Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 11 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 10

Nunca se Deve Subestimar o Poder de Um Folho de Seda

Georgiana parecia sentir simultaneamente um misto de admiração e de assombro. Ao mesmo tempo tinha compostura e respeito por si própria. Era assim que uma dama devia olhar para um duque. E não soltara uma única risadinha.

Por outro lado, Lady Althea soltara uma pequena gargalhada no preciso momento em que ele lhe dera o braço.

– Espero que o convite da minha mãe não vos tenha afastado de Londres numa ocasião pouco oportuna – disse Quin acompanhando Georgiana e Althea, uma de cada lado, pelo terraço. Cleese pusera a mesa no extremo, à sombra da clematite em flor.

– De modo algum – respondeu Georgiana. – Tenho de confessar que a temporada estava a ser ligeiramente entediante.

– Já há muitos anos que a menina sai, não é verdade? – perguntou Lady Althea, mas logo acrescentou com uma expressão encantadora e afogueada. – Espero que não a tenha embaraçado com esta observação, Miss Georgiana. A menina parece tão jovem que uma pessoa esquece como o tempo passa.

Quin olhou para a trouxinha de feminilidade que trazia agarrada ao braço esquerdo. Althea provavelmente apercebera-se de que estava a ficar para trás na corrida ducal e tratava de apunhalar a adversária para a afastar da competição.

– De fato, fui apresentada à sociedade já há alguns anos – disse Georgiana sorrindo para Althea quando se sentaram. Quin sentou Althea numa cadeira ao lado da mãe. Georgiana parecia não se ter incomodado com o comentário de Althea.

– Nunca pensei que a juventude fosse um bom indicador de possibilidades casamenteiras – comentou Olivia quando Justin a conduziu ao seu lugar, à esquerda de Quin. – Há fatores muito mais importantes.

Educado pela mãe acerca dos pontos mais importantes da etiqueta, Quin reparou que Ms. Lytton não deveria ter interferido numa conversa de que não fazia parte. Mas, obviamente, a regra era maleável: a duquesa viúva sentiu-se também incapaz de resistir.

– A virtude é o bem mais caro de uma dama – declarou para logo acrescentar: – Considero a idade uma questão pouco importante.

– Concordo inteiramente – afirmou Olivia. – Todavia, devo afirmar que tudo depende das virtudes em questão. Muitas vezes, as jovens têm todas as virtudes de que eu não gosto e nenhum dos vícios que admiro.

– Ninguém pode não gostar da virtude! – exclamou Althea.

– Mas creio que a menina considera a inexperiência uma virtude, pelo menos no que diz respeito ao mercado matrimonial.

– Pois sim – disse Althea hesitante. Perdera o controle da conversa e sabia-o.

– Contudo, pode ser esmagadoramente enfadonha – com um sorriso brilhante, Olivia voltou-se para Justin e perguntou-lhe como era a temporada das perdizes em redor de Littlebourne Manor. Althea abriu a boca e logo a fechou.

– Lady Althea – disse Georgiana. – Recordo-me de ouvir que a senhora é amante de línguas estrangeiras. Todos gostaríamos de ter conhecimento das suas proezas nessa área. Penso que esses conhecimentos são muito importantes para quem tem de receber gente de fora, como tenho a certeza acontece com a senhora.

Uns instantes depois Althea começou a tagarelar – em inglês – acerca dos seus conhecimentos de italiano, alemão e francês.

Quin observava-a em silêncio, pensando em Georgiana. Pelo visto, esta não tinha rodado, o que quer que aquilo significasse. Evangeline tinha rodado, claro. Ele tivera de afastar vários pretendentes, embora, na realidade, no momento em que o pai de Evangeline soubera que havia um duque em jogo, os outros foram imediatamente cartas fora do baralho.

Quin sempre pensara que o sucesso de Evangeline no mercado se devia ao fato de ela corar quando se sentia feliz.

Mas o que um pretendente não poderia saber é que Evangeline não corava quando estava infeliz, o que, conforme se lembrava, acontecia quase sempre.

Miss Georgiana não era do tipo de corar. Tinha a pele muito branca, quase tão pálida como a da irmã. Tinha também um nariz adorável, embora e, mais uma vez, Olivia ficasse ligeiramente em vantagem.

A única nota possivelmente pouco atraente nela era o fato de ser muito magra, parecendo mais um rapaz esguio do que uma mulher feita. O vestido tinha um decote generoso, que mais não fazia do que acentuar as diminutas características que se encontravam por baixo.

Não que tivesse alguma importância, disse rapidamente para consigo. Uma duquesa é mais do que o seu colo. Não era um homem tão básico que caísse de joelhos diante de um folho de seda violeta e de um par de seios sensuais.

– Acho muito interessante que o senhor se ocupe com o estudo das matemáticas – disse Georgiana voltando-se para ele, quando terminou a conversa sobre as línguas estrangeiras. Estava à direita dele e Olivia à esquerda, pois Althea fora colocada ao lado da mãe. Quin tentava não olhar demasiadas vezes na direção de Olivia.

Um cavalheiro não come com os olhos a noiva de outro que foi servir a pátria. Principalmente se se tratar de um nobre, que poderia ter seguido o caminho mais fácil, como Quin fizera.

Não era a primeira vez que se sentia culpado. Não era fácil sentir-se em paz. Quando era rapaz, sonhara usar as suas divisas e chefiar um batalhão.

– O estudo das matemáticas – disse por fim. – Sim estou muito interessado na arte da matemática.

– Ouvi falar da obra de Leonhard Euler acerca das funções matemáticas – disse timidamente Ms. Georgiana. – Considero-a fascinante.

– A menina… a menina leu a obra de Euler?

Uma leve ruga surgiu na testa de Georgiana.

– Tanto quanto sei, senhor duque, não há qualquer lei que impeça as mulheres de lerem a London Gazette. Há alguns meses que a obra de Euler foi extensamente discutida.

– Claro – disse Quin apressadamente. – Peço desculpas por parecer tão sético.

Ms. Georgiana tinha belos modos. Lançou-lhe um olhar límpido e um doce sorriso.

– Também trabalha com funções matemáticas?

– Trabalho, sim – disse ele, hesitante. Mas ela sorriu de novo, por isso Quin lançou-se numa descrição do método babilónico de calcular raízes quadradas.

Terminou o seu discurso dez minutos mais tarde, descobrindo que os comensais estavam todos a olhar para ele no mais absoluto silêncio.

Olhou para Georgiana para ver se ela mostrava o mesmo nível de incredulidade. Mas não: os olhos dela estavam alerta e interessados.

– Se bem entendi – disse ela –, o senhor está tentando acentuar que este processo não funcionará usando um número negativo.

– É exatamente isso que eu penso – disse a mãe.

Até um idiota saberia interpretar a voz da duquesa, Ms. Georgiana acabara de passar o primeiro teste. Sem ser exageradamente erudita, era inteligente e interessada em outros assuntos que não os do governo da casa.

Olivia, por outro lado, olhava-o divertida, nada admirada e muito menos extasiada. Não se mostrava fascinada pela sua lição de matemática.

– É aborrecido, bem sei – disse algo timidamente.

– De modo algum – sussurrou Georgiana.

– Sim, claro que é – afirmou Olivia precisamente ao mesmo tempo. – Talvez da próxima vez possa vender bilhetes antecipadamente.

– Bilhetes, Miss Lytton? – perguntou a duquesa viúva.

– Exatamente – replicou Olivia, lançando um sereno sorriso. – Sei que é um defeito meu, mas ficaria muito mais feliz se pagasse por uma conferência, mesmo que adormecesse no seu decorrer. A educação deveria ser cara, não acha?

– É absurdo – declarou a duquesa.

– Conforme Vossa Graça escreveu Uma dama deve ter sempre consciência das fraquezas do seucaráter. – Depois acrescentou: – Nem será preciso dizer que minha mãe é grande admiradora de O Espelho dos Elogios.

– Sei perfeitamente – disse a duquesa, com leve entusiasmo. – Estive com a sua mãe em várias ocasiões e sempre me pareceu notavelmente sagaz para o seu nível.

A ira perpassou pelos olhos de Olivia, mas o seu sorriso aprofundou-se, no entanto, a covinha não apareceu. Mentalmente Quin recuou um passo.

Quem quer que pensasse que o sorriso indicava apreço ficaria completamente desiludido.

– Faz-me lembrar um novo aforismo que se poderia aplicar – disse ela docemente. – Até os fantasmas dos falecidos antepassados prefeririam dormir a escutar alguém tagarelar como um papagaio embriagado. – Embora, pensando melhor, talvez não possa atribuí-lo ao Espelho dos Elogios.

– A menina tem um sentido de humor muito vivo, Miss Lytton – comentou a duquesa viúva. E não era um elogio.

– Sinto curiosidade acerca dos fantasmas dos meus antepassados vivos, não dos mortos – disse Justin com uma expressão maliciosa no olhar. – Que fazem eles enquanto Quin se lança em lucubrações matemáticas?

– Miss Lytton – interveio Quin.

– Vossa Graça?

– Prometo não a informar de novo acerca das raízes quadradas sem primeiro emitir bilhetes.

– Quanto a mim, gostaria de receber um desses bilhetes – declarou Georgiana com um afetuoso sorriso. – E peço desculpa pela irreverência da minha irmã. Receio que estejamos habituadas a gracejar uma com a outra.

Ela era em tudo perfeita para ele.

– Já não tenho a fortaleza moral para suportar lições de matemática – comentou Justin. – Por isso, primo, se me desculpar, não vou comprar bilhetes para as conferências acerca das complexidades das raízes quadradas.

– Miss Georgiana – disse a duquesa –, gostaria de lhe pedir a sua opinião acerca dos caixilhos de pedra das janelas em estilo gótico.

– O seu comentário implica que o senhor já teve fortaleza moral para suportar lições de matemática – respondeu Olivia a Justin. Tinha um modo especial de sorrir com os olhos enquanto falava, como se tivesse pensamentos maliciosos, que Quin muito apreciava.

– Não, nunca tive – replicou Justin, inclinando-se ligeiramente. – Pelo menos no que diz respeito às matemáticas. Agora se a senhora estivesse falando de coisas verdadeiramente interessantes...

– Moda – alvitrou ela.

– Adoro! – exclamou Justin, acrescentando: – A vida nada é sem o embelezamento oferecido pelo vestuário adequado. Mas a minha verdadeira paixão é escrever poesia e baladas.

– Justin escreveu cento e trinta e oito sonetos, todos à mesma mulher – referiu Quin, introduzindo-se na conversa, embora o correto seria continuar a conversar com Georgiana. Mesmo assim, esta nada tinha dizendo sobre os caixilhos, fato a que a mãe teria de fazer a devida apreciação.

– Não me diga! – exclamou Olivia, parecendo muito impressionada.

– Chama-se um ciclo de sonetos – informou-a Justin.

– São muitos sonetos e ainda mais rimas. Quando se compõe um tal ciclo, é permitido repetir rimas? Como, por exemplo, amor com calor?

– Nada de calor – disse Justin com um gesto da mão. – Calor é para os fogões e para os velhos. E amor é mais difícil rimar do que parece. Como outras palavras, quantas vezes se pode escrever acerca de luvas, por exemplo? Depois de se desejar ser a luva da mão de uma dama, que mais haverá dizendo?

– Porque quererá alguém ser uma luva na mão de uma dama? – perguntou Quin.

Justin revirou os olhos, coisa que fazia com frequência sempre que Quin participava na conversa.

– Porque a luva toca na face da senhora, evidentemente.

– E em outros sítios – acrescentou Olivia pensativa. Quin surpreendeu-se por ter vontade de rir.

– Tal como no nariz dela – acrescentou.

– Isso não é muito romântico – disse Justin, abanando a cabeça.

– Tenho pena de não ter uma alma romântica – lamentou Olivia como que a pedir desculpas.

– Espero que não – disse a duquesa viúva, interrompendo. – Se vai ser duquesa, Miss Lytton, garanto-lhe que uma alma romântica será prejudicial a uma mulher da nossa condição. – Lançou a Quin um olhar cheio de intenções. – Calculo que todos preferimos falar de algo mais elevado do que as tristes tentativas poéticas de Lorde Justin. Lady Sibblethorp, como vão as suas obras de caridade com os jovens transviados?

Lady Sibblethorp sentiu-se mais do que feliz por poder transmitir pormenores acerca das camisas azuis e sapatos pesados que a sua organização distribuía pelos rapazes de famílias desfavorecidas: as duas categorias pareciam sobrepor-se.

– Que interessante – comentou Georgiana conseguindo parecer verdadeiramente interessada. – Como decide a quem dar camisas e a quem fornecer sapatos, Lady Sibblethorp? – Para além de inteligente parecia ser caritativa. Maravilhoso.

A senhora em questão pareceu inchar de orgulho e deu início a uma animada discussão de cachecóis, meias, camisas e casacos.

Quin escutou-a durante o tempo que lhe pareceu necessário e depois voltou-se para Justin e Olivia. Estes tinham ignorado simplesmente as instruções da duquesa: Justin recitava excertos da sua poesia e Olivia troçava deles; era mais que evidente que se divertiam enormemente.

– Nasci sob uma estrela – recitava Justin. – E assim a Lua estava ao meu alcance.

– Mas que diabo quer dizer isso de ter nascido sob uma estrela? Eu nasci de noite, por isso também sou candidata. Ou quer dizer que a Lua me pode cair na mão?

– É uma homenagem – explicou Justin. – Comparo muitas vezes a minha amada a Cíntia, a deusa da Lua. Ela está ao meu alcance porque eu nasci sob uma estrela – fez uma pausa. – Nascer sobre uma estrela. Gosto. Tenho de me lembrar de contar ao meu preceptor que certamente há de aplaudir.

– Pensei que Mister Usher deveria preparar-te para o próximo período em Oxford em vez de alimentar a sua paixão pela poesia – comentou Quin.

– Ensinou-me uma infinidade de coisas acerca da matemática – afirmou Justin com uma patente falta de verdade.

Quin franziu a testa.

– Quem é a sua amada? Já me leste vários poemas, mas creio que nunca te pedi essa importante informação. Talvez uma jovem que conheceste em Oxford?

– Oh, mas não tenho uma amada – admitiu Justin alegremente.

– Cento e trinta e oito sonetos a uma dama que não existe – disse Olivia parecendo impressionada. – Alguma vez descreveu essa pessoa da Lua?

– Deusa da Lua – corrigiu Justin. – Claro que sim. Tem cabelo de prata.

– Que surpresa – disse Olivia de um modo tal que Quin percebeu que outra gargalhada se lhe erguia no peito. – Deixe-me adivinhar: olhos cintilantes?

– Em geral brilham. Cintilam em dois poemas, um soneto e uma balada.

– Parece-me um pouco desagradável. Não está preocupado que ela venha a parecer-se com uma abóbora do dia das bruxas?

– De modo algum – retorquiu Justin com dignidade. – A minha dama não se parece com uma abóbora esculpida. Usurpa o sol e as estrelas com a sua beleza.

– E as toilettes dela? Prefere vestidos de cintura subida, ou é mais antiquada, por ser uma deusa e portanto mais velha?

– Já ouvi o suficiente desses poemas para saber que consideras a senhora mais como uma Lady Godiva do que como uma dessas lanternas – comentou Quin.

– Vossa Graça surpreende-me! – exclamou Olivia fazendo surgir a sua covinha.

De fato, Quin surpreendia-se a si próprio.

Justin revirou os olhos.

– Os meus poemas são de todos os tempos. Ficariam datados se descrevesse um vestido. E se eu descrevesse a minha deusa da Lua de turbante? No próximo ano transformaria numa desmazelada e eu teria desperdiçado o meu tempo no poema.

– Certamente ninguém desejaria escrever um poema que não pudesse ser reutilizado – concordou Olivia. – Percebo por que razão o melhor é ela estar nua. A sua Deusa da Lua desfere um golpe importante nas enfadonhas regras de conduta contra as quais todos nós nos irritamos.

– Ah, sim? – perguntou Quin, inclinando-se para ela. – Estará a menina a revelar um toque de Lady Godiva em si própria, Miss Lytton? – E olhou-a de frente até lhe ver as faces levemente coradas.

Depois inclinou-se para trás, consciente de que o coração lhe batia no peito de um modo extremamente deselegante. A simples menção de Lady Godiva evocava nele a imagem de Olivia, nua e sensual, os seios semiocultos pelas madeixas de cabelo escuro, a sua boca maliciosa a rir-se para ele.

– A minha Deusa da Lua não está nua! – exclamou Justin revirando mais uma vez os olhos. – Simplesmente não menciono a roupa. Além disso, prefiro escrever acerca do que se sente quando se está apaixonado. Eis uma das minhas estrofes preferidas: Por você, subiria à torre mais alta, precipitar-me a atravessar o mar.

– Detesto parecer pedante, mas esses dois versos não são pentâmeros jâmbicos e também não rimam – fez notar Olivia. – Tenho a certeza de que um dístico deveria rimar.

– Parece-me mais problemático o fato de as duas atividades serem tão diferentes – comentou Quin. – É bastante provável que pudesses subir a um campanário se necessário fosse, Justin, mas nunca conseguirias correr sobre as águas.

– A menos que nos esconda sinais de divindade – ironizou Olivia, com a covinha brincando-lhe de novo ao canto da boca. – Afinal nasceu sob uma estrela.

Olharam ambos para o jovem Justin e depois os olhos de Quin encontraram-se mais uma vez com os de Olivia com um espanto profundamente agradável.

– Não há sinais visíveis. Não se vê qualquer halo sobre ele.

Justin era uma alma notavelmente bem-humorada.

– Incultos – disse, mas sem qualquer irritação. – A poesia não precisa de rima. Apenas os picuinhas dão importância a essas coisas.

– Os dísticos devem rimar – respondeu Quin com firmeza. – Mas tem razão no que diz respeito à descrição. Porquê prenderes-te. Compreendo que as metáforas são de rigueur no que diz respeito aos versos.

– Suponho que sejam muito difíceis de escrever – disse Olivia. – Os únicos poemas que consegui decorar usam muitas metáforas, mas nunca consegui escrever nenhum.

– Como por exemplo? – perguntou Quin.

– Havia uma donzela, um botão de rosa, com a agulha muito habilidosa... – disse-lhe com olhos risonhos. – E por aqui me fico, se não se importa. Mas garanto-lhe que, no que diz respeito a metáforas, não há como as quintilhas humorísticas.

– Já ouvi essa – interrompeu Justin, olhando para a sua convidada com renovado respeito. – Nunca pensei que as senhoras gostassem de quintilhas humorísticas.

– De uma maneira geral, não gostam – concordou Olivia. – Sou uma aberração. A maioria das senhoras ficaria em êxtase se recebesse um lindo poema de amor feito por si. Pergunte a Sua Graça. Talvez ele tenha escrito versos na sua juventude.

Justin soltou uma exclamação de desprezo.

– Quin não conseguiria escrever um poema nem que o próprio Shakespeare o inspirasse.

– Conseguiria sim – protestou Quin. Sentia-se temerário, embriagado pelo brilho dos olhos de Olivia.

– A minha dama faz-me falta e eu sou… uma torre alta. Pelo menos rima.

A gargalhada de Olivia enviou uma onda de calor ao baixo-ventre de Quin.

– Vossa Graça surpreende-me. Nunca esperei que exibisse uma tal habilidade metafórica. Damas e torres são surpreendentemente... evocativas.

Se ele bem a compreendera, Olivia transformara a sua desgraçada metáfora em algo muito erótico. E aparentemente sem que o seu jovem primo compreendesse.

– Possivelmente, conseguiria fazer outras comparações elaboradas – disse Quin franzindo a testa.

– Tem razão – concordou Olivia. – Penso que deve ficar-se pela metáfora arquitetônica. Talvez pudesse tentar com um castelo.

O sorriso dela desafiava-o.

– Um castelo seria difícil – afirmou Justin com autoridade. – Não rima com grande coisa.

– O castelo do teu corpo é meu por direito de conquista – declarou Quin, pegando no copo de vinho. Tomou um gole e olhou para Olivia, sabendo que os seus olhos estavam pesados de desejo.

Havia uma tal onda de calor entre eles que Quin se sentiu momentaneamente surpreendido por a toalha de mesa não se ter incendiado.

– E o fosso? – perguntou ela, com o sorriso malicioso a brincar-lhe de novo em redor dos lábios. – Certamente... alguém poderá... mergulhar no fosso?

Por fim, Justin percebeu e desatou também a rir.

– As muralhas – disse, quase sufocado. – Não podemos esquecê-las, Quin!

Com tanta diversão, a duquesa viúva não pôde deixar de interferir.

– Devo perguntar-vos se têm um assunto cómico para partilhar com os comensais. Justin lançou-lhe um doce sorriso.

– Estamos a discutir a arquitetura dos castelos medievais, minha tia. É natural que o assunto tenha alguma graça.

– As ameias – confirmou Olivia, acenando afirmativamente. – No contexto da literatura.

A duquesa viúva semicerrou os olhos. Depois perguntou severamente a Georgiana e a Althea acerca da utilização do veludo adamascado no dossel das camas. O assunto era evidentemente relevante para o casamento. Quin voltou-se imediatamente para Justin e para Olivia.

– Prefiro ideias dramáticas – dizia Justin. – Por exemplo, tenho sessenta e sete poemas que prometem fazer o impossível pelo amor.

– Suponho que é aí que entra a história de caminhar sobre as águas – referiu Olivia. – Que outras coisas promete?

– Caminhar sobre o fogo – disse Justin. – Ter o mundo na mão.

– Essas duas coisas sofrem da mesma incompatibilidade – declarou Quin. – Supondo que seja possível caminhar sobre o fogo… embora saltar seja talvez uma descrição mais precisa... é evidente que terão ilusões de grandeza.

– Lorde Justin, se o senhor tiver um lado divino, seria este um ótimo momento para o revelar – declarou Olivia esperançosa.

– Creio que todos concordaremos que Miss Olivia e o meu primo têm almas tristemente prosaicas – disse Justin. – A poesia é o meu destino. A troça não me deterá. Um dia encontrarei uma dama tão bela como a Lua e já terei os poemas escritos.

– Ainda terei de encontrar uma dama assim – declarou Olivia. – Alguma vez Vossa Graça se sentiu atingido pelo feitiço da Lua?

Quin olhou-a e rejeitou a ideia da Lua.

– Muito fria, pálida e insípida – respondeu. – Preferia uma deusa que produzisse a sua própria luz em vez de refletir a dos outros.

– Não consigo imaginá-lo apaixonado, mas nunca se pode dizer nunca – declarou Justin.

– A poesia pode ser também o destino de Sua Graça – admitiu Olivia com os olhos saltitantes. – Basta ver o seu criativo versejar em volta de um castelo... e isso é que nem chegou às muralhas. Muitas pessoas não pensam no desenho das fortificações em termos tão sugestivos.

– Em que termos? – perguntou a duquesa viúva subitamente, voltando a cabeça.

– Em termos de construção – retorquiu inocentemente Olivia. – Sua Garça tem frases de jeito arquitetônico.

Se a mãe de Quin possuísse a propensão dramática de Justin, teria revirado os olhos.

– Vamos dar um pequeno baile dentro de dias – anunciou. – Mas não me surpreenderia se fôssemos pelo menos cem pessoas.

Deveria estar a passar à fase seguinte no processo de certificação, percebeu Quin. O pensamento fez com que uma onda gelada lhe invadisse a espinha.

Sim. Olivia era encantadora, divertida e inegavelmente sensual e atraente. Não importava que estivesse noiva de outra pessoa. Não servia para ele. De maneira alguma.

Quin voltou de repente a cabeça para Georgiana. Os olhos dela eram claros, doces, um pouco ansiosos. Não devia ser fácil ser irmã gêmea de Olivia.

Georgiana era uma peça elegante de bela porcelana, mas, em comparação, Olivia acenava com a terra prometida.

Ele queria – não, tinha de se lembrar que não poderia confiar no que queria. O que queria não era certo. Tinha de se lembrar do horror das noites em que Evangeline não voltava para casa, ou na amargura de a ouvir gritar com ele, acusando-o dos seus manifestos fracassos, da sua incapacidade de a satisfazer, de fazendo feliz...

Sorriu para Georgiana.

– Agora que a aborreci de morte com o meu monólogo matemático, diga-me quais os passatempos de que mais gosta. Isto é – acrescentou –, se a menina tem tempo livre para passatempos. Sei que as jovens estão sempre muito ocupadas.

Georgiana ocultou uma gargalhada num estranho soluço.

– Frioleira, costura e afins.

– Calculo.

Olivia ria por trás do ombro esquerdo da irmã e esse riso fazia com que os seus seios...

Quin voltou a concentrar a sua atenção.

– E qual o que mais aprecia? Frioleira?

– Por acaso o senhor faz ideia do que é a frioleira?

– Claro – afirmou Quin, sem pensar. – São... coisas. – Olhou-a nos olhos calmamente divertidos que também lhe provocaram um sorriso. – Costura? – sugeriu.

– A frioleira é o método de fazer um tipo de renda apertada.

– Renda apertada – repetiu Quin. – Não me parece certo.

– Um oximoro – concordou ela.

– Aposto que não se interessa pela frioleira.

Ela sorriu de novo, numa espécie de doçura passageira sempre presente no sorriso malicioso da irmã.

– Não tanto como por outras coisas.

– Então, gosta de quê? – perguntou Quin, verdadeiramente curioso pela primeira vez. Ela hesitou e depois respondeu.

– Gosto de ler.

– É então uma 3 bluestocking ?

– Não creio que mereça esse epítome. Considero as bluestockings mulheres extremamente cultas e inteligentes.

– Não me custa nada acreditar que a menina seja muito inteligente, embora não possa falar da educação que teve.

– Sei de cor o livro da sua mãe – sugeriu ela.

Ele devolveu-lhe o sorriso irônico.

– O Espelho dos Elogios não substitui a Universidade de Oxford.

– Que não permite mulheres dentro das suas augustas portas.

– É verdade. Por isso deixe-me adivinhar. – Observou-a. Considerou-a uma imagem perfeita da feminilidade inglesa: modesta, contudo com inegável caráter. As suas opções eram limitadas, pois não parecia particularmente rebelde. – Toca harpa, quando não lê livros de viagens ao longo do Nilo.

Georgina era notavelmente calma. Sabia por instinto que nunca deveria fazer uma cena e muito menos partir loiça, mesmo quando irritada com ele... como estava agora.

– Não sei tocar harpa. Embora gostasse muito de ler acerca do Nilo, sinto-me mais feliz a ler sobre aquilo que creio que os cavalheiros chamam química.

– Química? – Quin nunca poderia imaginar.

– É provável que seja uma palavra demasiado formal para aquilo que faço – disse inclinando a cabeça para um lado como um pássaro curioso. – Gosto de misturar poções. Olivia diz que sou aprendiz de feiticeira.

– Que tipo de coisas faz?

– Tento melhorar os produtos que já existem – esclareceu. – Na sua maioria produtos domésticos. As duquesas têm sempre... – deteve-se com um rubor encantador a invadir as faces.

– As duquesas? – quis ele saber.

Ela tomou fôlego.

– As senhoras das grandes casas têm, como é evidente, mais tempo livre do que as outras mulheres. Por isso, muitas delas dedicaram-se à química, por falta de melhor palavra. Margaret Cavendish, duquesa de Newcastle, é agora considerada a primeira mulher cientista. Não conheço mesmo mais nenhuma, embora ela tivesse vivido no século dezessete.

– Exceto a senhora – disse Quin.

– Não sou nada disso – declarou Georgiana, parecendo levemente horrorizada. – Sinto apenas curiosidade.

– Miss Lytton, a sua irmã também se interessa pela ciência – perguntou Quin. – Também é aprendiz de feiticeira?

– De modo algum – declarou Georgiana. – Olivia tem capacidades diferentes das minhas.

– Suspeito que as gémeas se definem muitas vezes em oposição uma à outra. Aqui no nosso julgado de paz há dois rapazes o mais diferentes possível.

– Olivia e eu podemos confirmar a sua hipótese. De fato, sinto-me fascinada por objetos concretos enquanto Olivia se interessa mais pelas línguas.

– Línguas? Quer dizer pelo estudo das diferentes línguas?

– Estudámos várias línguas. Mas o que ela verdadeiramente gosta é de trocadilhos – Olhou para Quin com uma luz muito agressiva nos olhos. – Hoje em dia pensamos no jogo da linguagem como mero disparate, mas julgo que ainda venha a ser um sério objeto de estudo.

– Trocadilhos? – repetiu Quin. – Palavras que podem ter mais de um significado?

– Exatamente.

– Agora que o menciona, reparei numa distinta propensão para os trocadilhos durante a conversa de Miss Lytton com Lorde Justin.

Georgiana corou uma vez mais deixando Quin interessado. Talvez ela adivinhasse o tipo de quintilha humorística que Olivia compusera com espírito acerca da senhora e da agulha.

Mas nesse momento a mãe de Quin aclarou a garganta.

– Esta tarde farei os últimos preparativos para o baile e ficaria muito grata se Miss Georgiana e Miss Althea me ajudassem. – Lançou um sorriso às duas jovens. – Estou desejosa de ouvir as vossas ideias acerca deste divertimento.

Teste Número Dois, pensou Quin para consigo.

Enquanto Lady Althea se esforçava por garantir à duquesa viúva que estava pronta para a ajudar no que fosse preciso, Georgiana aceitou a incumbência de um modo muito mais digno, o que, de fato, agradou a Quin.

Olivia, por seu lado, não se ofereceu – não que a sua ajuda tivesse sido solicitada ou fosse mesmo bem-vinda. Ela e Justin pareciam fazer planos para um passeio a cavalo.

Apesar dos acontecimentos da noite anterior, conhecera Olivia Lytton havia, quanto muito, uma hora, por isso era óbvio que não podia gostar dela. Não como gostara de Evangeline.

Mas Quin nunca fora bom a mentir a si próprio. Gostava dela.

Sabe-se lá por que razão, lançara um olhar aos olhos verde-claros de Ms. Lytton e ao seu corpo sensual, ao modo como endireitava os ombros, mesmo completamente encharcada e desejava-a.

Era espirituosa, adorável, bela... selvagem. Tudo o que uma duquesa não deveria ser. Inclinou-se para ela.

– Tenho uma égua nos estábulos que será perfeita para si – disse.

– Lorde Justin prometeu ensinar-me a lançar um papagaio – exclamou ela. – Sempre o quis fazer, desde que os vi pela primeira vez no Hyde Park. Lady Althea, Georgiana, não querem juntar-se a nós nesta expedição para lançar um papagaio.

– Claro que não – declarou a duquesa viúva. – Hoje não poderão lançar-se papagaios. Depois do almoço iremos à aldeia entregar cestos aos pobres. E depois as senhoras passarão algumas horas a planejar as próximas festas.

– Gostaria de ajudar, mas sei que a senhora não se sentiria bem por estar na mesma sala com a pequena Lucy, dada a marcada preferência que ela sente por si – disse Olivia, lançando à duquesa um sorriso radioso. – Mas talvez a familiaridade traga algo mais afetuoso do que o desprezo, não crê?

– Pode tratar da sua expedição para lançar papagaios amanhã – prosseguiu a duquesa com esmagadora indiferença, como se fizesse o horário dos aposentos das crianças. – Não posso dispensar Lady Sibblethorp para servir de acompanhante à excursão, pois temos ainda muito trabalho. – Fazia com que tudo aquilo parecesse que as senhoras iriam trabalhar para as minas. – É possível que Lady Cecily se disponha a acompanhá-la, Miss Lytton, se o tornozelo dela tiver melhorado consideravelmente. Sentiria à vontade se o meu filho a acompanhasse nessa excursão. Creio que poderemos dispensar acompanhante na nossa propriedade.

Quin acenou afirmativamente.

Quando se levantaram da mesa, a mãe ergueu o dedo.

– A digestão é sempre facilitada por um pequeno passeio. Minhas senhoras, peço-vos que vão ter comigo à sala chinesa assim que estiverem vestidas para sair e iremos até à aldeia.

– Lamento, mas tenho outros planos – disse Justin alegremente. – Mister Usher e eu vamos rever umas aulas muito importantes. Latim... matemática... nunca mais acaba.

Quin abriu a boca para emitir uma desculpa semelhante quando se apercebeu de que Olivia se debruçava na balaustrada de pedra, tentando puxar um ramo de clematite que parecia fora do seu alcance.

O corpo dela esticava-se num movimento tão sensual que o obrigou a tomar fôlego. Aquelas curvas doces e generosas eram uma pura tentação. Sem saber como nem porquê viu-se ao lado dela, os corpos quase a tocarem-se, enquanto ele estendia a mão para a flor que ela desejava colher.

O ramo florido partiu-se e Quin voltou-se. Pela primeira vez, Olivia não estava a rir. Olhou-o nos olhos por um momento, depois baixou as suas longas pestanas e desviou o olhar.

Quem pensaria que uns olhos verde-claros poderiam parecer tão sombrios? Quin recuou um passo, executou uma elaborada reverência, a reverência própria de um duque.

– Posso oferecer-lhe esta flor, Miss Lytton? – perguntou enquanto se endireitava.

Olivia fez uma reverência. Quin amaldiçoou-se em silêncio ao reparar que o movimento lhe dava ainda uma melhor vista dos seios cor de creme. Mas que raio lhe estaria acontecendo?

Depois endireitou-se e o olhar dela fez com que o sangue lhe latejasse nos ouvidos. Era um olhar franco. Carnal. Quin não estava só. Mas tudo se alterou num segundo.

– Minha querida! – exclamou Olivia, voltando-se levemente e olhando por cima do ombro dele. – Olha o que o duque teve a gentileza de colher ali da trepadeira. Fica para você. Gosta de flores muito mais do que eu.

Quin sorriu delicadamente enquanto Georgiana pegava no ramo florido. E depois sorriu encantadora, bela… uma perfeita dama.

– Que gentileza a de Vossa Graça. A clematite cheira tão bem. Notámo-lo durante todo o almoço.

Ele nem reparara no perfume. Sentado ao lado de Olivia, apercebera-se de um aroma diferente… melhor.

Sabonete de limão. Uma mulher limpa.

Em comparação, a clematite era excessivamente doce.

3Este termo refere-se a um grupo específico de mulheres intelectuais do século XVIII, liderado por Elizabeth Montagu. (N. da T.)