Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 9 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 8

Definição das Qualidades de Um Príncipe de Conto de Fadas

Olivia acordou na manhã seguinte ao som da porta do quarto a abrir-se. Não fazia ideia de que horas seriam. A duquesa viúva era partidária das camas antiquadas, o que significava que Olivia poderia até dormir numa gruta. O próprio ar que a rodeava parecia azul, refletindo a seda cor de água do dossel da cama.

– Norah? – perguntou sonolenta. Na noite anterior, já muito tarde, depois de todos se terem retirado, a sua criada aparecera e o mesmo acontecera com as roupas. Afinal, as carruagens de serviço não tinham visto a placa a indicar Littlebourne Manor e haviam percorrido várias léguas no caminho errado, até o cocheiro se ter dignado a parar para pedir indicações.

– Não. Sou eu – disse uma voz alegre. O sol brilhante espalhava-se sobre o edredom quando as cortinas da cama foram afastadas para fazer surgir Georgiana.

Olivia soltou um pequeno gemido.

– Que horas são?

– Passa das onze. Deixaste passar o pequeno-almoço, mas tem de me acompanhar no almoço. O duque vai lá estar.

Olivia bocejou e soergueu-se apoiando-se na cabeceira trabalhada.

– Só Deus sabe como eu não poderia perder a oportunidade de ser de novo tratada com arrogância. Embora, na verdade, a condescendência ducal não fosse o que de mais importante tinha na ideia, pensou em Sua Graça. Olivia não gostava de se levantar cedo, mas faria uma exceção no dia seguinte e desceria para o pequeno-almoço, se pensasse...

Claro que o duque não voltaria a beijá-la e ela certamente também não o permitiria. Ele fora temporariamente enlouquecido pela luxúria... pois ela estava praticamente nua. Mesmo assim, tinha de pensar que ele gostara do que vira.

Aquele pensamento fez com que Olivia sentisse um sopro de felicidade. Sempre se sentira gorda, mas ele parecera não o notar. Não a olhava como se ela tivesse de perder vinte quilos. Nem cinco.

– Oh, Olivia! – disse Georgiana, afastando as cortinas até aos pés da cama e sentando-se sobre um pequeno alto aos pés da irmã.

– Isto não é maravilhoso?

– Não te sente em cima da Lucy! – exclamou Olivia.

Georgiana tocou na pequena bola que agora via debaixo das cobertas.

– Permites que esse cão durma dentro da sua cama? Já ouvi falar de cães que dormem sobre a cama dos donos, o que considero pouco saudável. Tenho a certeza de que isto é ainda mais insalubre.

Olivia encolheu os ombros.

– Rupert disse-me que era aí que ela gostava de dormir e claro que se meteu aí dentro ontem à noite. Foi assim uma espécie de botija, se eu precisasse de uma.

– Ouviste o que eu disse? Não o acha maravilhoso? – perguntou Georgiana.

Estivera sentada na sua habitual posição, impecável, com as mãos apertadas no colo, os tornozelos cruzados, mas agora puxara os joelhos e sentava-se de lado sobre a cama, com o rosto iluminado por um enorme sorriso. – Ele... ele é tudo com que sonhei.

– Ah é? – Olivia sentia o espírito como que a caminhar sobre melaço

– É alto e tão belo – disse Georgiana. – E inteligente, Olivia! Um matemático... o que não é o mesmo que ser guarda-livros. – Uma leve ruga atravessou-lhe a testa. – Tem de tentar ser mais delicada. E se ele se desgostar de você e nos pedir para nos irmos embora? Nunca mais conhecerei uma pessoa como ele.

– Não – disse Olivia automaticamente. – Isto é, sim. – Vou dar-lhe toda a manteiga possível. – Claro que Georgiana estava apaixonada por Sconce. Era um partido perfeito para ela: tinha posição, porte e inteligência. E Georgiana era tão especial, muito mais bela do que Olivia.

– Nunca pensei – continuou Georgiana, sonhadora. – Nunca acreditei que houvesse alguém para mim. E ele esteve sempre aqui. Tão distinto e brilhante e – soltou de repente uma risadinha – ontem estava maravilhosamente molhado pela chuva.

Olivia acenou afirmativamente. Era totalmente verdade.

Georgiana contorceu a boca num sorriso malicioso que Olivia nunca vira no rosto da irmã.

– Isto é terrível da minha parte, Olivia, mas olhaste bem para ele quando saiu da chuva?

– Não – disse Olivia, com falsidade.

– Ele... as calças dele estavam molhadas e... oh, Olivia, creio que já faço ideia da razão por que Juliet Fallesbury chamava Longfellow ao criado.

– Quem é você e o que fizeste à minha irmã? – perguntou Olivia a rir. – Bateste com a cabeça ontem à noite, Georgie? Sentes-te a mesma pessoa?

– Estou perfeitamente, de fato, há mais de dez anos que não me sentia tão feliz. A única coisa que me preocupa é você.

– Eu? – Olivia franziu a testa. – Não fui mal-educada para Sconce. Limitei-me a provocá-lo. Francamente, não creio que ele tenha pensado mais no assunto. – Graças a Deus que a irmã não tinha conhecimento daquele beijo.

– Não, não, você e Rupert! Nem consegui dormir ontem à noite. Só pensava em quão maravilhoso é o duque e em como me sorria… nem uma vez pareceu enfadado, Olivia, nem uma vez… e depois lembrei-me de que você tinhas de te casar com Rupert e fiquei com o coração partido.

– Ora, ora – respondeu Olivia conseguindo falar num tom satisfeito. – Sabe que nunca me poderia entender com um homem como o duque. Morreria de puro ennui se ele se lançasse numa dissertação de brilhantismo matemático.

– O duque é um gênio – afirmou Georgiana com convicção. – Qualquer um vê. É um gênio e, ao mesmo tempo, não é esquisito nem tem a cabeça avariada.

– Espantoso, já que a mãe dele escreveu o Espelho Todo-Poderoso.

– Tem de deixar de fazer troça do livro da duquesa viúva. E se sem querer troças do título na presença dela?

– Espero que ela sobreviva ao choque.

– Por favor – implorou Georgiana. – Por favor, Olivia. Esta é a minha oportunidade. A nossa mãe disse que tinha a certeza de que a viúva tenciona escolher noiva para o filho. Soube-o através de uma das grandes amigas de Lady Cecily. Não pode insultar Sua Graça de modo algum, ou ela pode pôr-me de parte para tal honra.

– Nem se atreveria – comentou Olivia com convicção.

– Quero… quero verdadeiramente casar-me com Sconce – disse Georgiana quase num murmúrio. – Sei que é uma coisa pouco própria para uma senhora dizer, mas é verdade. Quando ontem à noite ele apareceu na escuridão para nos socorrer, foi como a cena de um livro quando o herói aparece. E depois ele falou... com uma voz tão profunda... firme e verdadeira... que me apercebi que se tratava de um príncipe de conto de fadas. Percebe o que estou dizendo?

Sim, pensou Olivia. Sim, sei exatamente o que quer dizer. Mas não valia a pena pensar em tal coisa e muito menos dizê-la.

– Os príncipes nunca me atraíram – resolveu dizer. – Porém, admito que esse tipo de homem pareça extremamente propenso a deixar que a mãe lhe escolha a mulher. Se não a escolher tendo por base uma coisa tão idiota como os sapatos que calça. Se o duque fosse de fato um herói, teria selado um cavalo branco em vez de andar a correr à chuva como o empregado e um carniceiro. Todos esses pormenores são muito importantes quando se trata de literatura.

Georgiana gemeu.

– Deixa de troçar por um momento, Olivia! Sempre pensei que não haveria um príncipe para mim. Não conseguia imaginá-lo.

– E o cavalo branco? – perguntou Olivia.

A irmã deu-lhe uma palmada.

– Não brinques. Estou dizendo que quero casar-me com o duque de uma maneira que nunca antes quis.

– Então ele será para você – assegurou Olivia balançando as pernas para sair da cama. A conversa estava a fazê-la sentir-se estranha. Claro que não tinha qualquer direito sobre o duque. O beijo nada significava. Nada! Ele sempre estivera destinado a ser marido de Georgiana.

Dirigiu-se ao toucador e puxou para trás a cabeleira.

– Toda aquela chuva de ontem à noite fez com que o meu vestido ficasse transparente e eu parecia estar completamente nua. Havias de ver o olhar mortificado que o mordomo me lançou. Quando o meu casaco escorregou, viu tudo. Pensei que ele ia desmaiar.

– Então é um tolo – disse a fiel Georgiana. – Tenho a certeza de que é tão bonita nua como vestida.

– Sou melhor – referiu Olivia pensativa. – No entanto, espero que os vestidos novos façam toda a diferença. Não encomendei um único apertado debaixo do peito nem com folhos na cintura. Esse estilo só fica bem a mulheres cujas ancas não tenham as mesmas dimensões do busto, enquanto me faz parecer uma vaca leiteira.

– Os cavalheiros gostam de um ar bovino – fez notar Georgiana.

– Bateste mesmo com a cabeça – disse Olivia a rir. – Estava a brincar, Georgie! Mesmo a brincar.

A irmã revirou os olhos.

– É difícil. O que vai vestir para o almoço? Está tanto calor que vamos comer no terraço.

– Interessante. Nunca pensei que a duquesa viúva aprovasse hábitos de alimentação irregulares. Sabe, Georgie, começo a apreciá-la.

– Tem de o fazer se ela vier a ser minha sogra. – Georgiana saltou da cama. – Julgas que será possível? A criada disse-me ontem à noite que Lady Althea Renwitt está cá. E se o duque já se interessou por ela? Althea é uma aristocrata. Creio que não te lembra dela.

– Não me lembro mesmo. Faz parte do novo rebanho que foi posto no mercado este ano?

– Sim. Tem uns olhos lindos – disse Georgiana afundando-se numa cadeira. – E um cabelo muito bonito da cor das mimosas. Mas é um pouco... bom, parva. Não creio que consiga imaginar o duque com ela.

– É parva? Então não se preocupara com Sua Sobriedade.

– Disso não duvido, mas Althea gostaria de ser duquesa mesmo que Sconce fosse maluco como um percevejo, coisa que ele não é.

– Neste reino só há lugar para um duque com juízo de percevejo – disse Olivia alegremente. – E eu já tenho o monopólio sobre ele. A propósito, como acha que Rupert se estará a dar em Portugal? A esta hora já deverá ter desembarcado.

Georgiana fez um gesto de desprezo com a mão.

– Suponho que tenha saudades da Lucy, mas, de resto, deve estar ótimo.

– O que me fez lembrar que devo tocar para chamar Norah. É surpreendente como é difícil tomar conta de uma cadela. Parece que precisa constantemente de ir à rua, comer ou tomar banho.

– Olivia! – impacientou-se Georgiana. – Não é o momento de falarmos acerca de você ou do teu cão. Acha que a viúva já decidiu escolher Althea? Até o nome dela parece apropriado a uma duquesa.

– Creio que parece uma estranha espécie de digestivo. Beba Althea para os seus intestinos! Lady Cecily adoraria. Crês que Sua Senhoria não se apercebe de como é estranho uma mulher com o apelido Bumtrinket estar constantemente falando da digestão?

– Só você para pensar em tal coisa. Certamente nunca me ocorreu.

– O duque também reparou. Vi uma centelha no seu olhar que poderia ter sido uma gargalhada num homem que soubesse rir.

– O que eu quero dizer é que a duquesa viúva procurará o nascimento juntamente com a elegância. Espero que não se tenha decidido já por Althea. Ou até pior, talvez Althea já tenha captado o interesse do duque – preocupou-se Georgiana. – É amorosa.

– Não creio – duvidou Olivia apanhando o cabelo e estendendo o braço para tocar a campainha.

– Não crês que a duquesa tenha escolhido uma nora ou não acredita que o duque se tenha resolvido por Althea?

– Não creio que o duque faça ideia de com quem casar. Nem tem o direito de olhar à sua volta – disse Olivia com simplicidade. E, acrescentou para consigo, presumivelmente não beijaria mulheres desconhecidas, por muito reveladoras que fossem as roupas delas.

– Que ar teria ele se já tivesse tomado tal decisão?

– Teria menos estilo. Neste momento, parece um atraente salteador que espera que todas as mulheres das redondezas o desejem.

Georgiana franziu a testa.

Olivia falou antes que a irmã pudesse discordar.

– O cabelo dele, Georgie? Solto nos ombros? E onde tinha o casaco ontem à noite. Não poderia ser mais óbvio se fosse um daqueles homens que andam à volta do Pump Room em Bath em busca de viúvas de carteira recheada.

– Como pode dizer tal coisa? – censurou Georgiana. – O duque consideraria tal comportamento abaixo da sua posição.

– Está bem, vai só a meio caminho de ser salteador – concedeu Olivia. – Tem o cabelo e o encanto, sem a montada e a pistola. Mesmo assim, se gritasse a bolsa ou a vida, suponho que metade das debutantes do baile Micklethwait cairia de cu.

– Cairiam como?

– Cairiam de costas – emendou Olivia, dando uma cotovelada na irmã. – Adoro-te, Georgie, mas é um pouco parva no que diz respeito a piadas.

– Bem sei – admitiu Georgiana enrugando o nariz. – Nunca as entendo. Pelo menos nunca entendo as tuas.

– Suponho que a culpa seja mais do meu mau sentido de humor do que da sua compreensão – concedeu Olivia. – Creio que vestirei o vestido violeta para o almoço.

– Não crês que será um pouco ousado para essa hora do dia? Penso que se trata mais de um vestido de noite.

– Sabe que mandei fazer todos os meus vestidos com o mesmo decote grande. Decidi que, como as minhas curvas não vão desaparecer por me empanturrar de alface, posso muito bem exibi-las. Se os homens gostam de um encanto bovino, certamente vão obtê-lo da minha parte.

– Não tenho curvas para exibir – disse Georgiana voltando-se para se poder ver ao espelho. – Acha que o duque é daqueles que apreciam uma figura mais generosa?

Olivia era de opinião que o duque era de fato desse tipo, dado o modo como os seus olhos haviam escurecido quando lhe observara o vestido molhado. Mas não valia a pena dizê-lo.

– Duvido – disse diplomaticamente. – Ele é muito rígido, não acha? Suponho que não aprovaria se mostrasses um decote por pequeno que fosse. Conduta pouco adequada para uma futura duquesa.

Georgiana alegrou-se.

– Vou vestir o vestido cor-de-rosa pregueado. Adoro como as mangas terminam em pequenos triângulos.

Ouviu-se um arranhar na porta e Norah entrou.

– Bom dia – saudou Olivia sorrindo à criada. – Espero que possas entregar a Lucy ao criado para que ela visite aquele cantinho da relva. Mas primeiro tem de nos dizer tudo acerca de Lady Althea Renwitt.

– Olivia ignorou o gesto zangado da irmã (o Espelho dos Elogios era muito rigoroso em relação à informalidade pouco apropriada com os serviçais) e acrescentou: – Estamos em pulgas para saber se ela fará algum tipo de sombra a Georgie na corrida para noiva ducal.

Não havia coisa que Norah mais gostasse do que relatar as conversas lá de baixo, por assim dizer, que tinham uma certa tendência a ser mais alegres do que as de cima. Os olhos cintilaram quando fechou a porta.

– Lady Althea e a mãe chegaram apenas ontem à noite, pouco antes das senhoras, e o duque não desceu para as cumprimentar. Por isso só irá conhecê-la ao almoço. Miss Georgiana, devo acrescentar que a Florence está à espera da menina nos seus aposentos. Está muito ansiosa por começar a vesti-la, pois a criada de Lady Althea é uma pessoa muito cheia de si. Chama-se Agnès, à francesa, porque é de França. Ontem à noite fartou-se de falar de politesse e ninguém fazia a mínima ideia do que aquilo queria dizer. Florence está decidida a vencê-la aos pontos com a aparição de Miss Georgiana ao almoço – parou para tomar fôlego.

– Como é bom estar noiva de um homem que não se importa nada com a minha aparência – alegrou-se Olivia pondo-se de pé e espreguiçando-se. – Já te disse que ninguém mais aproximará um ferro de frisar da minha cabeça, não disse, Norah?

Norah inclinou-se para atar uma fita na coleira de Lucy.

– Desde que Mistress Lytton não pense que eu tive alguma coisa a ver com essa decisão, menina, fico igualmente satisfeita em me afastar desses paus quentes. Já me queimei muitas vezes.

– Bom, será melhor ir – disse Georgiana, mas fez uma pausa e lançou um olhar a Olivia que, obedecendo à irmã, se voltou para a criada.

– Antes de ires, Norah ouviste lá em baixo alguns mexericos acerca de Althea? Como é ela?

– O Cleese não gosta que tenhamos essas conversas. Mas a criada de Lady Althea disse alguma coisa acerca da patroa – Norah fez uma pausa. – Embora eu não possa repetir tudo tintim por tintim, pois a Agnès parece ser uma mulher muito crítica.

– Norah! – repreendeu Olivia. – Não seja chata!

Norah cedeu.

– A Agnès declarou que a patroa dela era mais tonta que uma galinha à chuva.

– Como diabo pode a chuva afetar as galinhas?

– Afoga-as, Miss Georgiana – explicou Norah. – Levantam os bicos para olhar para o céu e depois bebem tanta água que caem. Um bando inteiro pode morrer assim, caindo como peças de dominó umas por cima das outras.

– Creio que o poderemos interpretar como a impossibilidade de Althea Miolo de Galinha não poder vencer-te na categoria de inteligência – disse Olivia com alguma satisfação.

Norah soltou um pequeno suspiro de apreço.

– Não posso deixar a Florence à espera – disse Georgiana com um sorriso ligeiramente severo. – Obrigada, Norah, por… por…

– Por seres o bufo do inimigo – completou Olivia.

Georgiana esgueirou-se pela porta antes de ter de concordar com uma coisa tão antiética ao seu sentido do que era adequado.

Norah tomou conta do assunto.

– Miss Georgiana é perfeita para o duque. É o que toda a gente diz lá em baixo. Ele é esperto como um alho, dizem, mas muito altivo. Não tanto como a mãe que os ultrapassa a todos, mas um cavalheiro nunca esquece quem é, não é verdade?

Por vezes esquece, pensou Olivia para consigo. Não parecia ter sido um duque o homem que, na noite anterior, a agarrara na sala das pratas.

– A mãe dele, a duquesa viúva, é bem pior – prosseguiu Norah. – Todos me avisaram de que, se eu a vir no corredor, devo fazer uma reverência, depois encostar-me à parede e pôr os olhos no chão. Se ela se dignar falando comigo, devo fazer nova reverência antes de me atrever a erguer os olhos.

Olivia soltou uma exclamação de desprezo.

– Olha como a Lucy fica entusiasmada por te ver.

Norah baixou-se e puxou as orelhas compridas de Lucy.

– É feia, mas mesmo assim há nela qualquer coisa de simpático.

– Acha que ela te quer dizer alguma coisa com tantas lambidelas nas mãos? – perguntou Olivia.

– Ela sente o cheiro de bacon nas minhas mãos. Estive a ajudar a lavar a loiça do pequeno-almoço.

– Mesmo assim, será melhor que a leve à rua antes que suje o tapete.

– Sua Graça não gosta de animais – disse Norah encaminhando-se relutante para a porta. – Estou falando da duquesa viúva. Parece que a forma das patas quase a faz desmaiar. Não é estranho? Se vê um animal a correr fica muito estranha.

– Que coisa – comentou Olivia.

– E a menina já ouviu falar na primeira mulher do duque? – perguntou Norah, deixando-se ficar junto à porta.

– Claro que sei da sua existência, mas terá de me contar esses pormenores mais tarde. A última coisa que quero é precisar de explicar por que razão o meu quarto tem um cheiro tão desagradável.

– Não passava de uma rameira – declarou Norah.

– Não! – A imagem que Olivia fazia do duque não se adequava pensando que ele casara com uma mulher imoral.

– Um horror! Muito atrevida, percebe, menina? Muito mesmo. Saía com a carruagem e andava por aí, levando apenas um cavalariço com ela.

– Que horror – disse Olivia, pensando na expressão séria do duque. Não admirava que tivesse um ar tão soturno.

– Que horror, diz bem – concordou Norah. – E…

Mas, nesse momento, Lucy perdeu a paciência e molhou o chão.

E foi o final de tão interessante conversa.