Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 10 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 9

A Apresentação de Lorde Justin Fiebvre

Nessa manhã, enquanto permitia que o criado o vestisse, Quin sentia-se feliz e confiante de que a loucura que o possuíra na noite anterior, desaparecera levada por algumas horas de sono.

De fato, mais do que algumas horas de sono, já que eram quase horas do almoço.

Sentia-se de novo ele mesmo, um homem que valorizava sobretudo a razão e o intelecto. Obviamente teria de manter as distâncias da núbil Ms. Lytton. Havia algo nela que fazia vir à tona o seu lado menos razoável. Chegaria mesmo a descrever-se nas garras de uma luxúria compulsiva.

Sonhara até com ela durante a noite, um tipo de sonho que não tivera durante anos. Nem desde os primeiros anos de casado.

No sonho, entrara num aposento e encontrara Olivia de costas para ele, a ler um livro. Dirigira-se a ela, o corpo latejando de febril antecipação e, sem pronunciar palavra, inclinara-se sobre ela, passando-lhe os dedos pela face, pelo pescoço...

Enquanto procedia a estas carícias, apercebia-se de que ela nada mais vestia do que um leve roupão. Depois, Olivia voltara o rosto para ele e, a sorrir, erguera os braços para o puxar para si. O roupão abrira-se e...

Era embaraçoso ter sonhos assim. Contudo, havia algo no sorriso de Ms. Lytton, mesmo o modo como ela o insultava, que lhe fazia acelerar o pulso.

Mas se um homem não aprendia com os seus erros, seria então menos inteligente do que qualquer membro do reino animal. Até estes aprendiam rapidamente a evitar o fogo da floresta.

Voltou-se quando o criado lhe abotoou o último botão do casaco e depois viu-se ao espelho. A mãe acreditava firmemente que um duque deveria sempre parecer e comportar-se como um membro da aristocracia; fora um felizardo por ela não o ter visto descer a escada a toda a pressa sem casaco.

O casaco fora feito por um alfaiate francês que fugira para Londres. Era cor de ameixa, tinha um corte austero, mas um inegável estilo continental com botões de madrepérola e uma centelha de seda verde no forro da gola e dos punhos. Quin nunca passara muito tempo pensando na sua aparência, mas tinha a certeza de que esta não era a de um guarda-livros.

O seu criado Waller entregou-lhe uma gravata de linho engomada. Erguendo o queixo, Quin começou a tratá-la com um procedimento matemático.

– Miss Lytton chegou com um pequeno rafeiro atrás.

– Saiba Vossa Graça que assim foi – respondeu Waller inclinando a cabeça. – O cão está sempre com ela, exceto quando lhe dão o banho diário. Tem sido assunto de conversa lá em baixo, pois ninguém diria que o animal tinha uma aparência aristocrática.

– Parece uma ratazana – afirmou Quin. – Mas, verdade seja dita, uma ratazana simpática.

– Até amorosa – concordou Waller.

– A minha mãe já foi informada? – Quin inseriu cuidadosamente um alfinete com uma pérola e um diamante nas dobras da gravata.

– Que eu saiba não – replicou Waller, oferecendo a Quin um par de luvas e um lenço engomado. – Mister Cleese julga que não deve ser ele a fazê-lo.

– Covarde – comentou Quin.

Apercebeu-se do sorriso de Waller quando saiu do aposento.

A mãe ficaria extremamente desagradada. Não suportava animais de espécie alguma. Na sua opinião, os animais eram bestas estúpidas controlados apenas por instintos básicos, incapazes de um comportamento civilizado do qual dependia o seu sentido de ordem. Nunca montava e nunca lhe permitirá ter animais de estimação na infância. De fato, saberia que a visita de Ms. Lytton seria breve assim que a duquesa viúva soubesse da existência do cão.

Afinal, Ms. Lytton era evidentemente inelegível, mesmo sem se ter em conta o rafeiro. Era demasiado dada ao prazer – o beijo passou-lhe rapidamente pelo espírito – e na noite anterior soltara uma risadinha. E mais, a risadinha dirigira-se a ele, ao imaginá-lo de touca de dormir.

Mas a irmã parecia ser muito diferente.

Quin pensava em Ms. Georgiana enquanto descia a escada. Esta soltara um suspiro de aflição quando a irmã o comparara a um guarda-livros. Parecia possuir um delicioso sentido de ordem e autocontrole e ser o tipo de mulher em quem se podia ter confiança de que nunca o embaraçaria em público ou em privado.

Bastava-lhe pensar em Evangeline para reconhecer como era profundamente importante para um casamento de sucesso ter confiança na contenção da mulher.

Cleese foi ter com ele ao fundo da escada e acompanhou-o enquanto atravessava a biblioteca; o almoço seria no terraço sobranceiro aos jardins. Quin dirigiu-se às portas abertas, irritado por se aperceber que o seu coração batia apressado. Claro que não estava emocionado com a ideia de voltar a ver a impudica Ms. Lytton.

Disse a si próprio que sentia um natural aumento de ansiedade por ir passar algum tempo com duas jovens, uma das quais, muito provavelmente, se tornaria sua mulher. Um homem com uma história conjugal infeliz tinha todo o direito de se sentir pouco seguro com essa perspectiva.

Claro que a primeira pessoa que viu foi Olivia Lytton. Parou até um momento, imobilizando-se à entrada da porta que levava ao terraço. A jovem envergara um vestido suave cor de violeta que parecia feito de seda e renda. Tiras de seda rodeavam o corpo, cruzando-se sobre os seios num decote grande, fazendo-o sentir vontade de a desembrulhar como um presente. Olivia tinha as curvas de um quadro de Rubens, de uma das exuberantes deusas da caça.

Ela inclinou-se a rir e Quin sentiu dificuldade em respirar. Apanhara o cabelo, mas algumas madeixas caíam-lhe em redor do rosto. Era…

Baixou os olhos. A sua casaca severamente cortada não estava preparada para ocultar aquele tipo de reações. Um constrangimento, disse para consigo regressando pouco à vontade à biblioteca.

Luxúria, disse para consigo. O seu corpo concordava com esta palavra, embora ela não fosse suficientemente forte para definir o feroz desejo que o invadia.

Ouviu um pequeno ruído aos seus pés. A cadelinha de Ms. Lytton estava ali, com o focinho estranho inclinado e a cauda fina agitando-se furiosamente. Quin ajoelhou e coçou o animal debaixo das enormes orelhas.

– É muito coquete – declarou. – Chamas-te Lucy, não é verdade?

A cadela agitou a cauda como que a concordar e lambeu a mão de Quin entusiasmada. Este respirou fundo e levantou-se, estava de novo calmo. Calçou as luvas.

– Anda lá – disse para Lucy. – Vamos ter com os outros ao terraço.

Mas, quando chegou à porta, o animal afastou-se para o lado e desapareceu atrás das cortinas. O grupo, florido e pitoresco, estava reunido no extremo do terraço. Com algum susto, percebeu de que era o único homem.

A mãe voltou-se para o cumprimentar.

– Cá está o menino – disse. – Quero apresentá-lo, Tarquin.

Quin aproximou-se e juntou-se ao círculo. A duquesa viúva começou pela esquerda.

– Miss Georgiana Lytton, o meu filho, duque de Sconce. – Georgiana mostrava apenas uma leve semelhança com a mulher encharcada que ajudara a sair da carruagem acidentada. Tinha cabelo castanho com madeixas cor de bronze, apanhado em caracóis em redor da cabeça. Os olhos eram alegres e inteligentes, mas o que mais lhe agradou foi sobretudo a sua graça natural e o porte digno.

Fez uma reverência. Georgiana inclinou a cabeça e baixou-se numa bonita reverência. A mãe dele observou-a com notório afeto.

Pronto, pensou Quin enquanto beijava a luva de Georgiana. Era perfeita. Parecia até uma futura duquesa. Envergava uma coisa cor-de-rosa com muitas preguinhas. Não se parecia nada com o vestido da irmã – não o fazia rugir de desejo –, mas teria de concluir que estava à la mode, com mangas curtas que formavam um balão em redor dos ombros, com uma espécie de elegância própria de uma modiste francesa.

Parecia pronta a que lhe pintassem o retrato para pendurar na parede ao lado do das outras duquesas que tinham habitado aquela casa.

– Miss Lytton, posso apresentar-lhe o duque – disse a mãe com a voz levemente alterada. – Miss Lytton é a irmã gêmea de Miss Georgiana. – Via-se perfeitamente que Olivia não era a favorita naquelas manobras matrimoniais, o que de modo algum o surpreendeu.

Olivia fez uma reverência, menos profunda do que a da irmã e Quin fez uma reverência. O cabelo dela era mais escuro do que o da irmã.

– Miss Lytton – continuou a mãe – está noiva do marquês de Montsurrey. Embora o marquês não frequente muito a sociedade, tenho a certeza de que conhece o pai, o duque de Canterwick da Casa dos Lordes.

Quin imobilizou-se a meio da reverência ao ouvir a palavra noiva e os seus lábios tocaram a luva de Olivia. Sentiu os dedos dela estremecerem na sua mão; ou talvez fosse a sua mão que estremecia em volta dos dedos dela. Suspirou.

– Realmente – disse. – Desejo as maiores felicidades para o seu noivado, Miss Lytton. Receio bem não ter tido o prazer de conhecer o marquês.

Ela sorriu. Tinha covinhas. Não, apenas uma covinha na face direita.

– Rupert comanda uma companhia contra os franceses – disse. – É muito patriótico.

– Deve ser – disse Quin, recompondo-se e fazendo um silencioso aceno ao marquês ausente. Também ele pensara em ir para a guerra com França, mas fora impossível, pois o pai morrera e não tinha irmãos, sendo por isso responsável pela enorme propriedade que se estendia por três condados ingleses, para não falar das terras na Escócia. Não podia partir.

– Tenho o maior respeito por esses homens que defendem o nosso país das incursões de Napoleão.

– Posso apresentar-lhe Lady Althea Renwitt e a mãe, Lady Sibblethorp – disse a duquesa viúva, ignorando a questão de Napoleão. Não concordava com a guerra; tinha fortes objeções contra os franceses que haviam dizimado a sua nobreza, mas não percebia por que razão a Inglaterra arriscaria vidas inglesas por isso. Quin desistira de lhe explicar. – Lady Althea, Lady Renwitt, o meu filho, duque de Sconce.

Lady Althea era muito baixa e tinha duas covinhas enquanto Olivia tinha apenas uma. Sorriu de tal forma que ambas, e também uma enorme extensão de dentes, ficaram em evidência e disse:

– É um prazer conhecer Vossa Graça. – Depois soltou uma risadinha.

– A minha irmã, Lady Cecily, não poderá reunir-se conosco, pois machucou o tornozelo no acidente de ontem à noite – disse a mãe. – Julgo que Cleese deseja agora começar a servir o almoço. Claro que não estamos em proporção. E não há sinais de Lorde Justin. – Voltou-se para Lady Sibblethorp. – É o filho do meu irmão. A mãe era francesa e suponho que tenha herdado desse lado da família a propensão para se atrasar. Por vezes, não aparece senão depois do segundo prato.

Quin pensou que a explicação mais provável era que Justin levava mais tempo a vestir-se do que uma mulher. Mesmo assim sentiu-se um pouco melhor por se lembrar que o primo também assistiria ao almoço. Embora não se pudesse dizer que Justin já fosse um homem aos dezesseis anos, meio homem seria melhor do que nenhum.

Nesse preciso momento ouviu-se um bater de tacões. Todos se voltaram para assistir à característica entrada triunfal de Lorde Justin Fiebvre que parou por um momento à porta, lançou para trás a madeixa de cabelo que constantemente – e era de acreditar deliberadamente – lhe obscurecia os olhos e exclamou:

– Quanta beleza! Sinto-me a entrar no Jardim das Hespérides.

Trazia Lucy debaixo do braço, com o focinho comprido metido na seda cor de pérola da extraordinária casaca bordada com arabescos prateados e contas azul-claras.

A duquesa viúva endireitou os ombros irritada. Permitia que Justin a afrontasse, o que era uma tolice na opinião de Quin. Justin não era completamente inglês nem completamente adulto, mas debaixo de todos aqueles folhos era um rapaz decente.

– Lorde Justin – declarou a duquesa. – Posso perguntar-lhe porque traz esse... esse animal debaixo do braço?

– Encontrei este amorzinho na biblioteca – respondeu com um sorriso. – Não poderia abandonar uma menina solitária.

Pela maneira como o olhava, a duquesa considerava a casaca pouco apropriada para um almoço no campo – embora fosse difícil distinguir a sua reprovação em relação ao traje do seu evidente desagrado pelos cães.

Mas Justin tinha o hábito encantador de ignorar o desagrado da tia. Tinha uma disposição muito alegre e preferia, como costumava dizer, ver a felicidade.

– E quem será a dona deste encanto? – perguntou olhando para todos enquanto acariciava a cabecinha de Lucy.

– É minha – disse Olivia aproximando-se. – Deixei-a na biblioteca pois parecia ter muito medo de vir para a luz do sol. Creio que a Lucy não seja uma cadelinha muito corajosa.

– Nem todos temos de ser corajosos – retorquiu Justin. – Eu, por exemplo, estou entre a maioria covarde, mas respeitável. A sua Lucy é simplesmente encantadora.

– Se quisesse fazer o favor de se juntar a nós, Lorde Justin – interrompeu a duquesa viúva. – Vou apresentá-lo às nossas convidadas.

– Que belo prazer me aguarda! – Justin posou Lucy a seus pés e o animal correu para junto de Olivia e escondeu-se atrás dela. A duquesa afastou as saias, mal abafando um grito.

Justin fez uma profunda reverência pegando na mão de cada dama, beijando-as ao de leve e murmurando elogios. Adorou o vestido de Ms. Lytton (e Quin também), o anel de Ms. Georgiana, as fitas de Lady Althea…

Quin ficou muito interessado ao ver que, enquanto Lady Althea caía num perfeito frenesim de covinhas, Olivia e a irmã pareciam mais divertidas do que encantadas.

Respirou fundo e obrigou-se a ficar calmo.

Para um homem que se orgulhava de não experimentar emoções, Quin reagira à novidade do noivado de Ms. Olivia Lytton com o marquês de Montsurrey com uma coisa tão primitiva que ele quase não se reconheceu.

Teve de evitar erguê-la e transportá-la para a biblioteca, para bater com a porta atrás de si – depois do que se asseguraria que ela desistiria do noivado.

Mas ele nunca batia com as portas. Isso era para… era para outros homens. Do tipo emocional. Quin não era emocional. O que era bom, recordou-se ele, porque estava em perigo de se surpreender.

Poderia estar a experimentar um qualquer tipo de insanidade temporária? Talvez houvesse uma síndrome médica que incluísse beijar a mulher do vigário e, como não houvesse qualquer matrona à mão de semear, beijar uma desconhecida que lhe aparecesse à porta a meio de um anoite de tempestade.

Claro que Olivia teria provavelmente todos os homens libidinosos de Londres a arfar atrás dela, dado a sua voluptuosa figura. O vestido que usava era feito de panos diferentes que a envolviam por cima e por baixo e havia também um toque de renda sobre os seus seios... talvez chamar-lhe a Síndrome de Olivia.

A questão era a…qual era a questão? Era invulgar Quin sentir-se a vaguear por entre pensamentos incoerentes.

– Como não temos número par – declarou a mãe dele –, lamento, mas algumas senhoras não serão acompanhadas. Tarquin, o menino pode acompanhar Miss Georgiana e Lady Althea até ao almoço. Lorde Justin, pode acompanhar Miss Lytton. Lady Sibblethorp e eu seguiremos juntas – fez uma pausa momentânea.

– Miss Lytton, pediria que colocasse esse cão dentro de casa antes de se juntar a nós. Não tolero os animais junto à mesa do almoço. De fato, preferiria que o animal ficasse sempre nos estábulos.

– Garanto a Vossa Graça que, se estivesse em meu poder meter a Lucy nos estábulos, falaria. Mas, antes de partir para a guerra, o meu noivo, o marquês de Montsurrey, implorou-me que a conservasse sempre junto a mim. Não poderia negar o pedido de um homem envolvido na defesa do nosso país.

– Tenho a certeza de que não falava literalmente – replicou acidamente a duquesa viúva.

– Receio que Rupert seja literal em todos os seus pedidos.

– De fato – a duquesa semicerrou os olhos. – Ouvi dizer qualquer coisa a esse respeito.

Quin ficou tenso com o que ouviu, mas Olivia limitou-se dizendo:

– De fato, parece-me que a Lucy se tomou de amores por Vossa Graça.

Todo o grupo ao mesmo tempo baixou os olhos e viu Lucy sentada junto às saias da duquesa, descansando a patinha na ponta do seu sapato.

A duquesa soltou um som estrangulado.

– Fora!

Lucy pareceu não se emocionar com a ordem. Limitou-se a erguer o focinho comprido e a soltar um pequeno uuff, deixando a pata onde estava.

– Tarquin! – chamou a duquesa baixando os olhos com o mesmo horror com que receberia um polvo dentro da sua banheira.

Antes de Quin poder ir em seu auxílio, Olivia pegou no cão.

– Lamento muito – exclamou. – Não fazia ideia que Vossa Graça tinha tanto medo de cães.

A duquesa viúva recuperou imediatamente a compostura.

– Claro que não tenho medo de cães. Simplesmente enervam-me por serem sujos. Dado que sei quem é o seu noivo, Miss Lytton, penso que podemos ambas concordar que pode ignorar o pedido dele. Ponha o cão nos estábulos. Comece já para depois poder continuar.

Foi a vez de Olivia se irritar.

– Tenho a certeza de que Vossa Graça não deseja falar nesses termos do marquês de Montsurrey – e, quando a duquesa abriu a boca, Olivia continuou. – Eu própria sentiria relutância em ser desleal, mas não me ofendo, pois tenho a certeza de que Vossa Graça não tinha qualquer intenção de sugerir algo que lhe mancharia a reputação da cortesia.

Quin nem se preocupou em deslindar o assunto; percebia que fora lançada uma luva aos seus pés. A mãe mantinha-se rígida como um soldado em parada e Olivia também. Eram aproximadamente da mesma altura e pareciam mostrar igual força de vontade. E, o que era ainda mais enervante, cada uma das damas tinha um leve sorriso no rosto.

– Desde que Lucy se mantenha na minha presença, exceto às refeições, conforme exigido pelo meu noivo – prosseguiu Olivia –, farei os possíveis por mantê-la fora da vista de Vossa Graça.

Houve um terrível momento após o qual a duquesa viúva disse:

– Assim terá de ser.

Olivia inclinou-se numa reverência, mantendo Lucy debaixo do braço.

– Espero não ter ofendido Vossa Graça, mas fui levada pela recordação das vossas palavras: Uma dama prefere uma suave reprimenda a um elogio extravagante.

Ouviu-se uma suave exclamação da parte de Lady Sibblethorp e Quin achou que era tempo de separar os adversários antes que a mãe esquecesse alguns dos preceitos que lhe eram tão caros; pela sua parte, Olivia parecia considerá-los pouco mais que armas.

– Miss Georgiana e Lady Althea – exclamou. – Dão-me a honra de as acompanhar ao almoço?

– Miss Lytton – perguntou Justin em voz doce. – Posso entregar a Lucy a um criado?

Mas a duquesa viúva, com o queixo levantado, ignorou ambos.

– Creio que subestimei a sua afeição pelo marquês, Miss Lytton.

– O meu noivo não demonstra grandes capacidades, mas garanto a Vossa Graça que a doçura do seu caráter inspira lealdade.

A duquesa viúva acenou afirmativamente. Para surpresa de Quin, lia-se nos olhos um respeito pouco habitual.

– Desejo que me perdoe pela indignidade da minha sugestão.

O sorriso de Olivia era encantador.

– E eu arrependo-me do fundo do coração das palavras pouco delicadas com que me dirigi a Vossa Graça.

– Por amor de Deus – gemeu Justin, de modo a ser ouvido. – Parece-me que estou a assistir a uma aula de elocução.

Nenhuma das damas lhe prestou a mínima atenção.

– O marquês de Montsurrey é um felizardo – declarou a duquesa. – Escreverei imediatamente a seu pai, informando-o que a escolha da mulher para o filho é uma honra para a família.

Olivia baixou a cabeça e inclinou-se em mais uma profunda reverência.

Quin, que se distraíra momentaneamente do assunto do noivado de Olivia, teve de se controlar para não soltar um urro.

Felizardo? Se bem se apercebera, o pai de Montsurrey escolhera Olivia do mesmo modo que ele permitia que a mãe lhe escolhesse esposa.

De súbito, percebeu de que Georgiana lhe sorria expectante. Inclinou-se, rígido como uma marionete.

– Miss Georgiana.

Ela passou-lhe a mão por baixo do braço.

– Vossa Graça.

Não eram restos. Não eram.