Duas Irmãs, Um Duque
Capítulo 16
Várias Ansiedades Relacionadas com Crianças e Cães, mas não com
Canapés
Sempre que a duquesa viúva de Sconce anunciava um baile – mesmo que este fosse de pouca importância – alteravam-se os planos em casa das famílias que viviam pelo menos num raio de quinze léguas. Ninguém que se considerasse aristocrata ou mais pensaria em faltar a um tal evento, a menos que fosse para estar presente no funeral da mãe. E, para alguns, nem isso causaria tanta tristeza.
Não que um baile dos Sconce fosse especialmente elegante. A duquesa nunca se preocupava em importar duzentos limoeiros cheios de limões, ou atapetar o salão de baile com orquídeas, nem mesmo mandar Gunter buscar gelados especiais.
Preferia seguir a rotina das anteriores duquesas: uma antepassada recebera o rei Henrique VIII em duas ocasiões, cumprimentando duas das suas mulheres e outra recebera três vezes a rainha Isabel.
Era, porém, de notar que o salão era esfregado e encerado na perfeição, contratava-se uma pequena orquestra, encomendava-se uma razoável quantidade de comida e, das caves, trazia-se uma grande quantidade de vinho excelente.
E pronto.
Na ideia da duquesa, o resto acontecia por si e acontecia sempre.
Não havia nada mais lastimoso do que a visão de uma anfitriã ansiosa.
Conforme seu costume, ao princípio da noite em questão, a duquesa presidia a uma pequena refeição, à qual assistiam os convidados que pernoitariam em Littlebourne por terem chegado de muito longe. Após a refeição, pedia aos convidados que avançassem para o salão de baile. Restava algum tempo antes de o baile começar e Sua Graça considerava este intervalo um tempo oportuno para acrescentar outra alínea no seu inventário de coisas apropriadas.
Para isso emitiu uma ordem, levemente disfarçada de convite.
– Creio que deveríamos ficar todos agradecidos se as jovens que se encontram entre nós realizassem um qualquer divertimento.
Sua Graça instalou-se no sofá com uma boa visão dos instrumentos e instruiu a sua amiga Mary, Lady Voltore, para se sentar junto dela.
A atuação das duas Ms. Barry foi muito afinada. Lady Althea cantou muito bem. Ms. Georgiana, não só cantou muito bem um excerto de uma ópera e depois uma balada alegre como se acompanhou ao cravo. Era perfeitamente evidente que Ms. Georgiana Lytton seria uma duquesa de Sconce altamente recomendável. A duquesa viúva nunca se permitia demonstrar um excesso de emoção, mas estava interiormente ciente de que se confessasse uma fraqueza seria pelo seu filho único. A dor que ele sofrera depois do primeiro casamento era inaceitável.
– Senhora duquesa?
Ergueu os olhos e viu as duas Ms. Barry fazerem uma reverência diante dela.
– Sim?
– Senhora duquesa – disse uma delas ofegante –, teria a bondade de autorizar Lorde Justin a cantar qualquer coisa para a assembleia aqui reunida?
A outra fez nova reverência.
– Temos a certeza de que todos apreciariam muito.
A duquesa permitiu-se a subir uma sobrancelha. Sim, tinha tomado a decisão certa quando incluíra as meninas Barry na lista de possíveis duquesas.
– Se Lorde Justin concordar, certamente que não terei qualquer objeção – disse em tom gelado. Naturalmente o sobrinho pouco se importou com o seu tom de voz e saltou de uma maneira pouco própria para se sentar ao piano. Para a duquesa aquilo não era adequado. As damas cantavam e tocavam instrumentos musicais. Os únicos homens que cantavam ou que tocavam eram profissionais com os quais os aristocratas não se deviam misturar.
De fato, Justin era pouco satisfatório em várias coisas. Naquela noite, por exemplo, trazia um fato roxo. Para ela, vestir roxo era como cantar: os cavalheiros simplesmente não o faziam. Mas ali estava o seu único sobrinho (embora assim por afinidade), vestido da cor dos lilases, com renda cor de peito de rola nos punhos, o que ainda tornava o fato pior. Vulgar seria a definição apropriada. O falecido duque daria uma volta na tumba se visse tal vestimenta num membro da família, meio francês ou não.
E por que raio estariam aquelas meninas em volta do piano como se fossem peixinhos a morder uma côdea de pão?
Mandou calar Lady Voltore que estava a tagarelar sobre um novo tipo de rosa e voltou a sua atenção para o sobrinho e o seu rebanho de admiradoras.
– Que está ele a cantar? – gritou Mary que era bastante surda. – Não me parece que seja Greensleeves. Gosto quando cantam Greensleeves. Diz-lhe que toque isso, sim, Amaryllis?
A duquesa tolerava que Lady Voltore a tratasse pelo nome próprio, apenas porque se conheciam desde os dois anos de idade.
– Não posso ir lá dizer-lhe que cante isso – retrucou. – Mas posso fazer-lhe o pedido, se quiser.
– Não seja absurda, Amaryllis, pagaste ao homem; pode bem fazer render o teu dinheiro. – Mary sempre fora um pouco estúpida, para falar com benevolência
– Não lhe paguei – disse a duquesa relutante. – É meu parente.
– Está doente? Não parece. Trabalha para algum circo? Acho que eu nunca convidaria gente do circo para a minha casa.
A duquesa limitou-se a lançar um olhar a Mary.
– Não sei onde contrataste o rapaz, mas só te digo que gosto dele. Uma canção bonita. Um rosto bonito. – Mary soltou uma gargalhada irreverente. – Não estou tão velha que não saiba apreciar um rosto. Olha, quase parece um cavalheiro, exceto aquele casaco, claro. Fá-lo parecer um macaco de realejo.
Justin estava rodeado por um canteiro de meninas. Uma Barry de cada lado e Lady Althea atrás.
A duquesa viúva apurou o ouvido e escutou por instantes. Ela era o seu sol – cantava Justin. – Era a sua terra.
Bom aquilo parecia inócuo e disparatado. Mas, dado que Lady Althea fora agraciada com a subida honra de ser considerada para o título de duquesa de Sconce, o menos que poderia fazer seria comportar-se de maneira digna. A verdade é que Althea era tonta como um puxador de porta e nunca faria Tarquin feliz.
Justin começara uma nova canção, qualquer coisa acerca do amor. Amor! Na sua opinião, o amor era uma coisa destrutiva e desagradável. Bastava ver o que fizera a Tarquin: quase o desfizera.
Voltou-se notando com agrado que Ms. Georgiana estava sentada ao lado de uma velha tia do lado do duque, conversando com ela em voz baixa. Não mostrara sinal de se querer juntar à multidão em redor do piano, o que só punha em evidência o seu bom senso.
E Tarquin?
Levou algum tempo, mas conseguiu ver o filho. Estava sentado a um canto e parecia observar Ms. Lytton, que se sentara no canto oposto da sala a conversar com o bispo de Ramsgate. Naquela noite, Olivia Lytton era o perfeito retrato da futura duquesa de Canterwick, sendo a única objeção possível o fato de o seu decote ser um pouco ousado.
A duquesa semicerrou os olhos para ver melhor. O bispo, aquele bode velho, parecia estar a gostar da vista proporcionada pelo embonpoint de Ms. Lytton.
Mas foi Tarquin que lhe chamou a atenção. A expressão do rosto do filho era-lhe familiar. De fato, já antes a vira e esperara nunca mais a ver. Quase sem se aperceber, começou a levantar-se da cadeira. Mas voltou a sentar-se.
Aquilo não poderia ter ido muito longe. Na verdade, pensando cuidadosamente nos últimos dias, a duquesa estava certa de que a relação, se é que assim se pudesse chamar, não poderia existir, pelo menos para Ms. Lytton, o que era importante. Ela já estava noiva de um marquês. E mais, parecia ser fiel ao pobre tontinho.
Além do mais, o próprio Canterwick insinuara-lhe que Ms. Lytton poderia estar já grávida do herdeiro do seu ducado.
Claro que aquilo não significava que Olivia Lytton não pudesse, a qualquer momento, voltar as costas ao noivo se lhe passasse pela cabeça que poderia trocar o marquês por um duque.
Os dedos da duquesa apertaram os braços da cadeira. Ms. Lytton era quase de certeza outra Evangeline.
Possivelmente grávida do herdeiro do duque, embora o rapaz tivesse apenas dezoito anos e fosse um simplório, segundo ouvira dizer. E agora atirava-se ao bispo! Incrível.
– Tenho de te dizer que tem um cãozinho muito feio, Amaryllis – disse Mary interrompendo os pensamentos.
– Não tenho cão! – a irritação acerca de Ms. Lytton coloria a voz.
– Então de quem é?
Desconfiada, a duquesa seguiu a direção do lorgnon de Mary. O estranho cão, que pertencia a Ms. Lytton e que quase não se podia chamar cão dado o tamanho e a falta de higiene, estava sentado junto às suas saias. Sentado com a sua horrível pata sobre o seu sapato. Outra vez!
Irritada, olhou de novo para o cão.
– Não é assim tão mau, afinal – disse Mary. – E vê-se que te adora. Recorda-me os cães de caça que o meu marido tinha. Olhavam para ele exatamente assim.
– Odeio cães. Tira-o daqui, por favor.
Mary soltou a sua estranha risada que a fazia parecer uma bruxa louca.
– Que disparate, Amaryllis! Na nossa idade não podemos nos dar ao luxo de cometer essas ridicularias.
– Odeio animais com patas – era uma declaração de fato, embora não pudesse deixar de notar que este tinha uns olhos muito doces.
– Devia desistir dessas coisas – aconselhou Mary. – Faz-te parecer idiota. É demasiado velha para te comportares como uma menina pequena – e, dizendo aquilo, pôs-se de pé com os joelhos a rangerem e afastou-se
Um cão era uma coisinha feia, quase sem pelo e uma cicatriz visível na pálpebra. O focinho era mais comprido do que devia ser o focinho de um cão. Olhou-o e o cão deitou-se a seus pés.
– Não é nada idiota não gostar de patas – disse em voz alta. Mas não pôde deixar de franzir a testa à pretinha que de novo se aproximava do seu sapato. Logicamente...
Afastou o pensamento e olhou mais uma vez para Tarquin. Quando conseguiu que ele olhasse para ela fez um aceno discreto, mas imperioso. Momentos depois, o filho curvava-se diante dela.
– Senhora minha mãe? – Sempre lhe obedecera, mesmo quando era um rapazinho. Excessivamente solene, pensava ela nesses tempos. Herdara o título demasiado cedo. Mas aceitara com tanta facilidade os seus deveres que parecia ter sido sempre duque.
– Gostaria que levasses Miss Georgiana a dar uma volta pelos jardins – declarou. – Há meia hora que conversa com Lady Augustina, e é mais do que se pode pedir para uma só noite. Tem tempo antes que a festa comece.
Tarquin curvou-se, silencioso como sempre, e afastou-se. Mas a mãe ficou a olhá-lo e pensando. Sentia no seu íntimo que Georgiana Lytton era a mulher perfeita para o filho. Não era uma menina insípida e sentimental, seguindo as regras só porque elas existiam. Havia nela uma profunda decência senhoril. Compreendia a razão da existência de O Espelho dos Elogios: porque a civilização era a única coisa que existia entre a humanidade e a dor.
O tipo de dor que Evangeline causara a Tarquin. A duquesa escrevera o livro no ano a seguir ao filho casar com a primeira mulher, um volume nascido do desespero e da tristeza e da convicção de que se, pelo menos, as damas se comportassem como damas, aquele desgosto nunca teria acontecido.
Porém, o desgosto que Evangeline causara a Tarquin quando saltara da cama dele para a de desconhecidos, vizinhos, amigos... nem se aproximara do que sentira quando ela morrera. Aquela mulher completamente idiota. Morrera levando consigo o pequeno Alphington. A duquesa pensara que o filho não voltaria a sorrir.
Não havia necessidade de mais testes. Georgiana era uma duquesa perfeita. Poderiam ficar noivos no dia seguinte. Por momentos, pensou em aconselhar o filho a declarar-se naquela mesma noite, mas depois recordou-se das outras ocasiões em que Tarquin, o seu delicado e sóbrio Tarquin, fizera finca-pé. E dado o que lera nos seus olhos enquanto ele observara Olivia Lytton, precisaria tomar mais cuidado.
Amanhã, disse para consigo, instalando-se de novo no sofá. Amanhã poderiam resolver todo aquele imbróglio.