Duas Irmãs, Um Duque
Capítulo 12
Os Méritos do Leite-Creme e das Groselhas
Logo após o regresso do pequeno grupo a Littlebourne Manor – depois da inspeção, diagnóstico e tratamento da infeliz urticária de Annie –, a duquesa enviou todas as senhoras para os seus aposentos a fim de mudarem de roupa e depois ergueu um dedo na direção de Quin.
– Acompanhe-me, por favor, duque – disse. – Me sentiria grata pelo apoio do seu braço enquanto dou uma volta pelos jardins.
Assim que ficaram longe do alcance dos ouvidos das convidadas, a duquesa deteve-se.
– Tarquin, não me agrada a presença de Miss Lytton.
– Sim – concordou Quin.
– Contudo, a irmã dela, Miss Georgiana, parece-me uma adequada candidata a duquesa. Foi notável durante a conversa com Mistress Knockem e a oferecida da filha cuja urticária, a propósito, não foi mais do que merecida, dado o seu comportamento folgado. De qualquer forma, Miss Georgiana mostrou compaixão pela inválida e também uma atitude bondosa, mas reservada, em relação à família como um todo. Manteve as distâncias sem nunca se mostrar arrogante. Aprovei completamente.
Quin murmurou qualquer coisa, pensando que Olivia nunca se preocupara em manter as distâncias com a família Knockem.
– De fato, o único senão que identifico – continuou a mãe – é a irmã mais velha. Porém, como Miss Lytton casará assim que aquele tontinho regresse de França, o prazer da sua companhia... ou o contrário, pouco importa.
– Tontinho? – perguntou Quin.
– Montsurrey – a mãe fez um gesto de impaciência. – Miss Lytton parece reconciliada com o assunto; tenho de a admirar por isso. E teve razão quando eu me descaí: não deveria ter desacreditado um par do reino, o que quer que fosse que tivesse ouvido acerca do futuro duque. No entanto – acrescentou –, foi o próprio pai dele que o descreveu como tendo os miolos mais moles que leite-creme.
– Leite-creme – repetiu Quin.
– Irrelevante – declarou a duquesa. – O que lhe quero dizer é que o menino tem de afastar Miss Lytton e o seu cão da minha vista, Tarquin. Como sabe, considero muito importante realizar os testes de maneira sensata. Não o poderei fazer se estiver ocupada em esgrimir contra uma criatura com metade da minha idade.
– Ela esteve muito bem – comentou Quin, certificando-se de que a satisfação não se notava na voz dele.
– Eu sei – respondeu a mãe severamente. – Por isso, para a minha paz de espírito, peço-lhe que ocupe essa jovem impetuosa e a rafeira enquanto eu continuo a explorar o caráter de Lady Althea e de Miss Georgiana.
– Muito bem – acedeu Quin.
A mãe apertou a mão no braço dele.
– Bem sei que Miss Lytton é uma companhia provocadora e muito cansativa e peço-lhe desculpa por o sobrecarregar. Pelo menos, não preciso de me preocupar que sucumba aos encantos dela. Para já tem uma figura muito pouco atraente. Mas em que estaria pensando quando vestiu um vestido tão revelador quando tem tanta carne a mais?
Quin nada disse.
– Além disso – prosseguiu a mãe falando para consigo própria –, Miss Lytton parece ser admiravelmente dedicada a Montsurrey. Por isso, aqui entre nós, en famille, creio que poderemos dispensar uma acompanhante. De fato, tenho de dar razão a Canterwick. Percebo por que razão se adequa tão bem ao rapaz.
– Rapaz?
– Montsurrey deve ser pelo menos cinco anos mais novo do que ela – disse a mãe, dando meia volta para regressar a casa. – Acho divertido que tanto Canterwick como eu tenhamos procurado na família Lytton uma possível aliança para os nossos filhos. Bem sei que os Lytton estão bem relacionados em ambos os lados, mas nem por isso pertencem à aristocracia. É um tributo a...
Mas Quin deixara de escutar a mãe. Olivia estava prometida a um rapaz, um rapaz que, segundo a mãe, tinha espírito de pássaro.
Olivia? – A irônica e espirituosa Olivia? Impossível.
– Não concordas, Tarquin? – perguntou a mãe rispidamente.
– Lamento. Creio que perdi o rumo da conversa.
– Estava dizendo que Miss Lytton era notavelmente afortunada por ter sido escolhida pelo duque de Canterwick para casar com o filho. Não importa o seu nascimento, a sua figura e os seus modos impertinentes.
Quin olhou para a mãe.
– Mas ela é muito bonita.
– Bonita? Bonita? Com certeza que não. É redonda como uma groselha, o que indica que é glutona. E não gosto dos olhos dela.
– De fato, são verdes da cor das groselhas – disse Quin. – Uma cor de olhos que eu nunca tinha visto.
– Invulgares – disse a mãe, mas não como um elogio. – Contudo, os olhos da irmã são perfeitamente aceitáveis. E tem uma bela figura. Acho estranho que uma irmã tenha um corpo tão atarracado enquanto a outra é elegante em todos os aspetos. Suponho que seja um problema de autocontrole, que sempre foi a melhor arma de uma dama contra as tribulações deste mundo. Miss Georgiana tem obviamente um excelente autocontrole.
– Claro – concordou Quin.
– Nunca fará birras – prosseguiu a mãe com um sorriso ao canto da boca. – Já vos vejo a ambos, presidindo a um grupo de criancinhas. Gostaria, não é verdade, Tarquin?
Tarquin sentiu gelo negro invadir o coração; não respondeu, mas não tinha importância.
Durante todo o caminho de volta para casa, a mãe continuou a pintar o retrato de Quin e Georgiana sorrindo afetuosamente para os seus filhos de olhos castanhos.