou-a a uma cela próxima, que não tinha buraco e por isso não se sentia o mau cheiro. A diferença mais importante da primeira era que, encostada à parede, debaixo da janela, havia um monte de colchões cada um forrado com um tecido diferente. As coberturas eram às riscas e às flores, o que as fazia parecer completamente incongruentes na cela húmida e fria e o monte de colchões chegava-lhe à altura da cabeça, mas havia uma pequena escada encostada a ele.
– Cada um de nós trouxe o seu colchão para aqui – disse Petit apontando para a pilha. – Somos vinte e empilhámos catorze. Pensámos que seria o suficiente para não sentir a humidade.
– São todos tão simpáticos – exclamou Olivia. – Na verdade, estava a começar a ficar muito fatigada.
– As damas não devem dormir no chão. A minha maman seria capaz de me matar. Dá-me licença que a ajude? – passou para o lado da escada.
– Merci beaucoup – agradeceu ela. Pegou-lhe na mão e subiu a escada, deixando-se cair para o colchão mais alto. Pôs-se de joelhos e olhou para baixo. O nariz de Petit estava ao nível do seu poleiro e de repente sentiu-se em posição precária.
– Será melhor deitar-se – disse ele. – Pode partir a cabeça como um ovo, se cair daí.
Ela acenou afirmativamente.
– Por acaso saberá se o meu noivo, o duque de Sconce, veio à minha procura?
– Não nos permitem sair a esta hora. Posso descobrir às quatro da tarde, quando sairmos em patrulha.
– Merci – disse ela, mas ouviu-se um barulho no corredor e ele recuou, batendo firmemente com a porta atrás de si.
Por momentos, Olivia ficou sentada, com a cabeça junto ao teto de pedra. Estava cansada e sentia-se tonta. Os colchões eram grumosos e irregulares, mas colocavam-na ao nível da pequena janela, que por sua vez estava ao nível de uma camada de erva brilhante.
Por fim, deitou-se em frente à janela vendo a erva balançar. Apesar de serem tantos, os colchões eram notavelmente desconfortáveis. Parecia-lhe ter um vulto nas costas, como se houvesse uma pedra metida lá dentro.
Voltou-se para um lado e para o outro, tentando encontrar uma posição confortável que evitasse o alto e lhe permitisse adormecer. Por fim, enrolou-se à volta desse vulto, desejando ficar imóvel. Enquanto dormia descontraiu-se e acordou, horas depois, com uma coisa dura a magoá-la no meio das costas.
Apalpou a coisa dura – não era um bocado de palha, pois era duro de mais para isso. Viu que o sol tinha avançado pelo quarto e chegava agora à parede oposta.
Nesta altura, Petit abriu a porta.
– Olá – disse ela em voz baixa.
– Boa tarde, mademoiselle – segurava um tabuleiro. – Trouxe-lhe qualquer coisa para comer. A madame dorme a sesta de tarde, embora infelizmente não saia da cozinha.
Subiu um degrau e entregou-lhe o tabuleiro.
– O pão é dela – disse apontando. – Embora a madame seja completamente louca, há padeiros em Paris que adorariam saber o que ela põe na putain.
– Valha-me Deus – disse Olivia. – Sabe se o duque veio à minha procura? – acrescentou ansiosa. Petit acenou afirmativamente com os olhos a brilhar.
– Ele obrigou mon capitaine a sair da cama e nunca se levanta antes da noite. O seu duque quase destruiu o quarto. Infelizmente, Le Capitaine não fazia ideia de que a senhora estivesse aqui.
Olivia gemeu.
– O duque foi-se embora?
– Sim, mas voltará dentro de mais ou menos uma hora. Antes de voltar para a cama, Le Capitaine prometeu enviar a patrulha à sua procura. Bessette planeia pedir ao seu duque cinquenta guinéus, mas madame diz que a senhora vale pelo menos cem.
– Nesse caso, sairei ao cair da noite.
– Que tal o colchão? – perguntou Petit com uma expressão estranha no rosto.
– Embora não queira parecer ingrata, tenho um pouco de receio de cair. Posso perguntar porque puseram tantos em cima uns dos outros?
O rapaz corou e pareceu subitamente ainda mais novo.
– Pensámos que se pareceria muito com uma simples cama se juntássemos apenas um ou dois colchões.
– Mas é uma cama.
– Sim, mas se se parecesse com uma cama, havia sempre a possibilidade de Bessette poder preparar-se para… – acenou com a mão. – A senhora estaria aqui numa cama, percebe. Mas assim é difícil chegar a si.
– O senhor é brilhante – disse Olivia com sinceridade. – Se houver alguma recompensa em dinheiro, vou garantir que siga na sua direção.
O rapaz sorriu.
– A ideia foi minha, mas todos contribuímos. Então, está confortável aí em cima, minha senhora? O colchão é... fofo?
– Claro – declarou Olivia, faltando agora à verdade. Hesitou um pouco, mas depois perguntou-lhe.
– Não será demasiado jovem para ser soldado?
– Tenho quase dezesseis anos – disse com orgulho. – Mas também nada acontece nesta guarnição – acrescentou quase fazendo beicinho. – Le Capitaine está apenas interessado em brande. A minha mãe obrigou-me a vir para aqui em vez de me juntar a um regimento como deve ser – parecia aborrecido.
Olivia sorriu-lhe.
– Creio que a sua mãe é muito sensata.
– Petit! São horas da revista! – As palavras ecoaram pelo longo corredor de pedra.
– Será necessária uma distração que faça com que a madame saia da cozinha – disse ele, com os olhos castanhos a brilhar. – Qualquer coisa que perturbe a guarnição antes que o duque entregue a Bessette os guinéus que ele exige – sorriu. – Vou pensar no assunto.
Desapareceu, batendo com a porta. Olivia ouviu a chave dar a volta.
– Uma distração? De que serviria se ela não pudesse fugir daquela cela? Passou a mão pelo colchão irregular, pensando na luz dos olhos de Petit. Quase diria que lhe tentara dar uma pista acerca dos colchões.
Olivia passou as pernas para fora e pôs-se de pé na escada. Meteu a mão entre o primeiro e o segundo colchão, mas continuava a sentir o alto sob os dedos. Tentou os outros dois a seguir, e os outros antes desses…
Era uma chave.
Uma chave metida entre os colchões, uma grande chave de ferro que parecia exatamente igual à que o jovem soldado usara para entrar na cela. Um sorriso se abriu no rosto. Podia esperar que Petit criasse a distração que prometera e depois sair do edifício diretamente para os braços de Quin. E se Madame Fantomas tentasse detê-la a caminho da cozinha, seria ela a bater-lhe na cabeça com o rolo da massa.
Soaram gritos no corredor.
– Espia, o que acha do meu pão? Olivia sorriu.
– Já comi melhor – respondeu também a gritar.
– Putain!