Duas Irmãs, Um Duque

Eloisa James · Capítulo 34 de 37

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Duas Irmãs, Um Duque

Capítulo 33

O Mérito das Palavras Simples

Quin não encontrou as palavras certas senão depois de se terem lavado no riozinho e se terem vestido. Mas, pelo menos, dessa vez, não se incomodou que as palavras que queria dizer não surgissem imediatamente: o que ele e Olivia sentiam ultrapassava a linguagem. Quin apercebia-se que era como a luz, uma coisa simples que se dividia num arco-íris quando examinada de perto.

– Mudaste o meu coração – disse ele por fim – Nunca me sentirei bem se não souber onde está.

O brilho dos olhos de Olivia ameaçava transbordar de novo. Mas ela sentia-se segura nos braços de Quin. Este começou a andar, baixando a cabeça para lhe limpar as lágrimas com beijos.

Para chegarem à enseada protegida pelas árvores, tinham ainda de percorrer um longo caminho através do bosque e ele não dormia havia dois dias. Porém, os murmúrios de Olivia davam-lhe força, tal como tudo o que ela lhe dizia, até as quintilhas mais tolas só significavam uma coisa: ela amava aquele homem frio e pouco emotivo que Evangeline considerara incapaz de ser amado.

Quando chegaram ao barco a remos, Grooper dormia na margem com Lucy enroscada debaixo do braço. E o mundo, o mundo de Quin, estava no seu devido lugar, tal como estaria para o resto da sua vida.

Quando a carruagem chegou a Littlebourne seguida por outra, coberta de negro, que trazia o corpo de Rupert, toda a casa os veio receber.

O duque de Canterwick – ainda pouco firme depois de tanto tempo inconsciente – agarrou-se às mãos de ambos e agradeceu-lhes por terem trazido o filho para casa. Depois partiu, completamente arrasado.

A duquesa viúva de Sconce quebrou o seu mais estimado mandamento no que dizia respeito à compostura de uma dama e debulhou-se em lágrimas à vista de todos.

Ms. Georgiana Lytton soltou um grito, agarrou a irmã e abanou-a com força. Não vale a pena dizer que os soluços e o pranto de felicidade indicam que uma pessoa pôs de lado (nem que seja por momentos) preceitos como A sua compostura deve sempre aumentar a sua honra. Felizmente os pais de Georgie e Olivia não estavam ali para ver dispensadas as leis gerais do universo (pelo menos na ideia de Mrs. Lytton).

A pobre Mrs. Lytton teria ficado ainda mais chocada se tivesse ouvido a conversa das filhas no final do dia.

– Mas não consegue suportar Lady Cecily por mais de meia hora! Vai ficar louca dentro de uma semana. Não te lembra da viagem para aqui quando você e eu...

– Não interessa – disse Georgiana com firmeza. – O sobrinho de Lady Cecily é professor universitário em Oxford, Olivia. Professor universitário!

Olivia posou a xícara de chá e olhou para a irmã.

– Deve ser bom ser professor universitário.

Georgiana ignorou aquilo; estava cheia de entusiasmo, coisa que não parecia própria da sua pessoa.

– Mister Holmes começa uma série de conferências sobre a Mecanique Céleste, de Laplace, e os Principia, de Newton, na semana que vem. As mulheres não podem assistir a essas conferência, mas claro que não vai impedir a própria tia!

– E a sua acompanhante. Mas, Georgie, tem a certeza que consegue aguentar? Lembra-te que a docência parece ser uma característica da família. Arriscas-te a ter de suportar horas a ouvir as opiniões de Lady Cecily acerca dos processos digestivos.

– Lady Cecily é muito boa, Olivia. Vê bem; vai assistir a todas essas conferências só por minha causa.

– Vai fazer exatamente o que eu faria no seu lugar e dormir o tempo todo.

– Se tivesse de ser acompanhante de um assassino para ir a uma dessas conferências, a faria – disse Georgiana com convicção.

– Levantas uma questão interessante – respondeu Olivia, maliciosa. – Será que o santo Mister Bumtrinket, o defunto marido da própria Lady Cecily, se finou de uma morte suspeita, talvez de uma poção comprada a um charlatão de Veneza?

– Olivia! – exclamou Georgiana chocada como sempre.

– Pior! E se é levada a cometer um homicídio?

– Para com isso! Esta ser muito inconveniente.

– Era uma vez uma velha faladora chamada Bumtrinket, que falava todo o dia e toda a noite, cantava como um grilo – disse Olivia rindo às gargalhadas e fugindo quando a irmã a quis agarrar pela manga. – Falava sem cessar, estava sempre a cantar. Até que o namorado tratou de a açoitar!

– É muito malvada! – A princesa perfeita correu atrás da princesa imperfeita à volta do sofá da biblioteca antes de se lembrar que a dignidade, a virtude, a afabilidade e o comportamento evitavam o assalto ao corpo.

O mundo de Olivia, como o de Quin estava firmemente construído. Georgie poderia partir para Oxford, renunciando a um lugar de duquesa, mas as sobras do programa de duquesificação nunca a abandonariam. E Olivia estava prestes a realizar o maior desejo da mãe... embora, verdade fosse dita, o seu sucesso estivesse diretamente ligado com as falhas desse mesmo programa.

Quin e Olivia caminhavam atrás do duque de Canterwick quando Rupert foi enterrado com todas as honras: não no túmulo da família, mas na Abadia de Westminster como convinha a um herói inglês que caminhara pelas nuvens da glória. O seu lugar ficou marcado com uma simples placa de mármore com o seu nome gravado e um fragmento de um estranho poema.

Anos depois, um jovem poeta de nome Keats refletiria longamente sobre a inscrição durante toda uma tarde. Passado algum tempo, um poeta de meia-idade chamado Auden sentiu-se fascinado por ele uma semana inteira. Cinquenta anos depois, uma dissertação erudita discutiria as complexidades da fragmentação... mas isso seria, no futuro, um quebra-cabeças que ficaria para os interessados nas voltas da língua.

Para Tarquin Brook-Chatfield, duque de Sconce, as palavras complicadas nunca tinham a mesma força encantatória de antes do seu segundo casamento. Nunca se preocupava por não poder encontrar as certas.

Havia apenas uma expressão que de fato interessava e que o casal repetia constantemente:

– Amo-te; amo-te; amo-te.

– Amo-te.