Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 4 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 3

No Qual os Méritos da Virgindade e da Devassidão

São Avaliados e Vence a Devassidão

Olivia e Georgiana mal tinham terminado a sua discussão acerca da preferência entre os pêssegos e o aipo quando a mãe entrou no quarto.

A maioria das mulheres de mais de quarenta anos permite-se a umas ligeiras redondezas. Porém, como que para repreender a sua pouco satisfatória filha mais velha, Mrs. Lytton comia como um passarinho e confinava impiedosamente qualquer curva que pudesse possuir dentro de um espartilho de barbas de baleia. Assim, parecia uma cegonha de olhos ansiosos e redondos e uma cabeça particularmente emplumada.

Georgiana ergueu-se imediatamente para fazer uma reverência.

– Boa noite, senhora minha mãe. Que simpatia a sua nos fazer uma visita.

– Odeio que faça isso – declarou Olivia, levantando-se com um pequeno gemido. – Senhores, como me doem os pés. Rupert pisou-os cinco ou seis vezes.

– O que foi minha querida? – perguntou Mrs. Lytton, ouvindo o comentário de Olivia enquanto fechava a porta.

– Georgie fica toda delicodoce para si – disse Olivia e não pela primeira vez.

A expressão da mãe era uma máscara milagrosa: conseguia mostrar o seu desagrado sem sequer franzir ao de leve a testa.

– Como a sua irmã bem sabe, A peregrinação de uma dama é nada menos que mostrar no mundo o que é mais necessário a uma grande personalidade.

– Mostrar ao mundo – repetiu Olivia fazendo um pequeno gesto de revolta. – Se tem de citar o Espelho da Insensata Estupidez, mãe, terá de o fazer corretamente.

Mrs. Lytton e Georgiana ignoraram aquele comentário inútil.

– Esta noite a mãe estava extraordinária com o seu vestido de tafetá cor de ameixa – comentou Georgiana puxando uma cadeira mais para junto da lareira e conduzindo a mãe para nela se sentar. – Especialmente quando estava dançando com o pai. A casaca dele complementava perfeitamente o seu vestido.

– Já sabem? Ele vem nos visitar amanhã! – Mrs. Lytton pronunciou o pronome como se Rupert fosse uma divindade que se dignasse entrar naquela morada terrena.

– Ouvi dizer – declarou Olivia, vendo que a irmã colocava uma pequena almofada atrás das costas da mãe.

– Amanhã por esta hora será uma duquesa – o tremor na voz de Mrs. Lytton falava por si.

– Não. Não serei. Estarei formalmente comprometida com um marquês, o que não é exatamente a mesma coisa que ser duquesa. Tenho a certeza de que se lembra que estive oficiosamente prometida durante cerca de vinte e três anos.

– É da diferença entre o nosso acordo informal com o duque e a cerimônia de amanhã que desejo falar-lhe – disse a mãe. – Georgiana, talvez devesse nos deixar sós pois a menina é solteira.

Olivia julgou aquilo surpreendente: Mrs. Lytton batia as pestanas de uma maneira que sugeria estar presa de enorme ansiedade e Georgiana tinha talento para suavizar os aforismos.

De fato, quando Georgiana chegou à porta, a mãe acenou.

– Mudei de ideias. Pode ficar, minha querida. Não tenho a mínima dúvida de que a marquesa lhe oferecerá um dote pouco depois do casamento, por isso esta informação poderá ser também relevante para si.

Um noivado formal é uma relação complicada em termos legais. Claro que o nosso sistema legal está em mutação, e por aí em diante. – Mrs. Lytton parecia não fazer a mínima ideia daquilo que estava falando. – Parece que está em constante mutação. Partes da antiga legislação, partes da nova... o seu pai entende tudo isto muito melhor do que eu.

Sob a atual interpretação da lei, o seu noivado será vinculativo, a menos que o marquês tenha um acidente fatal e... então será invalidado por morte dele – abriu com força o leque e abanou-o diante do rosto, como se tal tragédia fosse demasiado terrível até para pensar nela.

– O que é muito provável – declarou Olivia respondendo ao mesmo tempo ao leque e às palavras da mãe – já que Rupert tem cérebro de mosquito e parece que vai para a guerra.

– A civilidade nunca esteve fora de moda – disse Mrs. Lytton baixando o leque e mergulhando no Espelho dos Elogios. – Nunca deve falar assim da aristocracia. É verdade que na trágica ocorrência do falecimento do marquês, o noivado ficaria em nada. Mas há uma cláusula interessante que parece estar salvaguardada por uma lei mais antiga, julgo eu.

– Cláusula? – perguntou Olivia, franzindo a testa... com o azar de a mãe estar nesse momento a olhar para ela.

– Não ensombres desdenhosamente o teu semblante – disse Mrs. Lytton automaticamente. As duquesas deveriam pois manter-se livres de rugas porque nunca franziam a testa.

– Se por acaso a menina ficasse… – Mrs. Lytton agitava o leque no ar. – Ficasse… ficasse – lançou a Olivia um olhar entendido. – Nessa altura, o noivado seria mais do que legalmente vinculativo. Transformaria num casamento sob qualquer tipo de lei. Não me lembro como foi que o seu pai lhe chamou. Comum, talvez. Embora eu não saiba dizer como será possível que o direito comum se aplique à nobreza.

– Quer então dizer que, se eu cobrir o BB, serei marquesa mesmo que ele morra? – perguntou Olivia, movimentando os doridos dedos dos pés. – Parece-me extremamente improvável.

O leque agitou-se com violência.

– Decerto não entendo o que a menina está dizendo, Olivia. Tem de aprender falando corretamente.

– Suponho que a lei tenha sido criada para proteger as jovens – interrompeu Georgiana antes que a mãe dissertasse sobre o assunto dos egrégios lapsos de linguagem da irmã. – Se bem entendi, senhora minha mãe, isto significa que, se o marquês perder a compostura e cometer um ato indigno da sua nobre posição, seria obrigado a casar com a sua prometida, isto é, com Olivia.

– Não sei bem se ele seria obrigado a casar com Olivia ou se o noivado se transformaria num casamento. Mas, o que é importante é que, se esta ocorrência se... se concretizasse, a criança resultante seria declarada legítima. E se o noivo não morresse, não poderia mudar de ideias. Não que um marquês pudesse pensar em tal coisa.

– Resumindo – disse Olivia com simplicidade. – Trabalho de cama seguido de trabalho escravo.

A mãe fechou o leque com força e pôs-se de pé de um salto.

– Olivia Mayfield Lytton, a sua vulgaridade incessante é inaceitável. E ainda mais inaceitável porque a menina é uma futura duquesa. Lembre-se de que todos os olhos estão sobre a sua pessoa! – deteve-se para tomar fôlego.

– Podemos voltar a um assunto mais importante? – perguntou Olivia erguendo de novo os pés com certa relutância. – Parece-me, senhora minha mãe, que quer instruir-me para seduzir Rupert, embora tenha negligenciado injustificadamente arranjar-me um professor para tal arte.

– Não posso suportar a sua vulgaridade! – vociferou Mrs. Lytton. Depois recordando-se que era mãe de uma futura duquesa, aclarou a voz e respirou fundo. – Não há necessidade para... tais esforços. A um homem... mesmo tratando-se de um cavalheiro, basta a impressão de que uma mulher está pronta para certas intimidades que... isto é, aproveitar-se-á da situação.

E dizendo isto, Mrs. Lytton abriu a porta de par em par sem sequer um aceno de cabeça a qualquer das filhas.

Olivia sentou-se de novo. A mãe nunca se mostrara muito interessada em demonstrações de afeto maternal, mas era dolorosamente claro para Olivia que em breve não teria mãe – apenas uma aia irritada e irritante. A ideia causou-lhe um aperto na garganta.

– Não quero que fiques pouco à vontade – disse Georgiana sentando-se também. – Mas creio que a mãe e o pai te vão fechar na cave com o BB.

– Podiam levar o leito matrimonial para o escritório. Só para terem a certeza de que Rupert compreendia o seu dever.

– Oh, compreende – retorquiu Georgiana. – Parece-me que os homens se apercebem naturalmente dessas coisas.

– Mas nunca me pareceu que o BB tivesse qualquer sensibilidade em relação a esse assunto, e você?

– Não – Georgiana refletiu por um momento. – Pelo menos, por enquanto. É ainda um cachorrinho.

– Não creio que ele amadureça até amanhã à noite.

Cachorrinho não seria uma má descrição de Rupert, pois apenas fizera os dezoito anos na semana anterior. Olivia sempre culparia o senhor seu pai por saltar para o casamento antes do duque, e por ter começado a procriar com tanto ímpeto.

Era cansativo ser uma mulher de vinte e três anos, prometida a um menino de dezoito. Principalmente um rapazola tão verde.

Durante a ceia leve, servida antes do baile, Rupert tagarelara acerca de como a glória do nome da família dependeria do seu desempenho no campo de batalha – embora todos os comensais soubessem que nunca lhe permitiriam chegar perto de um campo de batalha. Podia ir para a guerra, mas era o rebento de um duque. E mais, era o herdeiro do qual não havia sobresselente por isso tinha de ser resguardado. Seria talvez enviado para outro país. De fato, Olivia estava admirada pelo fato de o pai o ir deixar viajar para fora de Inglaterra.

– Terá de ser você a dar o primeiro passo – sugeriu Georgiana. – Começa como se quisesses continuar. Olivia afundou-se mais no divã. Evidentemente que sabia que mais tarde ou mais cedo teria de levar Rupert para a cama. Mas imaginara vagamente que o acontecimento teria lugar no escuro, onde ela e Rupert poderiam ignorar o fato de ele ser bastante mais baixo do que ela e muito mais magro. Não seria fácil se estivessem fechados na biblioteca.

– Há uma coisa boa na sua figura – continuou Georgiana. – Os homens gostam de mulheres com curvas.

– Ainda não reparei. Exceto talvez no caso de Melchett, o novo criado de ombros tão bonitos.

– Não devia devorar um criado com os olhos – censurou Georgiana com ar afetado.

– É ele que me devora com os olhos e não o contrário. Sou uma mera observadora. Porque acha que não nos casámos já? – perguntou Olivia metendo os pés debaixo de si. – Sabia que tínhamos de esperar que Rupert fizesse os dezoito anos, embora francamente pensasse que o poderíamos ter feito logo que ele tirou os cueiros. Ou, pelo menos, quando saiu do quarto das crianças. Afinal, ele nunca vai atingir a maturidade propriamente dita. Porquê um noivado e não um casamento?

– Suponho que o PP não queira casar.

– Porque não? Não quer dizer que eu seja um presente fantástico, mas ele não pode escapar aos desejos do pai. Nem creio que o queira. Não há um traço de revolta nesse rapaz.

– Nenhum homem deseja casar com a mulher escolhida pelo pai. Ou com qualquer outra mulher… lembra-te de Julieta.

– Julieta Fallesbury? Quem foi que o pai dela escolheu? Só me lembro que ela fugiu com um jardineiro a quem chamava Longfellow.

– Estou falando do Romeu e Julieta, parva!

– Shakespeare nunca escolheu nada de relevante para a minha vida – declarou Olivia. – Pelo menos até terem descoberto uma tragédia há muito perdida chamada Muito Barulho por Causa de Olivia e do Bobo. Rupert não é o Romeu. Nunca mostrou a mínima inclinação para dissolver o nosso noivado.

– Nesse caso, suponho que se sinta demasiado jovem para casar e que queira gozar a juventude. Ficaram as duas em silêncio por algum tempo tentando imaginar de que maneira Rupert gostaria de gozar a vida.

– É difícil, não é? – disse Olivia pouco depois. – Não consigo imaginar o PP entre os lençóis.

– Não deveria imaginar ninguém entre os lençóis – respondeu Georgiana em voz fraca.

– Poupa a sua enfadonha virtude até que haja alguém interessante no quarto – aconselhou-a Olivia de bom humor. – Acredita que Rupert saiba como deve agir?

– Talvez tenha esperanças de que, quando voltar de França, já seja bastante mais alto.

– Oh! – exclamou Olivia estremecendo. – Acredita que tenho pesadelos em que percorremos os dois a nave da Catedral de São Paulo. A mãe obriga-me a enfiar-me num vestido de noiva enfeitado com montes de tule de modo que pareço duas vezes mais alta e mais gorda do que o meu noivo. Rupert leva ao lado o seu ridículo cãozinho que só chamará a atenção por ser muito mais elegante do que eu.

– Eu trato de controlar a mãe em relação ao teu vestido de noiva – prometeu Georgiana. – Mas esse vestido é irrelevante nesta discussão em relação à sedução de amanhã.

– Irrelevante? Creio que deve tomar cuidado, Georgie. A sua linguagem está a ficar manchada por esse Espelho pestilento, mesmo quando está sozinha.

– Terá de pensar no amanhã como um trabalho semelhante ao de Hércules quando teve de limpar os estábulos.

– Preferia tirar toda a porcaria dos estábulos a seduzir um homem mais baixo do que eu e leve como a lanugem de um cardo.

– Oferece-lhe uma bebida – sugeriu Georgiana. – Lembras-te de como a ama Luddle tinha medo dos homens que bebiam álcool? Dizia que se transformavam em sátiros furiosos.

– Rupert, o Sátiro Furioso – disse Olivia pensativa. – Estou vendo a saltitar pela floresta sobre os seus pequenos cascos.

– Os cascos podem dar-lhe um ar distinto. Principalmente se tiver uma barbicha. Os sátiros têm sempre barbicha.

– Para Rupert seria um problema. Esta noite disse-lhe que seria interessante deixar crescer bigode, mas estava a mentir. Os sátiros não têm também chifres?

– Sim. E caudas.

– Uma cauda poderia... talvez... dar a Rupert um ar diabólico, como um daqueles libertinos que, segundo se diz, dormiram com metade da alta. Talvez amanhã à noite eu tente imaginá-lo assim embelezado.

– Vai dar-te vontade de rir – avisou Georgiana. – E não deve rir do teu marido durante os momentos íntimos porque ele pode desistir.

– Para começar, não é meu marido. Depois, ou temos de nos rir de Rupert ou desatar a chorar. Esta noite, enquanto estávamos dançando, perguntei-lhe o que pensava o pai dele acerca do tal plano de conseguir glória para a família. Parou no meio do salão de baile e declarou: O pato pode mergulhar as asas de uma águia, mas sem sucesso! E depois ergueu o braço com tanta força que bateu na cabeça de Lady Tunstall, fazendo-lhe cair a peruca.

– Eu vi – disse Georgiana. – Do lado da sala em que me encontrava, pareceu-me que causava uma confusão desnecessária. Chamou ainda mais a atenção.

– Rupert devolveu-lhe a peruca com o encantador comentário de que ela não parecia absolutamente nada ser careca e que nunca o teria adivinhado.

Georgiana acenou afirmativamente.

– Um momento emocionante para ela, sem dúvida. Mas não percebeu a história do pato.

– Ninguém percebeu. A vida com Rupert vai ser uma série de momentos emocionantes que requerem interpretação.

– O pato deve ser o duque 1– deduziu Georgiana ainda tentando resolver o enigma. – Talvez o mergulhar as asas da águia signifique cortar? O que acha? Pode implicar que Rupert se considera uma águia. Pessoalmente, considero-o mais parecido a um pato.

– Porque grasna? Estará certamente só quando se vê como uma águia. – Olivia levantou-se para tocar a campainha. – Penso que esteja em harmonia com a minha pessoa... eis uma expressão elegante para você, Georgie...penso que esteja em harmonia com a minha pessoa não me esquecer de que estou convidada para ter intimidades com um pato na biblioteca do meu pai amanhã à noite. E, se isso não descrever a minha relação com os nossos pais, não sei o que possa fazê-lo.

Georgiana soltou um ruído de desprezo. Georgiana abanou um dedo na direção da irmã.

– Ruído muito vulgarrr, minha senhora. Muito vulgarrr.

1Jogo de palavras entre duke (duque) e duck (pato). (N. da T.)