Duas Irmãs, Um Duque
Capítulo 15
Patife-Nojento-Sebento-Horroroso-Cagaloso-Merdoso!
– Então lançaste um papagaio e depois subiste a uma árvore? – perguntou Georgiana de sombrancelha franzido. – Parece-me muito estranho. – Tinham-se retirado para o quarto depois da refeição da noite.
– O papagaio ficou preso na árvore – explicou Olivia. Georgiana posou a xícara de chá.
– Quando crescerá, Olivia? – perguntou num tom invulgarmente severo. Olivia sentiu-se levemente magoada.
– Considero-me bastante crescida.
– Trepas às árvores – disse Georgiana contando os dedos da mão esquerda. – Pensa que é divertido insultar a duquesa. Traz a Lucy para dentro de casa quando sabe que deveria deixá-la simplesmente nos estábulos; Rupert nunca o saberia. Brinca com Lorde Justin como se fossem ambos da mesma idade… e ele mal fez os dezesseis anos.
– Não poderia mentir a Rupert acerca de Lucy – respondeu Olivia, aproveitando o ponto mais fácil de rebater.
Georgiana encolheu os ombros.
– Pensa que não te ouviram todos à mesa a rir com Lorde Justin? Como pensa que nos sentimos, tentando ter um conversa séria, quando a você só te interessa dizer graças? A duquesa disse a Lady Sibblethorp que lhe apetecia mandar abrir de novo os aposentos das crianças. Me senti humilhada.
– Lamento ter interrompido a vossa conversa – disse Olivia num tom seco, mesmo sem querer. – Lamento mesmo, Georgie. Não era essa a minha intenção. Justin estava a inventar outros insultos tolos e não pude deixar de rir.
– Podia – ripostou a irmã, teimosa. – Todos te ouvimos e até o duque não pôde evitá-lo. Aquele insulto maior que você e Justin inventaram... como era?
– Patife-nojento-sebento-horroroso-cagaloso-merdoso.
– Exatamente! Cagaloso? Merdoso? Como pode, Olivia? Não te preocupa nem um pouco comigo?
– Claro que me preocupo contigo! O insulto não era dirigido a você, nem ao duque. Nem sequer à superior autora do Espelho dos Elogios. Estávamos a gracejar!
– Estão sempre a gracejar – criticou Georgiana severamente, pegando na xícara com um movimento tão brusco e zangado que entornou chá no pires.
– Não consigo gerir isto contigo a comportares-te dessa maneira!
– Não consegue gerir o quê? – perguntou Olivia. – Em parte desejava também falar à irmã no mesmo tom para lhe dizer que evitava ter uma conversa adulta num esforço de convencer o duque que estava tão pouco interessada nele que preferia conversar com Justin.
Mas, por outro lado, o lado fraternal, olhou para a expressão atormentada e infeliz que a irmã tinha no rosto depois de uma longa noite passada com as duquesas. Ajoelhou-se ao lado da sua cadeira.
– Que se passa, Georgie? Estou vendo que tenho sido insuportavelmente desajeitada. Se te prometer fazer apenas comentários distintos, moralistas e enfadonhos durante o resto da visita, ficarás mais satisfeita?
– Não está a dar resultado – disse Georgiana com a voz entrecortada.
– O quê? Acha que não consegue gostar de Sconce?
– Conseguia – murmurou a irmã. – Certamente que sim. Ele é atencioso, discreto e tudo o que aprecio num cavalheiro.
Olivia posou a mão sobre a da irmã que estava enclavinhada na frágil xícara de porcelana.
– Vai partir a xícara.
Georgiana baixou os olhos e posou a xícara.
– Diz-me o que não está a dar resultado. Não estive sempre a gracejar com Justin, sabe. Estive a olhar para você e para Sconce e vi-vos muito concentrados numa conversa científica. A natureza da luz, não é verdade?
Georgiana ergueu os olhos.
– Foi fascinante – e deteve-se.
– Muito bem, é um ótimo ponto de concordância entre os dois – declarou Olivia. – O tipo de interesse cuja partilha tornará o casamento longo e importante. Olha para os nossos pais.
– O que têm os nossos pais?
– Sempre partilharam uma paixão: a duquesificação das suas duas filhas. Não diria que foram especialmente bem-sucedidos no meu caso, mas certamente conseguiram transformar-te num modelo de boa educação. Depois de casar com Sconce, terão duas filhas duquesas. Suponho que pensem que valeu a pena fazerem tantos sacrifícios.
Georgiana acenou afirmativamente.
– Sou da mesma opinião. Isto é, creio que sempre me interessaria pelas investigações de Sua Graça, científicas ou matemáticas. E ele também parecia interessado nas minhas ideias acerca da química. Não creio que estivesse apenas a ser educado.
– Tenho a distinta impressão de que Sconce é praticamente incapaz de prevaricar – declarou Olivia.
– Pois sim, está interessado nas minhas poções. Disse até que se eu lhe desse a receita para o unguento da artrite, o mandaria preparar para o seu jardineiro principal. Creio que o homem ficou terrivelmente afetado pelos anos passados no exterior com um clima tão húmido.
– Isso é ótimo – respondeu Olivia perguntando a si própria se falaria num tom falso. – Esplêndido! E ninguém merece tanto como você, Georgie. Então porque não te limitas a ignorar a tola da sua irmã e te pões a conversar com o teu belo duque.
– Acha que ele é bonito?
Olivia pestanejou.
– Sem dúvida. Penso que é... – retirou o que ia dizer. A última coisa que queria era dizer à irmã que nunca vira ou imaginara um homem tão bonito como Quin.
– O seu aspeto é mais que tolerável.
– Não acha que tem um cabelo esquisito?
– Não – disse Olivia, pensando em como lhe parecera sedoso quando o acariciara com as suas mãos, preto e branco como os dois lados da vida, escuridão e luz, bem e mal, tentação e temperança. Principalmente tentação.
– Pois eu penso. Crês que, se eu preparasse uma tina, ele permitiria que lhe pintasse? Lembras-te da zebra que vimos naquela feira itinerante, Olivia? Sconce faz-me lembrar esse animal.
– Lembro-me sim, mas o duque não se parece nada com uma zebra. E não, não creio que alguma vez pintasse o cabelo. Não creio que seja homem para acreditar em enganos. Ou que saiba como elaborá-los. – Olivia não tinha a certeza porque estava tão certa desta questão, mas estava.
– Nunca pensei que o fizesse.
– O que é que não está a resultar? – perguntou Olivia pouco depois. – A mim parece-me ótimo, Georgie. Tem cinco vezes o encanto da pobre Althea. A criada dela tinha toda a razão quando a descreveu como uma galinha à chuva. A mãe de Sconce nunca a poderia preferir.
– As duquesas viúvas gostam muito de mim. – Georgiana não parecia considerá-lo uma vantagem.
– E o duque gosta de você – Olivia descontraiu conscientemente o maxilar. Parecia desenvolver ultimamente a tendência de ranger os dentes. – O teu casamento será feito no céu. Pensa em como o pai e a mãe ficarão felizes.
– Acha? – O rosto de Georgie parecia notavelmente inconsolável para uma mulher à beira do noivado com um duque. – Agora que falamos no assunto, parece-me possível, mas, quando estávamos à mesa, me senti tão zangada contigo.
– Porquê? É isso que não entendo, minha querida. Sempre fui louca e trocista quando comparada contigo, embora prometa ser a partir de agora tão pretensiosa como todas elas. Porque diabo é que estavas a olhar para Justin e para mim?
– Porque ele também estava.
Olivia aclarou a garganta.
– O ele é o duque?
– Sim. – Georgiana rodava os dedos no colo. – Quando te ri, ele olha para você. Sempre. Não pude deixar de notar.
– Desculpa, Georgie é esta estúpida maneira que tenho de rir que me vem da barriga, como a mãe costuma dizer. Ela também fica irritada. – Prometo portar-me melhor, amanhã. – O remorso causou-lhe um aperto no peito, mas não era nada a que não estivesse habituada. – Não me tinha apercebido que tinha horrorizado todos os convidados.
– Não percebe – disse a irmã, olhando para os dedos entrelaçados. – Estás sentada a uma cabeceira da mesa e ninguém pode evitar olhar para você. Sinto-me como uma boneca de papel.
Olivia franziu a testa.
– O que quer dizer com isso?
– Pálida – Georgiana fez uma pausa. – Frágil e impotente – acrescentou.
– Que absurdo! Diz-me o que quer que faça e faço-o. Não preciso de dizer piadas. Que mais estou fazendo de errado?
– Não esta perceber. Quando você ri... toda a gente ri.
– Deve ser tonta. Se viste a duquesa esboçar um sorriso, já para não falar em dar uma gargalhada, não dei por nada. Quanto ao teu duque, Sconce tem muitas virtudes, mas não diria que o dom do riso fácil fosse uma delas.
Georgiana limitou-se a abanar a cabeça.
– O duque não sabe rir. Retrai-se muito. Mas vejo que os olhos dele mudam quando você ri.
– Ridículo – disse resolutamente Olivia, fingindo que não reparara.
Mas a irmã estendeu o braço e puxou-lhe uma madeixa de cabelo.
– Tem um riso maravilhoso, Olivia. Sempre pensei que a coisa mais triste do pai e da mãe era estarem sempre tão ocupados tentando fazer de você uma duquesa que nunca arranjavam tempo para rirem contigo.
Olivia sentiu os olhos molhados de lágrimas.
– Oh, Georgie, é a coisa mais bonita que já alguma vez me disseste.
– O teu riso é tão alegre. Se quer saber, é por isso que Sconce está fascinado por você.
O remorso e a ansiedade invadiram Olivia. Levantou-se, deu meia volta e ocupou-se em servir-se de outra xícara de chá. As mãos tremiam-lhe um pouco.
– Claro que não é verdade, Georgie, esta ser absurda. Eu ri-me como uma hiena e o pobre homem provavelmente nem se conseguia ouvir falar sobre tanto ruído – sem se aperceber, adoçou o chá com três colheres de açúcar.
Sentou-se de novo em frente da irmã e mexeu o chá.
– Os homens não se sentem fascinados por um espírito irreverente, Georgie.
– Suponho que não. Mas todos podem ver que ele se sente atraído por você.
– Sou uma mulher ruidosa e gorda que está noiva de outra pessoa – disse Olivia simplesmente. – Interpretas mal a atenção dele porque gosta de mim.
– Você não é gorda! É um pêssego, lembra-te?
– A verdade é que não me importo muito. Você é muito bela, esguia e eu não sou. Rupert não se importa.
Georgiana abriu a boca para contestar, mas Olivia ergueu a mão.
– Esta exagerar o fato de o duque olhar uma ou duas vezes na minha direção. A partir de agora vou agir como se fosse a aristocrata mais arrogante de todas, assim nada haverá que perturbe o brilho ducal que rodeia a nossa mesa.
A irmã sorriu, relutante.
– Espero que tenha razão. Dada a perda da mulher e do filho, o pobre homem esqueceu-se do que era divertimento, se é que alguma vez o soube. É por isso que olha para você quando te ri.
Olivia não conseguiu mais do que acenar com a cabeça. Em parte, queria berrar, gritar que Quin lhe pertencia. O que era ridículo. Sabia perfeitamente que nunca poderia deixar Rupert. E Quin era a melhor hipótese de a sua querida irmã se transformar na aristocrata que deveria ser.
– Que vai vestir amanhã para o baile?
– Creio que o vestido de seda azul com rendas de Chantilly.
– Ah! – gracejou Olivia. – Vai sair a artilharia pesada.
Tenho um estranho pressentimento de que a mãe de Sconce vai realizar este baile como uma espécie de teste – disse a irmã. – Não acha estranho? Parece interrogar-me a mim e a Althea como se comparasse as nossas respostas com uma lista já aprovada.
Olivia encolheu os ombros.
– Nesse caso será você a triunfar. O que foi a nossa infância senão uma série de testes? A irmã franziu a testa.
– É assim que te sente? E não voltes a encolher os ombros.
– Sim.
– Parece-me que estou percebendo.
– Tudo aquilo que fez com que se zangassem conosco, ou que nos elogiassem, estava diretamente relacionado com uma coisa – disse Olivia. – Nos tornarmos duquesas.
– Percebo porque te sente irritada.
– Percebe?
– Porque nunca passaste num único teste! – referiu a gêmea desatando a rir e correndo em volta do sofá, enquanto Olivia a perseguia tentando atingi-la com o guardanapo.