Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 30 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 29

Tesouro Perdido

Quin acordara Togs e Paisley de um sono profundo, sabendo já que não faziam ideia do que acontecera a Olivia. Não valia a pena atacar os ingleses exaustos; como poderia censurá-los por estarem a dormir quando ela desaparecera, depois do que tinham passado? Agora andavam por ali como dois sonâmbulos.

O coração de Quin batia-lhe na garganta, de forma tão violenta que tinha dificuldade em pronunciar palavras. Mandou-os para a escuna, com instruções para que enviassem Grooper no barco a remos e que este esperasse por ele na enseada. Fez uma pausa para se recompor e para investigar a posição exata da guarnição francesa em relação à cabana. Partiu a passo firme, com Lucy a correr a seu lado. Se os soldados franceses não tivessem capturado Olivia, ele os obrigaria a ajudarem na busca.

Enquanto percorria a praia e depois uma zona de arbustos baixos, meditava nas várias possibilidades. Sim, Inglaterra estava em guerra com França, o que tinha um significado diferente para os dois povos – e ele não estava inteiramente convencido que uma guarnição de província sentisse grandes desejos de capturar uma dama inglesa.

Embora as possibilidades de um duque inglês submeter sozinho toda uma guarnição francesa, que se serviria de tudo desde pistolas a baionetas, não era boa e de nada serviria a Olivia se ele acabasse trespassado por uma baioneta numa valente mas falhada tentativa de a resgatar.

Nesse momento uma lebre atravessou-se no caminho. Baixou os olhos e viu que Lucy continuava a correr a seu lado com a rapidez que as suas pequenas pernas lhe permitiam.

Quin fez uma pausa para pegar na cadela e partir de novo. Calculava estar muito próximo. De fato, pouco depois, e logo a seguir aos arbustos, surgiu a sebe de um pátio coberto de gravilha no extremo do qual, por trás de um muro, se encontrava uma estrutura de tijolo.

A guarnição não parecia preparada para ação militar. A gravilha tinha sido espalhada sem arrancar uma ou outra flor silvestre que ondulava suavemente na zona aparentemente designada para os exercícios. Viu uma sentinela sentada ao portão, a dormir. Quin passou por ele, entrou no pátio e subiu a correr os degraus da entrada principal com Lucy debaixo do braço.

Lá dentro, posou Lucy no chão e meteu a cabeça na recepção poeirenta, num gabinete pouco utilizado e numa messe muito comprida. Ao fundo, encontrou um aposento com marcas de grande utilização. À sua volta, havia caixas abertas com espingardas, sugerindo que se tratava do armeiro, mas Quin calculou que a muito usada mesa de bilhar no centro mereceria certamente mais atenção.

Dirigiu-se à escada sem encontrar vivalma, com o ruído das patinhas de Lucy a tornar o silêncio ainda mais profundo. Porém, o primeiro quarto que espreitou estava ocupado. Quin deteve-se à porta a avaliar a situação. Um homem enorme e malcheiroso ressonava ruidosamente deitado de barriga para baixo numa cama, cujos lençóis já haviam visto melhores dias. Numa mesa no extremo oposto do quarto cintilava uma fileira de garrafas de brande, da mesma espécie do que ele fizera Rupert beber na escuna. Numa cadeira encontrava-se atirado o casaco manchado do capitão.

Havia uma pequena pistola sobre a mesa de cabeceira; retirou a bala e lançou o saco de pólvora pela janela aberta. Depois colocou-a onde a encontrara, puxou a camisa do capitão e abanou-o.

O homem resmungou e mudou de posição. Quin recuou ao sentir o bafo a brande rançoso.

Meio minuto depois, o capitão acordava numa cama encharcada. Quin vira-se obrigado a despejar na cabeça o jarro da água e foi apenas a ameaça do bacio que conseguiu pôr o homem de pé.

– Quem diabo é o senhor? – perguntou ele com o rosto pálido à luz do sol, os olhos vermelhos e parados. Estendeu um braço para se amparar à parede.

Quin apontou uma das pistolas à cabeça do homem.

– Vim à procura da minha noiva. É inglesa e foi raptada na praia há umas horas. Ignorando a pistola, o capitão sentou-se, tremendo como uma espiga de trigo ao vento.

– Para aqui não viria nenhuma mulher inglesa. Não sei se já reparou, mas estamos em guerra convosco.

– Os seus homens capturaram-na?

– Duvido. A maioria é demasiado jovem para encontrar as suas próprias pilas sem um mapa. Preciso de dormir. Ponha-se a andar daqui, ouviu? – atirou-se para a cama encharcada e fechou os olhos.

Quin olhou em volta e viu uma garrafa de brande meia. Despejou-a também na cabeça do capitão, que se endireitou com o rosto contorcido.

– Mas que raio? – gritou com voz rouca. – O senhor é maluco?

– Encontre a minha noiva – exigiu Quin em voz calma. Levantou a pistola e atirou à primeira garrafa de brande da fila, fazendo com que Lucy estremecesse e começasse a ladrar. Houve estilhaços de vidro e brande pelo chão e o aroma pesado encheu o quarto.

– Pare! – gritou o capitão. – O senhor não está bom da cabeça. Todos os ingleses são doidos varridos. Quin mudou de pistola e disparou contra a segunda garrafa.

– Sou o doido que vai mandá-lo prender como contrabandista se não mandar o seu regimento procurar a minha noiva. Não me importo que os seus rapazes sejam jovens. Ou a descobre ou destruo todas as garrafas que por aqui há e garanto que a sua operação de contrabando também acaba imediatamente.

– E como o fará sendo um malfadado inglês? – mas tratava-se apenas de uma fanfarronada. Era um homem fraco e indeciso que escolhia sempre o caminho da menor resistência. Puxou então o cordão da campainha.

Um minuto depois um soldado muito jovem meteu a cabeça no quarto franzindo o nariz ao sentir o cheiro.

– Oui, mon capitaine?

– O regimento saiu em patrulha?

– Não. Ainda estão todos a descansar.

Quin acabou de carregar a pistola e atirou à terceira garrafa.

– Manda-os levantar e que sigam imediatamente para a praia! – gritou o capitão ao ouvir o som do vidro a cair no chão. – Encontrem a mulher deste homem. Une anglaise. Mon dieu, a minha cabeça mata-me – caiu de novo na cama.

O jovem soldado fez continência ao seu capitão moribundo e olhou depois para Quin.

– Íamos agora patrulhar a praia em busca de contrabandistas, como fazemos todas as manhãs e todas as tardes – disse sem trair minimamente o fato de estarem num paraíso de contrabandistas. – Procuraremos a sua esposa, senhor.

– Ainda bem – disse Quin dominando-se. Tinha consciência de se sentir quase em estado de pânico. Se os soldados não tinham capturado Olivia, e obviamente não tinham, então onde raio estaria ela?

Começou a descer a escada. Revistaria todas as casas de Wissan e depois regressaria para saber se a patrulha descobrira alguma coisa.

O pior é que conhecia aquela sensação, cobria-lhe os ombros como uma capa a que estava habituado, mas que odiava. Sentira-a quando Evangeline levara Alfie e se dirigira para o canal da Mancha. Sentira na boca o seu sabor amargo enquanto galopara para Dover na esperança de os interceptar no pontão.

Quase o enlouquecera quando ficara a olhar para a água. E sentia-a agora. Não era seguro amar uma pessoa.

A mãe tinha razão a esse respeito.

Mas era demasiado tarde para evitar aquele estado.