Duas Irmãs, Um Duque
Capítulo 31
O Ladrar de Cérbero
Quin estava furioso, exausto e prestes a entrar em pânico quando chegou à aldeia de Wissan. Lucy estava também muito cansada, por isso ele metera-a dentro do casaco, o que não era cómodo nem para ele nem para a cadela. Depois percebeu que ninguém sabia nada acerca de une anglaise, embora tivessem conhecimento de que alguns soldados ingleses, um deles gravemente ferido, haviam vivido na cabana do Père Blanchard.
– Os soldados não fizeram mal a ninguém – disse o ferreiro a Quin, com os braços cruzados sobre o seu peito formidável. – Sim, eram ingleses – encolheu os ombros. – E o senhor também. Apostava que Bessette raptou a sua mulher.
Quin semicerrou os olhos.
– Bessette?
– É um javardo intriguista. Deve tê-la entregue à Madame Fantomas e vai querer uma recompensa.
– Onde posso encontrar essa Madame Fantomas?
O ferreiro soltou uma exclamação de desdém.
– Onde havia de ser? Na guarnição, mesmo nas barbas daquele bêbado idiota.
– Não fales contra Le Capitaine – disse a mulher do ferreiro, aparecendo à porta por trás dele. – Com ele os nossos rapazes estão em segurança. – Olhou para a madeixa de cabelo branco que caía sobre a testa de Quin. – O senhor foi tocado por um anjo?
– Parece que foi mais pelo demónio – respondeu ele.
Dirigiu-se para a guarnição que ficava perto da aldeia, subindo a estrada. Nunca pensou poder sentir-se tão fatigado nem tão sujo. Perdera havia muito a fita do cabelo. Cada centímetro da sua roupa estava coberto de pó ou pior um pouco.
Mas sempre que interrogava os aldeãos essa sujidade jogara a seu favor: tinha a nítida impressão que, se por um lado, poderiam não se mostrar ansiosos em ajudar um membro da aristocracia – qualquer que fosse a nacionalidade –, a expressão e a roupa de um louco tinham dado resultado.
Quando chegou à guarnição, a sentinela estava acordada.
– Quero a minha noiva – declarou Quin, dispensando os preliminares.
– Posso dizer-lhe quem a tem, mas preciso de alguma coisa para as minhas dores – puxou nervosamente o bigode.
Quin inclinou-se para o homem e falou-se numa voz calma, mas terrível.
– Tive um dia muito comprido. As suas dores? Seria um prazer para mim arrancar-lhe a cabeça para que esquecesse tudo o que lhe dói.
– Bessette está à sua espera atrás do edifício – disse a sentinela recuando.
Transação concluída e Quin deu a volta ao edifício da guarnição com uma pistola na mão e outra metida no cinto.
– Aqui! – chamou-o uma voz escondida nas árvores.
Lucy farejava uma das janelas junto ao chão.
– Anda! – chamou-a Quin dirigindo-se para o bosque.
A cadela ignorou-o, ladrando a uma presa invisível. Possivelmente uma ratazana. Foi direito a ela, mas um homem corpulento saiu da sombra do bosque. O ferreiro tinha razão: javardo era um nome que lhe assentava como uma luva.
– O senhor tem a minha noiva – vociferou Quin, deixando Lucy à procura da ratazana e dirigindo-se ao homem.
Qualquer coisa no aspeto de Quin deve tê-lo enervado, pois deixou de sorrir e esfregou as mãos.
– Terá de me pagar cinquenta guinéus pela minha proteção – disse bruscamente. – Estava à espera junto à cabana do Père Blanchard. Recebemos sempre uma recompensa quando apanhamos uma mulher a vadiar por onde não deve. Entre os homens. Já para não mencionar o fato de nenhum inglês ter permissão para desembarcar nestas praias, como suponho que saiba.
Quin levou de novo a mão à coronha da arma.
– Não tenho.
Bessette mudou de posição para demonstrar que também ele estava armado. Os seus olhinhos de javardo brilharam.
– Vou então pedir-lhe que vá buscar o dinheiro antes de lhe entregar a sua mulher.
– Se eu regressar a Inglaterra para ir buscar o dinheiro, não há qualquer garantia de poder voltar imediatamente – declarou Quin. – Os países em guerra não costumam ter carreiras de barcos regulares.
Bessette cuspiu o seu charuto nojento aos pés de Quin, não os atingindo por pouco.
– Os barcos vão e vêm todos os dias, por isso poderá estar de volta amanhã de manhã. Se der alguma coisa para a sua subsistência, não a apresentaremos aos prazeres que apenas os franceses...
Quin lançou rapidamente a mão esquerda ao lenço de Bessette e enrolou à volta do pescoço com tanta força que o homem nem teve tempo de tomar fôlego. Viu calmamente o rosto bulboso ficar da cor de uma beterraba; atrás dele havia uma confusão qualquer, mas não quis arriscar-se a voltar a cabeça. Preferiu procurar no rosto de Bessette a expressão flácida que indicaria que ele estaria prestes a expirar por falta de ar.
– A minha noiva! Já – gritou quando isso aconteceu.
Bessette gorgolejava. Quin não percebia o que ele estava dizendo. Por um lado, o francês estrangulado era difícil de perceber, por outro, Lucy ladrava furiosamente algures, atrás dele. Provavelmente, os soldados teriam regressado da inútil patrulha.
Com a mão livre, retirou a pistola das calças de Bessette e atirou-a para o chão, metendo a sua nas pregas macias da barriga do homem.
– É um chantagista de trampa, se não pior, e estou convencido que a aldeia ficaria melhor sem você – apertou de novo o lenço. Esperou e depois alargou-o o suficiente para que Bessette pudesse pedir clemência.
– Onde está ela?
– Madame Fantomas – disse Bessette num murmúrio de voz. Mas os olhos dele mexeram-se. Quin reparou, calculou as probabilidades e afastou-se para o lado exatamente quando Bessette tentava desferir uma joelhada nas suas partes baixas.
– Onde posso encontrar a madame? – atrás dele, Lucy continuava a ladrar.
– Nas catacumbas – sussurrou Bessette, quase sufocado. Depois deixou-se cair. Quin alargou o lenço, deixando-o cair de joelhos, mas mantendo a arma junto à cabeça do homem.
– A Madame Fantomas meteu-a nas catacumbas – o ombro de Bessette moveu-se ligeiramente. O idiota planeava outro ataque. Um pontapé rápido e bem apontado da bota de Quin e o homem caiu no chão, com as mãos entre as pernas e um guincho agudo.
– Onde ficam as catacumbas? – perguntou Quin. – Pegou na pistola de Bessette e esvaziou a câmara. Depois ficou imóvel, apercebendo-se de que lhe cheirava a fumo.
Deu meia volta e descobriu que uma coluna de fumo saía das pequenas janelas junto ao chão. Não era de estranhar que Lucy ladrasse daquela forma. Havia qualquer coisa a arder.
Que raio, não tinha tempo para aquilo; tinha de encontrar as catacumbas. Mas Bessette fugira para o bosque assim que lhe virara as costas. Quin ainda pensou ir atrás dele, mas provavelmente precisariam da sua ajuda para apagar o fogo. O capitão bêbado não lhe parecia capaz de o fazer e provavelmente nem conseguira ainda sair da cama.
Correu para o lado do edifício, baixando a cabeça para evitar a nuvem de fumo negro que saía das janelas. Tinha um cheiro acre e muito desagradável, como se água putrefata se tivesse incendiado.
Lucy corria à frente dele e quando a viu teve um pensamento tão terrível que quase se deixou cair. Não acreditava que Lucy ladrasse para Olivia – significaria que as catacumbas estavam situadas por baixo da guarnição?
Entrou a correr no pátio cheio de soldados que andavam de um lado para o outro num perfeito caos. Ninguém parecia ser capaz de organizar um esforço concertado para apagar o incêndio. O capitão estava em cima da escada aos berros e agitando os braços. Os homens corriam para a porta transportando caixotes que tilintavam suavemente. Parecia que o brande tinha prioridade.
Uma mão puxou o braço de Quin.
– Senhor! Senhor!
Voltou-se. Tinha diante de si um soldado muito jovem e assustado, com o rosto negro de fuligem.
– Ela está ali – disse o rapaz ofegante. – Depois da cozinha. Deveria ter saído quando a madame abandonasse a cozinha. Tinha a chave! Mas não saiu e eu não consigo lá ir com tanto fumo. – Com a mão trêmula, o rapaz apontava para a porta de onde saía o fumo como um lençol ao vento. – As catacumbas – disse sufocado. – Ela está nas catacumbas e não há outra saída!
Quin olhou a tempo de ver Lucy correr por baixo do fumo e desaparecer pela porta. Soltou um impropério, tirou o casaco e arrancou com força uma manga da camisa de linho.
– Não te importes com o maldito capitão e com o brande – gritou ao rapaz. – Têm de apagar o incêndio! Organiza os homens.
Sem esperar por uma resposta, atou a manga da camisa em redor do nariz e da boca, desceu os degraus a toda a pressa, acocorado para evitar o fumo mais espesso. Olivia. Olivia. Olivia. Parecia que o nome dela lhe percorria o corpo a cada batimento do seu coração.
Semicerrou os olhos ao fundo das escadas e percebeu de que se encontrava na cozinha. Depois da cozinha, dissera o rapaz. Viu o fumo sair pela chaminé incendiada, provavelmente alimentando-se com os anos de gordura acumulada. Não via a porta, mas ouvia os latidos de Lucy algures à sua direita. Avançou nessa direção, quase cego e sufocado.
O fumo era ainda mais denso no corredor à sua frente. Gritou o nome de Olivia, engoliu fumo, dobrou-se e quase caiu. Acocorou-se junto ao pavimento, voltando a cabeça para manter a face junto à pedra fria e foi recompensado com uma baforada de ar quase limpo. Sustendo a respiração avançou, acocorou-se mais uma vez, respirou de novo. Porém, inalou tanto fumo que teve a sensação de que o incêndio estava nos seus pulmões e não na chaminé.
No entanto, Olivia estava ali, algures. Cinco anos antes, não se lançara às águas gélidas e traiçoeiras do Canal para salvar Alfie. Nunca poderia ter salvado Alfie. Mas podia seguir por aquele maldito corredor. Não permitiria que outra pessoa que amava morresse sem poder respirar.
Mais uma golfada de ar e avançou de novo, tentando pensar contra os protestos do seu corpo. Tinha de encontrar Olivia e levá-la para junto de uma daquelas janelas. Eram pequenas, demasiados estreitas para fazendo passar por elas, mas, se conseguisse içá-la até lá, Olivia poderia respirar. O ar no chão era extremamente escasso, mesmo mantendo o nariz junto das lajes. De fato, a parte inexoravelmente calculista do seu cérebro informava-o de que morreria dentro de poucos minutos senão respirasse ar puro.
Mas respirou de novo e a negra verdade causou-lhe um formigueiro nas extremidades. Não sobreviveria. Não conseguia encontrar Olivia, nem salvá-la. A verdade é que sentia os pulmões a arder.
Mesmo assim, sabia que desta vez fizera tudo o que estivera ao seu alcance: não se deixara ficar, impotente, no ancoradouro. Lançara-se à água.
Fez um esforço para continuar a rastejar e ouviu depois um latido abafado. Estendeu a mão, pensando tocar no pelo de Lucy, mas sentiu um braço. Um braço inerte.
Uma janela. Tinha de a levar para junto de uma janela. Tinham de ir ambos para junto de uma janela. Apalpou o braço, pronunciou o nome dela ofegante, mas teve de encostar de novo o rosto às lajes do chão. Sorveu o ar que restava, sentiu-se sufocado, tentou mais uma vez. Olivia estava deitada de barriga para baixo e era isso que a poderia ter salvado.
Recusou-se pensando em qualquer outra possibilidade.
Estava deitada no limiar. Quin tentou espreitar para dentro do quarto, mas o fumo negro e pesado tudo obscurecia. Porém, Lucy ladrara junto a uma janela... sem pensar mais, Quin inalou nova golfada de ar, ergueu-se com dificuldade e puxou o corpo inerte de Olivia para dentro do quarto. O seu corpo apressou-o na tentativa desesperada de encontrar ar. Deixando Olivia cair, inspirou nova golfada de fumo e dobrou-se sobre si próprio, tossindo com tanta força que pensou fraturar as costelas.
Manchas negras flutuavam-lhe diante dos olhos, tropeçou e caiu por cima de um catre macio. Encostou-se a ele por segundos, tentando recuperar as forças. Sabia que a janela estava ali em cima; se pudesse içar Olivia ali para cima, poderia encostar-lhe o rosto à janela.
Teriam de abandonar o pouco ar que havia junto ao chão, mas a parte lógica do seu cérebro registava que a perda de visão não era unicamente devida ao fumo. A sua vista desaparecia com a falta de oxigénio nos pulmões. Não poderiam sobreviver se não chegassem àquela janela. Quin acocorou-se, respirou fundo, conseguiu colocar o corpo inerte de Olivia sobre o seu ombro e ergueu-se com dificuldade. O fato de não se admirar quando encontrou uma escada exatamente onde precisava era sinal do seu diminuído poder mental. Colocou o pé no primeiro degrau.
Lucy. Encostou Olivia à escada, estendeu a mão para baixo e sentiu pelo, pegou então na cadela pelo pescoço.
As manchas negras dançavam diante dos olhos, como uma tempestade vinda do mar. Quanto tempo teria antes de ficar inconsciente? Um minuto? Menos? Arrancou a saia de Olivia, deixou cair Lucy dentro dela e meteu a dobra do pano na boca, segurando-a entre os dentes.
Colocou o outro pé na escada. Sentia as coxas como barras de aço, inflexíveis, terrivelmente pesadas. Mas fez um esforço até conseguir colocar Olivia sobre o último colchão. E aí estava a janela. Deus te abençoe, Lucy, pensou.
Lucy libertou-se, pôs-se de pé e correu para o ar livre. Quin sorveu-o também e puxou Olivia colocando-lhe a boca junto das grades da janela. A jovem não se movera. Estava perfeitamente inerte.
Morta, pensou ele. Estava morta.
– Vá lá, Olivia – disse e a voz saía-lhe rouca. – Respira, que raio, respira!
Porém, o rosto dela estava inerte junto às grades. Quin não conseguia ver sinais de vida. Invadiu-o uma dor terrível. Sentia o coração partir-se ali mesmo, naquela cela cheia de fumo.
– Não me deixes! – gritou em voz rouca. Agarrou-a pelos ombros e sacudiu-a. – Não me deixes.
À medida que a sua visão se tornava mais nítida, apercebia-se de que o rosto de Olivia estava levemente azulado. Lembrou-se de repente que deveria ver se havia pulsação, mas quando lhe encostou a mão ao peito, nada sentiu. Depois percebeu de que tentava encontrar o bater do coração do lado oposto do peito.
– Tenho o cérebro confuso – murmurou. – Tem de respirar – insistiu com violência. Abanou-a de novo, desejando que ela abrisse os olhos, mas a cabeça tombou-lhe para trás como uma flor num caule partido. O rosto dela pairava diante dos olhos e percebeu de que estava a chorar e de que lhe passava as mãos pelo peito em busca do bater do coração que não conseguia encontrar. Lucy também ali estava, ladrando ao ouvido da dona.
Porém, Olivia não se movia. Nunca mais se moveria. Quin baixou o rosto para o pescoço dela tentando sentir o esquivo e maravilhoso perfume de Olivia, mas apenas sentiu o cheiro a fumo.
Sentiu um aperto no peito e todo o desgosto que nunca exprimira se escapou em soluços tão fortes que o seu corpo estremeceu como se tivesse um ataque. Não conseguia conter-se; o mundo transformara-se num turbilhão de desgosto. Alfie, Olivia e até Evangeline e Rupert... todos mortos. Os gritos rasgavam o peito, trazendo consigo palavras que nunca pronunciara em voz alta, porque um duque controla-se sempre, um duque nunca implora.
Mas este duque implorava.
Por favor, Deus, ajuda-me, ajuda-me.
Por fim, percebeu de que via Lucy a lamber o rosto de Olivia: o fumo ia aos poucos desaparecendo da cela. O fogo da chaminé deveria ter sido extinto. Ouviu o latido de Lucy que lhe pareceu o de um Grand Danois.
Talvez o ladrar de Cérbero, o cão que guarda os portões do Hades.
O seu último soluço trouxe consigo uma estranha claridade, uma profunda calma.
– Não consigo suportar isto – disse Quin falando em voz alta. – Não consigo suportar isto de novo. Não podia voltar para a sua casa estéril, para as folhas cobertas de equações matemáticas, para as ordens rigorosas de sua mãe. Sem Olivia e sem Alfie não valia a pena viver.
Lucy continuava a lamber a face de Olivia. Quin estendeu a mão para a afastar – e pensou ver Olivia estremecer. Agarrou-lhe os ombros e puxou-a para si.
– Por favor, Olivia! Respira, por favor! Nada.
Puxou o corpo dela para si e embalou-o, permitindo que aquelas malditas lágrimas continuassem a cair.
Olivia tossiu.
Nessa noite em França, Tarquin Brook-Chatfield, duque de Sconce, fez uma triste figura. Nunca se esqueceria e sempre sentiria um leve embaraço. O homem que nunca chorara, nem sequer no funeral do filho, soluçava agora. E quando Olivia Mayfair Lytton recuperou os sentidos a tossir e dorida, mas à parte isso de perfeita saúde, ela – que também nunca chorava – também chorou.