Duas Irmãs, Um Duque
Capítulo 27
E Um Longo Caminho antes de Ir Dormir 6
No convés, a primeira coisa de que Quin se apercebeu foi que o barco a remos era demasiado pequeno, pouco maior do que a sua banheira. Mal aguentaria com o seu peso, muito menos com o seu e o de Olivia. E certamente seria impossível trazer nele uma terceira pessoa, morta ou viva. O capitão do Day Dream inclinou-se e falou em voz baixa.
– É o único que temos com os remos camuflados. Atravessa a água com menos ruído que um homem a urinar numa poça de água. Não há melhor para quem precisa de chegar à praia sem se fazer notar.
O homem tinha toda a aparência de ser contrabandista. Quin fez uma pausa, depois acenou com a cabeça, soltando conscientemente a tensão do maxilar. Se sobrevivessem às horas mais próximas, não desejava ir-se abaixo como o pai de Rupert; já reparara no efeito extremamente pernicioso que a tensão exercia no corpo humano.
Seria absurdo haver dois duques mortos, ambos noivos de Olivia e nenhum com um herdeiro vivo. Baixou cuidadosamente da escuna para o barquinho e estendeu a mão a Olivia a quem o capitão ajudava a descer. Tiveram de se sentar com as pernas dobradas, joelhos contra joelhos e Lucy aconchegada nos braços de Olivia. A centelha de desejo que sempre sentia com o toque dela, geralmente tão emocionante, irritava-o agora, estimulando a já subjacente sensação de pânico.
Mas fez deslizar os remos camuflados para a água e, na verdade, o barco fazia menos ruído do que uma cana ao vento. Viam-se rochas a bombordo e, a pouca distância, uma mancha de areia brilhava ao luar.
Calculou mentalmente o local exato em que a enseada entrava no mar e com grande satisfação avistou um local escuro, onde previra que ele se encontrasse.
Algures um maçarico-real cantou um hino noturno, com as notas a acompanhar o som suave das ondas. Os olhos de Olivia brilhavam.
– Adoro o cheiro do mar – murmurou, a sua voz não mais que um fio de som dentro da noite.
Na verdade, a água não cheirava como aquela entidade terrível que lhe engolira e roubara o filho. Cheirava a sal e a algas e recordava-lhe a infância quando todas as características físicas do mundo eram um mistério a aguardar solução.
Mais adiante uma breve faísca iluminou a escuridão, levemente ao lado da enseada. Quin tocou no joelho de Olivia e apontou.
– Rupert?
– A guarnição – virou a bombordo, dirigindo-se diretamente para a sombra escura que assinalava a boca da enseada.
Talvez tivessem sorte... entrassem e saíssem como uma raposa.
Depois o barquinho deslizou pela pequena enseada que estava cheia de ramos, tal como Grooper descrevera. Quin continuava pensando em como poderiam retirar-se os três pela enseada, tendo em conta o tamanho do barco. Não seria possível.
Teria de levar primeiro Olivia ao Day Dream, para que ficassem a bordo em segurança, e depois regressar para ir buscar o cadáver de Rupert.
O barco deslizava como um fantasma pela água e a corrente inclinava-se lentamente e de novo para a direita. Um segundo depois estavam na praia. Quin saiu do barco, empurrou-o para terra e veio rapidamente ajudar Olivia e Lucy.
Abraçou-a por um momento.
– Não te quero aqui – murmurou.
– Vamos – disse ela quase ao ouvido.
Quin deu-lhe a mão. Era terrível gostar de alguém. Como fora possível ter-se esquecido? Dantes preocupava-se sempre que Alfie estava doente. A ansiedade era cansativa.
Subiram a margem e voltaram à esquerda. Na sua imaginação, Quin seguia o dedo de Grooper no mapa, traduzindo as distâncias em passos. As suas capacidades matemáticas estavam a ser muito úteis nesta situação.
Avançaram em silêncio, sentindo mais o caminho do que vendo-o; algum tempo depois, a escura parede exterior de uma cabana surgiu precisamente onde esperavam. Quin colocou uma mão no ombro de Olivia e apertou numa mensagem muda. Ela acenou afirmativamente, com os olhos enormes à luz do luar.
Quin seguiu a parede da cabana, voltou a esquina e empurrou suavemente a porta. Sentiu um breve movimento no interior e murmurou imediatamente:
– Deus salve o rei.
A porta abriu-se para dentro. Quin penetrou na escuridão total e esperou que a porta se fechasse atrás de si. Depois acendeu-se uma lanterna e a chama trêmula iluminou o rosto de dois exaustos soldados ingleses.
– Graças a Deus que chegou – murmurou um deles.
– Ele está vivo?
Um aceno de cabeça.
– Mas muito mal.
– Os vossos nomes?
– Togs – outro aceno. – E ele é Paisley.
Quin apontou para a lanterna. Apagaram-na de novo e ele saiu para logo voltar com Olivia, segurando-lhe a mão quente.
Quando acenderam de novo a lanterna, a luz incidiu sobre as superfícies planas do rosto dela, sobre as madeixas de cabelo que lhe escapavam por baixo do capuz, pela linha generosa do seu lábio inferior.
– Lucy! – Tog soltou uma exclamação abafada e cheia de significado. Achavam-na digna do risco que as suas vidas haviam corrido. Quin percebeu-o nos olhos dos dois homens e um gemido mudo subiu-lhe na garganta, sobressaltando-o.
Olivia abanou a cabeça, abriu a capa e colocou a cadelinha de Rupert no chão. Sorriu para os rostos admirados e apontou.
– Esta é a Lucy.
– E o marquês? – perguntou Quin.
Deixara de pensar em cadáveres e fazia agora cálculos desesperados, perguntando a si próprio como seria possível meter Olivia e Rupert, gravemente ferido, no barco a remos. Ficar para trás estava fora de questão; Olivia nunca poderia remar sozinha para chegar ao Day Dream. Teria de levar primeiro um e depois voltar para vir buscar o outro – o que significava ter sempre de abandonar um durante algum tempo.
Togs sacudiu a cabeça e correu a cortina grosseira que tapava o canto para revelar a pequena figura deitado num colchão no chão.
Olivia correu para lá e caiu de joelhos no chão. Lucy já lá estava, farejando a face do dono agitando nervosa a fina cauda.
Pegou na mão de Rupert. Era estranho perceber como os dedos dele eram longos e delicados. Nada como a mão forte de Quin, mas eram belos à sua maneira.
Inclinou-se e chamou.
– Rupert! – ele não se mexeu.
Lucy encostava-se a Olivia a tremer e, depois, saltou de repente, aterrando no peito de Rupert. Olivia estendeu a mão para a retirar, mas a cadela lambia a face, o nariz e as pálpebras.
– Rupert – disse então Olivia em voz baixa e urgente. – Trouxe-lhe a Lucy. É a Lucy.
As pálpebras de Rupert tremeram. Ela acariciou a mão com mais força e olhou para Quin.
– Está acordando! – murmurou.
Lucy continuava a lamber Rupert, banhando a face e a orelha com a língua. Ele abriu a boca e pronunciou um nome em voz baixa.
– Lucy.
Olivia inclinou-se mais.
– Rupert, sou eu, Olivia. Eu e a Lucy viemos buscá-lo para o levar para casa.
Por uns segundos, ele nada disse. Depois os olhos dele concentraram-se no focinho pontiagudo de Lucy e nos seus olhos brilhantes. Esboçou um trémulo sorriso nos seus lábios exangues. Depois olhou para Olivia.
– Sabia que viria.
Falava em tom arrastado. Com um nó no estômago, Olivia percebeu de que um fio de sangue lhe escorria de um ouvido.
Abafou um soluço na garganta. Não parecia poder viver muito mais.
Sentiu as mãos de Quin apertarem-lhe os ombros. Ele acocorou-se ao lado do catre.
– Lorde Mont… Ela abanou a cabeça.
Quin falou de novo, em voz calma e profunda.
– Rupert, viemos buscá-lo para o levar para casa. Os olhos de Rupert afastaram-se de Lucy.
– Quem…?
– Chamo-me Quin.
– Ah. – Tinha os olhos quase fechados. – Um longo caminho a percorrer.
– Sim – concordou Quin.
Leu a verdade no rosto de Rupert, mesmo antes de ele poder falar.
– Um longo caminho…
A mão de Olivia fechou-se no pulso de Quin.
– Temos de o levar para o barco. Já. Do contrário... vai morrer aqui, nesta enxovia.
Rupert não parecia ter a vontade indomável que conduzira uma companhia de cem soldados a invadir as muralhas de uma fortaleza. No seu rosto havia uma espécie de aceitação que falava por si própria. Quin pensou que ele morreria em breve.
– Não poderemos ficar aqui mais do que umas horas – disse.
– Os franciús quase nos apanharam esta manhã – contou Togs. – Ouvimo-los... estavam quase a entrar na cabana, mas um dos cães assustou um pato e preferiram ir atrás do almoço. Não tínhamos barco porque mandámos Grooper nele.
Quin franziu a testa, olhando para o silencioso Paisley.
– Ele não fala – disse Togs. – Nem uma única palavra. É o melhor marinheiro de todos nós. Trouxe o barco até aqui, mas não pôde ir buscá-lo porque não fala. O major disse que para ele não fazia diferença, desde que soubesse pegar numa arma como devia ser.
O homem silencioso acenou com a cabeça.
– Ficaram ambos com ele – disse Olivia, a sorrir apesar do medo, olhando os rostos exaustos dos homens.
– É o nosso comandante – disse Togs e Paisley acenou, comovido.
Eram homens bons. Quin teria também de os tirar dali, antes que, de manhã, os franceses dessem mais uma vez com a cabana e decidissem explorar.
A tensão aumentava no peito de Quin. Rupert estava perto da morte e os dois soldados estavam exaustos a ponto de desmaiarem. Apostava que quase nada teriam comido nos últimos dias.
Acocorou-se, suficientemente próximo para se aperceber do aroma quente e floral de Olivia e disse calmamente:
– Tenho de te deixar aqui por algum tempo, minha querida.
Ela voltou o rosto e os seus lábios tocaram os dele, doces e arrebatados.
– Era exatamente isso que estava pensando.
– Venho buscar-te, provavelmente, dentro de uma hora.
Quin percebeu que Rupert abrira de novo os olhos e que os observava.
– Está... feliz – as palavras flutuavam no ar. Quin teve de aclarar a voz.
– Vou levá-lo para o barco – passou a mão por baixo do tronco de Rupert e descobriu que praticamente nada pesava.
– Leve a Lucy – murmurou a Olivia.
Olivia retirou a cadelinha do peito de Rupert, mas deteve Quin antes que este pegasse no ferido. Rupert parecia muito doente e muito jovem. Nem parecia ter dezesseis anos, quanto mais dezoito.
– Conseguiu, Rupert – murmurou Olivia inclinando-se mais. – O seu pai está tão feliz e tão orgulhoso de si. Coroou de glória o nome dos Canterwick. – Mesmo com tão pouca luz, conseguiu ler-lhe um fraco sorriso nos olhos, um sorriso cansado. – E é um poeta maravilhoso – disse ela, acariciando o rosto com a mão. – Tem de curar-se, para que possa escrever mais poesia.
Ele abanou levemente a cabeça.
A verdade lia-se no rosto. Olivia tinha os olhos rasos de lágrimas.
– Então voe, Rupert. Seja livre. Deixa toda a escuridão para nós.
Lá estava de novo o sorriso. Rupert voltou ligeiramente a cabeça, tocou-lhe na mão com os lábios e fechou os olhos.
Olivia ficou imóvel por um momento e deixou cair uma lágrima no cobertor grosseiro. Depois, Quin acariciou o cabelo e ela levantou-se.
Esperou até que Quin se erguesse com Rupert nos braços.
– Se ele morrer – disse ela –, não pode deixá-lo. Ele não pode morrer naquele barco, apenas com Grooper à cabeceira. Está ouvindo?
A voz dela mal se ouvia acima do grito de um pássaro, contudo, ele percebeu todas as palavras.
– Não, Olivia! – implorava e protestava ao mesmo tempo.
– A patrulha francesa vem de manhã – disse ela. – Só de manhã – olhou para o rosto de Rupert.
Tinha razão. Rupert, provavelmente, não viveria até de manhã, mas se esperassem na cabana... havia homens que levavam a morrer mais do que as horas até de madrugada. E se fosse esse o caso, seriam todos apanhados.
Olivia entregou a Quin a trela de Lucy e enrolou no pulso. Lá fora a noite era ainda muito escura sem vestígios de madrugada no ar. Quin teria tempo de remar pela pequena enseada, chegar ao Day Dream a tempo de fazer com que Rupert ficasse confortável... tinha tempo.
Quando se instalaram no barco a remos, operação que requereu grande subtileza, dadas as diminutas proporções do barco, Rupert deixou de respirar.
Lucy soltou um pequeno ganido e lambeu a face; o peito de Rupert agitou-se de novo.
Quin manobrou os remos, mas tinha de ficar em silêncio, em silêncio... não podia remar com força, de contrário os remos bateriam na água e fariam ruído.
Quando por fim chegou ao Day Dream, Grooper esperava-o junto à amurada. Com o soldado a içá-lo lá de cima foi rápido levar Rupert para bordo, mas ao ver o seu adorado major inconsciente, os olhos de Grooper abriram-se mais. Era um homem de ação, o homem que atravessara a Mancha para avisar a família de Rupert, mas não era pessoa que suportasse ver os outros a sofrer.
Conseguiram meter Rupert na cama e Quin cobriu-o com um cobertor e colocou Lucy a seu lado.
A viagem desde a cabana, embora muito curta, fora muito difícil e Quin apercebia-se de que para Rupert fora atroz. O seu rosto parecia cada mais abatido e a respiração era a respiração breve de um homem no limite da sua tolerância. Agarrava o pelo de Lucy com os dedos apertados.
– Brande – gritou Quin, mas percebeu de que Grooper, tendo esgotado as suas capacidades, fugira para o convés. Abriu um armário de onde arrancou uma garrafa que era afinal o melhor conhaque francês a que até os duques só de vez em quando tinham acesso. Oh, nada como um contrabandista.
Voltou e colocou umas gotas de brande na boca de Rupert. O marquês soltou uma exclamação sufocada e abriu os olhos.
Uma sensação de impotência sua conhecida apertou o coração de Quin. Sabia que deveria dizer alguma coisa, mas não tinha ideia do que poderia ser. Era como se tivesse de novo Evangeline na sua frente, quando esta o acusava de não passar de um insensível bocado de madeira e ele não fazia a mínima ideia do que ela queria dele.
Provavelmente, Rupert gostaria de ouvir poesia – mas Quin não sabia poemas. Os seus preceptores nunca se haviam incomodado com tal coisa. Sentia-se terrivelmente frustrado. Se, ao menos, Rupert quisesse informações acerca de padrões de ondas...
– Quem… – os olhos de Rupert observavam-no, confuso.
– Sou amigo de Olivia – recordou-lhe Quin. – Trouxemos a Lucy para o ver e vamos levá-lo para casa do seu pai, para Inglaterra.
Os dedos de Rupert enrolaram as orelhas de Lucy e deram-lhe um pequeno puxão. Lucy farejou a mão.
– É um longo caminho – disse ele.
Quin concordou silenciosamente. O que se deveria dizer a uma pessoa que estava a morrer? Um salmo, talvez, só que não se lembrava de nenhum.
– Dormir – disse Rupert, fechando de novo os olhos.
De repente, e sem saber como, lembrou-se do poema de Rupert como se Olivia lhe tivesse recitado momentos antes. Antes que o esquecesse, disse-o em voz alta:
– Esperto, luminoso, um pássaro cai junto a nós, a escuridão amontoa-se nas árvores.
Naquele contexto não fazia sentido, mas repetiu-o, mais lentamente.
O rosto de Rupert iluminou-se e disse qualquer coisa, tão baixo, que Quin quase não ouviu.
– E voam… – um longo silêncio. A respiração parou. Mas recomeçou.
Quin olhou desesperado para a vigia. Não havia ainda sinais da madrugada. Sabia o que diria Olivia. Sabia o que ela queria. Sabia...
O peito de Rupert deixou mais uma vez de se mexer. Depois respirou de novo, com um pequeno gemido sufocado.
Quin sentou-se, segurando com força na mão do homem que lhe oferecia Olivia, que escrevera um poema que falava da morte de Alfie e que voava com os pardais caídos das árvores.
E, durante todo este tempo, a pessoa que lhe era mais querida estava numa praia estrangeira, sem ele, guardada apenas por dois soldados exaustos e trémulos.
Que diabo, mas ele devia amá-la para...
O pensamento foi como um trovão dentro da sua cabeça. Ficou imóvel ao ver que Rupert deixara de novo de respirar, mas já antes o fizera... Amor?
Quando ainda era pequeno, a mãe dissera-lhe que o amor... o que dissera ela acerca do amor?
Que era perigoso e não para as pessoas do nível deles. Que era impulsivo e um sinal de que as pessoas eram tolas e mal-educadas.
Mas… quando lhe dissera que ele era incapaz de amar?
Amava Olivia mais do que a própria vida, mais do que a luz, mais do que... tudo.
A parte analítica do seu cérebro que estivera a contar em silêncio, falou, sugerindo que o pássaro voava, abrindo caminho num outro céu, num céu silencioso.
Quin olhou para baixo e viu que era verdade.
Rupert partira. Quin libertou suavemente a sua mão e aconchegou mais o lençol de Rupert.
Lucy enrolou-se junto ao corpo do dono. Ergueu o longo focinho e olhou para Quin, ganindo um pouco. Ele não podia arranjar Rupert como ela lhe estava a pedir, mas também não lhe parecia certo deixá-la junto ao dono morto. Por isso, agarrou-a, meteu-a debaixo do casaco e subiu as escadas a correr.
Uma vez na água, atirou-se aos remos, mais depressa do que devia, fazendo-os bater na água, descrevendo arcos...
Tinha tempo. Ainda tinha tempo. O seu coração repetia vezes sem conta a mesma frase. O céu a oriente nem sequer estava rosado. Não era ainda madrugada. Tinha tempo.
Tentou abrandar, aquietar os remos... não conseguia deter-se, remava o mais depressa possível. Mesmo assim estava atrasado.
6Verso de um poema de Robert Frost acerca de promessas a cumprir. (N. da T.)