Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 3 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 2

No Qual Somos Apresentados a Um Duque

Littlebourne Manor

Kent

Residência do duque de Sconce

No preciso momento em que Olivia e Georgiana se ocupavam numa discussão agrícola acerca dos méritos relativos dos pêssegos e do aipo, o herói deste particular conto de fadas certamente não se comportava como os príncipes deste tipo de histórias. Nem estava de joelho em terra, nem montava um cavalo branco e também não se encontrava junto a um feijoeiro; estava, isso sim, sentado na sua biblioteca tentando resolver um confuso problema de matemática: especificamente o teorema dos quatro quadrados de Lagrange. Como esclarecimento, diremos que se um duque deste tipo encontrasse alguma vez um feijoeiro com o tronco de dimensões invulgares, obteria um salto nos antigos conhecimentos botânicos que dizem respeito ao crescimento invulgar das plantas – mas nunca um salto para o dito tronco.

Dito isto, é perfeitamente óbvio ser o duque de Sconce um homem que sentia repulsa pelos contos de fadas. Não os lia nem pensava neles (e muito menos acreditava neles); a ideia de representar um papel num teria sido absurda e teria rejeitado imediatamente parecer-se com os príncipes loiros e vestidos de veludo, geralmente encontrados nessas histórias.

Tarquin Brook-Chatfield, duque de Sconce – Quin para os mais íntimos, que eram exatamente dois – era mais o vilão do que o herói desses contos e sabia-o bem.

Não saberia dizer com que idade descobrira quão profundamente não se parecia com um príncipe de contos de fadas. Teria talvez cinco, sete ou até dez, mas, em determinada altura, apercebera-se de que uma cabeleira negra com uma madeixa branca sobre a testa não era habitual nem apreciada. Talvez fosse essa a primeira vez que o primo Peregrine lhe chamara velho decrépito (comentário que conduzira a uma lamentável briga).

Porém, não era apenas o cabelo que o distinguia dos outros rapazes. Mesmo com dez anos tinha olhos sérios, maçãs do rosto duras e um nariz declaradamente aristocrático. Aos trinta e dois não se lhe viam mais rugas de riso do que as visíveis vinte anos antes e com boas razões.

Quase nunca ria.

Mas havia de fato um ponto importante em que Quin se parecia com o herói de A Princesa e a Ervilha, quer ele soubesse quer não: a mãe estava encarregada de lhe escolher esposa e ele estava-se borrifando para o critério aplicado por ela para completar essa tarefa. Se pensasse que uma ervilha debaixo do colchão – ou de cinco colchões – seria a maneira de garantir que a futura duquesa era adequada, Quin concordaria, desde que não tivesse de se preocupar com a questão.

E assim Quin era tão imponente – e real – como o príncipe anônimo do conto de fadas, tão duquificado como Georgiana fora duquesificada. Raramente via uma porta sem que a usasse como se ela lhe pertencesse. Como era dono de muitas portas, teria comentado que seria o pressuposto compreensível. Olhava todos do alto, porque era mais alto que a maioria das pessoas. Podia olhar do alto e a arrogância era uma sua prerrogativa. Nem podia mesmo conceber outro tipo de comportamento.

Para sermos justos, Quin reconhecia alguns defeitos pessoais. Por exemplo, raras vezes se apercebia do que sentiam as pessoas em seu redor. Tinha uma inteligência formidável e raramente considerava surpreendentes os padrões de pensamento alheios. E quanto às emoções? Desagradava-lhe profundamente o modo como as pessoas pareciam escondê-las para depois as libertarem por meio de um ruído bombástico e uma exposição lacrimejante. A sua antipatia por exibições sentimentais levara-o a rodear-se de pessoas como a mãe e ele próprio: isto é, aqueles que respondiam a um problema formulando um plano, muitas vezes envolvendo experimentação designada para provar a hipótese apresentada. E mais, esses poucos selecionados não choravam quando se provava que as suas hipóteses estavam erradas.

Preferia que as pessoas não tivessem tantas emoções, dado que os sentimentos raramente eram lógicos e por isso não serviam absolutamente para nada. Uma vez envergonhara-se a si próprio quando caíra num estado emocional.

Que acabara por ter um triste fim.

Só de se lembrar, sentiu uma pontada dolorosa na região em que geralmente pensava albergar o coração, mas ignorou-a conforme era seu hábito. Se tomasse atenção a quantas vezes por mês, por semana, por dia, sentia essa pequena pontada…

Não valia a pena pensar naquilo.

Se havia uma coisa que aprendera com a mãe era que as emoções lamentáveis são as que mais depressa se esquecem. E se uma pessoa não conseguia esquecer (ele não conseguia), então deveria esconder essa falha pessoal.

Como se pensar na mãe a chamasse para o seu lado, a porta da biblioteca abriu-se e Cleese, o mordomo, entoou:

– Sua Graça.

– Os meus planos estão prontos, Tarquin – declarou a mãe logo a seguir a ter sido anunciada. Steig, o seu assistente, seguia-a e atrás vinha a sua criada pessoal, Smithers. Sua Graça, a duquesa viúva, preferia ter sempre consigo um pequeno rebanho de serviçais, como se fosse um bispo acompanhado por ansiosos acólitos. Não era alta, mas projetava uma presença tão formidável que dava a impressão de altura, embora ajudada por uma peruca. De fato, a peruca que usava tinha uma distinta semelhança com a mitra de um bispo. Ambas, a peruca e a mitra, afirmavam a confiança de quem as usava no lugar que mantinham por direito no universo: isto é, em cima.

Quin já estava de pé; saiu detrás da secretária para beijar a mão que a mãe lhe estendia.

– Ah sim? – perguntou delicadamente, enquanto tentava lembrar-se de que estaria ela falando. Felizmente, a duquesa não considerava a responsabilidade como um aspeto obrigatório de uma conversa. Se pudesse escolher, preferia um solilóquio, mas aprendera fazendo comentários formais que quase poderiam ser classificados como interativos.

– Escolhi duas jovens – declarou então. – Ambas, sem sombra de dúvida, de excelentes famílias. Uma da aristocracia; a outra de uma elevada posição social, mas recomendada pelo duque de Canterwick. Creio que ambos concordamos que ter apenas em conta a aristocracia será mostrarmos demasiado ansiosos e os Sconce não podem dar a conhecer as suas emoções.

Fez uma pausa e Tarquin acenou com a cabeça, obediente. Desde criança que aprendera que a ansiedade – tal como o amor – era uma emoção desdenhada entre a aristocracia.

– Ambas as mães estão conscientes das minhas exigências – prosseguiu a duquesa – e eu tenho razões para acreditar que as filhas ultrapassarão a série de testes que lhes apresentarei, retirados, evidentemente, do Espelho dos Elogios. Pensei muito na visita que nos vão fazer, Tarquin, e vai ser um sucesso.

Neste momento, Tarquin percebeu do que a mãe estava falando: da sua próxima esposa. Concordava com os planos de Sua Graça e com as suas esperanças de sucesso. A mãe organizava todos os aspetos da sua própria vida e muitas vezes também da dele. A única vez que se comprometera espontaneamente – uma palavra e um impulso que agora lamentava – o resultado fora desastroso.

Assim precisava de outra esposa. De uma segunda esposa.

– No próximo outono deverá estar já casado – declarou a mãe.

– Tenho plena confiança de que esta diligência, como todas as que a minha mãe leva a cabo, será um sucesso – replicou e essa afirmação era a mais absoluta verdade.

A mãe nem pestanejou. Nenhum deles tinha tempo para lisonjas ou cumprimentos frívolos. Conforme a mãe escrevera no livro O Espelho dos Elogios – que para grande surpresa de todos se transformara num bestseller – Uma verdadeira dama prefere uma leve reprimenda a um elogio extravagante.

Nem vale a pena dizer que Sua Graça ficaria extremamente surpreendida se a repreendessem ao de leve ou de qualquer outra maneira.

– Assim que lhe arranje uma esposa digna ficarei satisfeita. – E logo acrescentou: – Em que está trabalhando?

Quin olhou para a secretária.

– Estou escrevendo um documento acerca da solução de Lagrange em relação à conjetura de Bachet no que diz respeito à soma dos quadrados.

– Não me disse que Legendre tinha já melhorado o teorema de Lagrange?

– A demonstração estava incompleta.

– Ah! – Seguiu-se uma pequena pausa e depois a duquesa viúva declarou: – Vou emitir imediatamente um convite às jovens damas escolhidas para que nos visitem. Depois de serem devidamente observadas, farei uma escolha. Uma escolha sensata. Não sucumbirei a caprichos passageiros, Tarquin. Penso que ambos concordamos em que o seu primeiro casamento foi uma prova clara da imprudência de tal comportamento.

Quin inclinou a cabeça, mas não concordou completamente. Claro que o seu casamento fora irrefletido. Terrível, sob determinado prisma (o fato de Evangeline ter arranjado um amante poucos meses depois, falava por si). Mesmo assim...

– Não em todos os aspetos – disse Quin, incapaz de se conter.

– Está se contradizendo – observou a mãe.

– O meu casamento não foi um erro em todos os aspetos. – Quin e a mãe viviam confortavelmente, mas ele tinha consciência de que a serenidade do lar dependia do fato de ele tomar sempre a linha de menos resistência. Porém, sempre que necessário, sabia ser tão firme como a duquesa viúva.

– Pois bem – replicou a mãe, olhando-o. – Depois veremos quem tem razão.

– Eu terei uma palavra dizendo acerca do meu casamento – declarou Quin.

– Essa questão é irrelevante – replicou ela, abanando o leque como se quisesse afastar um inseto. – Farei os possíveis para afastar o menino e não o deixar cair no mesmo atoleiro. Sinto-me extremamente exausta só de pensar nas tempestades, no rancor, nas constantes lamentações. Diria que essa jovem fora criada num palco.

– Evangeline…

– Um nome muito impróprio para uma dama – interrompeu-o a mãe.

Segundo o Espelho dos Elogios, a interrupção era um pecado capital. Quin aguardou um momento, o tempo suficiente para que o silêncio se estendesse no aposento. – Evangeline era profundamente emotiva – declarou. – Sofria de um excesso de sentimentalismo e de recorrentes problemas nervosos.

A mãe lançou-lhe um olhar atento.

– O menino não estará querendo dizer-me para não falar mal dos mortos, Tarquin.

– Não seria um mau princípio – arriscou ele.

– Ummf!

Mesmo assim conseguira fazer valer a sua opinião. Não tinha grandes objeções a permitir que a mãe organizasse a questão de um segundo casamento. Sabia perfeitamente que precisava de um herdeiro. Mas o seu primeiro casamento...

Decidiu não aceitar a opinião de outras pessoas a respeito dessa questão.

– Para voltar ao assunto, embora tenha a certeza de que os parâmetros que a senhora formulou são excelentes, tenho uma exigência em relação às jovens selecionadas.

– Ah sim? Steig, anote.

Quin olhou para o assistente da mãe, cuja pena estava a postos.

– Já devem ter passado a idade dos risinhos. A mãe acenou afirmativamente.

– Vou ter esse ponto em consideração – voltou a cabeça. – Steig, anote. – Por vontade expressa de Sua Graça, farei um novo teste para determinar se o sujeito é dado a risinhos ou a outros sinais de propensão a divertimentos juvenis.

– Di-ver-você-men-tos ju-ve-nis – resmungou Steig, escrevendo apressadamente.

Quin teve a visão de uma duquesa altiva com uma enorme gola engomada, tal qual os rostos das suas antepassadas isabelinas na galeria dos retratos.

– Não me importo com os divertimentos – esclareceu. – Só não quero risinhos.

– Dispensarei as candidatas que pareçam entregar-se a excessivas expressões de prazer – disse a mãe. Quin podia perfeitamente imaginar-se ligado por um casamento a mais uma mulher que não sentisse qualquer prazer na sua companhia. Mas sabia que não era isso o que a mãe queria dizer. Além do mais, ela já tinha saído.