Duas Irmãs, Um Duque
Capítulo 17
Para o Bem, e para o Mal, na Saúde e na Doença
Georgiana era uma companheira muito repousante. Passearam até ao fundo do jardim, onde havia um banquinho. Georgiana estava fascinada pela composição da luz em termos de ondas e partículas. Era um verdadeiro prazer discutir a questão com ela.
Quin nem reparou que arrefecera até que inadvertidamente lhe tocou no braço e o sentiu gelado.
– Miss Georgiana, a senhora está com frio. Devíamos regressar. Ela ignorou-o.
– Gostaria de saber se influenciaria a experiência se se inclinasse o papel que se usa para dividir a luz em arco-íris.
– Como assim?
– Bem, se bem o entendi, o senhor segura um cartão com uma fenda vertical junto à janela.
Ele acenou afirmativamente.
Quando a luz bate na fenda, divide-se num arco-íris, demonstrando assim ser constituída por raios e não por partículas. Embora não seja claro para mim por que razão os raios se evidenciam meramente por atravessarem uma fenda no papel.
– Pode ser porque os raios se inclinam quando o atravessam. Embora, para falar verdade, não tenha a certeza.
– E se a fenda for de um canto a outro? Os raios inclinar-se-iam na mesma direção? E se a fenda fosse paralela ao caixilho da janela e não vertical? O que aconteceria?
Quin fez uma pausa.
– Não sei – disse por fim. – Mas é boa questão. Amanhã vou experimentar – pegou-lhe no cotovelo gelado e ajudou-a a levantar-se. – Também estou a ficar com frio.
Georgiana sorriu-lhe.
– Nem reparei porque a nossa conversa foi tão interessante – deu-lhe o braço e começaram a dirigir-se para casa. Havia entre eles um agradável silêncio. Quin pensava ferozmente num alinhamento de fendas em relação à luz e Georgiana não parecia importar-se com a falta de palavras.
Um ruído de pés interrompeu o pensamento de Quin e ergueu os olhos no momento em que Olivia surgiu na curva do caminho. Não sabia descrever aquelas coisas, mas o vestido dela era feito de um tecido cor de ouro-escuro, coberto de renda dos lados. A renda era composta por pequenos fios que o desafiavam a passar os dedos por ela.
Os fios balançavam quando ela corria. Nesse momento, o corpo de Quin passou de frio a quente. O calor transformou-se num impulso de sangue que lhe percorreu o corpo.
– Georgie! – chamou Olivia. – Senhor duque – inclinou-se numa reverência.
Os dedos de Georgiana apertaram o braço do duque.
– Lamento ser preciso que me viesses buscar, Olivia. Estávamos a ter uma conversa acerca da base científica da luz.
– Claro que sim! – o sorriso de Olivia era largo e perfeitamente natural... até que ele lhe olhou para os olhos.
Ou teria imaginado aquela centelha de posse?
Deliberadamente, Quin posou a outra mão sobre os dedos de Georgiana.
– Estávamos a ter uma conversa tão fascinante que, infelizmente, permiti que a sua irmã ficasse gelada.
Georgiana olhou-o com olhos imperscrutáveis e depois voltou-se para a irmã.
– Íamos já para casa, Olivia. Obrigada por vires buscar-me.
– Peço desculpa por ter interrompido a conversa – disse Olivia num tom perfeitamente simpático. Recuou e colocou-se ao lado de Georgiana.
– Ouvi-a chamar Georgie à sua irmã? – perguntou Quin, olhando para ela.
– Sim – confirmou Olivia. – É o diminutivo que sempre usei. Meu Deus, está frio aqui, não é verdade? Quase consigo ver o vapor da minha respiração – inspirou e soprou.
Georgiana riu.
– Não seja tola, Olivia! Para que a humidade da sua respiração se torne visível, tem de estar muito mais frio do que isto.
Quin registou a resposta de Georgiana, mas não conseguia que as palavras lhe chegassem à boca. Sempre que Olivia respirava, os seus seios empurravam os delicados fios da renda. Parecia-lhe que esses fios eram tudo o que impedia a exposição dos mamilos da jovem a todos os homens do salão de baile.
Um gemido subiu-lhe na garganta, mas sufocou-o.
– Gosto do nome Georgie – disse. As palavras saíram-lhe em voz rouca, como se quisesse dizer uma coisa inteiramente diferente.
Georgiana – Georgie – olhou-o com um sorriso espantado. Olivia pestanejou e desviou os olhos. Tinham ambas escutado a voz dele e ambas se enganaram.
– Bom – disse ele bruscamente –, sugiro que nos dirijamos à biblioteca para nos aquecermos à lareira antes de nos juntarmos aos outros no salão de baile.
– Oh, eu não tenho frio – disse Olivia alegremente. – Aqueço dançando.
Aproximavam-se do pequeno lance de escadas que conduzia ao terraço de mármore. A ideia de Olivia nos braços de outro homem trespassou-o como uma espada.
Bastou-lhe um pequeno movimento. Delicadamente fez com que Georgiana passasse para o degrau adiante dele, passou para o lado e avançou com precisão para que o pé lhe descesse sobre a cauda, prendendo-a ao degrau. Depois lançou todo o seu peso para a frente, fingindo tropeçar.
O cientista que havia nele orgulhou-se do ruído prolongado que o rasgão causou.
Engolindo um sorriso, desfez-se em desculpas – com fluência surpreendente nele. Georgiana manteve a calma, embora muitas damas tivessem ficado histéricas. A costura na cintura do vestido separara-se e estava agora aberta, revelando-lhe a camisa.
– Eu vou atrás de você – disse Olivia à irmã. – Nos basta atravessar a sala e subir imediatamente as escadas.
– Que tolice – disse Quin. – Fui eu que fiz o estrago e levá-la-ei aos seus aposentos. Miss Georgiana, a senhora torceu o pé – pegou-lhe ao colo e descobriu que ela quase nada pesava. Era como pegar num pássaro, só ossos ocos e penas.
Georgiana não gritou, mas sufocou um suspiro de ansiedade.
– Olivia nos acompanha – disse Quin voltando-se para trás. – Posso levar a sua irmã lá para cima, mas preciso de si como acompanhante.
Sem esperar resposta, atravessou as portas abertas. Foram recebidos por uma espiral de conversas com as pessoas a perguntarem que infelicidade acontecera a Georgiana.
– É apenas um tornozelo torcido – dizia Olivia a todos, passando adiante deles.
– Estou perfeitamente – declarou Georgiana em voz tranquila como sempre. – De fato, penso que vou descansar um pouco e voltar depois ao salão de baile.
– Vou entregá-la nas mãos da sua criada – anunciou Quin, assegurando-se que todos os que estavam próximos o ouviam. – Claro que pode decidir se será ou não aconselhável regressar. Ninguém gostaria de a ver dançar com um tornozelo magoado, Miss Georgiana.
Aquelas bagatelas continuaram até ao fundo da escada. Quin começou a subir pensando na diferença entre as irmãs. Georgiana parecia uma almofada de penas nos seus braços, enquanto a ideia de transportar Olivia do mesmo modo… de a levar ao colo para o quarto…
Caminhou rapidamente. Quando chegaram em cima das escadas, passou para o lado para deixar entrar Olivia à sua frente.
Assim que chegaram ao quarto de Georgiana, esta libertou-se com delicadeza e firmeza, executando uma reverência perfeitamente calibrada.
– Agradeço-lhe muito por me salvar, senhor duque.
– Fico feliz por poder ser-lhe útil; afinal, fui eu o responsável por esta difícil situação. E creio que nos deveríamos tratar pelo primeiro nome – disse tomando-lhe a mão e beijando-a. – Os meus amigos chegados chamam-me Quin.
Apercebeu-se de uma expressão estranha no olhar dela, mas não conseguiu interpretá-la, pelo menos do modo como conseguia ler o olhar de Olivia.
– Posso chamar-lhe Georgie? O nome condiz consigo.
Ela acenou afirmativamente.
– Será uma honra – depois voltou-se para a irmã. – Olivia, desço mais ou menos dentro de meia hora. Muito obrigada mais uma vez, senhor duque.
– Chamo-me Quin – insistiu ele.
Era de fato uma jovem sombria; o sorriso não lhe chegava aos olhos.
– Claro – concordou. Depois fechou-lhes a porta na cara.
Olivia ficou a olhar para a porta de testa franzida, mas Quin não se preocupou com o que Georgiana sentia ou pensava. Lançou um olhar rápido à sua volta e viu que, para sua satisfação, não havia ninguém por ali e ninguém os podia ver de baixo. A mão apertou a de Olivia como um torno e puxou-a para o fundo do corredor, abriu a porta do seu quarto e puxou-a para dentro como uma criança recalcitrante.
– Mas o que pensa que está fazendo? – perguntou ela num severo murmúrio.
Quin não sabia bem o que pensava, mas sabia o que ela estava pensando. Poderia protestar o que lhe apetecesse, mas ele sabia ler-lhe os olhos.
Sem uma palavra, fechou a porta e encostou-a a ela, inclinou a cabeça e beijou-a na boca dando largas à paixão escaldante e selvagem que sempre surgia entre ambos.
– Quin – disse ela sufocada, mas ele inclinava-lhe a cabeça para o lado, incapaz de pensar, o seu corpo uma feroz bola de desejo. Desejo de lhe tocar, de a possuir, de estar dentro dela.
– Preciso de si – disse, titubeante. Colocou-lhe as mãos no traseiro e puxou-a mais para si, encostando o corpo sensual de Olivia ao seu. – Olivia! – murmurou o nome dela num tom baixo e profundo, como uma súplica ou uma prece. Ela estava em bicos de pés, retribuindo os beijos, e mesmo assim não bastava.
Quin puxou-a suavemente da porta e posou-a sobre a cama. Baixou-se sobre ela, lentamente, assegurando-se que cada centímetro do seu corpo estava sobre a sua macieza, observando-a para ver se ela compreendia o que ele fazia.
Ela emitiu um som desarticulado, quase um gemido ofegante, mas não pronunciou palavra. Depois beijou-o também, meteu-lhe os dedos no cabelo e o seu corpo cedeu sob as coxas musculosas de Quin.
Ficaram assim, quase sem se mover durante longos minutos. Não eram beijos como Quin sempre pensara que fossem os beijos. Pensava saber exatamente o que era um beijo: uma caricia dos lábios que poderia ou não incluir a exploração da boca de quem o recebia pela língua de quem o dava.
Nada disso fazia agora sentido quando comparado com estes beijos. Eram um incêndio e uma conversa ao mesmo tempo. Quin sentia cada toque com dupla violência: os dedos dela acariciavam o cabelo e depois puxavam-no, quase dolorosamente, quando ele avançava com os lábios. O hálito de Olivia, doce e cheirando a chá e a limão. Os pequenos sons que fazia com a garganta, incentivando-o, pedindo-lhe que...
Ergueu-se para olhar para ela, passando-lhe uma mão possessiva pelo pescoço, pelos ombros, percorrendo o seio. Sentiu-a estremecer ao toque.
Olivia abriu a boca para falar e ele pôs um dedo nos lábios. Olivia tocou-lhe no dedo com a ponta da língua. Ele insistiu um pouco, deixando o dedo deslizar pelos lábios dela até ao calor líquido da boca.
Um gemido saiu-lhe do peito, ecoando por todo o corpo. E cristalizou-lhe o pensamento.
– Não casarei com Georgiana – era brusco, pois não sabia usar bem as palavras, embora fosse uma pouco mais fluente com Olivia. Pelo menos conseguia falar com ela.
Ela abriu os olhos e todo o seu corpo ficou rígido.
– Oh, meu Deus! Sou a pior irmã do mundo. Deixe-me levantar!
Ele abanou a cabeça, passando-lhe o dedo pela curva do maxilar.
– A sua pele é muito bela.
– Sinto-me enjoada – disse ela em voz baixa e furiosa – e o senhor… o senhor quer seduzir-me!
– Sim.
– Pare com isso. E deixe-me levantar!
Com relutância, Quin afastou-se para o lado, mas manteve o braço sobre o corpo dela.
– Não posso casar com ela e nada tem a ver consigo.
– Mentiroso – Olivia olhou-o fixamente e ele esperou um pouco para saborear aquele olhar. Olivia era uma chama.
– Pode ter a certeza que nunca minto.
– Agora mente. Se nunca me tivesse conhecido, teria casado com Georgie e seriam tão felizes como dois percevejos num colchão ou, melhor dizendo, dois alquimistas num laboratório.
– Claro que não posso ter a certeza, mas creio que não. Só quando a minha mãe trouxe para cá Lady Althea e Miss Georgiana me apercebi que não poderia casar com uma pessoa escolhida por ela.
– Ela escolheu bem – disse Olivia, teimosa como sempre. – São perfeitos um para o outro. Esta história entre nós não passa de fogo na floresta, tal como a descreveu. É temporária. Vai apagar-se. Por favor, deixe-me levantar.
– Não creio saber o que é o amor. Pelo menos, aquele de que as pessoas falam que acontece entre um homem e uma mulher. Mas me atreveria dizendo que algumas pessoas definem como amor o sentimento que tive por Evangeline. Penso que gostar será uma descrição mais precisa, principalmente se a palavra incluir um desejo permanente.
Ela ficou imóvel. Ergueu a mão e tocou-lhe no rosto.
– Lamento.
– Não foi um bom casamento. Ela não estava apaixonada por mim e tinha uma profunda necessidade de estar com outros homens. Era problemático. Mas eu gostava dela, mesmo quando me enganou e por fim me deixou. Não pude impedi-lo. É estúpido, bem sei.
Olivia inclinou-se e deu-lhe um beijo que se lhe colou aos lábios.
– Deveria sentir orgulho na sua fidelidade. O senhor é um homem maravilhoso, Quin.
– Não, sou um idiota. Deveria tê-lo impedido. De que maneira fosse.
– Creio que ninguém tem a capacidade de escolher apaixonar-se ou não.
– Exatamente – disse ele com profunda satisfação. – Concordo consigo. Quando lhe disse que não mentia, era verdade.
Ela abanou a cabeça.
– Tenho de voltar lá para baixo, para o caso de Georgie decidir voltar ao baile.
– Vou dizer-lhe uma coisa – tentou recordar-se do que era, mas parecia que todo o seu corpo estava concentrado nas curvas cheias e doces dos lábios dela.
– O senhor nunca mente – disse ela sentando-se e afastando o olhar. – Acredito.
– Não sou muito bom a... interpretar frases complexas.
Ela puxou os joelhos para o peito, rodeou-os com os braços e descansou o queixo sobre eles, olhando-o com curiosidade.
– Mesmo assim, o senhor é a pessoa mais inteligente que conheci.
– Só porque não andou na universidade. Ela soltou uma gargalhada.
– Ao ouvir o elogio, a maioria das pessoas faltaria à verdade e diria que eu estava exagerando.
– Como já lhe disse, eu não minto. Há uma ótima possibilidade de eu ser a pessoa mais inteligente que a senhora já conheceu, o que não quer dizer que seja a mais sábia. A prova está em que gostava tanto de Evangeline.
– Um fato que prova que o senhor é humano.
– É uma maneira triste de conseguir a humanidade – disse ele, irônico. – O que quero dizer é que sou incapaz de proferir os votos sem os sentir.
– Votos? – o olhar de Olivia alterou-se. – Oh, os votos do casamento.
– Ser-te fiel, amar-te e respeitar-te – citou ele. – Até que a morte nos separe.
Ela engoliu em seco.
– Pobre Evangeline.
– Agora pertence ao passado – Quin estava a ser sincero. – Mas não posso dizer estas palavras a qualquer pessoa. Significam muito para mim. Têm força.
– Mesmo quando Evangeline não respeitou esses votos?
– Sabe como ela morreu?
Olivia apertou mais os joelhos.
– Não.
– Ia abandonar-me. Decidira fugir para França com o atual amante, um idiota absurdo chamado Sir Bartholomew Fopling.
Olivia sufocou o riso.
– Não estou a brincar. Fopling era um homem muito prendado: sabia cantar em várias línguas, dançar tudo o que vale a pena dançar e as suas gravatas estavam sempre engomadas. De qualquer forma, ela e Fopling levaram Alfie – deteve-se e aclarou a garganta. – Partiram para França embora se preparasse uma grande tempestade. Foram avisados para não embarcar, mas Evangeline subornou o capitão. Estava aterrorizada não fosse eu segui-la e poder apanhá-la.
– Tem a certeza de que me quer contar tudo isso?
– Porque não? Não é mais do que a sua criada lhe contaria se lhe perguntasse.
– E foi atrás dela?
– Quase matei o cavalo, mas era demasiado tarde. O diabo é que ainda sonho com aquele pontão. Não os apanhei e a única coisa que consegui ver foi o mar em turbilhão e a crista das ondas. O barco afastou-se apenas uma ou duas milhas da costa.
Houve um momento de silêncio.
– Suponho – disse Olivia lentamente – que uma futura duquesa não deveria pronunciar blasfémias, principalmente em relação aos mortos. Por isso diria, Quin, querendo evitar impropérios, que a sua mulher foi uma estúpida.
Ele sentiu um sorriso a brincar-lhe nos lábios.
– Já foi há muito tempo. Cinco anos, praticamente uma vida.
– Que disparate – disse Olivia. – Nunca ultrapassamos a morte de um ente querido. Principalmente de uma criança.
Não valia a pena responder ao comentário. Era cruelmente verdadeiro.
– De qualquer forma, não posso casar com Georgiana. – Depois acrescentou para que ela compreendesse: – Nunca.
– Creio que pode aprender a amá-la... ou a gostar dela, se prefere o termo.
– Evangeline não foi fiel, mas eu fui. Sentia por ela um desejo tão febril que havia momentos em que duvidava da minha capacidade de me controlar. Embora o conseguisse.
Uma sombra passou pelos olhos de Olivia.
– Evangeline desperdiçou uma coisa que todas as mulheres deste reino adorariam ter. Não o merecia.
– Merecido ou não, teve-o. Quando subi as escadas com a sua irmã ao colo não senti nem uma sombra de desejo.
Ela franziu a testa.
– Georgie tem uma figura perfeita. É perfeita em todos os sentidos.
– Parecia-me que subia as escadas com uma criança ao colo, pernas compridas e cabelo.
– Ela é elegante – declarou Olivia. – Seria capaz de matar para ter a figura dela.
– Ah sim?
– Claro. Sempre desejei parecer-me com ela, embora obviamente não o necessário para evitar a comida – acrescentou.
– Que loucura. A senhora tem tudo o que ela não tem.
Olivia abriu a boca, pronta a discutir.
– Tudo o que ela não tem. Olivia franziu a testa.
– Incluindo eu.