Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 12 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 11

A Arte do Insulto

Era excelente a sua irmã ter encontrado o marido perfeito. Claro que era. Não que repeti-lo incessantemente a fizesse sentir-se melhor. A inveja era um sentimento negativo, principalmente entre irmãs – e, mesmo assim, sentia inveja dela.

– Não é próprio do teu nível – disse Olivia para o seu reflexo no espelho.

– A menina disse alguma coisa – perguntou-lhe a criada do outro extremo do quarto.

– Gosto muito deste traje de passeio – respondeu rapidamente Olivia.

Norah aproximou-se e endireitou a bainha do vestido de Olivia.

– Esse amarelo-manteiga fica-lhe a matar. E o casaquinho curto é um amor – a donzela hesitou. – A senhora duquesa vai acompanhar a menina à aldeia?

– Claro. Vai vigiar a pobre Georgie para se aperceber de que ela não põe um pé em falso.

– Lá em baixo dizem todos que ela é terrivelmente rigorosa – confirmou Norah. – Eu não desejaria ser nora dela.

– Sem dúvida um destino terrível, mas tenho a certeza de que Georgie saberá amansá-la.

Norah acenou afirmativamente, mas mesmo assim conseguiu mostrar a mais completa incredulidade.

– Com o tempo – esclareceu Olivia. – Acha que conseguirá meter-me uma fita no cabelo? Talvez cor de ouro velho, para realçar o amarelo.

Olharam ambas para o espelho. O vestido de passeio de Olivia vinha com um bonito casaquinho de bombazina. Era curto, logo abaixo do corpo do vestido e enfeitado com um folho. Olivia achava-o ótimo para lhe acentuar as curvas.

– Não – disse a criada em tom decidido. – Sugiro um chapelinho, aquele que tem a pena de lado.

– Claro!

– A senhora duquesa não vai apreciar o vestido da menina – disse Norah escolhendo um entre os vários chapéus e tocas de Olivia. – Nem um pouco.

Olivia gemeu.

– A saia é muito curta e provavelmente será capaz de desmaiar à vista dos tornozelos da menina. Todas as semanas manda o mordomo medir os fatos das criadas, para se assegurar que estão à distância exata do chão. Não podem mostrar nem um pouco do tornozelo.

– Os tornozelos são o que tenho de melhor – disse Olivia olhando-se de novo no espelho. Era certo que estavam completamente à vista, acentuados pelos seus deliciosos sapatinhos. Muito finos. Na verdade a sua melhor característica.

– Vão ser os preferidos dos cavalheiros – disse Norah soltando uma risada – com essas fitas cruzadas nas pernas da menina. Ainda bem que a mãezinha não está aqui para ver.

– Ora, ora – retorquiu Olivia alegremente. – Se uma futura duquesa não puder usar o último modelo em sapatinhos de carneira, quem poderá? Tenho a certeza de que a duquesa viúva concorda.

Ou... não.

Quando o grupo se reuniu diante da casa e começou a caminhar pelo atalho da aldeia, Olivia chegou à conclusão que os olhares silenciosos, mas ferozes da duquesa, indicavam que ela não era a favor das novas saias curtas nem dos deliciosos sapatinhos de Olivia.

Quanto a esta, pensou que seria mais pacífico caminhar um pouco atrás do grupo a caminho da aldeia. Foi um impulso caritativo, pois só a visão dos seus tornozelos – e de Lucy trotando obediente junto a eles – parecia querer conduzir a duquesa a uma apoplexia.

Contudo, e na experiência de Olivia, os homens pareciam mais interessados em colos e ancas do que em tornozelos. Apenas mulheres como ela, que desejavam a magreza de certas partes do corpo, poderiam preocupar-se com os tornozelos.

Seria extraordinariamente insensato confessar tal ideia à duquesa. Ninguém vai provocar deliberadamente uma leoa.

– Olivia! – chamou Georgiana, deixando-se ficar para trás do grupo.

Olivia fez girar a sombrinha. Era um paninho de renda e folhos que mais parecia um malmequer gigante. Olivia adorava-a.

– Sim? – perguntou sabendo exatamente aquilo que a esperava. Mas Georgie surpreendeu-a.

– Não tive oportunidade de te dizer antes de sairmos de casa. Esses sapatinhos são simplesmente um encanto.

– Estou exibindo aquilo que tenho de melhor. E é estranho, mas toda a raiva mal contida da duquesa está fazendo-me sentir assustadoramente em casa. Esta noite talvez faça uma quintilha humorística à mesa.

Georgiana ajustou cuidadosamente a sua sombrinha para que nem um toque de luz do dia lhe chegasse ao rosto. Nem seria preciso dizer que a sombrinha de Georgie era bastante mais substancial do que a de Olivia, em cima de bico que a cobria de sombra da cabeça aos pés.

– A mãe não nos acompanhou a esta reunião.

– De fato, ninguém citou o Espelho das Lagartas na última hora e se em breve não escutar algumas frases escolhidas desse livro, posso começar a esquecer os seus preceitos. Embora a versão viva caminhe majestosamente à nossa frente.

– A mãe não está cá – repetiu a irmã. – Por isso não precisa de te comportar como se ela estivesse por aqui, tentando obrigar-te fazendo uma coisa que odeias... como por exemplo casar com Rupert – acenou com a mão enluvada. – Olha à nossa volta, Olivia. Só aqui estamos as duas.

– Se consegue esquecer a duquesa viúva, o duque, Lady Sibblethorp e o jovem Henwitty. Já para não falar nesses pobres criados de libré que transportam os cestos cheios de calor. Quem me dera que Lorde Justin tivesse decidido nos acompanhar nesta excursão. Acho que caminhar é terrivelmente aborrecido e pelo menos Justin faz-me rir.

– De que falavam os dois na sala antes de partirmos? – perguntou Georgiana. – Pareciam divertir-se imenso.

– Como somos pouco profundos por natureza, Justin e eu começámos um jogo para ver qual de nós conseguiria proferir o pior insulto.

– Por que diabo querem arranjar insultos? – Georgiana parecia genuinamente ofendida, provavelmente pensando que Olivia ia começar a ofender a anfitriã. – Quando os irão usar?

– É apenas um jogo sem utilização prática – explicou Olivia. – Justin lembrou-se disto para insultar um homem: Cabeça de cão, patifório de rabo enrolado!

Georgiana olhou para as costas da duquesa viúva.

– Por amor de Deus, Olivia, baixa a voz. Tenho a certeza de que te apercebes de que você e ele se envolveram numa atividade de extremo mau gosto. E que diabo é um rabo enrolado?

– Não tenho bem a certeza – confessou Olivia desejando já não ter contado nada a Georgie. Claro que a irmã nunca aprovaria um modo tão tolo de aproveitar o tempo. – Mas adorámos ambos a maneira como soava – acrescentou como fraca defesa.

– Rabo enrolado – repetiu Georgiana. – A expressão parece vulgar. Tenho a certeza de que significa alguma coisa em que não deveria pensar, muito menos proferir em voz alta.

O duque deixou-se ficar para trás e voltou-se para elas.

– Um rabo enrolado é um cão com uma cauda encaracolada: resumindo, não é de raça pura – pediu desculpa por tê-las escutado.

O pulso de Olivia acelerou imediatamente. Sua Graça tinha os ombros mais largos que ela já vira. Eram mal empregados num homem que passava tanto tempo entretido com bocados de papel cobertos de números.

– E qual foi a sua sugestão para jogo que pratica com o meu primo, Miss Lytton – perguntou olhando-a fixamente com os seus olhos escuros.

Se pudesse nunca confessaria a sua contribuição, mas esperavam ambos, expectantes.

– O meu insulto é para uma mulher. Você, pau de virar tripas, você gafanhoto de ancas e traseiro esqueléticos!

Ao ouvir tal coisa o duque soltou uma gargalhada. Parecia um pouco rouco, mas era uma gargalhada. Naturalmente, Georgiana não riu.

– Espero que não estivesses pensando em mim – sussurrou a coberto da gargalhada do duque.

– Claro que não – disse Olivia, apontando para a esguia, mas muito bela Lady Althea.

– O seu insulto diz mais acerca da sua pessoa do que acerca dela – comentou Georgiana, lançando um olhar cheio de significado. Depois ajustou de novo a sombrinha e passou a mão por baixo do braço do duque. – Fale-me mais acerca do cálculo centesimal, senhor duque.

Olivia nunca antes tinha ouvido Georgiana arrulhar. Inclinou-se, fingindo que uma das fitas dos tornozelos se tinha soltado, dando oportunidade a que o par se afastasse.

Era fácil para ela imaginá-los casados. Lorde e Lady Presunção, o duque e a duquesa da Elegância, o...

O duque voltou-se.

– Miss Lytton, não gostamos nada de a deixar para trás – disse ele sem se rir e o desordenado coração de Olivia disparou mais uma vez.

O grupo reuniu-se diante do portão branco numa sebe que rodeava uma casa pequena e muito maltratada. A duquesa entregou a bengala a um dos criados.

– Bata com força nessa porta – ordenou. – Para acordar os moradores.

– Se me dá licença – disse o duque libertando o braço do de Georgiana. – Permita-me. – Retirou a tranca.

– Não era preciso, Tarquin – disse a duquesa. – Aviso sempre assim da minha chegada. Não queremos que essas pobres almas apareçam meio despidas ou coisa parecida. Ficaríamos todos mortificados.

Sem dar resposta, o duque abriu o portão e manteve-o assim até que todos passassem. As toucas e sombrinhas de cores vivas pareciam ainda mais coloridas em contraste com a casa e o jardim maltratados.

Depois a porta da rua abriu-se e as crianças começaram a sair, baixando e levantando a cabeça numa aflição de vénias.

– Muito bom dia para a senhora, Mistress Knockem – disse a duquesa acenando com a cabeça para uma mulher feia e cansada de mãos vermelhas e nodosas. As crianças estavam já todas em fila.

– Avery, Andrew, Archer – disse a duquesa acenando a cada uma delas.

– Sou o Alfred – disse o rapazinho mais novo. – O Archer está na taberna.

A duquesa franziu o sombrancelha.

– Na taberna, Mistress Knochem? Mas com certeza que Archer é demasiado jovem para ingerir bebidas alcoólicas.

– O nosso Archer traz para casa um penny por semana a lavar canecas, senhora duquesa. Temos muito orgulho nele.

– De fato, não se pode desperdiçar um penny – a duquesa olhou de novo para a fila. – Boa tarde, Audrey e Amy. Onde está Anne?

– Está lá dentro, adoentada – respondeu a mãe torcendo o avental.

– Não estará de esperanças, Mistress Knochem? – inquiriu a duquesa. – Soube que ela andava com o filho mais novo do carniceiro.

– Oh, não! – Mrs. Knochem pestanejava furiosamente. – A nossa Anne é uma boa menina. Sentou-se não sei onde e está cheia daquilo a que por aqui se chama urticária.

A duquesa fez sinal ao criado.

– Leve o cesto lá para dentro. Mistress Knockem, atrevo-me dizendo-lhe que uma das minhas convidadas, Miss Georgiana Lytton, tem grandes capacidades para curar problemas de pele.

Olivia inclinou-se para a irmã

– É agora que Lady Althea vai chamar a carruagem e voltar para Londres – murmurou-lhe ao ouvido. Mas, pelos vistos, Lady Sibblethorp não estava ainda disposta a desistir da luta.

– A minha filha, Lady Althea, fez também um extenso estudo de leves problemas de pele – disse magistralmente. – Examinaremos a donzela.

Mrs. Knockem não parecia particularmente satisfeita com a iminente invasão à sua casa, mas pareceu aperceber-se de que não poderia impedir uma cheia quando as margens do rio transbordavam. Recuou um degrau, pestanejando ainda mais.

Georgiana avançou.

– Mistress Knockem, a senhora deve estar tão preocupada. Pode dizer-me o que de fato aconteceu? Entrou na casa de braço dado com Mrs. Knockem e a cabeça inclinada para ouvir a descrição dela. A duquesa acenou para que Lady Althea e a mãe entrassem também e depois voltou-se.

– O senhor duque não será bem-vindo – ordenou. – E Miss Lytton, creio que compreende que o cão deve ficar cá fora.

– Não percebo nada de males da pele – declarou Olivia, desejando ardentemente que a duquesa tocasse em alguma coisa e apanhasse uma doença qualquer.

– Muito bem – disse e fechou a porta atrás de si.

Olivia suspirou.

Depois percebeu de que estava diante de uma fila de crianças que não pareciam inclinadas a agir como as outras. Estavam sujas e eram muito magrinhas. E pareciam ansiosas.

– Vamos lá ver – disse ela para o mais velho. – Chamas-te Maçã porque tem umas belas faces rosadas. – Olhou para o seguinte. – Você parece-me muito veloz, por isso deve ser o Seta. E este deve ser o Avental porque…

– Não sou o Avental – disse indignado o rapazinho. – Isso é para as meninas!

– Hmmm – murmurou Olivia. – Que tal Formiga? É do tamanho de um feijão-verde.

– Mas vou crescer – disse corajoso.

– É verdade – via-os começar a sorrir. A fila desfez-se e começaram a juntar-se à volta dela. – Vamos experimentar com as meninas. Você deve ser a Albricoque porque tem o cabelo da cor do gengibre, que é muito bonita e que me faz muita inveja.

A menina soltou uma risada.

– A minha vovó diz que é da cor das barbas do diabo.

– Não é uma comparação muito elogiosa, mas também nem todos podemos ter a sorte de ter um lume que arda durante todo o inverno, já para não falar numa barba de albricoques. E você – disse, voltando-se para a última, uma menina muito pequena. – Você parece… – aqui a imaginação faltou-lhe.

– Uma bolota – disse uma voz profunda atrás dela. O duque inclinou-se e pôs um dedo debaixo do queixo da menina. – Não é mais do que uma bolota pequenina.

A menina soltou uma gargalhada feliz.

– É isso que o meu pai me chama!

– Muito bem, menina Bolota – disse Olivia lançando ao duque um sorriso de surpresa. – Posso apresentar-vos a menina Lucy?

Lucy, que estivera sentada junto ao tornozelo de Olivia, aproximou-se assim que ouviu o seu nome, agitando loucamente a cauda.

As crianças reuniram-se à volta dela, com exclamações de alegria. Olivia estendeu-lhes a trela da cadelinha.

– Alguém gostaria de levar a Lucy a dar um passeio? – Minutos depois Avery e Audrey dirigiam-se à praça da aldeia com Lucy aos saltos adiante deles.

Olivia olhou para as três crianças que haviam ficado.

– Então contem-me o que se passa na aldeia de mais interessante?

– Zekiel Edgeworth comprou uma égua nova! – exclamou Bolota.

– Não me diga! E onde guarda Mister Edgeworth a sua nova montada?

– Aqui mesmo! – exclamaram. E ali estava uma égua castanha a um canto do pátio.

– Tomamos conta dela – disse o Formiga com ar importante.

Olivia estendeu a mão, olhou para baixo e descalçou a luva.

– Mas em que estava eu pensando? – questionou ela causando novo coro de risadas quando estendeu de novo a mão ao Formiga. – E agora, menino Formiga, quer apresentar-me a esta bela montada que vive no seu quintal?

– Não é tão bonita? – murmurou o Formiga pouco depois.

– Tem aspetos muito interessantes – reconheceu Olivia. – Como se chama?

– Bom – disse Seta com ares importantes. – Mister Edgeworth gosta de lhe chamar Starstruck, mas achamos que é um nome complicado. Por isso chamamos-lhe Alice. Está vendo? Até já dá pelo nome.

Alice!

De fato, a égua ergueu a cabeça ao ouvir o grito, o que causou grandes gargalhadas. Olivia fazia os possíveis por ignorar o homem atrás de si. Por amor de Deus, tratava-se do futuro marido de Georgiana.

– A Alice tem um problema. Mete os pés para dentro... ou melhor, os cascos – observou o duque, aproximando-se ainda mais dela.

Olivia e as crianças olharam-no de testa franzida.

– Todos admitimos que os cascos como os dela ficam muito bem num cavalo – declarou Olivia.

E seguiu-se um coro de concordância.

– Não era minha intenção diminuir os seus pontos fortes – disse o duque, estendendo a mão para acariciar o pescoço da égua. Também descalçara as luvas. – Por exemplo, tem uma testa grande e um pescoço comprido.

– Um pescoço muito comprido – concordou a Bolota. – E também um dorso comprido, porque já todos a montámos uma vez ou outra. Isto é, todos ao mesmo tempo.

– É uma vantagem a ter em conta em relação aos movimentos – murmurou Olivia para o duque. Ele olhava-a de novo fixamente enquanto ela se afastava um passo com o pretexto de examinar o pescoço da água.

– Tem ainda pontos melhores do que o pescoço – afirmou o duque dando um tom curiosamente inocente à sua voz. – Qualquer homem se sentiria feliz por ser o dono desta égua.

O Seta pareceu um pouco desconfiado.

– O meu pai não diz o mesmo que o senhor. Diz que Mister Edgeworth deitou dinheiro fora quando comprou a Alice. Ele não gosta da Alice. – Afagou o focinho da égua para a confortar.

– Estava falando do pelo castanho-escuro, claro – disse o duque. – Olhos suaves, boca delicada e pestanas enormes. – Também acariciava a égua, mas olhava diretamente para Olivia.

Esta nunca ouvira alguém descrever assim um cavalo. Lançou-lhe um olhar furtivo ao rosto. O duque não parecia pessoa para se dedicar aos jogos de palavras. Embora ao almoço...

Mencionara certamente Lady Godiva de um modo sugestivo.

– O pelo dela é extraordinariamente aveludado – disse ele ao Formiga. – Não são da mesma opinião? Seis mãos sujas acariciaram o ventre da água e um coro de vozes concordou com ele.

– Nos apetece mexer nela – respondeu. O seu riso tinha um tom malicioso. – E tem uns cascos muito macios – comentou, apontando. – Bonitos e arredondados à frente. Leves atrás, sem dúvida. – A égua sucumbiu às suas festas e empurrava-lhe o ombro a pedir mais atenção.

– Poderíamos considerá-la um pé-leve? 4 – perguntou Olivia tentando perceber até que ponto poderia ir aquele jogo de palavras. – Porque certamente não o é.

– Isso quereria dizer que a nossa Alice era uma oferecida – comentou Avery em tom de reprovação. – Não se pode dizer isso de um cavalo.

– Tem toda a razão – concordou o duque. – Vou corrigir. Não há dúvida de que Alice é um animal virtuoso.

– Isto não faz grande sentido – observou Olivia. – Quase se diria... quase!... que está dizendo que Alice gosta de cavalarias altas.

– Não senhor! – interrompeu Avery. – Mister Edgeworth diz que ela nem consegue saltar um degrau.

– Achamos que é por ter uma barriga tão redonda – acrescentou a Bolota.

– De fato. – O duque sorriu de novo e Olivia ficou furiosa por sentir o rubor subir-lhe às faces. Ele não poderia estar a referir-se a ela.

– Tudo o que um homem poderia desejar – disse. – E um belo traseiro gordo.

Sim. Poderia estar a referir-se a ela. Olivia manteve-se ali, resistindo ferozmente ao desejo de retirar o seu traseiro gordo das vistas dele. Passando talvez para outro país.

– É por causa de toda a erva que lhe damos – contou o Formiga com ar importante. – A arrancamos no campo às mãos-cheias e damos a comer à Alice.

– Esta égua é uma felizarda – murmurou o duque. Aquele homem era um diabo... a menos que ela não o compreendesse de todo. Como poderia ele dizer o que ela…

– Então, Miss Lytton? Não concorda com a nossa avaliação acerca deste extraordinário animal?

As palavras saltaram-lhe da boca sem pensar.

– Um traseiro gordo? Desde quando é isso que um homem deseja na sua montada?

Estupidamente, Olivia só percebeu o duplo sentido depois de fazer a pergunta, mas o duque não deixou passar a insinuação. Os seus olhos iluminaram-se com um brilho ardente e malicioso, uma promessa secreta que incendiou o corpo de Olivia.

– Miss Lytton – disse num sussurro. – A senhora surpreende-me.

Teve de lhe ocorrer que fora ele quem deliberadamente inseria Lady Godiva na conversa do almoço.

– Hmm – respondeu com alguma dificuldade. – Surpreendo-me a mim própria.

Nos olhos dele havia algo de ávido que não era para ela... não poderia ser para ela. Nunca poderia ter o que ele lhe oferecia.

A avidez deveria ser para Georgiana. Desde o seu décimo aniversário que sabia que o seu futuro nunca incluiria... isto.

Não conseguia pensar no que dizer.

As crianças não sentiram tanta hesitação.

– O senhor olha para Miss Lytton como a nossa Annie olha para o Bean – disse o Maçã ao duque.

– Espero que namorem – declarou a Albricoque. – A mãe disse que o duque deveria casar-se, não te lembra?

O duque não parecia inclinado a responder. Se num momento parecera imperturbavelmente ducal, por falta de uma palavra mais adequada, e logo a seguir o seu rosto transformava-se por meio de uma rude sensualidade.

– E é também como o Bean olha para a Annie – assegurou a Bolota, tomando o silêncio como incentivo. – Ai vêm sarilhos, é o que diz a nossa mãe. – Voltou-se para Olivia. – É por isso que a Annie não sai de casa. Porque tem aquelas borbulhas roxas no traseiro. Como é que lá foram parar?

Olivia franziu a testa.

– Se tivesse a roupa vestida, era o que eu queria dizer – explicou a Bolota.

– Sabe, o Bean é filho do carniceiro e eles namoram – acrescentou a Albricoque. – Embora não devesses dizer coisas dessas diante de pessoas finas – disse ao irmão dando-lhe uma cotovelada na barriga. – É uma dama e as damas não percebem nada das suas roupas.

– Ah não? – perguntou Olivia.

– Não conseguem despi-las sozinhas, pois não? É o que diz a minha mãe. Mas talvez esteja enganada. Aí, Olivia tinha de o confirmar.

– Tem razão. Os meus vestidos são todos abotoados nas costas e preciso de alguém que me ajude a despir.

– Bom, assim não fica com urticária, pelo menos no traseiro.

– É muito bom saber isso – disse o duque gravemente.

Mas nunca mais enganaria Olivia. Este duque em particular poderia parecer rígido como um pau, mas no seu interior era muito diferente.

Um sorriso, um sorriso escondido.

4 Light-heeled também designava em inglês antigo uma pessoa pouco casta. (N. da T.)