Duas Irmãs, Um Duque
Capítulo 13
O Que Significa Conduzir Um Exército
Na tarde seguinte
O novo fato de montar de Olivia tinha um ar marcial: um trancelim subia pelo casaquinho e descia pela saia; tinha pequenas dragonas nos ombros. Até o encantador chapelinho não era uma touca, mas uma versão jovial do boné de um tenente, vermelho-escuro, que tão bem lhe ficava ao cabelo e à pele.
O fato fazia-a sentir-se como se a sua figura não fosse tão forte, como se não fosse tão suculenta (como diria a mãe). Como se tudo estivesse forte neste mundo e ela fosse o general de um seu exército exclusivo.
Uma ilustração perfeita da fundamental insignificância do seu cérebro, pensou, caminhando lentamente pelo caminho para os estábulos. Georgiana sentia-se mais feliz depois de ter criado uma poção nauseabunda que poderia – ou não – curar o bebê do segundo criado de umas manchas vermelhas que tinha no traseiro. Enquanto Olivia se sentia mais feliz se gostava do que via no espelho e depois se dispunha a namoriscar impudicamente com o duque.
Mas não o duque com quem iria casar.
Pior ainda, o duque com quem a irmã iria casar.
Era óbvio que não podia namoriscar com o duque. Quanto mais depressa metesse na cabeça que Sconce era o futuro marido de Georgiana, melhor. Sentiu até um pequeno estremecimento ao pensar num flirt com o futuro cunhado. Apenas a mais desagradável das irmãs – para não dizer desleal – poderia fazer tal coisa.
Já se sentia suficientemente culpada. Deixara Georgiana deitada no sofá, com um pano molhado sobre os olhos. A sua troca de palavras com a duquesa viúva ao almoço – de que tinha desfrutado bastante – provocara uma enxaqueca à irmã.
Lucy soltou um pequeno latido e correu para a frente abanando furiosamente a cauda. Um jardineiro já velho plantava algumas plantas à sombra de um antigo muro de pedra que separava os jardins de Littlebourne Manor dos estábulos que ficavam por trás. Estava de joelhos, de costas para ela, com as solas gastas das botas inclinadas para os lados.
– É uma coisinha bonita, não é? – disse o jardineiro, coçando Lucy entre as orelhas. Tinha uma voz quente e enrouquecida pelo fumo e fez Olivia pensar na qualidade das vozes: em como a voz da duquesa viúva era viva e fria, tão diferente da voz séria e profunda do filho. O duque parecia escolher cuidadosamente cada palavra, enquanto as palavras dela pareciam cair dispersas, muitas vezes de um modo pouco senhoril – A menina tem um sentido de humor muito animado, dissera a duquesa no dia anterior.
Afastou esse pensamento e aproximou-se um pouco mais do jardineiro.
– Bom dia, o senhor é do País de Gales?
No momento em que lhe ouviu a voz, o homem tentou pôr-se de pé com as articulações a estalar e encostou-se à parede com o boné na mão.
– Minha senhora – disse com os olhos no chão. – Não sou do País de Gales – parecia ofendido. – Sou do Shropshire. – Tinha as pernas arcadas e estava curvado, como uma macieira em cima de um monte lutando contra um vento forte.
– Não queria interromper o seu trabalho – disse Olivia. – Por favor, continue fazendo aquilo em que estava ocupado. É a minha cadelinha a cheirar-lhe as botas. Lucy, porta-te bem!
Lucy dançava por ali, tentando lamber a mão do jardineiro. Lentamente ele estendeu-a e puxou-lhe um pouco as orelhas.
– É bonita, não é?
– Não me aprece que seja exatamente bonita, se é isso que quer dizer – olharam ambos para Lucy. – Tem o pelo muito curto e levou uma dentada numa pálpebra.
– É verdade, perdeu um bocado da pálpebra. Mas tem uns olhos engraçados. E uma cauda também.
– Parece a cauda de um rato – comentou Olivia.
O jardineiro ajoelhou na terra castanha junto a ela. Depois falou como que para as plantas:
– Há aqueles que são decorativos, como as flores daqui. Depois a restante flora não o é se não quando caem as pétalas.
Olivia aproximou-se para espreitar.
– Quais são as flores que são feias até lhe caírem as pétalas?
– Parece que a senhora caminha numa nuvem de pétalas dançando ao vento, não é verdade?
Ela olhou em redor e os olhos pousaram sobre o velho boné do jardineiro e não sobre os seus ombros.
– Que bela descrição.
– Esta pequenina – disse fazendo cócegas em Lucy com o cotovelo, entontecendo o animal de prazer – saberá animá-la quando estiver triste, embora haja quem prefira animais de cauda farta e pelo comprido.
Olivia deu por si a sorrir para Lucy.
– Tem razão, claro. A princípio não lhe ligava grande coisa, mas agora gosto muito dela – inclinou-se e espreitou para a terra. – De que são essas sementes?
– Delfínios.
– Aquelas flores altas e roxas?
– Exatamente.
Olivia franziu a testa.
– Pensava que essas flores precisavam de muito sol. Terão bastante aqui junto a este muro?
– A senhora duquesa gosta delas aqui, minha senhora. – A terra rica passava-lhe entre os dedos como chuva quando batia no solo junto de cada rebento.
– Detesto plantar coisas que não vivem muito tempo. Talvez o jardineiro principal pudesse ensinar a senhora duquesa a tratar dos delfínios.
Ele lançou-lhe um rápido olhar.
– Uma senhora gosta do seu jardim arranjado, com muitas flores, limpo, doce e perfumado.
– Até rima – constatou Olivia, pensando que Justin teria muito que aprender com o jardineiro.
Uma mão quente tocou subitamente nas costas de Olivia.
– Miss Lytton – disse o duque, com os olhos escuros e imperscrutáveis. – Peço desculpa por tê-la assustado. – Fez uma reverência. – Estou vendo que já conhece Riggle, o nosso muito estimado jardineiro principal, está conosco desde que eu tinha seis anos. Riggle posso apresentar-lhe Miss Lytton?
Riggle olhou por cima do ombro do duque e disse qualquer coisa parecida com prazer.
– Muito gosto em conhecê-lo, Riggle – respondeu Olivia. – Bom dia, senhor duque.
O duque vestira também um fato de montar com calções cingidos às coxas musculosas. Bastou um olhar para lhe acelerar o coração.
O desejo – porque Olivia não era mulher para fingir uma emoção mais digna, quando se apresentava a palavra adequada – surgia como uma sensação avassaladora. Conseguia imaginar aquele leve toque da mão dele em todos os seus membros.
Cunhado, disse para consigo. Cunhado.
– Não me diga que ela o mandou outra vez plantar delfínios – disse o duque e inclinou-se para examinar cuidadosamente as plantas.
– Sim. São folhas palmadas. Disse-lhe que não o fizesse, Riggle.
– A senhora duquesa é uma crente muito firme – referiu o jardineiro batendo na terra junto a outra plantinha.
– Em quê? – perguntou Olivia.
– Nos planos dela – respondeu o duque em vez de Riggle. – A minha mãe consegue pensar que, se alguém aderir a um plano, de preferência elaborado por ela, o mundo será um local são e ordenado.
– A esperança de que uma planta floresça, apesar da falta de sol, mostra uma confiança extraordinária nos seus planos – observou Olivia.
– Estou rodeado de parentes com pretensões a possuírem poderes divinos. – Uma centelha perpassou-lhe no olhar, denunciando uma gargalhada. Parecia inflamável e perigosa.
Olivia não pôde deixar de lhe devolver o sorriso, embora o rosto dele estivesse, aparentemente, muito sério. Mesmo assim: Cunhado, pensou outra vez
– Riggle, teremos de nos despedir de si – afirmou o duque tomando o braço de Olivia. – Miss Lytton, mandei que nos preparassem duas montadas. Justin já levou a charrete com o pónei para a frente da casa para ir buscar Lady Cecily, pois ela ainda se queixa do tornozelo.
Olivia despediu-se de Riggle e caminhou em silêncio ao lado do duque. Tinha de dizer alguma coisa... qualquer coisa. Era quase a primeira vez na vida que o seu cérebro era incapaz de produzir uma única palavra.
Depois do almoço, a irmã tivera a certeza de que o duque se aborrecera de Olivia, dado o comportamento arrapazado que esta demonstrara. Mas o duque não parecia ter deixado de gostar dela.
– A senhora é uma amazona entusiasta, Miss Lytton? – perguntou ele um ou dois minutos depois.
– Sim – declarou Olivia, grata por obter um tópico de conversa. – Quando era pequena tive um pónei e, presentemente, eu e a minha irmã montamos regularmente no Hyde Park. Também vai lá montar, senhor duque?
– Há anos que não o faço – disse. – O seu noivo gosta de montar?
– Rupert? Tem alguma dificuldade em se aguentar na sela – retorquiu Olivia lembrando-se demasiado tarde que não deveria contar a estranhos que Rupert só começara a aguentar-se em cima de um cavalo depois dos quinze anos. – Mas melhorou muito no último ano. Tem... um joelho fraco – acrescentou apressadamente.
– Mais uma razão para admirar a sua decisão de ir para a guerra.
– O pai ficou muito contrariado, mas Rupert tem vontade forte. Quando mete uma coisa na cabeça, ninguém consegue dissuadi-lo.
Uma leve ruga passou momentaneamente na testa do duque.
– Suponho que…
– Sim.
– O seu noivo parece-me um homem excelente. Leal ao seu país, corajoso, mesmo com o senão da incapacidade física, e decidido nas suas convicções em face da reprovação do pai. Conheço o duque de Canterwick e pensava que ele exerceria uma considerável pressão sobre o filho, para que este ficasse em Inglaterra. Estou desejando conhecer Montsurrey.
Olivia acenou afirmativamente. Não podia dizer grande coisa sem ser desleal para com Rupert e decidira que não o faria.
Mas o duque ainda não terminara.
– Parece que Canterwick disse à minha mãe que o filho tinha miolos de leite-creme.
– Ah! – exclamou Olivia. Claro que concordava, mas apercebera-se de que, como a duquesa tratava Rupert com tanto desdém, ela, Olivia, poderia passar toda a vida a ouvir risinhos à socapa nas costas do marido ou tornar claro que não admitiria que ninguém insultasse Rupert à sua frente.
– O duque mostra uma terrível incapacidade para reconhecer o lado bom do filho – disse ela cumprindo o que pensara fazer. – O pensamento de Rupert é por vezes notavelmente claro.
Aquilo era verdade. Rupert sabia perfeitamente o que sentia por Lucy, por exemplo. Olivia olhou para o animal com uma onda de afeição. A cadelinha trotava junto a ela, abanando a cauda que lhe batia com força na perna.
– Por vezes, os pais fazem isso – respondeu o duque com uma expressão imperscrutável.
– Claro que Canterwick teria preferido que Rupert ficasse em Inglaterra, pois não tem outro herdeiro – disse Olivia. – Mas Rupert não quis sacrificar a sua honra nem a do seu país por uma coisa tão efémera como um título.
Aquilo provocou uma expressão diferente no rosto do duque. Deveria ter sido a primeira vez que alguém invejava Rupert; Olivia sentiu-se triste por ele não estar presente para desfrutar da situação.
– Vossa Graça gostaria de se ter alistado ao serviço de Sua Majestade? – perguntou ela.
– Claro – respondeu ele bruscamente. – Mas eu já sou duque e não tenho herdeiro. Não poderia ficar descansado deixando as minhas responsabilidades nas mãos de outros.
– Rupert não tem responsabilidades por enquanto e lá no fundo sentiu que tinha de ir. – O duque parecia ter uma expressão tão triste que Olivia começou a sentir pena dele. – Provavelmente, não terá qualquer efeito no esforço de guerra – alvitrou. – A companhia dele tem apenas cem homens.
– Parece-me que o número de homens é importante, mas não tanto como os planos estratégicos – disse o duque.
Olivia nem tentou imaginar Rupert envolvido em planos estratégicos.
– Está preocupada com a segurança dele?
– Sim – retorquiu Olivia! E estava, era estranho, mas estava. Depois de todas as suas lamúrias acerca do casamento, qualquer coisa mudara no seu interior quando se despedira dele. Rupert não era perfeito, mas era seu para o melhor e para o pior.
Hesitou um momento e depois decidiu que tinha de ser absolutamente sincera.
– Eu e o senhor duque começámos um flirt.
Ele voltou a cabeça lentamente para olhar para ela. O brilho dos seus olhos nada tinha a ver com uma palavra tão inócua como flirt.
– Não o descreveria como tal – disse ele fazendo eco do pensamento de Olivia.
Estaria tentando envergonhá-la? Se havia uma coisa que Olivia detestava era o esconder de emoções por trás de uma máscara de probidade. Bastava-lhe a família. Embora os adorasse ternamente, concluíra havia muito que a ganância ditara a relação que os pais mantinham com ela.
– Compreendo que deseje fingir que não existe tal sentimento, mas não posso concordar consigo.
– De fato, descobri-o a mim próprio como estando nas garras de uma luxúria compulsiva – disse secamente. – Garanto-lhe, Miss Lytton, que nunca beijei uma mulher desconhecida de um modo tão impetuoso antes de a senhora me aparecer à porta.
Olivia sentiu um rubor cobrir-lhe todo o corpo e o coração acelerado.
Não se atrevia a olhar para ele. Em parte queria protestar: não perceberia ele que ela era gorda e nada atraente? Espreitou o rosto.
– A senhora está noiva – acrescentou ele e a voz saiu-lhe num grunhido.
– Desde a infância – disse ela, acenando com a cabeça.
Caminhavam ao longo de uma sebe de lilases. O perfume das flores flutuava no ar. Ele parou, largou-lhe o braço, obrigando-a a olhá-lo. Uma mão forte ergueu o queixo. Os olhos de ambos encontraram-se.
– Olivia – disse ele. E foi tudo.
Ela ficou nos braços dele e os lábios dele colaram-se aos dela. Por um momento beijaram-se como o haviam feito na sala das pratas: experimentando, suavemente, provando. Mas, depois, os braços apertaram-se, ela inclinou a cabeça e o beijo transformou-se. Olivia abriu os lábios e ali estava ele envolvendo-a.
A fragrância dos lilases desvaneceu-se. Ela sentiu o cheiro a especiarias e a sabonete, à mistura de cavalheiro e salteador que o duque era.
Ele tinha razão. Aquilo não era um namorico; era um desejo tão profundo e intenso que todo o corpo de Olivia vibrava com a necessidade de estar mais próxima dele. Lançou-lhe os braços ao pescoço, pôs-se em bicos de pés, permitiu que uma mão de Quin lhe puxasse o corpo de encontro aos planos duros do corpo dele. A outra segurava-lhe a nuca, apoiando-a numa posição que a obrigava a inclinar a cabeça para a poder beijar melhor, num beijo ávido e escaldante que lhe disse sem palavras que não a achava gorda ou pouco atraente.
O cabelo dele soltou-se da fita e tocou no rosto dela. Com os olhos fechados, Quin parecia um homem diferente. Com os olhos abertos parecia feroz, tinha um perfil de falcão, era frio. Com os olhos fechados era uma pessoa completamente diferente.
Um homem invadido pelo prazer, disse o instinto dela.
Os lábios dele afastaram-se dos dela, procurando-lhe a curva do pescoço. Olivia emitiu uma exclamação ofegante e estremeceu; ele abriu os olhos.
– Não se trata de um flirt – a voz dele era rouca enquanto deixava com os lábios uma esteira de calor na face dela.
– Não – murmurou Olivia, estremecendo junto dele.
– É um fogo na floresta – disse ele depositando-lhe um beijo nos lábios e depois afastando-a dele. Olivia engoliu em seco.
– Mas a senhora está noiva – era uma afirmação, mas aqueles olhos escuros faziam uma pergunta. Olivia sentiu-se afastada do mundo, como se só existissem os dois naquele jardim ventoso: aquele homem alto e severo, observando-lhe o rosto, e ela, Ms. Olivia Mayfield Lytton, noiva de um marquês desde que nascera. O coração batia-lhe junto às costelas, mas...
Tinha de pensar em Rupert e em Georgiana. Dominou-se e disse em voz alta.
– Um fogo na floresta não é razão para trair as duas pessoas que eu... para trair o meu noivo.
– Duas pessoas? – fez uma pausa. – Georgiana?
– Isso é irrelevante – disse ela imediatamente. – Não quis dizer que... de qualquer modo é completamente irrelevante.
– Não, não é. Ela está aqui porque a minha mãe a convidou.
Olivia acenou com a cabeça.
– Não é como se a ignorássemos, como um cavalo que não nos interessa – disse ele quase a defender-se. – O meu primeiro casamento correu muito mal. A minha mãe está ansiosa para que eu não repita o erro.
Olivia tocou-lhe no rosto, ao de leve, como um sopro, mas mesmo assim os seus dedos estremeceram.
– Georgiana nunca o trairia.
– Então ouviu falar no assunto? – Quin tinha os olhos baixos.
– A minha criada falou da reputação da sua anterior esposa.
– Lamento, mas foi Evangeline que criou essa reputação – não havia vergonha nem condenação na voz dele. – Creio que será melhor prosseguirmos até aos estábulos, Miss Lytton. A minha tia, já para não falar do jovem Justin, ficarão inquietos se os deixarmos à espera na charrete. Olivia tomou-lhe de novo o braço. Sentia os joelhos fracos.
– Parto então do princípio que é fiel a Montsurrey.
Ela acenou afirmativamente, mas percebeu de que ele olhava em frente, por isso disse:
– Sim... ele ficaria magoado se eu... se eu não o fosse.
– Uma resposta tipicamente inglesa – comentou Quin, olhando para ela. – Não me chega, mas tem razão. A pior coisa que um homem pode fazer a outro, principalmente a outro que esteja a servir a pátria, é roubar-lhe a futura esposa. Talvez quando ele regressar são e salvo, possamos continuar esta discussão?
– O senhor e eu mal nos conhecemos – disse Olivia, esforçando-se por manter a voz firme.
– Quero conhecê-la melhor, é por isso que estamos a conversar – falava em voz rouca, angustiada.
O rosto esperançoso de Georgiana surgiu diante dos olhos de Olivia. Recompôs-se. Rupert era uma coisa, mas Georgiana era sua irmã gêmea, a sua outra metade. E sentia instintivamente que a irmã tinha razão: aquele homem era perfeito para Georgie. Não para Olivia.
– Uma pessoa não se casa com base na loucura – disse tentando dar um tom frio à voz.
Ele deu mais uns passos sem pronunciar palavra. Silêncio... silêncio que fez com que Olivia se tornasse ainda mais consciente do corpo forte que tinha junto dela. Cunhado, disse para consigo.
– Conhece então este tipo de leitura? – perguntou em voz átona. – Acontece-lhe muitas vezes?
Como à mulher dele. Era o que ele estava pensando. Olivia abriu a boca para o negar, mas... pensou melhor.
– Rupert e eu estamos noivos desde que nascemos. Claro que eu não... – tentou de novo. – Nenhum de nós pôde escolher. Compreendemos ambos que a fidelidade não fazia parte do pacto dos nossos pais, pelo menos antes do casamento.
Passavam agora a esquina dos estábulos. Um cavalariço espreitou à porta e voltou para dentro, seguido pelo ruído dos cascos quando uma égua malhada surgiu ao sol.
– Ajudo-a a subir para a montada – disse o duque.
Conduziu-a até à égua e colocou-lhe as mãos na cintura. Ficaram ambos imóveis por um momento. As mãos dele apertaram-na para logo a erguerem e colocarem cuidadosamente sobre a sela.
– Muito obrigada, senhor duque – murmurou rodeando com a perna a maçaneta da sela e ajeitando as saias.
– Prefiro que me trate por Quin.
Ela olhou-o sobressaltada.
– Seria impróprio.
– Impróprio seria se eu a fizesse descer do cavalo diante de quatro criados e a beijasse loucamente.
– Impossível! – exclamou ela em voz rouca.
– Não é impossível – disse ele calmamente. – E posso apenas concluir que não ficaria perturbada, Olivia, dado que acaba de se caracterizar como uma mulher namoradeira... para colocar a sua descrição da melhor maneira possível.
Que deveria ela responder? Para si sou Miss Lytton? Mas o duque já dera meia volta e saltara para o cavalo num movimento suave. Estava zangado; Olivia notava no corpo a fúria contida, no modo como as suas maçãs do rosto se tornavam mais duras e masculinas do que o habitual.
Mas não sabia como responder. Desejaria simplesmente – se não fosse o seu orgulho e lealdade – estender o braço para lhe tocar na mão, para lhe puxar a manga. Para lhe enviar um olhar febril que como quer que fosse o atraísse, obrigando-o a beijá-la assim.
Como se ela fosse desejável. Sensual.
Olivia olhou para baixo e viu a sua perna em redor da maçaneta da sela. Aquilo fê-la voltar a si. Não sabia porquê, mas ele queria-a agora.
Mas ela era gorda. A perna dela era gorda. Ele ainda não se apercebera. Não se importara, mas não quereria – não poderia – se estivessem despidos os dois.
A ideia provocou-lhe um aperto no estômago, que lhe agradou. Era uma chamada à razão. Quin seria feliz com Georgiana. Esqueceria aquele disparate, aquele fogo na floresta, como lhe chamara.
Sorriu para o cavalariço que segurava as rédeas da égua.
– Toma conta de Lucy até eu voltar? Creio que ela pensa que pode haver ratazanas no estábulo.
– Ela fica bem aqui – disse o rapaz prontamente. Lucy farejava junto ao muro com a cauda levantada de contentamento.
– Descobre-as – sugeriu Olivia.
Ele sorriu e entregou-lhe as rédeas. Ela pegou-lhes com destreza, fez uma festa à égua e partiu atrás do duque. De Quin.
Chegaram a casa através de uma estrada que descrevia uma curva. Observando-a com atenção pela primeira vez, percebeu de que Littlebourne Manor tinha uma fachada magistral.
Em vez de se espalhar em várias direções, como tantas mansões ancestrais acrescentadas aos poucos, esta erguia-se direita e bem conservada, perfeitamente simétrica, rodeada por relvados imaculadamente tratados.
Era demasiadamente ordenada para ela. Cada particularidade tinha o seu exato duplicado no lado oposto: janelas, empenas, chaminés.
– O que acha? – perguntou o duque, quando ela aproximou a montada.
– Demasiado ordenada para o meu gosto – disse ela apontando para as janelas que pareciam marchar como soldadinhos de chumbo. – Sou uma pessoa mais desregrada.
– O que significa desregrado em termos arquitetônicos? – perguntou ele. Mas Olivia via já Lady Cecily e Justin à espera deles por isso pôs a égua a trote.
– Lamento tê-la deixado à espera, Lady Cecily – disse, inclinando-se, assim que chegaram à charrete.
– Era a mim que devia pedir desculpas – protestou Justin com alguma indignação. – A tia Cecily chegou agora mesmo, enquanto eu tive tempo de escrever uma redondilha completa. Também não foi assim tão mau para mim – acenou com um bocado de papel.
– Estou desejando ouvi-la – disse Olivia. – Como está o seu tornozelo, Lady Cecily?
– Excelente. Coloquei-lhe um pó que trouxe de Veneza há dois anos. O medicamento é tão bom que manteve jovem a própria Helena de Troia. E é especial para os ossos; lembro-me do homem que me vendeu. Foi na praça de São Marcos e ele disse que me firmaria os dentes e os faria dançar como as teclas de um cravo. E foi o que aconteceu, embora, claro, se tratasse do meu tornozelo e não dos meus dentes.
– Vamos a Ladybird Ridge – sugeriu o duque a Justin. – Tenta não voltar a charrete, se conseguires.
– Será impossível voltar esta coisa – comentou Justin com desagrado. – Agora, se me deixasses conduzir o teu faetonte, talvez houvesse uma possibilidade de o…
O duque não se incomodou a responder-lhe e voltou-se para Olivia.
– Vamos?
– Quem me dera que a sua querida irmã aqui estivesse – disse Lady Cecily a Olivia. – Creio que ficou com uma dor de cabeça, por isso mandei-lhe também uma dose do pó. É um remédio precioso, garanto-lhe, por isso estou certa de que já se sente melhor. Quer que mande alguém a casa perguntar-lhe se quer vir conosco?
– Não – disse o duque antes que Olivia pudesse responder. – Vamos embora.
E obrigou o cavalo fazendo meia volta. Era um enorme alazão que se inclinava para diante fazendo algumas tentativas para o derrubar da sela.
Olivia voltou a égua e seguiu-o.