Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 15 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 14

O Voo do Papagaio Cor de Cereja

Claro que Olivia sabia namoriscar bem e conhecia o desejo, disse Quin para consigo. Fazia todo o sentido. Não seria preciso fazer uma terceira experiência para provar esta hipótese: não sabia por que razão ignóbil seria particularmente vulnerável a mulheres que tinham uma relação liberal com o conceito de castidade.

Ainda pior, estava mais apaixonado agora do que estivera por Evangeline.

Evangeline fascinara-o: quisera levá-la para casa, adorá-la e fazer amor com ela. Encantara-se nas ondas da sua cabeleira e no som do seu riso. Mas não se lembrava de sentir aquela espécie de avassaladora sensualidade, de loucura selvagem que lhe embotava a razão e lhe enviava todo o sangue do corpo para um local entre as suas pernas.

Nem precisava de olhar para Olivia para lhe catalogar as feições. As pestanas eram um pouco mais compridas nos cantos, dando-lhe ao olhar uma expressão maliciosa, um toque de Cleópatra. Até o pensar no corpo dela tornava o seu dolorosamente rígido. O dela era feito de curvas de carne leitosa e roliça.

E os olhos dela... sinceros. Ao contrário de Evangeline, dissera-lhe imediatamente a verdade sobre si própria. Poderia dizer que eram ambas pouco castas. Mas Olivia não fingia sê-lo.

Além disso, quando lhe pedira com tantas palavras se o preferiria a Montsurrey, mantivera-se fiel ao marquês. Ele pressentira que ela o seria sempre. Não importava o muito coquete que tivesse sido enquanto mais jovem, uma vez casada com o seu regressado guerreiro, seria sempre fiel.

Havia outro sinal de diferença: Olivia era verdadeiramente desejável. Nos seus braços era uma chama instantânea.

Evangeline... bom, Evangeline quisera palavras. Era isso que desejava. Quando faziam amor, gritava e empurrava-lhe o peito detestando o fato de ele ficar por cima dela. Para ela, tratava-se do tempo antes e do tempo depois: as palavras. E ele era tão mau com as palavras.

Pôs o cavalo a passo e Olivia apanhou-o. Tinha um encantador rubor nas faces do exercício e do vento.

– Gosto do seu chapéu – disse, conseguindo pronunciar essas palavras. Era como uma cereja colocada sobre um monte sensual de cabelo cor de bronze. Como não parecia ter uma função útil, fora obviamente criado para fazer com que um homem desejasse retirar-lho.

Por instantes, ela pareceu sobressaltada e depois sorriu-lhe.

– Não me protegeria da chuva.

Ele meteu por um caminho de terra, ouvindo os passos do pónei que puxava a charrete.

– Vamos levar os papagaios para cima do monte – disse-lhe, apontando para diante. – Voam melhor em cima de uma colina e este lugar é bastante ventoso. Conseguimos desenrolar carretos de fio antes que percam a corrente.

Olivia olhou-o com curiosidade.

– Parece-me entendido em papagaios, o que é quase como encontrar um adulto dizendo que gosta de jogar às cinco pedrinhas.

O coração dele sobressaltou-se.

– Eu gostava de jogar… – respondeu, mas deteve-se. Não havia necessidade de lhe contar pormenores. Tentava aceitar a ideia de que ela não seria dele. Pertencia a outro homem, patriótico mas com cérebro de leite-creme.

Preferiu então dar uma resposta tola.

– Nunca nos esquecemos de como se lança um papagaio.

– Pois, suponho que não – concordou ela, mas parecia curiosa, como se conseguisse ver através dele. Quin saltou do cavalo, prendeu as rédeas a um arbusto e voltou para junto de Olivia. De fato, era ridículo. Tinha a certeza de ter o desejo gravado no rosto, o que o fazia sentir-se vulnerável e um pouco louco. Mas aproximou-se e agarrou-a pela cintura porque, afinal, o que são os homens? Simplesmente animais, sujeitos a necessidades de acasalamento como qualquer outro bípede, ou, já agora, quadrúpede.

– Em que está pensando? – perguntou ela, sacudindo as saias quando ele a posou no chão.

– Na ciência – respondeu sem ser totalmente sincero.

– Está então interessado em mais do que funções matemáticas? – prendeu as rédeas da montada ao mesmo arbusto.

– Sim. Mas não quero que adormeça de aborrecimento, por isso não vou explicar; teríamos de a levar para casa de charrete.

Justin prendeu o pónei e foi ver se a tia gostaria de descer da charrete, mas esta afirmou ter melhor vista do assento.

Retirou a caixa dos papagaios da parte traseira da charrete. A tampa abriu-se como se ele a tivesse aberto no dia anterior, como se aqueles dias intermédios não tivessem existido. Teve de respirar fundo antes de retirar o primeiro papagaio: cor de cereja, leve e veloz que atravessava o céu e geralmente mergulhava no solo com igual velocidade.

Por baixo estavam dois papagaios bons e fortes que haviam resistido a vento após vento. E por baixo... tocou por uns instantes nas tabuinhas, passando o dedo pela madeira delicada como se pudesse tocar na criança que costumava segurá-lo.

Engoliu em seco e fechou a caixa desse papagaio.

– Tenho três para nós – disse, voltando-se.

Falava em voz tensa e triste e viu os olhos de Olivia voarem para o rosto. Fez um esforço para sorrir, embora com alguma tristeza.

Justin aproximou-se.

– Nunca gostei do encarnado – comentou alegremente, como se os papagaios tivessem história. – Tem energia a mais. Fico com um dos outros.

– Tem de enrolar a bobina – disse Quin entregando-a.

Olivia pegou no papagaio cor de cereja.

– Adoro este!

– Condiz com o seu chapéu – disse ele, aclarando a garganta. – Vou enrolar a bobina. E baixou a cabeça para se dedicar à tarefa, evitando olhá-la. Não sabia porquê, mas conseguia ler nos olhos de Olivia e parecia que ela tinha o mesmo poder sobre ele. Juraria que ela percebera a sua angústia, que vira o negro e monstruoso silêncio que o seu peito albergava.

– Pronto – concluiu bruscamente depois de ter tratado das duas bobinas. Agora vamos para cima do monte.

Levou tempo e soltaram algumas risadas – não Quin, porque quase nunca ria – até lançarem os três papagaios lá em cima ao vento.

– Que maravilha! – exclamou Olivia. Corria para trás e para a frente, com os sapatinhos a brilharem por baixo da bainha da saia.

Como se tivessem passado apenas cinco minutos e não cinco anos, o papagaio cor de cereja deslizou por baixo da corrente de ar, mergulhou, mas voltou a subir. Entretanto, o papagaio de Quin chegou ao seu zénite e aí ficou, branco e sólido, oscilando sobre a sua cabeça.

Justin deitara-se de costas e manobrava-o assim, indiferente à possibilidade de sujar o seu magnífico traje de montar.

Mas Olivia corria pelo cume do monte, seguindo o voo errático do seu papagaio.

Justin parecia sonolento e confortável, com os olhos fixos num ponto distante do seu papagaio.

– Será melhor ires atrás de Olivia – disse, lançando a Quin um olhar indolente. – Já não a vejo.

Com um suspiro, Quin puxou o papagaio. Olivia fora atrás do seu e subira, descera ou entrara na mata que ficava na ponta do cume. Olhou para trás e viu que a tia Cecily adormecera profundamente, com a boca aberta.

Posou o papagaio e caminhou ao longo do cume. A Inglaterra estendia-se a seus pés, belos campos, marcados por sebes, uma pequena carruagem, aos solavancos, lá ao longe, a curva de um rio serpenteante mais para a direita. O vento cheirava como se as foices cortassem erva, com um leve travo a fumo que sugeria uma fogueira.

Por um momento, a alegria borbulhou no peito e depois o antigo sentimento apresentou-se como que para ser recordado. Culpa. Porém, quando desta vez o afastou, sentiu-se diferente. Mais limpo. Mais sereno.

Talvez fosse tempo.

De súbito, viu uma centelha escarlate que tinha de vir das saias de Olivia. Seguira o cume do monte para o lado abrigado do vento e estava agora debaixo de uma árvore a olhar para cima.

O papagaio cor de cereja encontrava invariavelmente uma árvore sobre a qual mergulhar. Quin abrandou o passo e saboreou o caminho até ela. Sentia o corpo tenso, forte, apenas controlado, o que era um absurdo pois sabia e sempre soubera controlar-se.

Mesmo havia cinco anos, quando se afastara do pontão, sabendo que era tarde de mais... não se descontrolara. Não. Não era inteiramente verdade; não deveria tentar reescrever a história. Tentara lançar-se à água, mas avisado por um barco fora impedido pelo responsável do porto.

Mas depois... depois, afastara-se sem uma palavra. Um pé a seguir ao outro.

Esta emoção era diferente, um fogo incontrolável no sangue. Olivia tinha as mãos nas ancas e, enquanto ele a observava, livrou-se daquele chapelinho tolo e pô-lo a seu lado. Quin apressou o passo.

Ela poderia pensar em...

E pensava.

Desabotoou o casaco e posou-o dobrado no chão.

Quin viu-a estender o braço para o ramo mais baixo e depois subir o tronco da árvore, colocando os pés na casca com a agilidade e confiança de quem já subira a uma árvore. Até a muitas árvores.

Estava nos primeiros ramos e passava para os segundos quando ele se aproximou do tronco.

– Olivia Lytton! – gritou debaixo. – Mas que raio está a senhora fazendo? Ela espreitou por entre as folhas verdes.

– Oh, olá – disse. – Vou salvar o meu papagaio, claro.

Estava de pé sobre um ramo grosso, tão perfeita como quando subira, parecendo uma ave ali deslocada.

– Não suba mais! – ordenou.

O som do riso dela filtrou-se por entre as folhas, mas Quin já despira o casaco. Içou-se facilmente para um dos ramos mais baixos. Olivia subia de novo, por isso ele deslocou-se até ficar diretamente por baixo dela e poder apanhá-la se caísse.

Isto deu-lhe uma visão perfeita das pernas da jovem. Uma sobre um ramo tinha uma liga escarlate e depois uma coxa leitosa. Sentiu o coração saltar-lhe furiosamente no peito e começar a bater acelerado.

Faltou-lhe o fôlego por momentos. Olivia tinha umas meias de seda branca que terminavam abaixo do joelho. Por cima via uma delicada linha de renda... supunha que as calças.

Interessante. Nunca pensara que as damas usassem roupa interior assim. Evangeline não usava.

Um pensamento desagradável atravessou-lhe o espírito: Evangeline não se preocupava em perder tempo. Afastou a ideia como imprópria da sua pessoa.

– Miss Lytton, estou a ver as suas pernas – comentou, apercebendo-se, à medida que as palavras lhe saíam da boca, que a observação era também imprópria.

Olivia ficou imóvel. Mas já tinha apoiado o peso do corpo nessa perna. Assim subiu para o ramo seguinte, quase escorregando, mas conseguindo equilibrar-se. Logo que ficou de pé, bem segura, olhou-o de testa franzida.

– Não é próprio de um cavalheiro espreitar as saias de uma dama.

– Não sei bem, mas creio que o fato de subir às árvores retira a uma pessoa o título de cavalheiro… ou talvez possa acrescentar, de dama. – Içou-se com agilidade para o ramo de onde Olivia subira. – Vai subir até onde? Esta árvore não aguenta o meu peso acima do sítio onde a senhora se encontra.

Ela apontou. O papagaio estava fora do alcance dela, preso por uma volta do fio. Quin experimentou o ramo onde ela se encontrava.

– Passe para o ramo ao lado do seu pé – ordenou. – Vou subir.

Olivia saltou para um ramo próximo, tão firme como se estivesse no chão. Logo a seguir Quin chegou ao lado dela. Erguendo os olhos viu que ela estava corada do esforço, o seu colo subindo e descendo. O corpete do vestido era feito de linho fino contra o qual lutavam os seus seios.

Quin agarrou o ramo por cima da cabeça de ambos. Esperava que ela não lhe olhasse para as calças.

– Como se pode subir a uma árvore com um espartilho e tantos saiotes? Os olhos dela brilharam maliciosos.

– É segredo.

Ele encostou-se a um ramo, sentindo-se um pouco fraco.

– Sei muito bem guardar segredos.

– Não tenho espartilho – murmurou baixinho e quase a rir. – Há muito que aprendi que é impossível subir a uma árvore usando espartilho. Não que estivesse pensando subir às árvores quando me vesti, mas pensei que lançar papagaios poderia ser um desporto igualmente enérgico, como afinal demonstrou ser.

– Desde quando subir às árvores faz parte da educação de uma senhora?

– Da primeira vez que a minha mãe me pôs de dieta – disse ela franzindo o nariz.

Ele franziu a testa.

– Dieta?

– Preciso perder peso. Sempre precisei desde a tenra idade de treze anos. Talvez um pouco antes.

– Não. Não precisa. Não concordo.

– Bom, creio que preciso. A sua mãe também concorda, dado o preceito tantas vezes repetido em O Espelho: Uma figura graciosa é sinal de virtude. E o mesmo pensa quase toda a sociedade, dado o número de sugestões para emagrecer que me foram murmuradas discretamente nos toilettes das senhoras.

A crueldade de Olivia ter sido ensinada a detestar uma característica sua que – para ser franco – ele considerava perfeita, fê-lo sentir que algo se soltara no seu coração. Endireitou-se e inclinou-se para ela. A cabeça dela fez instintivamente o mesmo gesto e as bocas encontraram-se, quentes e doces, ofegantes da subida ou talvez da proximidade... ela sabia à luz do sol e a erva. Como a felicidade.

Quin aproximou-se cuidadosamente, sem quebrar o beijo, depois encostou-se ao tronco das árvores e puxou-a para os seus braços, tendo a certeza de que ela não largava também o ramo.

– Olivia – murmurou-lhe junto à boca. – Como me chamo? Ela abriu as pálpebras pesadas.

– O que disse?

– Como me chamo? – perguntou ele, mas depois, sem poder esperar, roubou-lhe um beijo de boca aberta num suave casamento de línguas.

– Quin – disse ela, afastando-se. E depois. – Estamos de novo a namoriscar.

– Deixámos o flirt e entrámos na fogueira. Mas, seja como for, ninguém do nosso nível poderia beijar-se numa árvore.

– Significa então que não estamos onde pensamos estar? – Os olhos dela brilharam divertidos e tinha os lábios inchados dos beijos. – Ou não somos nós aqui em cima da árvore? Ou o senhor não é duque?

– Não devo ser – disse ele, avidamente, colocando-lhe a mão na nuca. – Não sou duque e a senhora também não está noiva de um marquês.

Beijaram-se como se não o fizessem havia anos. As mãos dele desejavam avançar, passar um dedo, uma mão, as duas pelo linho fino do corpete. Não tinha espartilho.

Nem se atrevia a olhar.

E depois olhou e gemeu baixinho.

– A senhora tem… – disse, mas teve de se deter por momentos. – Penso que os seus seios são os mais belos que já vi.

Ela baixou os olhos e logo os ergueu para olhar para ele. Era estranho que uma pessoa que parecia tão experimentada como ele ficasse com as faces coradas e tão pouco à vontade. Embaraçada.

Mas depois pareceu esquecer tudo.

– Precisamos do papagaio – lembrou, apontando, o que apenas contribuiu para esticar mais o corpete.

– O senhor não-sou-duque, não conseguirá alcançá-lo.

Quin lutou contra a parte do seu corpo que o impedia de querer, não alcançar o papagaio, mas o delicioso corpo feminino que tinha diante de si. Olivia tinha ainda a respiração acelerada da subida, dos beijos ou de ambas as coisas e o movimento dos seios dela enfeitiçava-o.

As folhas balançavam em redor de ambos, criando um pequeno caramanchão, um compartimento cujas paredes cintilavam ao sol formando sombras verdes.

Se ao menos houvesse uma cama. Imaginou-a por baixo dele, ofegante, as faces uma rosa silvestre, o cabelo a rodear a cabeça como uma almofada.

– Não olhe para mim dessa maneira – admoestou ela zangada. – Não deve.

– E se eu só olhar assim quando estou consigo numa árvore? – sugeriu.

– Não voltará acontecendo.

– Precisamente – olhou-a de novo, dos pés à cabeça. – Olivia, a senhora é especial – procurou outras palavras, mas não conseguiu encontrá-las. Nunca encontrava as palavras certas quando mais precisava delas.

– O senhor também é muito atraente – disse Olivia, afetada. – Não que isso tenha importância, pois não somos pássaros e não podemos viver nesta árvore. Espanta-me que a sua família ainda não tenha vindo à nossa procura.

– A tia Cecily estava a dormir na charrete e tenho a certeza que Justin dorme a sesta deitado na relva.

Provavelmente, o papagaio dele voou sozinho e ele é tão preguiçoso que não há de subir a uma árvore para o recuperar.

– Por favor, pode alcançar o meu papagaio? – perguntou ela, levando-o de novo à razão pela qual tinham subido tão alto.

Obediente, Quin estendeu a mão e libertou o papagaio, conseguindo evitar rasgar a seda frágil. Deixou-o cair em espiral até ao chão, controlando a queda através dos ramos e a seguir deitou o carreto de fio.

– Está todo manchado pelas folhas e pela luz do sol – observou.

– Tal como a senhora – referiu ele passando-lhe o dedo pela curva da face. – Se Justin estivesse aqui, faria um poema. Calculo que seja melhor descermos da árvore. Desço primeiro e posso assim apanhá-la se cair.

– Espere – disse ela, tocando-lhe ao de leve no braço. O toque enviou-lhe um aperto escaldante ao baixo-ventre. – Posso perguntar-lhe uma coisa? O que aconteceu quando tirou os papagaios da caixa, Quin?

Ele não esperava a pergunta. Embora devesse esperá-la.

– Nada.

Olivia passou-lhe a mão pelo braço, até ao ombro e pescoço.

– Não quer que eu o atire do ramo abaixo, pois não? – Sorria mas o seu olhar era sério.

– Já houve um tempo em que teria implorado que o fizesse – disse ele, sem poder controlar as palavras.

Ela esperou.

Mas Quin não conseguia dizer mais.

– Deveríamos voltar – disse ele, sabendo que a brusquidão era a sua própria confissão.

– A sua mulher gostava de papagaios? Esse pertencia-lhe – Olivia apontou para o papagaio vermelho lá em baixo sobre a relva.

– Não. Era do... – teve de esperar um momento. Bater na camada de gelo negro que tinha dentro de si, antes de conseguir falar. – Era da ama. Chamava-se Dilys. Era… era… gostava de cores garridas e de rir. Era do Shropshire.

– Como o Riggle?

– Esquecia-me que já o conhecia. Sim. Era filha dele. Ele perdoou-me só Deus sabe como.

Os olhos dela encontraram os dele, suaves e firmes.

– Tenho a certeza que nada havia a perdoar. Que idade tinha o seu filho?

– Cinco anos – disse num murmúrio rouco e aclarou a voz. Experimentou de novo. – Alfie teria agora dez anos.

– Alfie? – o rosto dela transformava-se quando sorria. – Gosto muito do nome dele.

– Recebeu o nome do meu pai: Alphington Goddard Brook-Chatfield. Mas eu chamava-lhe Alfie para desagrado da minha mãe. Dilys deu-lhe esse diminutivo; estava com ele desde o nascimento. E... – deteve-se por momentos e depois disse com firmeza: – E também no final. Afogaram-se, sabe. A minha mulher também.

Olivia passou-lhe o braço pelo pescoço com muita delicadeza. Depois soltou-o e saltou para o ramo onde ele estava. Quin sentiu um momento de pânico, mas o ramo era forte. E ela estava junto dele, toldando o espírito.

– Lamento muito – afirmou.

– Pois – disse ele, pouco à vontade como sempre. Deveria saber escolher melhor as palavras, pensou frustrado.

A boca de Olivia tocou na dele.

– Rupert vê o pai todas as quintas-feiras das duas às três da tarde. Tenho a sensação de que estava com Alfie mais do que uma vez por semana.

– Não podia afastar-me – disse Quin, encostando-se de novo ao tronco, com um braço em redor da cintura de Olivia e o outro agarrando-se com força a um braço por cima das cabeças.

– Desde que o vi… nunca mais consegui afastar-me.

Ela abriu a boca, mas ele silenciou-a com um beijo rápido.

– Não me diga que ele está num lugar melhor – pediu sabendo que falava em tom gélido – Ou que tive a sorte de ter estado com ele enquanto foi possível. Ou que agora é um anjo. Ou que estarei de novo com ele quando cruzar as portas do céu.

– Haverá alguma coisa certa para dizer?

Quin ficou pensando.

– Leve-me agora?

Ela riu e o riso adoçou as arestas cortantes do desgosto de Quin.

– O melhor será nada dizer – tocou-lhe nas faces com ambas as mãos e posou-lhe um beijo nos lábios que foi como se todas as condolências que recebera na vida se transformassem numa só.

Nem conseguia falar.

Olivia passou-lhe os dedos pelo cabelo, libertando-o da fita.

– O seu cabelo sempre foi branco à frente ou foi o desgosto?

– Sempre foi assim – disse ele. – Eu deveria ter sido um dos bebés mais estranhos nascido no Kent. Os dedos de Olivia apoderaram-se dele, afagando o cabelo, como se este lhe pertencesse. Embora fosse impossível. Ele aclarou a voz.

– Eu sei que vai casar com um marquês – Quin sentia os dedos a arder porque também lhe tocava. Ela ficou em silêncio, imóvel, mas ele teve a sensação de que ela ia recuar, por isso apertou-a com força.

– Olivia, estamos em cima de uma árvore.

– Devíamos descer – declarou ela.

– Um momento. Se não se fosse casar com esse marquês – murmurou ao ouvido – eu trocava de lugar consigo.

– Como?

– Encostava-a ao tronco. Eu…

– Não o diga! – gritou ela. – Não sou uma acrobata que poderia…

– Poderia o quê?

– Bom, bem sabe.

– É esta a mulher que quase recitou perante todos uma quintilha humorística acerca de uma jovem que era particularmente ágil com uma agulha? – Sentiu o riso subir-lhe no peito. Era estranho e um pouco embriagador.

– As quintilhas são apenas gracejos extensos. Decoro-as apenas porque enraivecem a minha mãe, o que me permite manter algum sentido de independência. Agora, por favor, podemos descer desta árvore? Posso até acrescentar que a minha mãe explodiria se me pudesse ver neste momento.

– E a minha também – admitiu Quin à vontade, permitindo que a mão acariciasse as costas dela.

– Não faça isso! – ordenou Olivia.

Ele deteve-se com a mão em cima da magnífica curva.

– Por favor? – Falava num tom rouco que o teria embaraçado lá em baixo, mas quem se sentiria embaraçado em cima de uma árvore? Posou os lábios no rosto dela e mordiscou uma orelha.

– Olivia Lytton, penso que será sempre a minha companheira preferida para subir às árvores.

– Espero ser a sua única companheira para subir às árvores – replicou ela fingindo um ar zangado. – E agora vou regressar a terra firme.

– Espere. Eu desço primeiro – balançou-se para o ramo abaixo. Depois olhou para cima, sentindo uma maliciosa antecipação apertar-lhe o estômago. Como ela não se mexesse, inclinou-se para trás para poder ver-lhe o rosto.

– Está pensando espreitar as minhas pernas, não é verdade?

– Adoro as suas pernas – disse ele, perfeitamente franco. – E, se não olhasse para elas, seria negligente no meu dever, que neste caso será impedi-la de se magoar.

Olivia soltou uma exclamação de desprezo e depois – muito mais depressa do que ele antecipara – deu uma volta, balançou e passou para junto dele. O ramo oscilou e instintivamente ele estendeu a mão para a segurar, mas ao fazê-lo desequilibrou-se e, atravessando duas camadas de folhas, despenhou-se no solo.

Sentiu-se sem ar e a dor foi tremenda. Manchas negras voavam dentro das pálpebras e não conseguia respirar.

– Oh, valha-me Deus! – ouviu ainda antes de voltar a ver. – Oh, Quin, oh, Quin, por favor, não morra. Porque fui eu fazer aquilo? – Olivia descera da árvore. – Por favor... respire... Está respirando!

Quin respirava. Tinha a certeza disso porque cada inalação de ar doía-lhe mais que... uma série de impropérios passaram-lhe pela ideia e quase não conseguiu evitar que lhe saíssem boca fora.

Sentiu Olivia bater-lhe no peito. Embora a dor impedisse a sua acuidade mental, Quin decidiu manter os olhos fechados. Qual o homem que no pleno uso das suas capacidades mentais interromperia uma mulher determinada a cumprir uma missão? Pelo menos aquela missão. Preferia deixar de respirar a desencorajá-la.

– Não sinto costelas partidas – murmurou ela, batendo com maior firmeza.

Poderia ser porque passara a bater-lhe no abdômen, onde ele tinha a certeza absoluta de não ter costelas, mas mesmo assim não se queixou. As mãos dela hesitaram por instantes e depois Olivia bateu-lhe ao de leve por baixo do abdômen.

Soltou um gemido sem poder conter-se e fez uma careta. Não estava habituado a mostrar tão pouca disciplina. Sempre controlara em pleno as suas reações físicas, mesmo com Evangeline, a sua mulher.

– Oh, meu Deus – exclamou mais uma vez Olivia. – Vou buscar Justin. Por favor, aguente-se! Receio que tenha quebrado alguma coisa. Espero que não seja a espinha. Nunca me perdoaria!

O tom entrecortado da voz dela fê-lo abrir os olhos e agarrá-la por um braço antes que ela se pusesse de pé.

– Estou bem – resmungou. – Dê-me só uns instantes.

– Desculpe – disse Olivia desolada. – Fui tão estúpida, Quin, nunca pensei. É assim que eu desço sempre da árvore junto à janela do meu quarto. Balanço-me com força e caio de pé.

– Sai assim pela janela do seu quarto? – esforçava-se agora por respirar normalmente e apercebia-se de que, embora sentisse dores por todo o corpo, parecia que nada estava partido.

– A árvore é a única maneira de eu sair de casa sem que a minha mãe saiba – explicou. – Consegue mexer os dedos dos pés? Ouvi dizer que, se uma pessoa não conseguir mexer os dedos dos pés é muito mau sinal. Vejo que mexe outras partes, mas...

Ele ergueu a cabeça e estremeceu. Ela observava-lhe os pés e por isso aquela parte do corpo dele que estremecia. Quase lhe saltando das calças.

– Consigo mexer os dedos dos pés – sossegou-a, sentando-se rapidamente para lhe bloquear a vista.

Sentiu a cabeça à roda.

Olivia não parecia reconhecer o que via naquela zona das calças. E ele continuava sem perceber se ela teria simplesmente habilidade para o flirt ou se seria mais experimentada.

Evangeline não era virgem quando chegara à sua cama. Quin ficara surpreendido na altura, mas quando pôde conhecê-la melhor, compreendeu. Evangeline não tinha um voraz desejo sexual, mas um desejo voraz de ser desejada, tão profundo que nenhum homem conseguia satisfazê-la.

A cabeça latejava, mas, mesmo assim, sentia o cheiro de Olivia, um perfume delicado que era só seu. O perfume era como que a tentação dentro de um frasco. Como o desejo.

Só por tê-la ali, de joelhos, junto dele fazia-o sentir-se ousado. Mesmo sentindo o corpo magoado e a cabeça metida num torno, desejava apenas deitá-la de costas e colocar-se sobre ela.

E tomá-la.

Gemeu de novo só de pensar.

– Vou buscar Justin – exclamou Olivia, pondo-se de pé de um salto. – O senhor está cheio de dores. Ele pode levá-lo até à charrete.

– Não! – Quin quase soltou uma gargalhada só de pensar no seu primo tão franzino a arrastá-lo pelo cima do monte. – Consigo levantar-me. E assim fez, embora os músculos gritassem e os ossos protestassem. – A queda não foi grande – disse, como se assim passasse a ser verdade. – E os ramos amorteceram a queda.

– Que disparate – retorquiu Olivia zangada. – Podia ter morrido. Nunca deveria ter subido à árvore atrás de mim. Não há dúvida de que o senhor é muito... – deteve-se.

– Velho? – Quin fez um gesto de aborrecimento e começou a andar lentamente, sentindo dores. Mas percebeu que ficaria bom. Que raio, era de fato demasiado velho para subir às árvores.

– Sim – concordou ela sem rodeios. – É demasiado velho. Que idade tem? – acrescentou.

– Trinta e dois – disse ele. – Mas, neste momento, sinto-me como se tivesse sessenta e três.

– Há quantos anos perdeu o seu Alfie?

Ele limitou-se a caminhar sem olhar para ela.

– Vai fazer cinco anos em outubro.

– Casou muito cedo.

– Sim. – Mas ela parecia estar à espera e as palavras surgiam-lhe por isso pronunciou-as. – Acabava de voltar de França e da Alemanha e fui para Londres para a minha primeira temporada. Também era a primeira temporada de Evangeline. Só a conheci dois meses depois, mas assim que a vi...

– Amor à primeira vista? – sugeriu Olivia.

– Mais ou menos – nunca pensara ser capaz de amar. Mas fora certamente capaz de sentir fascinação. Já para não falar de obsessão.

Justin veio ter com eles a passos largos.

– Lady Cecily quer ir para casa! – gritou. – É melhor andares mais depressa, Quin. Está fervendo de impaciência.

Olivia gemeu e começou a correr em direção à charrete.

Mas Quin sobrevivera a um milhar de tempestades da tia e não estava em condições de avançar mais depressa. Continuava a andar pensando no que significava um amor à primeira vista.

Sabia que essa capacidade ficara esgotada nele ou talvez não fizesse parte do seu caráter. Não conseguia imaginar ninguém na sua família chegada – a não ser Justin – que experimentasse tal emoção. Mesmo assim não conseguia deixar de desejar ter conhecido Olivia em vez de Evangeline. Olivia era o tipo de mulher por quem um homem se poderia apaixonar à primeira vista. A menos que se tivesse o coração como um nabo murcho, que era praticamente o estado do seu.