Duas Irmãs, Um Duque
Capítulo 18
Loucura em Todas as Formas
As duas últimas palavras de Quin, pronunciadas com a calma que o caracterizava, perturbaram Olivia até ao âmago.
– O quê? Que está dizendo?
– Estou dizendo que gosto de você. É embaraçoso, mas parece-me que gosto de si mais do que gostava de Evangeline. Talvez esteja a ficar louco – fez uma pausa para refletir. – Não me apercebo de outros sinais de fraqueza mental, embora me sinta inclinado a reconhecer isto como uma fraqueza humana. Sinto-me relutante em considerá-lo uma falha.
Ela abanou a cabeça confusa.
– Talvez seja apenas um daqueles homens governados pela luxúria.
Olivia respirou fundo.
– Sinto-me honrada pelo que disse. Garanto-lhe que nenhuma mulher se preza que lhe digam que é objeto de desejo. Mas tem de me ouvir, Quin. Não trairei Rupert deixando-o enquanto está fora do país, na guerra. E mais, nunca trairei a minha irmã. Esteve com ela no jardim durante quase uma hora. Subiu as escadas com ela ao colo. Cortejou-a.
– Não a cortejei mais do que a qualquer outra jovem que visitasse a minha casa.
– Sentado num banco durante quase uma hora? Não estou a vê-lo fazer o mesmo com qualquer outra das convidadas.
– A sua irmã é notavelmente inteligente; falámos de ciência. É um prazer conversar com ela. Porém, uma conversa de quarenta e cinco minutos não exige que me case com ela.
– Juntamente com o resto, significa que ela tem expetativas razoáveis de casar consigo. E nunca impedirei o desejo dela. Se o senhor e ela não se casarem por qualquer outra razão, seja. Mas que nunca ninguém diga que lhe roubei o marido que escolheu.
Levantou-se.
– Tenho de arranjar o cabelo…
Ele chegou-se a ela numa urgência silenciosa, numa onda de poder e velocidade.
– Não case comigo – disse, apertando-a contra si.
– Não caso! – mas Quin percebeu a hesitação na voz dela.
– Mas não finja que não quer fazê-lo. Que não há nada entre nós para além do que partilhei com Evangeline e a senhora com Montsurrey ou até com a sua irmã.
O coração de Olivia batia-lhe no peito tão acelerado que pensou que também ele o poderia ouvir.
– Não creio que tenha importância.
– Não tem importância? – exclamou ele. – Então o que terá importância? O quê?
– Silêncio! – disse autoritária. – Serei obrigada a casar consigo se formos apanhados aqui e nunca lhe perdoarei.
Ele puxou-a um pouco mais, apertando o corpo dela contra o seu.
– Não percebe o que estou dizendo porque nunca perdeu ninguém. Nada importa mais, nem a ciência, nem as proposições matemáticas, nem o meu título ou as minhas terras... nada.
– Há a honra – argumentou ela, sentindo uma seta de dor atingir-lhe o peito. – A minha honra. Não posso trair a minha irmã. Ou Rupert.
Qualquer coisa mudou nos olhos dele.
– O seu amor não é tão ilimitado como o mar, nem tão profundo.
– Nunca lhe disse que o amava, muito menos usando essas metáforas – disse ela com voz firme. – Mal o conheço.
Os dedos dele apertaram-lhe as ancas, como se fosse discutir com ela. Olivia sentiu-se estremecer interiormente. Sabia o que sentia por ele.
Mas Quin soltou-a.
– A minha mãe sempre me disse que eu era um idiota rematado no que dizia respeito às emoções. Raramente as sinto e quando as sinto é uma loucura.
Olivia sacudiu as saias, evitando o olhar dele. Sentia a mesma loucura, embora não o pudesse confessar. Se o fizesse... ele a tomaria. Lia no olhar. Ele gritaria É minha! E chamaria todos os convidados ali ao quarto.
E ela teria de viver com a traição e a dor que causaria à irmã.
Não.
– Vou retirar-me para o meu quarto por alguns momentos e depois desço de novo – declarou. – Se me fizer o favor de regressar ao salão agora, há possibilidades de que ninguém repare na nossa ausência.
Ele fez-lhe uma reverência quando ela passou, fechando silenciosamente a porta atrás de si.
As pulsações de Olivia não acalmaram até Norah lhe ter arranjado de novo o cabelo e ter voltado ao quarto da irmã.
– Georgie?
Georgiana estava sentada à lareira, a ler – um perfeito retrato da serenidade.
– Já passou tempo suficiente para poder voltar lá para baixo?
– Creio que já descansaste bastante o tornozelo – disse Olivia conseguindo esboçar um sorriso.
– Acha que será preciso coxear ou não?
– Não. Claro que não. Banhaste o pé em água fria e vinagre, embora não seja indelicada a ponto de mencionar estes pormenores e ficaria imediatamente melhor. No entanto, talvez não devesses dançar.
– Não será um sacrifício. Não gosto de dançar – Georgiana levantou-se e arranjou o cabelo diante do espelho.
– Não gosta de dançar? – perguntou Olivia surpreendida. – Não fazia ideia.
– Estou descobrindo que há aspetos de que não gosto nisto de ser duquesa – replicou a irmã. – Dançar, por exemplo. E também não gosto de falar de bordados, como tive de fazer esta tarde com a mãe de Althea. Durante duas horas.
– Você conversaste – disse Olivia. – E eu caí numa coisa parecida com estupor.
– Se houvesse por aí um caixão, metia-me nele.
Olivia riu.
– Georgie! Nem parece teu.
– Creio que estou a transformar-me em mim mesma – Georgiana não se ria. – No jardim, falei com o duque acerca da composição da luz.
O riso de Olivia despareceu como que por encanto.
– Claro. E foi muito mais interessante do que falar sobre bordados. Com certeza que foi.
– Não é justo que eu não possa ir para a universidade – replicou a irmã com os olhos ferozes como os de um falcão preso. – Podia ir, Olivia. Podia sair-me tão bem quanto ele. Talvez melhor.
– Acha?
A irmã acenou afirmativamente.
– Não sei quase nada... mas seria uma questão de estudo. Como aprender a ser duquesa, mas muito mais interessante! – Era como um grito que lhe arrancavam da alma. Olivia deteve-se.
– Esta dizer que aprendeste a ser duquesa apenas porque se tratava de uma disciplina de estudo? Georgiana passou por ela e saiu para o corredor.
– É sempre muito emotiva. Nos atribuíram uma tarefa. Podíamos realizá-la bem ou mal. Preferi fazê-la bem. Você permitiste que a emoção interferisse no resultado.
Olivia seguiu-a e pegou-lhe na mão.
– Georgie!
– Sim? – A irmã tinha um olhar frio.
– Estás zangada comigo?
Nesse momento suavizaram-se.
– Não. De modo algum. Estou zangada por ter sido treinada para ser mulher de um duque. Mesmo que tivesse sido treinada para ser a mulher de um cientista, não seria suficiente.
– Queres ser cientista.
Um aceno brusco.
– Gostei de falar com o duque. Mas ao mesmo tempo senti um tal ressentimento que quase me senti sufocada.
Olivia aproximou-se e beijou-lhe o rosto.
– Podia estudar o que quisesses, Georgie.
A irmã encolheu os ombros, num gesto pouco refinado que revelava mais que as palavras que estava prestes a não suportar tanta tensão.
– Estou falando a sério! – continuou Olivia, fechando a porta do quarto atrás delas. – Para que diabo precisa de uma universidade? Está tudo nos livros e podemos conseguir os livros que queiras.
– Você e Rupert?
– Exatamente. E podemos pedir a um professor que venha de Oxford ou de Cambridge. Pagamos-lhe para te ensinar o que não possas aprender só com os livros. Vai aprender num ápice, Georgie.
– Podia – disse mais alto. – Podia mesmo.
– Depois de casar com Sconce pode comprar os livros que quiser, já para não falar em discutir as ideias com ele. Nem preciso dizer que nem Rupert nem eu te podemos oferecer uma verdadeira conversa intelectual.
Georgiana seguia pelo corredor, mas deteve-se.
– Sei que te disse que ele era perfeito, Olivia, mas não é. Não há uma centelha. Nada.
– Talvez com o tempo? – perguntou Olivia, forçando-se a pronunciar as palavras.
– Pensei... pensei realmente que, quando encontrasse o homem ideal, sentiria alguma coisa. Um desejo de estar com ele. Paixão, amor, o que queiras chamar-lhe. A princípio acreditei que era o que sentia com Sconce. Gosto de falar com ele. Mas não me apetece tratá-lo por Quin, que é um diminutivo ridículo.
– Não gosta do nome dele?
Georgiana começou a descer a escada.
– Faz-me lembrar o nome de um fruto. Uma espécie de marmelo 5.
Olivia olhou-a, contendo a alegre e líquida sensação de alívio que lhe invadia o corpo.
– E mesmo que a sua aparência não fosse o cruzamento de uma zebra com um marmelo – continuou Georgiana voltando-se para trás –, ele não olha para mim como olha para você.
– Ele não olha... – disse Olivia em voz fraca.
Georgiana voltou-se ao fundo das escadas.
– Não sou estúpida – fez notar desnecessariamente. – Posso ter querido casar com Sconce antes de o ter conhecido melhor. Mas, mesmo que ainda quisesse casar com e ele, coisa que não quero, não sou um osso que se lhe pode atirar, simplesmente porque alguém se sente culpado por agir seguindo os seus sentimentos.
– Nunca pensei em você como um osso.
Havia uma expressão mais viva nos olhos da irmã.
– Se o quer, Olivia Lytton, fica com ele. É um duque, por amor de Deus. Tem a possibilidade de ser feliz e fazer feliz a nossa mãe. Rupert há de voltar um destes dias, mas o seu cérebro não será mais forte do que quando saiu do país. De que diabo está à espera?
– Rupert – disse Olivia em voz fraca. – Não posso traí-lo.
– Trairias Rupert se entregasse a Lucy a um qualquer latoeiro. Cá para mim, penso que possivelmente não ficará triste mais do que cinco minutos com a ideia de não se casar contigo.
– Pensei… – Olivia sentiu um nó na garganta. – Pensei que te trairia.
Georgiana esboçou um sorriso luminoso.
– Se eu o quisesse te desafiaria para um duelo. Floretes, de madrugada. Mas não o quero. Olivia estreitou-a num abraço, tendo o cuidado de não lhe desmanchar o cabelo e disse:
– Dar-te-emos um dote, Georgie, bem sabe.
– Sim – disse Georgiana parecendo mais feliz do que nos últimos tempos enquanto se encaminhavam para as portas do salão. – Porque não tenha esperanças que eu te substitua e me case com Rupert. Ainda me sinto enjoada só de pensar naquela cena da biblioteca. Preferia ficar solteirona. E se arranjar bastantes livros para ler é exatamente o que farei.
– Pode fazer o que quiser – disse Olivia sentindo um calor febril a percorrer o corpo. – Uma de nós sacrificada no altar ducal é quanto basta.
Georgiana soltou uma alegre gargalhada que fez com que dois cavalheiros se voltassem e ficassem a olhar.
– Se é você que te sacrificas estamos cheias de sorte.
Olivia sentiu as faces coradas.
– Bem sei…
A irmã pôs fugazmente um dedo no rosto.
– Você mereces, depois de toda a bondade que mostraste para com Rupert. Podemos arranjar-lhe esposa. Não Althea, mas uma pessoa compreensiva e boa.
– E inteligência suficiente para gerir as propriedades – comentou Olivia. – Pensa que…
Georgiana sorriu e olhou para o lado.
– Valha-me Deus, parece-me que o duque está dançando com Annabel Trevelyan. Olha que ela adoraria ser a sua duquesa.
Olivia voltou-se e ouviu a gargalhada da irmã; viu Quin encostado na parede, olhando sorumbático para os pares dançantes.
– Deixa-se ficar onde te possa ver – disse-lhe Georgiana ao ouvido. – E se atravessasses o salão e entrasses na biblioteca ele te seguiria.
– Não me atreveria – respondeu Olivia, sentindo o coração na garganta.
– É esta a mulher corajosa que conheço? – perguntou Georgiana ríspida. – A mulher que entrou no escritório do pai com Rupert sabendo que as horas seguintes incluiriam a mais desagradável experiência que uma mulher pode suportar? Tem coragem, Olivia, usa-a.
Olivia respirou fundo. Nesse momento, Quin voltou a cabeça. Georgiana tinha razão, ele vigiava para saber onde ela estava.
Ele amava-a. Ou antes, para o dizer como ele, Quin gostava dela.
Entrou no salão, às cegas, seguida pelo riso de Georgiana. No momento exato olhou para Quin e deixou-lhe um convite através do olhar.
Este endireitou-se imediatamente e nos seus olhos leu-se o brilho da resposta. Por isso ela avançou pelo salão, fazendo algumas pausas para responder a cumprimentos, recusando dançar. Era como um jogo, o jogo mais emocionante em que jamais entrara.
Quin estava certamente atrás dela seguindo-a. Apostaria a sua vida em como ele não pudera resistir ao olhar que lhe lançara. O poder era inebriante... cantava-lhe no sangue, tirava-lhe a força dos joelhos.
No outro extremo do salão, dirigiu-se diretamente à porta que levava à biblioteca, abriu-a e entrou.
A sala estava silenciosa e vazia, com a exceção de um criado. A duquesa não queria dar azo a namoricos da parte dos seus convidados, por isso colocara um criado em cada compartimento.
Olivia acenou-lhe.
– Roberts. Uma noite tranquila?
O criado descontraiu a sua pose rígida ao reconhecê-la.
– Três casais até agora – disse com um sorriso no rosto.
– Deixe-me adivinhar… aceitam apostas?
– Para cada sala – disse ele. – A dois pence por sala. Apostei que cinco tentariam vir para aqui.
A porta atrás dela abriu-se silenciosamente. Olivia não teve de se voltar; o ar alterava-se quando ele estava próximo.
– Roberts – disse Quin. A sua voz profunda causou-lhe arrepios na espinha. – Certamente que a senhora duquesa precisa de você na parte de trás da casa.
Roberts estava demasiado bem treinado para mostrar qualquer laivo de curiosidade. Curvou-se e saiu tão silenciosamente como Quin entrara.
Só então Olivia se voltou.
Estava magnífico; ombros largos, parecendo ainda mais largos no elegantíssimo casaco azul, que lhe realçava o verde dos seus olhos.
A visão desses olhos fê-la recuar um passo.
– Quin! – gritou ofegante como uma menina de treze anos.
– Mandou-me chamar – retorquiu ele, direto como sempre. – Aqui estou eu, Olivia. Espero que seja isso, porque creio que sou incapaz de lhe resistir.
Olivia não sabia o que dizer. Ele era tão belo... esguio, forte e musculoso. Até o cabelo era extraordinário.
Enquanto ela era gorda e vulgar.
Em apenas um passo Quin percorreu o espaço entre ambos. Tê-lo tão perto tornou ainda mais óbvio o contraste entre eles. Era impossível. Ele tomou-lhe as mãos nas suas e levou-as aos lábios, causando outro arrepio na espinha de Olivia.
– Sou gorda – murmurou.
– Não é gorda. É a mulher mais bela e voluptuosa que conheço. – Percorreu o corpo com os olhos, lenta e deliberadamente e depois observou-lhe o rosto. O que Olivia lhe leu no olhar foi o suficiente para fazendo sentir um aperto de fogo no estômago e mais abaixo.
– Quero cada centímetro seu – disse ele em voz rouca. – Quero cair de joelhos e adorar as suas ancas.
– Estendeu a mão e acariciou as curvas dos seios às ancas com a rapidez escaldante a que um homem só se pode permitir se a mulher for sua esposa.
Mas Olivia não suportaria se ele se arrependesse mais tarde... se alguma vez lhe lesse o desencanto no olhar como tantas vezes lia no olhar da mãe.
– Não serei uma boa duquesa – apressou-se dizendo. – Creio que a duquesa viúva não gosta muito de mim. Preferiria que o senhor casasse com Georgiana. De fato, tenho a certeza absoluta de que ficará horrorizada com o ideia de o senhor casar comigo.
– É precisamente por isso que a minha propriedade está equipada com uma casa para a duquesa viúva. Não vou casar-me com a minha mãe. Vou casar-me consigo.
Os olhos verdes de Quin eram tão... ela nunca sonhara que um homem a olhasse assim.
Mas tinha uma lista, uma lista mental de características que a desqualificavam para a posição de duquesa de Sconce.
– Digo piadas disparatadas. Isto é, o meu sentido de humor não é muito ducal.
Os olhos dele riam, embora o seu rosto se mantivesse sereno.
– Só conheço um poema desses que o meu primo Peregrine me ensinou quando éramos rapazes. Era uma vez uma dama de Buda, Que um dia foi nadar no lago – fez uma pausa à espera… um convite. Olivia sentiu-se corar.
– Um homem num barco – disse ela baixinho. – Meteu o remo na água...
Ele continuou.
– E disse: Não pode nadar aqui... é particular. A verdade é que nunca entendi os versos. Será que tenho razão se pensar que a senhora é de Buda porque nadava desnuda e não num lago?
– Sim.
– O remo entendo. Mas, uma vez que se têm de explicar, estes versos têm grande graça. Tem a certeza que quer ficar com uma pessoa de cujo humor os trocadilhos não fazem parte, mas que tem de os destrinçar para os perceber?
– Tem a certeza de que quer ficar com uma pessoa que não partilha o seu amor pela ciência? Receio...
– O quê, meu amor?
– Que se aborreça de mim – disse rapidamente. – Não sei falar da qualidade da luz e, se me falar das funções matemáticas, acabarei por adormecer. Tenho um espírito muito trivial.
– Compreende a emoção: eu não. Isso não significa que o meu espírito nada valha. Gostamos de coisas diferentes. Porque haveria de a aborrecer falando de matemática? Em vez disso pode ensinar-me a rir.
Olivia sentiu uma espécie de soluço subir-lhe na garganta.
– Vai ensinar aos seus filhos versos brejeiros em vez de canções infantis? – perguntou Quin
Ela refletiu.
– Talvez.
– Então terá de mas ensinar primeiro. Lamento dizer que Alfie nunca aprendeu um único verso. Quin posou-lhe as mãos nos ombros, acariciou o cabelo fazendo passar as madeixas pelos dedos.
– Sabe que dou por mim querendo falar de Alfie pela primeira vez depois de ele ter morrido! Disse-lhe o nome dele em voz alta e já não sinto que fosse cair num poço escuro.
Ela engoliu em seco.
– Talvez – disse ele delicadamente – pudéssemos pôr a um dos nossos filhos esse triste nome de Alphington? Só para que ele... fosse recordado?
– Oh, Quin – murmurou ela. Depois, e porque a pergunta não necessitava de resposta, uma vez que ele sabia a resposta tão bem como ela. – Quantos filhos acha que vamos ter?
– Muitos? – Quin olhava-a firmemente. – Sempre quis uma casa cheia de crianças para que ninguém se sentisse só.
O coração de Olivia enterneceu-se por aqueles dois pequenos futuros duques, Quin e Alfie.
– Era por isso que lançava papagaios? Para que Alfie não se sentisse só?
– Evangeline recusou ter mais filhos. Ficou horrorizada pelo modo como o seu corpo se transformava. E ainda mais porque eu adorava vê-la assim.
– Sim?
– Pensava que nunca a vira tão bela; ela pensava que nunca fora tão repulsiva. Não deixou que eu lhe tocasse nem que a visse despida durante dois anos.
Olivia pestanejou.
– Então não foi infiel durante todo o tempo em que estiveram casados?
– Foi – disse ele calmamente, como se discutisse o tempo atmosférico. – Mas não se sentia assim com os amantes.
Olivia pensou, não pela primeira vez, que não valia a pena exprimir em voz alta a sua opinião acerca de Evangeline.
– Não quero falar mais acerca da minha falecida mulher – disse Quin. – Estou pensando em nunca mais pronunciar o nome dela.
– Tem a certeza? Sou tão vulgar comparada consigo, Quin.
A expressão de perplexidade nos olhos dele não podia ser fingida.
– O que está para aí dizendo? A senhora é bela e divertida e todos nesta casa a adoram. Com a possível exceção da minha mãe – acrescentou formalmente, mas ela aprenderá a gostar de si.
Olivia soluçou e o soluço trouxe consigo uma ou duas lágrimas.
– Não – disse Quin, puxando-a para os seus braços. – Nada de lágrimas – e começou a secá-las com beijos, tocando-lhe no rosto com os lábios numa suave carícia.
Olivia aninhou-se nos braços dele.
– Importa-se de me dizer exatamente o que a trouxe a este aposento? – murmurou Quin entre beijos. – Quando a vi há uma hora, estava pronta a sacrificar-me pela sua honra.
Olivia riu hesitante.
– Sinto-me muito mal por causa de Rupert, mas Georgie disse-me que lhe arranjaríamos a esposa adequada: uma pessoa compreensiva, forte e boa.
– Ah, então a sua irmã percebeu da verdade.
– Disse-me que entre vós não há aquela centelha.
– Tal como lhe disse – havia um tom de profunda satisfação na voz dele.
– Sabe que a sua irmã daria uma cientista extremamente competente?
– Georgiana é uma cientista extremamente competente e será brilhante se lhe comprarmos os livros que quer. O meu pai nunca o fará, sabe. Pensa que os livros não são próprios para uma mulher, e a minha mãe concorda.
Quin fez uma exclamação de desprezo.
Ela aconchegou-se mais, apreciando os braços que a rodeavam, o aroma profundamente masculino do peito dele, o aço do seu corpo... o toque duro de encontro ao seu estômago, que lhe dizia sem palavras que ele a desejava. Que pensava que cada centímetro dos seus seios, ventre e ancas eram dignos de ser beijados.
– Sinto um certo remorso em roubá-la a Montsurrey. Roubar a noiva de um homem enquanto este está a servir a pátria não é lá muito honroso.
Olivia encostou-se a Quin deixando o calor dele aquecer todo o corpo.
– Rupert esteve sem ar quando nasceu – explicou. – Nunca será tudo o que poderia ser.
– É mais do que suficiente – disse Quin com simplicidade. – Está servindo a pátria, arriscando a vida para proteger Inglaterra.
Mais umas lágrimas caíram no casaco de Quin.
– Tem razão.
– Seremos sempre amigos dele – era uma espécie de promessa. – Ele teve-a e agora eu levo-a e nunca esquecerei do que o obriguei a desistir.
Olivia fungou com pouca elegância e aceitou o lenço que ele lhe ofereceu.
– Rupert poderia ficar mais ressentido se lhe tivesse tirado a Lucy.
Quin soltou uma gargalhada.
– Estou falando a sério. E Georgie concorda.
Ele acariciou a cabeça e beijou-lhe de novo os olhos molhados. Depois desceu a boca sobre a dela e acariciou o corpo com mãos possessivas, quase rudes, reclamando-a como sua.
Olivia aninhou-se nele como se tivesse sido sempre aquele o seu lugar. O beijo de Quin foi suave, mas havia nele uma dura exigência e a investida de um homem. Olivia lançou-lhe os braços ao pescoço, agarrou-se a ele, abrindo a boca, convidando-o a entrar. Sentia-se embriagada pelo cheiro masculino a fumo, pelo seu sabor a champanhe e a mais qualquer outra coisa que intrinsecamente pertencia a Quin.
O beijo fê-la sentir-se ousada e profundamente viva. Ele posara a mão no rosto, inclinando-lhe a cabeça, beijando-a ferozmente.
Aquilo era intimidade, percebeu ela.
Quin mordeu o lábio inferior e Olivia estremeceu como se tivesse sido atingida por um vento frio. Ele reagiu com um profundo gemido e inclinou-lhe ainda mais a cabeça. Depois passou a boca para a curva do maxilar, deixando-a mais inquieta junto a ele. Abraçou-a e, acariciando as costas, puxou-a mais para si.
Olivia pôs-se em bicos de pés, tão concentrada no aroma embriagador dos braços e dos lábios dele que...
Quase nem ouviu a porta abrir-se.
5 Quince em inglês. (N. da T.)