Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 25 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 24

Bigodes Gauleses, Um Amigo em Apuros e o Espírito de Aventura

Anos depois, Olivia olharia para a noite que passara no tapete junto à lareira a ser possuída por um duque ciumento, possessivo e sempre perfeito, como um momento definitivo, o ponto em que o antes da sua vida seria separado do depois.

Foi nessa noite que descobriu como a vida pode ser emocionante.

Seguida pela manhã em que também se apercebeu de como ela era verdadeiramente frágil e cara.

Ela e Quin haviam subido para a sua cama de cortinas, dormiam aos poucos, acordavam-se um ao outro, riam, murmuravam e exploravam-se.

Ele partiu quando o Sol já tentava subir no horizonte, tendo-a informado antes da razão pela qual os raios que entravam pela manhã eram suaves e rosados e não brancos e ofuscantes. Ela nem precisou de se fingir fascinada; estava-o genuinamente.

Porém, Olivia voltou a adormecer pensando mais na luz dos olhos de Quin do que na que vinha da janela.

Logo a seguir sentiu uma mão abanar o ombro.

– Olivia, acorda! Acorda!

O pânico mal contido na voz de Georgiana cortou o sono leve e cheio de sonhos, obrigando-a a abrir os olhos.

– Que se passa?

A urgência de Georgiana foi brevemente ultrapassada pelo seu sentido de decoro.

– Porque não tem um roupão vestido? Não, não quero saber – Georgiana afastou as cortinas fazendo tilintar as argolas metálicas. – Tem de te vestir; Norah estará aqui dentro de um momento e não pode ver-te nesse estado.

– Que se passa? – Olivia lançou para trás as cobertas, tirou as pernas para fora da cama e procurou o roupão. Era estranho acordar nua, principalmente debaixo do olhar reprovador da irmã. – Aconteceu alguma coisa ao pai ou à mãe?

– É Rupert – disse Georgiana encontrando o roupão atirado para o chão e lançando-o à irmã. – Veste isto, por amor de Deus.

– Rupert? – perguntou Olivia pondo-se de pé num salto. – O que aconteceu?

Georgiana mordeu o lábio.

– Foi ferido com gravidade, Livie. Não se sabe se escapa. Sinto-me tão... pobre Rupert! Pobre, pobre Rupert – tinha os olhos brilhantes de lágrimas. – E não é tudo: logo que o correio da companhia falou com o duque este caiu no chão.

– Morto?

– Não está morto. Mas está insensível. Não dá acordo de si. O homem chegou de Dover a meio da noite, depois de todos se terem retirado. Quando Canterwick desmaiou, o mordomo tentou encontrar Sconce, mas...

– Ele estava aqui comigo.

– Calculei. Por isso, Cleese acordou a duquesa que chamou um médico. Mas Canterwick não se mexeu nem falou e creio que o médico não tem muitas esperanças. O duque parece morto, mas ainda respira.

Olivia ficou no meio do quarto, apertando a gola do roupão e tentando resolver as coisas o mais rapidamente possível.

– Rupert está em Londres? Vou imediatamente ter com ele. Deve estar tão assustado e se o pai não pode estar a seu lado, estarei eu.

Georgiana abanou a cabeça.

– Está em França. Creio que foi por isso que o pai se assustou.

– Em França?

– Não sei os pormenores, mas o correio disse que os seus homens o levavam pela costa de França até Calais, onde pensavam atravessar a Mancha com o primeiro barco que pudessem requisitar, mas..., Olivia, é uma tristeza... os seus ferimentos são tão graves. Por isso um dos seus soldados veio, sem ele, diretamente de Dover para trazer a mensagem a Canterwick.

Olivia voltou a cair na cama sentindo-se temporariamente esmagada.

– Estava demasiado ferido para atravessar a Mancha?

– Receio que sim – Georgiana sentou-se também e passou-lhe um braço pelos ombros.

– Deve ter tido tanto medo. A menos que... talvez seja insensível?

– Não creio. Parece que perguntou pelo pai.

– Espero que também tenha perguntado pela Lucy.

– E por você. Ele gosta muito de você – disse Georgiana.

– O pai teria ido ter com ele se não tivesse tido o ataque – afirmou Olivia com o coração apertado de tristeza.

– Suponho que sim. Mas é muito perigoso por causa da guerra. Rupert só chegou à Normandia. Pode ser capturado a qualquer momento.

Olivia levantou-se.

– Tenho de ir ter com ele. Já. – Tocou a campainha com força. – Julgo que preciso de um barco capaz de atravessar o canal da Mancha.

– O melhor seria viajares de carruagem até um ponto diretamente oposto ao local onde Rupert está – sugeriu Georgiana e logo soltou uma exclamação sufocada. – Mas claro que não vai para França, Olivia, não seja idiota!

Norah apareceu à porta.

– Um banho – pediu Olivia.

A criada vinha com um sorriso entendido no rosto.

– Pensei logo que queria um banho. – Abriu mais a porta. Entraram três criados, trazendo baldes de água.

– E um fato de viagem, por favor – acrescentou Olivia.

– Nem te passe pela cabeça fazeres essa imprudência! Fazes ideia de como são agora as relações entre França e Inglaterra? E se... você… fores capturada pelos franceses, Olivia?

Olivia refletiu um momento e depois encolheu os ombros.

– Estamos em guerra. Estamos em guerra já há algum tempo. Ainda estamos em guerra. Preciso de ir ter com Rupert. Tenho a certeza que, se encontrar soldados franceses, eles compreenderão.

A irmã gemeu.

– Não tem lido os jornais, pois não?

– Te surpreenderia se a resposta fosse não? – Os criados tinham saído e o banho estava pronto. Olivia despiu de novo o roupão. – Se a sua sensibilidade fica ofendida pelo meu estado de nudez, Georgie, é melhor saíres já.

– Não tem nada que eu também não tenha – replicou a irmã sentando-se num banquinho ao lado da banheira.

– Só que eu tenho em maior quantidade – murmurou Olivia, experimentando a água quente com o dedo do pé.

– Não pode fazer uma viagem quixotesca pelo canal da Mancha – insistiu Georgiana. – Não fazes a mínima ideia do perigo.

– Posso viver com a incerteza – disse Olivia. – Norah, por favor, lavas-me o cabelo o mais depressa que for humanamente possível?

– Sim, menina – disse Norah tratando o cabelo de Norah como se fosse uma trouxa de roupa suja.

– Como você conheces todos os perigos e lês os jornais, Georgie, é melhor que me diga tudo o que eu devo mesmo saber.

A irmã começou a protestar, mas Olivia ergueu a mão.

– Conheces-me há mais tempo do que qualquer outra pessoa neste mundo. Imaginas mesmo que eu deixaria Rupert numa cabana qualquer no Norte de França? Sozinho? Posso não querer casar com ele, mas gosto muito dele. E de uma maneira estranha também o respeito.

Houve um momento de silêncio só quebrado pelo barulho que Norah fazia com a água.

– Ele já não é teu noivo – lembrou Georgiana, mas a sua voz traía a certeza de que não conseguiria ganhar.

Olivia abanou a cabeça.

– Para.

– Então, vou contigo.

– Não, com certeza que não vai. Afinal, é assim tão perigoso desembarcar na costa francesa? – Olivia ensaboava um braço enquanto esperava por uma resposta.

– Segundo os jornais, os soldados franceses patrulham constantemente as praias, procurando invasores e também contrabandistas. Pode ser capturada.

– Por que raio quereriam capturar-me?

A irmã olhou-a.

– Será que preciso de te explicar o que os soldados são capazes de fazer às mulheres, Olivia?

– Violada por um francês – disse Olivia alegremente. – Há quem pague para ter esse privilégio. Georgiana emudeceu de espanto.

– Como pode reagir com... com uma vulgaridade dessas a uma perspectiva tão terrível.

– Não desejo minimizar o horror desse acontecimento, Georgie, mas, se aprendi alguma coisa durante o meu noivado com Rupert, é que pensar nas piores possibilidades não serve para muito. Por isso, decidi imaginar que qualquer soldado francês que encontre será sedutor e gallant – pronunciou a última palavra à francesa. – Talvez com um bigode retorcido nas pontas – imaginou.

– Nunca te vou compreender! Até que ponto serão esses soldados gallants se pensarem que é uma espiã?

– Eu? Uma espiã? Não me pareço nada com uma espiã.

– Quem sabe com o que se parece uma espiã? Tenho conhecimento de que há mulheres envolvidas nessa atividade. Nem sei se é possível pagar um resgate pelos espiões como se faz com os oficiais.

– Graças a Deus que lês assiduamente os jornais – disse Olivia. – Talvez possas encontrar a resposta a essa questão antes que eu tenha necessidade premente disso – levantou-se, deixando a água escorrer pelo corpo. – Norah, certamente já percebeste que vou precisar de uma pequena mala de viagem.

– Vou acompanhá-la a França, menina – disse Norah corajosa. – Vai precisar de quem a vista, mesmo numa prisão francesa.

O sorriso de Olivia incluiu a irmã e a criada.

– Nenhuma de vós vai comigo.

– Não pode ir só! – protestou Georgiana. – Oh! – exclamou logo a seguir.

– Exatamente.

– Tem de mandar recado ao duque dizendo que tencionas partir imediatamente – disse Georgiana. – A pedir que te acompanhe. – Dirigiu-se para a pequena escrivaninha ao canto.

– Estou certa de que o duque já se está a preparar para a viagem – referiu Olivia calmamente. – Obrigada, Norah, é a escolha perfeita para a viagem. Sem dúvida, todas as espias se vestem de cor de ameixa.

– É para se confundir com a noite – disse a criada com a voz estridente de emoção.

Georgiana abanou a cabeça.

– Como sabe que Sua Graça está preparado? Posso recordar-te, Olivia, que só conheces Sconce há quatro dias?

Olivia sorriu.

– Esse homem deseja servir a nação; se o puder fazer como espião, será espião. Estrebuchou literalmente de inveja ao saber que Rupert ia para a guerra. Vai acompanhar-me.

– E o que dirá a duquesa viúva quando souber?

Norah estremeceu.

– Lá em baixo dizem que o duque faz geralmente tudo o que a senhora duquesa exige.

– A duquesa não vai ficar satisfeita – insistiu Georgiana.

– Me atreveria dizendo que não ficar satisfeita não se aproximará dos sentimentos dela em relação ao problema. – Mas tenho ainda de dizer isto: se Quin ficar em Inglaterra por causa das objeções da mãe, então não é o homem com quem me quero casar.

– Um teste? – perguntou Georgiana em tom duvidoso.

Olivia acenou afirmativamente.

– Lembras-te da velha história da dama que foi considerada uma verdadeira princesa porque esconderam uma ervilha por baixo dos colchões? Pois esta será a minha versão. Nenhum príncipe será verdadeiro se obedecer à mãe.

– Em vez de obedecer à noiva?

– Em vez de se deixar levar pelo espírito da aventura!