Educação universitária: práxis coletiva

Pedro Bergamo · Capítulo 15 de 40

Páginas do PDF

Educação universitária: práxis coletiva

2. Perspectiva de “crise da historização” e seus dois horizontes mais visíveis

Em síntese ou em um sempre mais visível desfecho, os excedentes para a reprodução da espécie tendem a acabar competindo com o custeamento privado de participar do processo produtivo, o que passa a ocorrer em “soma zero” (o aumento desse custeamento há de coincidir com diminuição daqueles excedentes ou vice-versa). Em desfecho, tende a se consumar a absurdidade, ou seja, a situação em que os seres humanos se encontrem de sobra, supérfluos ou descartáveis. A escassez de espaço vital favorece a busca de ilusões e impede que estas sejam abandonadas, recorrendo-se ao fetiche da igualdade de oportunidades para consolidar fé profana na tríade constituída por política, epistemologia e economia como inescapável matriz das ciências que passam a substituir o império e o capital na função de explicar e perpetuar as injustificações. Em contraponto, desalienação a respeito dessa fé tende a ser acentuadamente disfuncional ao pacto tácito entre Estado & Mercado enquanto esconderijo da interessença dos apropriadores do sentido do “intercâmbio material-comunicativo”.

2. Perspectiva de “crise da historização” e seus dois horizontes mais visíveis

A positividade científica da análise e da síntese, logo acima apresentadas, faculta anunciar uma “crise da historização” que vem sendo endógena aos cinzentos bastidores do processo cultural-civilizatório do Ocidente e em vias de se tornar global.

Essa “historização” tem enveredado por recorrentes e previsíveis descaminhos, dada a circunstância de se resumir ao acúmulo de eventos que decorrem de o ser humano precisar fazer guerra contra tudo, para não guerrear contra si mesmo ou contra a sua própria interessença, ainda que esta e ele próprio se evidenciem demolidores do sentido também coletivo da sustentabilidade. Reorientações em tais descaminhos têm ocorrido, em largos traços históricos e em concomitância com mudanças coletivo-sustentatórias a derivarem de “intercâmbio material-comunicativo”. Presume-se que este intercâmbio foi deflagrado no Oriente Médio e ao longo das costas do Mediterâneo Oriental (territórios que evocam os nomes de Suméria, Babilônia, Egito, Fenícia, Creta, Anatólia, Hélade, Magna Grécia e Cartago). Em peculiar momento da afirmação histórica de tal intercâmbio, então sob ameaça de acabar contido por prepostos do Império Persa nos séculos V e IV a.C., houve notório avanço na concepção de constituições democráticas, o que facultou uma mais complexa convivência humana em cidades-Estado. Foi, também em tal momento, que emergiu a Filosofia, assim como avanços em tecnociência, a exemplo daqueles em instrumentos bélicos e em navegação marítima. Mas, a ideologia imperial acabou por prevalecer também naquelas cidades, tendo, por “vazo comunicante”, o que está referenciado em Williams (2000, 47-53) como “lacuna metafísica” em Platão e que cabe

atribuir também à Política em Aristóteles4 e à apropriação da mensagem de Jesus de Nazaré, inicialmente por helenistas tardios e, a seguir, por políticos devotados à preservação do Império

Romano 5. Todavia, em medievais ambiências monásticas, já isoladas em relação à ideologia profano-imperial, tornou-se enfim possível conciliar riqueza com até mesmo ascese de inspiração religiosa que, apriormente, sempre a rejeitara:

O paradoxo de todo ascetismo racional, que de forma idêntica

fez tropeçar os monges de todas as épocas, está em que o

próprio ascetismo racional criou a riqueza mesma que rejeitava

(Weber, 1982, p. 380-381).

Anteriormente a essa observação de Weber, Marx já apreciara mudanças materiais possibilitadas, em seu entender, pelo capitalismo de seu tempo. Entretanto, em uma espécie de gesto mecânico, subsumido à sua (desde então até necessária) anatemização da mercadoria, o mesmo Marx jogaria fora com a “sujeira da água do primeiro banho” o renascimento do “intercâmbio material-comunicativo” junto com o avanço da modernidade, gesto que Habermas relativizou, porém não resolveu, ao eleger-lhe o alcance comunicativo e, à conta de redução a instrumental, ao preterir-lhe a materialidade.

Essa atitude de Habermas teria como compor resposta a uma crise na apropriação da base material-planetária do intercâmbio, nos bastidores das Guerras Mundiais, do Holocausto e do bombardeio de Hiroshima e Nagasaki. Por hipotético que tal ajuizamento ainda precise ser assumido, cumpre explicitá-lo à luz de certa repetição, no advento e no avanço da modernidade, do que ocorreu ao longo do ocaso da Antiguidade Clássica. Trata-se de ajuizamento que cabe ao saber acadêmico pesquisar-lhe a fundamentalidade e o assumir, desde que se tornaram inusitadamente conservadoras as circunstâncias em que emergiram o pós-modernismo, o pósestruturalismo e o pós-industrialismo nos atuais horizontes da cultura e da civilização. Além disso, urge que esse saber se reconheça ainda insuficiente para prevenir as injustificações que hão de conduzir a novos descaminhos.

Em tal perspectiva, resta ao menos admissível que crise ainda detenha significado analógico àquele que remonta à medicina de Hipócrates (460-377 a.C) e que “indicava a transformação decisiva que ocorre no ponto culminante de uma doença e orienta seu curso em sentido favorável ou não” (ABBAGNANO, 2007, p. 259). Esse sentido analógico de crise tem respondido ao alcance miticamente estável das instituições, ou seja, à crença na ausência “de conflitos políticos e sociais insolúveis, de lutas ideológicas, de antagonismos filosóficos e religiosos, a testemunharem a fundamental incerteza ou ambiguidade dos valores da época” (p. 259).

Em desfecho de sua (assim admissível) crise, a “historização” há de se bifurcar em dois horizontes cabalmente mais visíveis: (a) continuidade da extemporânea “posse do coletivo” na esfera da subjetividade, ou seja, na permanência de autoentrega à absurdidade em construção que, por sua vez, também continuará a ser objetivada enquanto artifício a decorrer do seguimento da racionalidade moderna; é seguimento que tem sido alheio ao discernimento entre apropriar e produzir, apesar de este mesmo discernimento adentrar uma espécie de promessa de reverter o vezo fragmentarista do conhecimento, vezo que foi deflagrado pelo enciclopedismo e que se encontra em vias de ser globalizado pela (residual-imperial) insistência de transformar em hegemônicas, para não dizer excludentes, as regras cientificizantes do método; e, (b) admissibilidade de que haja “despossessão do coletivo”, na perspectiva da “historicização” da práxis de anuir, em alcance propriamente transpessoal, ao sentido da flexível vital-fertilidade do produzir inequívoco e opcionalmente empreendido – é o que cumpre desde já denominar como “humanização ‘crítico-teórica’”, vislumbrando-se ultrapassar, em alcance genuinamente acadêmico, insuficiência crítica de teorias em geral.