Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 23 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 22

Coroada de Glória

Ao princípio da noite

– Não acredito que o tenha feito! – O modo como Georgiana olhava para Olivia era um pouco ofensivo, como se ela fosse uma vitela de duas cabeças numa feira. – Não admira que não viesses tomar o pequeno-almoço. Ou almoçar.

– Dormi tanto que me atrasei para as duas refeições. Mas não passámos a noite ao ar livre – Olivia tentava explicar. – É uma casinha pequenina; só que está em cima de uma árvore.

Georgiana fechou a boca com força, mas com os olhos risonhos.

– Não posso acreditar. Ninguém me faria subir a uma árvore. Tenho a certeza de que encontraste o único homem no mundo que gosta de subir a árvores.

– É espantoso, não acha? – disse Olivia. Não conseguia explicar por palavras. – Ele é tudo o que eu sonharia se pensasse poder sonhar.

Georgiana abanou a cabeça.

– Nem você poderia sonhar com um homem que gosta de dormir nas árvores.

– Bem sei – Olivia estava tão feliz que parecia que ia explodir. – Que tal foi o almoço?

– Devíamos ir ter com os outros à sala – disse Georgiana. – A senhora duquesa está terrivelmente irritável. Não há dúvida de que suspeita que há uma razão para teres faltado ao pequeno-almoço e ao almoço. Nenhum dos convidados partiu e julgo que alguns pensem ficar pelo menos uma semana. Foi muito brusca com Mister Epicure Dapper… o cavalheiro com uma notável adição de chumaços nos ombros dos casacos.

Olivia soltou uma exclamação de desdém.

– Como caíram os poderosos.

– Lorde Justin tem um enorme prazer em atormentá-la, sabe. Depois do almoço, todas as jovens damas lhe pediram que cantasse para elas e ele cantou canções francesas!

– Ele é francês por parte da mãe, não é verdade? – Olivia manteve aberta a porta do quarto para que Georgiana passasse à sua frente. – Porque não haveria de cantar na sua própria língua?

– Oh, Olivia, sabe perfeitamente que as canções francesas não se parecem nada com as inglesas. Parecem pouco próprias, mesmo quando não o são.

– A irritabilidade dela nada tem a ver com a propensão de Justin para cantar na língua da sua mãe. Georgiana deteve-se em cima da escada.

– Não me diga que discutiste com ela outra vez ontem à noite.

– Não está satisfeita por não teres estado conosco? Teria uma dupla enxaqueca, se é que tal coisa existe.

Olivia começou a descer, mas Georgiana pegou-lhe num braço.

– Conta-me tudo, por favor.

– Se bem te lembra, mandaste-me para a biblioteca e disseste que Quin iria atrás de mim.

– E foi o que ele fez. Vi-o seguir-te por entre a multidão como uma raposa a uma galinha.

– Tínhamos já tratado de algumas coisas para satisfação de ambos quando a duquesa entrou no aposento. Nos interrompeu. Esta perceber o que te estou dizendo?

– Mas o que me esta dizer?

– Nada disso – disse Olivia soltando uma gargalhada. – Apenas nos beijávamos.

– Oh, meu Deus.

– Ficou terrivelmente aborrecida com aquilo. Disse que eu era demasiado gorda para me casar com o filho – contou Olivia indo para o único ponto de que se lembrava claramente. – Parece que me acha uma escolha sensata para Rupert, porque as minhas ancas amplas compensam o seu cérebro deficiente.

– Não posso acreditar que a duquesa tenha dito tal coisa! – disse Georgiana sufocada. – Pode ser brusca, sem dúvida, mas nunca indelicada. E um comentário desses, que ainda por cima não é verdade, ultrapassa toda a falta de civilidade.

– Garanto-te que o disse, mas não foi certamente com intenção – afirmou Olivia. – Está simplesmente aborrecida por não poder ter a sua maravilhosa pessoa como nora e quem poderá censurá-la?

– É muito boa, Olivia, mas estou desapontada – disse Georgiana e o seu pequeno colo arfava de tal maneira de indignação que ganhou uma leve semelhança com a própria duquesa. – Porque é chocante que uma senhora de tal nível não cumpra os preceitos que ela própria tão bem definiu.

– Deve ser a minha influência. Espero que não tenha qualquer importância no decorrer dos acontecimentos. Faço sair o predador que há nela.

– O que descreves nada tem a ver com predadores, é simplesmente falta de educação. – Georgiana começou por fim a descer as escadas. – Bom, a duquesa pode sentir-se infeliz, mas a nossa mãe vai ficar extática.

– Duvido muito.

– Um duque é tão bom como outro qualquer.

– Assim que se aperceber que recusas tomar o meu lugar... bom, nem quero pensar. Lembra-te que o pai prometeu que uma das suas filhas casaria com Rupert. Embora, Georgie, quando penso nisso, poderia acontecer-te pior. Estás treinada para o serviço.

– Não quer que eu me case com Rupert – afirmou Georgiana. – E eu não quero casar-me com Rupert. E, francamente, enquanto você foste sempre uma boa filha, exceto em coisas muito pequenas, eu não o sou.

– Não é? – perguntou Olivia.

– A mãe e o pai cometeram o erro de pensar que, como executei todas as tarefas que me atribuíram, sou obediente. Mas não sou – chegou ao fundo da escada e voltou-se para Olivia

– Georgie! – exclamou Olivia sufocada. – Você... isso é maravilhoso.

– Cometeram também o erro de pensar que você era rebelde, simplesmente porque recitavas poemas humorísticos e fazias algazarras. Mas eram tudo ninharias. É uma filha obediente.

Olivia colocou-se ao lado da irmã.

– Creio que prefiro ser a rebelde. Pareço uma simplória.

– O duque de Sconce nunca se sentiria atraído por uma simplória – referiu Georgiana a sorrir. – E é louco por você. Estava à espera que, ao almoço, ele não aguentasse e anunciasse que te tinha escolhido para esposa, mas conseguiu conter-se.

Nesse momento, um dos criados que estava junto à parede da entrada, avançou e abriu as portas de par em par.

Olivia voltou-se pensando que seria Quin. Depois ficou imóvel, incapaz de falar. Decididamente, a pessoa à porta não era Quin.

Georgiana não se sentiu tão hesitante.

– Senhor duque – disse enquanto Cleese fazia entrar o duque de Canterwick. – É um prazer vê-lo.

– Foi Rupert! – exclamou Olivia. – Aconteceu alguma coisa a Rupert.

– Não. – O duque voltou a cabeça e olhou para ela. – Minha querida, minha querida, mas que ótimas notícias!

(Conforme Olivia disse mais tarde a Georgiana, a princípio pensou que as ótimas notícias a que se referia seriam a sua gravidez, e tinha boas razões para saber que não era esse o caso.)

– Rupert superou-se! – gritou o duque, com o rosto ao brilhar de felicidade.

– O quê?

– Coroou-se de glória – contou Canterwick ainda aos gritos. – O duque de Wellington mencionou-o nos seus despachos... o Príncipe Regente informou... foram consideradas honras especiais. Boa noite, Miss Georgiana! Como se tem dado com Sconce?

– Bem, muito obrigada – disse Georgiana a sorrir. – Fico muito feliz com as suas notícias, senhor duque.

– Não tão feliz como eu – respondeu o duque já mais calmo. – Feliz não é... nem consigo descrever o que sinto. A princípio nem conseguia acreditar. O mensageiro de Sua Majestade teve de me dizer quatro vezes. Depois enviei um homem a Dover para esperar pelo meu filho e trazê-lo aqui assim que chegue a terra. Deve ser um dia destes, disse o mensageiro, e eu vim imediatamente para aqui dar-vos as notícias. Tinha de dizer a toda a gente – interrompeu as suas exclamações e dirigiu-se a Olivia, pondo as mãos nos ombros e dando-lhe um ligeiro abanão paternal. – Vejo que está tão estupefata como os outros, minha querida. Pois bem, é verdade. Estou vendo que esta noite há aqui festa, o que é esplêndido. Esplêndido! Poderei contar a todos ao mesmo tempo.

E com isto conduziu Olivia até ao salão. A duquesa avançou com um sorriso; Quin, que estava a conversar, voltou-se. Antes que qualquer deles o pudesse cumprimentar, Canterwick acenou à assembleia para conseguir silêncio como se estivesse na sua própria casa.

Era um belo ator, pensou Olivia, começando a recompor-se do choque da sua chegada e das espantosas notícias que trouxera. Primeiro julgara Rupert morto e agora… agora?

– Como devem saber, o meu filho, o marquês de Montsurrey, é o major da Primeira Companhia dos Fuzileiros de Canterwick – dizia o duque outra vez quase a gritar. Balançava-se nos calcanhares e as palavras saíam-lhe em catadupa.

– Não sei por que razão, os Fuzileiros aportaram ao Porto, em Portugal. Parece que, quando o meu filho descobriu o erro, reuniu os homens e atravessou o país até Badajoz, ao forte de Badajoz.

Toda a gente presente na sala ficou emocionada com a atenção fixa no duque. Exceto Quin; tinha os olhos fixos nas costas de Olivia, que conseguia mesmo sentir um formigueiro nas omoplatas.

– Como calculo que saibam, Badajoz tem estado cercada, sob o comando do general Thomas Picton. Tem havido várias tentativas para escalar as ameias, algumas delas descritas nos jornais de Londres... mas em vão. Isto é, até o meu filho chegar!

Olivia duvidava de que o duque se apercebesse de como o seu tom parecia triunfante quando pronunciava as palavras, meu filho.

– Está radiante – murmurou Georgiana. – Não é maravilhoso, Olivia? Isto é, maravilhoso para Rupert. Vai mudar tudo para ele.

Olivia acenou afirmativamente.

– O general deu aos Fuzileiros e a Canterwick o nome de Esperança Perdida – continuou o duque. – É assim que é costume chamar a uma companhia sem esperanças de êxito. Esperança Perdida! O meu filho! Picton teve de engolir as palavras.

– Suponho que Picton não quisesse que trepassem pelas muralhas – murmurou Olivia para Georgiana.

– É agradável ver que nem um general pode impedir Rupert quando ele se decide fazendo qualquer coisa.

– Ele e os seus homens treparam às muralhas, embora nenhuma outra companhia inglesa o conseguisse – berrava o duque. – Escalaram-nas e tomaram-nas durante vários dias até a Quinta Divisão regressar. Tinham desistido, sabem. Desistido e partido, pensando que os franceses detinham Badajoz. Mas não, graças ao meu filho!

Olivia não conseguiu conter-se; olhou para a direita. Quin olhava para ela. Os olhos de ambos encontraram-se e foi como se estivessem separados por uma enorme distância.

– A maioria dos defensores franceses retirou para San Cristobal e rendeu-se aí – disse o duque, falando cada vez mais alto. – O marquês conduziu a sua companhia, subiu as muralhas, conquistou o forte e capturou muitos soldados franceses. Aí se manteve com uma centena de homens. – O duque lançou um olhar furioso em seu redor. – Houve pessoas que disseram coisas nas costas do meu filho. Que troçaram dele. Nunca mais! Já se fala da Ordem do Banho. Uma honra que é detida por não mais de vinte e quatro homens. O meu filho!

Houve um momento de silêncio e, depois, espontaneamente, o aplauso... repetido até que todo o grupo aclamasse, algumas vezes já com lágrimas nos olhos.

De súbito, o duque voltou-se e puxou Olivia por um braço.

– Miss Lytton acreditou nele – disse olhando em redor do salão com ar feroz. – Apresento-vos a noiva do meu filho, a futura marquesa de Montsurrey.

Olivia quase tropeçou, recuperou o equilíbrio e sorriu. O aplauso tornou-se mais ruidoso e depois acalmou quando a duquesa viúva de Sconce avançou majestosa até ficar diante do duque. Com o aposento no mais perfeito silêncio, ela executou uma profunda e apenas ligeiramente rangente reverência.

– Senhor duque – disse. – Será uma honra para a nação receber o seu filho nas costas de Inglaterra coroado com a glória merecida.

Olivia não olhou de novo para Quin. Não podia.